Mudanças

2 Capítulo 2


Armando estava transtornado. Já nem sabia mais o que fazia. Ainda estava só na sala, na caverna, com o Mario.

–Raciocine, Armando! Você não pode simplesmente chegar na reunião nesse estado. Vai colocar tudo a perder. -Mario lhe precavia.

–E como você quer que eu chegue? Por favor, Calderón.

–Por favor você. Armando, você já tem tudo nas mãos, a feiosa te deixou tudo, não nos denunciou e ainda por cima maquiou o balancete. Quer fazer o favor de parar com essa bobagem e começar a estudar esse maldito balancete nos minutos que ainda restam.

–Desde quando amar alguém é bobagem?

–De novo isso.

–Eu me apaixonei, Calderón. Ao contrário de você, eu ainda tenho sentimentos. Aquela mulher me amava e fizemos a pior das canalhices.

–Você é uma porcaria como eu, talvez até pior. Eu posso ter arquitetado o plano, mas você que se prestou a fazê-lo. Pra ser sincero, não sei em que momento ela te enfeitiçou para te deixar nesse estado. Nem parece o mesmo Armando de antes.

–Ela me tornou mais humano.

–Se para ser humano precisamos gostar de feias, transar com feias, prefiro continuar a ser um Et.

–Ela é linda, Calderón, linda de uma forma que você nunca vai entender.

Nesse momento Marcela entra na sala e vê o estrago em que ela se encontra.

–Mas o que é tudo isso? -Marcela pergunta surpresa.-Vocês dois enlouqueceram? A reunião é daqui a meia hora.

–Ele enlouqueceu. Tente explicar isso pro seu noivo. -Calderón diz.

–Pelo amor de Deus, Armando! O que te passa agora? Enlouqueceu de vez? E onde está a horrorosa da sua assistente?

–Mais respeito com a Beatriz, Marcela.

–Beatriz é quem menos me interessa agora. Eu estou preocupada é com seu estado, com a reunião.

–Eu estarei lá. Agora quer fazer o favor de me deixar sozinho!

Marcela sai resmungando e bate a porta. Mario também se retira. Armando fica sozinho na sala segurando a carta de Betty. Ainda estava em choque e não sabia o que deveria fazer.

Toda a empresa já estava alarmada pelo que acontecia, mas Marcela ordenou que não dissessem uma palavra do ocorrido e quando Daniel, Roberto e Margarita chegassem, os encaminhasse direto para a sala de reuniões, que não deixassem ver Armando naquele estado.

Em casa, Betty estava destruída. Com as últimas forças que lhe restavam, ela segurou seu choro para que seus pais não percebessem, arrumou as malas. Dentro de pouco tempo ela estaria num voo pra longe daqui, longe de seu sofrimento.

Chegou a hora da reunião. Todos já aguardavam ansiosos quando Armando chegou. Ele estava visivelmente abatido. O terno desalinhado e os cabelos despenteados. Margarita fez um comentário sobre o estado do filho, mas ele não respondeu. O próprio Armando distribuiu as pastas para os demais.

–Onde está sua assistente gênio? Isso não é trabalho para você. -Marcela ironizou.

–Se demitiu, Marcela. -Ele respondeu seco.

A afirmação havia pego Marcela de surpresa, mas o foco ali não era Betty, mas sim a situação da empresa. Por esse motivo, Marcela se calou.

Armando puxou a cadeira e sentou ao lado de Calderón. Nesse momento teimosas lágrimas cismavam brotar em seus olhos. Ele tentava o quanto podia segurar o choro.

Ao abrirem as pastas, todos tiveram uma grande surpresa. Armando havia lhes apresentado o balanço real, a real situação da Ecomoda.

Daniel foi o único que sorriu triunfante, já sabia sobre o embargo. Só não poderia ter o gosto de desmascarar o presidente.

Todos os outros enchiam o ar de indagações, especialmente Roberto que olhava o filho de modo acusador.

–Me perdoem. -Foi tudo o que Armando soube dizer.

–O que eu falei quando disse que esse destruiria a empresa? Só não achei que seria tão rápido. -Daniel zomba.

–Ela não está destruída ainda, é somente um embargo precatório. -Armando comenta de cabeça baixa.

–Embargo precatório? Mas embargos nunca são precatórios! -Roberto urra.

–Seu filhinho, Roberto, deu a empresa de mão beijada para a assistente dele. Agora sei porque ela se demitiu. Já tem uma empresa desse porte nas mãos. Por que ainda trabalharia aqui? -Daniel alfineta.

Todos ficam perplexos diante de tal afirmação.

–Ela não nos roubou a empresa. Devolveu tudo para mim hoje.

–Então porque ela se demitiria se não estava fugindo? -Daniel novamente questiona.

–Assuntos pessoais meus com ela. Ela não tem interesse em ficar com a Ecomoda, tanto é que me devolveu as duas empresas, a embargada e a embargadora antes de se retirar. -Armando responde.

A reunião a partir daquele ponto é uma total baderna com gritos e acusações. Armando tenta, sempre de cabeça baixa e sem olhar nos olhos de seus pais, explicar o que aconteceu.

Terminada a reunião, Roberto diz que acionará os advogados para eles tomarem conhecimento e causa sobre como deverão seguir dali em diante.

–Nunca esperava isso de você, Armando. A partir de agora, nunca mais me dirija a palavra. -Roberto diz antes de se retirar da sala de reuniões e deixar um Armando destruído e sozinho.

Continua.