Music In Me
25 Once Upon A Dream
Notas iniciais
POV THALIA
Já era quase meia noite, mas nós não estávamos nem aí. Minha mãe estalava enlaçada com a de Nico enquanto nós caminhávamos pela calçada da Quinta Avenida, cantando feito dois idiotas.
Idiotas, porém felizes.
─ Eu te conheço, eu andei contigo uma vez num sonho
Eu te conheço, o brilho nos seus olhos é um brilho tão familiar
Ainda sim eu sei que é verdade que visões raramente são o que parecem
Mas se eu te conheço, sei o que você vai fazer
Você me amará de uma vez, do jeito que fez uma vez num sonho
Nico começou a cantar, a voz rouca puxando as frases de um jeito bom de ouvir. Ele balançava nossas mãos entrelaçadas de um modo infantil. Eu ri assim que reconheci a música.
Ele me olhou divertido, me desafiando a continuar a cantar.
─ Mas se eu te conheço, sei o que você vai fazer
Você me amará de uma vez
Do jeito que fez uma vez num sonho
Levantei uma sobrancelha, o desafiando a fazer alguma coisa. E ele fez.
Me colocou sobre seu ombro e começou a correr pela calçada, fazendo as poucas pessoas que nos davam atenção nos olharem estupefatas. Eu apenas ria com ele.
Era tão bom quando isso acontecia, só Nico e eu nos divertindo sem nos preocuparmos, sem ciúmes, sem segundas intenções. Só nos dois e nosso jeito infantil de se amar.
─ Nico, para! ─ Eu disse em mio a risadas e ele dobrou uma rua, finalmente me colocando no chão. Respirei fundo, prestado atenção à rua, tentando descobrir onde estávamos. Era uma rua de acesso, ligando a quinta avenida à periferia.
Não entendi o porque dele estar nos levando por aquele caminho. O encarei confusa, com a testa franzida e ele sorriu, desfazendo a ruga em minha testa com um dedo.
─ Nós estamos ridiculamente melosos hoje. ─ Eu disse e ele riu, me fazendo sorrir também.
─ Faz parte. ─ Ele piscou, abraçando minha cintura, apertando meu corpo contra o dele. Meus braços enlaçaram seu corpo, me protegendo do vento frio que começava a soprar.
Apenas me deixei conduzir por Nico que ainda murmurava aquela música estúpida.
Depois de alguns minutos caminhando, nós paramos na porta de um pub. Eu o olhei desconfiada e surpresa, mas ele apenas entrou, erguendo uma sobrancelha pedindo que eu fizesse o mesmo. Dei de ombro e o acompanhei até uma das mesas vazias perto da janela.
Nos sentamos e eu comecei a reparar no lugar. Era pequeno e aconchegante, no fundo, perto do balcão tinha uma jukebox, tocando uma música que reconheci ser dos Beatles mas não consegui lembrar o nome. Tinha discos de vinil na parede esquerda e pôsteres de bandas de rock antigas. O lugar cheirava a café, embora eu pudesse ver algumas bebidas na parte esquerda do balcão. Ali dentro era quentinho, parecia que eu estava em um lugar inacessível ao tempo, congelado nos anos 60.
Nico sorriu e levantou-se, indo até o balcão pedindo duas cervejas ao homem gordo que estava ali.
Quando ele voltou a mesa, um casal saiu do pub, deixando somente mais três das sete mesas ocupadas.
─ Mas se eu te conheço, sei o que você vai fazer
Você me amará de uma vez
Do jeito que fez uma vez num sonho
Ele voltou a cantar o refrão enquanto abria a cerveja.
─ Por que está catando essa música? ─ Eu o questionei.
─ Ah, não sei... Não posso mais cantar Lana Del Rey? ─ Eu ri do que ele disse e abriu minha cerveja. Ficamos alguns minutos calados, apenas nos encarando.
O cabelo de Nico estava maior o deixando ainda mais charmoso, se isso fosse possível. Ele usava uma jaqueta de aviador, camiseta branca, calças e coturnos pretos. Simples porém estiloso, daquele jeito que faria qualquer garota suspirar, o ar de mistério e os olhos negros brilhando.
