Notas iniciais
Você nunca sabe a força que tem. Até que a sua única alternativa é ser forte. – Johnny Depp

Aqui estou eu na sala 103, aula de História com nosso professor Quíron, é o mesmo que cuidava dos heróis na mitologia, ele era um dos únicos que eu conversava, afinal adorava história, entrei na sala e o silêncio se instalou, todos viraram na minha direção.

Eu fiz o que sempre fazia, arrumei minha mochila, revirei os olhos e segui para o fundo da sala na carteira, aquelas de duplas, do canto na ultima fileira, ninguém sentava do meu lado era caso de ultima opção, confesso que isso me frustra às vezes, eu posso achar as pessoas irritantes, mas não sou um monstro... Às vezes.

Já estava quase na hora da aula começar, larguei a mochila ao lado da minha carteira, à sala já tinha voltado a sua zona rotineira, algumas nerds conversando sobre o ultimo experimento, lideres de torcida fofocando, o capitão do time de futebol era o único que estudava história, nisso eu tinha que dar um ponto pra ele, mas de resto continua sendo desprezível ao meu ponto de vista.

Peguei meu celular olhei as horas, um minuto pra bater o sinal, todos já estavam sentados, mas ainda conversavam. Suspirei cansado, joguei minha cadeira pra trás ficando inclinado, com o apoio das costas encostado na parede, meus pés balançando, coloquei um fone e fiquei escutando meus clássicos do rock.

Quando eu resolvo sentar normalmente e olho pra frente da sala, olho uma garota, cabelos até o ombro, morena, a pele um pouco bronzeada, mas bem pouco, pela aparência ela devia estar vermelha e um pouco ofegante. Ela vasculhou a sala e logo notei que ela só poderia sentar ao meu lado, de primeira me senti irritado, então logo fechei minha cara e prestei atenção em outra coisa.

Eu diria que ela chega perto de 1.60, tem até um corpo definido, e não entrei mais em detalhes já que precisaria de um contato visual maior, a vi vindo em minha direção, acompanhei com minha visão periférica, engraçado, mas ela corou um pouco mais ao se aproximar de mim. Então logo saquei, ela deve ser do tipo tímida, resolvi só ignorar a presença dela do meu lado, até que o professor Quíron entrou na sala.

Educado e carismático como sempre foi ele apresentou a aluna a sala, ou melhor, fez ela se apresentar, ela encarou todos na sala e eles fizeram o mesmo, eu fui o único que me mantive indiferente.

“-Me chamo Morgana Curts e vim de Long Island da Escola Privada de Santa Rosa. Me mudei recentemente com a minha vó.”

Logo depois da breve apresentação da nova aluna, Morgana Curts, confesso que fiquei intrigado com o meu interesse nela, ah gente vamo lá eu ainda sou um garoto. Dei um sorriso mínimo com alguns pensamentos e abri meu caderno, por mais que eu goste de história, o primeiro dia de aula estava um porre, eu simplesmente escrevia algumas poesias no meu caderno.

É eu tenho meus princípios e hobby, antes mesmo do sinal tocar eu já estava com tudo guardado, assim que o sinal tocou a garota saiu em disparada, eu franzi meu cenho e dei de ombros, esperei todos saírem e fui falar com Quíron para tentar me livrar daqueles malditos grupos que ele fazia pra durar o resto do ano, isso tem funcionado nos últimos... O que? Três anos, mas isso dá ao fato de todos se recusarem a fazer comigo.

Sai da sala bufando e fui pro meu armário, agora seria a minha aula de artes e tinha que levar aquela merda de avental pra não “sujar a roupa” como diria a Sra. Phillip, ela é a professora gostosa que dá pra meio mundo da escola, sei até que ela pega garotas, eu tenho que rir disso, se um aluno está precisando de nota, nada como passar na detenção da Priscila Phillip e ganhar um dez. E eu me orgulho de nunca ter precisado disso, quem garante que tipo de doença ela tem.

Assim que cheguei ao corredor do meu armário vi a mesma garota tímida da aula de história, a observei por alguns segundos e caminhei até perto dela, tínhamos uns sete armários de distância. Abri o meu daquele jeito bem... Delicado, o legal é que eu tinha algo guardado pra mim, era mais uma pegadinha dos valentões da escola, pude os ouvir rindo do outro lado do corredor e cantando vitória, eu teria que trocar de blusa pela segunda vez no dia, já que a minha branca agora tinha tinta neon.

Fechei o armário com tanta força que acho que acabei assustando a garota, respirei fundo olhando pro teto e gritei um palavrão nada sutil, peguei minha bolsa com tudo do chão e esbarrei na garota, não me preocupei em pedir desculpas, apenas fui pra maldita aula de Artes já todo sujo de tinta.

–-x--

Ai!
Fiquei olhando pra trás abismada com a atitude do garoto. Me controlei ao máximo para não xingar ele. Ele estava nervoso, fato. Também ficaria daquele jeito se fizessem a pegadinha comigo. Garotos sempre tem um miolo a menos, isso era tão fútil como passar massa corrida na cara (maquiagem exagerada).

Vi ele sumir no fim do corredor e fechei o armário respirando fundo. Olhei meus horários e me apressei para a aula de química. Não me dava bem com essa matéria então sentei no fundo como de costume, arrumei o fone de ouvido de forma que a professora não visse e abri meu caderno na última folha e comecei a rabiscar.

Nunca falei que era boa aluna, na verdade eu era o terror da Escola Privada de Santa Rosa. Vivia aprontando aqui e lá... um dia quase coloquei fogo na escola sem querer.

