Mudando de Vida
7 Uma alucinação irritante
– Dean, acorda! – Jen abriu os olhos assustado. Jay estava de banho tomado e vestido para sair. Chamava por ele. O louro coçou os olhos, sonolento. Ficou tão surpreso ao ver o amigo tão bem disposto que até esqueceu de reclamar por ter sido chamado de "Dean".
– Onde você vai? – perguntou incrédulo.
– Nós vamos voltar a caçar, já ficamos de bobeira tempo o suficiente... Vai se ajeitar. Eu quero ir conversar com Garth, e ver se ele tem algum trabalho para nos sugerir.
– Jay? Você ficou louco!? Você sabe que eu não vou a lugar nenhum, muito menos para ir atrás de monstros...
Jay parecia determinado e um tanto agressivo. Não estava, entretanto, muito disposto a discutir.
– Não quero que me chame de Jay, agora sou Sam. Vai se arrumar, Dean! Vai logo!
– Não vou! Quem é você para pensar que manda em mim agora? – Jen levantou da cama e encarou o amigo.
Jay ficou abismado. Queria poder controlar sua alucinação, mas não conseguia. Tudo o que ele queria naquele momento é que Dean estivesse ao seu lado, de bom humor, e pronto para mais uma caçada. Ele poderia viver assim. Não precisava ter medo de nada, nem mesmo da morte. Afinal, aquilo tudo era fruto de sua imaginação, fértil e doentia. Nada era real.
– Dean, EU mando, entendeu? Você é uma alucinação, e não vou te deixar me controlar! – vociferou Jay em resposta.
Jen sentiu como se tivesse recebido um balde de água fria. Sem palavras, viu Jay fechar os olhos com força, como se pudesse mudar o mundo ao seu redor apenas com a força de seus pensamentos.
– Do que você está falando, Jay? – perguntou alarmando.
Vendo que sua tentativa não havia dado certo, Jay ficou mais nervoso.
– Não te devo explicações! – grunhiu.
O louro o fitou, incrédulo. Não disse nada. Jay sentia como se falasse sozinho, explicando suas teorias a si próprio. Isso o irritava. Então falou depressa e friamente.
– Olha só, isso de trocar de lugar com Sam e Dean não existe... Nós estamos vivendo dentro de uma alucinação minha. O verdadeiro Jen, neste momento, deve estar lamentando a minha triste sina, e vivendo a vida dele, tranquilamente.
– E eu!? – surpreendeu-se Jen – Eu tenho existência própria! Por que isso tem que ser uma alucinação sua e não minha afinal?
Jay riu... Aquilo já estava ficando ridículo.
– Pense o que quiser, eu não me importo – respondeu. — Não vou ficar aqui discutindo comigo mesmo. Você á minha alucinação, portanto é parte de mim... Eu queria conjurar o Dean Winchester, mas que se dane... Vou caçar assim mesmo, e você vem comigo.
Jay segurou Jen pelo braço com força, e foi arrastando o amigo para fora do quarto.
– Jay, me deixe pelo menos mudar de roupa! – reclamou Jen.
Jay consentiu. Enquanto o louro mudava de roupa a contragosto, o moreno ligou para Garth. Contou que estavam dispostos a trabalhar novamente e Garth deu o endereço de onde estaria. Combinaram de se encontrar e trabalhar juntos em um caso.
Jen não queria sair do hotel, mas estava preocupado com o amigo, que enlouquecera. Não podia culpá-lo, afinal poucas pessoas seriam capazes de permanecer sãs vivendo aquela experiência surreal. Além disso, Jen percebeu que não ganharia nada brigando com o amigo, que além de ser mais alto e mais forte que ele, era seu único aliado.
Jay fez Jen dirigir o Impala e ouvir rock dos anos 80. Chamava-o de Dean, e parecia animado. Viajaram por volta de quatro horas até finalmente chegarem ao seu destino. Garth esperava por eles em uma lanchonete.
O caçador estava feliz por rever os companheiros, e mais ainda em saber que estavam bem e dispostos a voltar a ativa. Contou animadamente como ele, Garth, havia conseguido executar todas as tarefas necessárias e fechado os portões do inferno. Era um herói. Jen quase chorou de alegria ao saber que estava livre dos demônios.