Seu olhar estava diferente também. Não sei, tinha alguma coisa a mais essa noite.
Quando Nico me ligou depois do ensaio dizendo que passaria na minha casa depois pra gente sair, eu imaginei que fôssemos em alguma festa ou sei lá. Mas ao invés disso, apenas ficamos andando pelas ruas, cantando e conversando. E agora aqui num pub desconhecido.
Com ele ainda murmurando aquela música, ignorando totalmente a canção dos Beatles. Eu o olhei, interrogando com o olhar.
─ O que aconteceu? ─ Ele me encarou confuso. ─ Por que esse passeio, essa música, esse pub?
─ Thalia, não estrague o momento. ─ Ru revirei os olhos. ─ Não posso mais se divertir com minha namorada?
Tá legal, tem alguma coisa acontecendo.
Ele suspirou antes de voltar a falar:
─ Não Thalia, eu não fiz nenhuma merda nem estou me sentindo culpado. Só quero passar um tempo com minha namorada teimosa demais para aceitar isso.
Um novo silêncio se seguiu entre nós enquanto nos olhávamos fixamente, bebendo a cerveja, mas em nenhum momento desconectando nossos olhares.
A música na jukebox acabou, começando a tocar algo desconhecido que eu ignorei.
Eu terminei minha cerveja e coloquei a garrafa na mesa, seguida por ele alguns minutos depois.
─ Como sabia o que eu estava pensando e o que iria te perguntar?
─ Eu te conheço, eu andei contigo uma vez num sonho
Eu te conheço, o brilho nos seus olhos é um brilho tão familiar
Ainda sim eu sei que é verdade que visões raramente são o que parecem
Ele sorriu depois de cantar aquele verso. Eu estava começando a achar que ele estava fazendo tudo isso para me irritar.
Comecei a analisá-lo melhor. Ele pareceu não ligar, assoviando no ritmo da música que tocava dentro do pub.
Me concentrei nele, procurando por qualquer coisa diferente.
Seus olhos ainda me intrigavam. Tinha algo diferente neles sim. Estavam mais negros. Mais perspicazes. Mais divertidos. A sensação de se olhar pra ele era de perigo.
Perigo? Nico perigoso?
Chegava a ser engraçado.
Ele se levantou, caminhando até o balcão e pagando as cervejas.
─ Já vamos? ─ Eu perguntei quando ele voltou até mim.
Ele apensas assentiu, puxando minha mão.
Lá fora o vento estava mais frio. Ou talvez fosse apenas eu, já que acabei de sair de um local tão quente e minha pele se chocou contra o frio.
─ Aonde nós vamos? ─ Eu perguntei.
Ele me olhou divertido antes de responder:
─ Você sabe a resposta.
Caminhamos por ais um tempo, eu estava ruminando o que ele me disse. Comecei a prestar mais atenção no caminho. Estávamos chegando perto da casa dele, algumas ruas de distância. E então o último verso da música veio até minha cabeça. Eu parei no meio da rua e sorri pra ele.
Seu sorriso de resposta foi malicioso.
Ele deu um passo na minha direção e eu enrolei meus braços em seu pescoço. Ele puxou minha cintura, colocando meus pés sobre os seus, uma mão subindo para minha nuca, a outra reforçando o aperto em minha cintura.
E finalmente nossos lábios se encontraram.
O beijo no início foi calmo. Mas depois de um tempo, foi ficando avassalador, nossas línguas disputando espaço, nossas mãos buscando pele. Senti meus pulmões arder e só então interrompemos o beijo.
Nós arfávamos e eu já não sentia mais frio.
Ele sorriu e eu retribuí.
─ Mas se eu te conheço, sei o que você vai fazer
Você me amará de uma vez
Do jeito que fez uma vez num sonho
Eu cantei o último verso e ele riu.
O que tinha nos seus olhos era desejo.
E então nós corremos para sua casa, ansiosos para sanar o desejo.
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