Se não fosse pelo meu avô eu seria expulsa. Sorri sem querer com a lembrança, ele fazia tanta falta... Eu continuava a mesma: hiperativa, brincalhona e irrepreensível mesmo com a morte do vovô Louis.

Entretanto resolvi ficar na minha esse ano, minha vó já tinha dor de cabeça o suficiente, não queria dar ainda mais para ela. Eu teria que me dedicar ao máximo nos estudos para ganhar uma bolsa na faculdade. Caso não conseguisse... Acho que eu ia me dar bem como garçonete naquele barzinho que vi vindo para a escola.

Afastei os pensamentos negativos e me foquei na música que estava ouvindo. Nada que um bom e velho rock clássico para relaxar.

As duas aulas se passaram rápido e sem nada de anormal. Me encaminhei para o refeitório, meu estômago estava reclamando de fome e acredite, eu fico muito chata com fome. Consegui chegar rápido e parei no canto para observar.

O esquema era diferente da minha antiga escola, mas nada tão misterioso. Peguei a bandeja e me servi com um pouco de tudo, o que conforme as patricinhas de trás falaram ia me dar muitas calorias. Ri discretamente e me virei para sentar em uma mesa.

Tinha uma vazia, bem no fundo do refeitório como eu era totalmente antissocial achei simplesmente perfeito e me sentei por lá mesmo.

Ninguém se sentou comigo e agradeci mentalmente por isso, não estava preparada pra fazer novas amizades, até porque eu não sei.

Em Santa Rosa eu não tinha muitos... Talvez umas duas, mas só falávamos coisas superficiais e nos juntávamos em trabalhos, mas nunca tive uma amiga de verdade verdadeira. Dei de ombros e peguei meus horários.

Educação física... Fiz careta. Até gostava de esportes, mas hoje... Me espreguicei e levantei da mesa.

Caminhei sem muita empolgação até a quadra e vi que era a primeira a chegar. Pelo o que o diretor falara eu teria uma roupa para Ed. Física no armário. Peguei a chave e me encaminhei até o vestiário feminino.

Peguei a roupa e bufei. Era um short, bem curto por sinal, e de material suplex. Não gostava nem um pouco de roupas que marcassem o corpo porque bem... Eu era mega tímida. Vasculhei o armário, mas eram as únicas roupas.

Mais tarde eu iria falar com o diretor sem falta. Vesti a regata cinza e o short vermelho, como nenhuma garota tinha entrado no vestiário pensei em sair logo dali e ir para um canto reservado das arquibancadas e assim ninguém me notaria.

Eu estava errada, como sempre. Quando entrei na quadra de novo o garoto da primeira aula que trombou em mim no corredor estava nas últimas arquibancadas ouvindo música. Ele me olhou por alguns segundos e eu corei (odiava isso), desviamos o olhar juntos e eu fui para o lado oposto do dele.

Logo o resto da turma começou a entrar e meu rosto voltou à cor normal. O professor se apresentou Sr. Will. Era rigoroso e logo fez a gente dar voltas na quadra correndo na máxima velocidade.

Não gosto de me gabar, mas já me gabando, era uma ótima corredora, eu adorava correr desde pequena e sempre fui a mais rápida da escola.

Fui uma das primeiras a terminar e sentei esperando os outros. Vi que algumas garotas não estavam fazendo a aula e o garoto... Bem, ele não estava nem com a roupa de Ed. Física dei de ombros, não era problema meu.

Quando todos terminaram de correr o professor Will nos dividiu em equipes e nos deu o pior jogo que inventaram na face da terra: queimada. Bufei e resolvi que iria só desviar, nada mais.

A sorte é que os jogadores de futebol estavam no meu time. O professor apitou e o jogo estilo Hitler começou. Eu só desviava rápido das bolas, algumas que vinham com pouca força eu até pegava e largava. A maioria já tinha sido queimada no outro time, sobraram só dois garotos altos e uma garota que me fuzilava com o olhar.

No meu time havia eu e mais uns três garotos. Que a sorte esteja ao seu favor! Desviei de uma bola que um garoto me atirou e por um momento de distração senti meu estômago ser comprimido.

A garota havia acertado a boca do meu estômago com uma força descomunal. Me ajoelhei segurando o estômago e tentei buscar ar, ele me olhou vitoriosa e pegou mais uma bola. Vi ela mirar em mim e fechei os olhos esperando apagar de vez.

Então algo meio inesperado aconteceu: um dos jogadores de futebol se jogou na frente e a bola bateu nas costas dele. Ele era moreno e tinha olhos muito verdes, ele vestia regata e pelo seu corpo dava para dizer que praticava bastante esportes, provavelmente era jogador de futebol.

–Ei, você está bem?- Ele me olhava preocupado e o treinador parou o jogo.

–Consegue levantar garota?- O treinador veio até a gente e confirmei com a cabeça levantando com dificuldade, ainda sentia meu estômago se revirar.

–Alexis, a leve na enfermaria. Jogou bem garota! — Ele falou para o garoto que se jogou na minha frente e piscou pra mim. Dei um sorriso de canto e fui junto com o tal Alexis.

Dei uma última olhada para a arquibancada e vi as garotas rindo de mim, faz parte. O garoto excluído me seguiu com o canto do olho, arqueia as sobrancelhas pra ele e então desviamos o olhar. Sorri de canto e tinha certeza que o vi dar um pequeno sorriso também.