– Bem, depois que os demônio se foram – explicou Garth – nós caçadores estamos cuidando de casos pequenos e isolados. O trabalho tem sido bastante tranquilo. Estou indo agora caçar um zumbi mutante. Já estudei bem o caso dele, e não é uma criatura perigosa. Podem vir comigo se quiserem.
Convidar os Winchester a participar do caso havia sido um ato generoso de Garth. Não precisava de ajuda alguma para cuidar de um caso tão simples. Porém, como os irmãos estavam muito tempo sem trabalhar, sentiu que eles precisavam daquilo como um incentivo.
Garth explicou que o zumbi morava no porão de uma casa velha, e que só saía a noite para se alimentar de cérebros humanos. Ele enxergava muito mal, mas tinha a audição bastante apurada. O plano era entrar em sua casa durante o dia, em completo silêncio, se aproximar dele com cautela e cortar-lhe a cabeça.
– Só não façam barulho – recomendou Garth mais uma vez, assim que chegaram ao local da caçada. – Se ele nos ouvir pode nos machucar.
Garth foi na frente, seguido por Jay que puxava Jen, que vinha logo atrás. Jay estava gostando da aventura, e não sentia medo algum. Quando avistou o zumbi, não conseguiu conter um risinho que saiu abafado. O monstro era muito estranho, parecia saído de um filme de terror produzido nos anos 80.
Para o pavor de todos, o zumbi pulou para cima de Jay e arranhou seus braço com força. Ele teria estraçalhado o rapaz, porém sua atenção se voltou para Jan quando este não se conteve e deu um gritinho.
O zumbi então pulou de Jay para Jen e rasgou a barriga do louro com as garras. O ator, apavorado com o monstro e o com o sangue, desmaiou na hora. Garth, que estava pronto para atacar, veio por trás e cortou a cabeça do bicho, que quicou com força no chão.
– O que deu em vocês? – reclamou Garth exaltado. Jay estava atordoado com dor que sentia no braço. Não gostava de quando as coisas não saiam do seu jeito, não naquele mundo onde ele era Deus...
O caçador magrelo verificou a gravidade dos ferimentos de Jen e mandou Jay carregá-lo dali.
– Carregue você. Meu braço está doendo! – ordenou ele.
Garth olhou com incredulidade.
– Ele é muito pesado para mim, e além de tudo é seu irmão...
Jay, revoltado, pegou Jan nos braços. Era pesado e seus ferimentos doíam. Mas, por algum motivo, tinha de ser assim.
Quando Jen acordou, estava deitado em uma cama de hotel. Sua barriga latejava de dor. Ouviu a voz de Jay gemendo ao seu lado. Garth limpava os ferimento de seu braço enquanto ele reclamava.
– Dean, você acordou! – Exclamou Garth ao ver o louro de olhos abertos. Está doendo muito? Eu fiz um curativo na sua barriga. O corte foi um pouco fundo, mas você vai ficar bem...
Jen ficou feliz em saber que Garth havia matado o zumbi. Ficou mais feliz ainda quando o caçador anunciou que estava indo embora e que deixaria os dois a sós, se recuperando dos machucados. Depois daquela caçada desastrosa, Jay com certeza já deveria ter desistido de encarnar o papel de Sam, e suas vidas voltariam à deliciosa mediocridade habitual.
Depois que Garth partiu, Jay e Jen pouco se falaram. A verdade é que o mais novo já havia percebido que suas alucinações estavam totalmente fora de controle, e se ressentia disso. Estava com raiva do personagem que vivia ao seu lado, seja ele Jen ou Dean, por não corresponder às suas expectativas. Se ele iria se machucar, ter medo e sofrer, Jay, sem dúvida, pretendia ignorá-lo. Queria alguém forte e divertido ao seu lado.
Jen, por sua vez, sentia-se muito vulnerável. Estava ferido, e mal podia se levantar da cama. A única pessoa com quem podia contar havia perdido o juízo, e o ignorava.
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