Mudando de Vida
6 Ele se parecia com Castiel
A Chicago Con havia chegado ao fim. Sam, Dean e os demais participantes da Convenção esperavam para receber o restante do pagamento que lhes era devido. Ninguém dirigia a palavra aos irmãos, que passavam todo o tempo conversando apenas entre si. Foram pegos de surpresa quando Mishel os puxou para uma conversa em particular. O ator estava visivelmente chateado.
– Vocês podem me explicar o que está acontecendo? – perguntou ele.
Sam e Dean não sabiam a que exatamente Mishel se referia. Estava acontecendo tanta coisa... Olharam interrogativos. "- como assim?" – perguntou Sam.
– Por que nunca me contaram que tinham um caso? Por que nunca me disseram que o casamento de vocês era uma farsa? Aliás, nem as esposas de vocês sabiam disso... Ambas me ligaram chorando. Aparentemente vocês dois também não se dignaram a atender os telefonemas desesperados delas.
Os caçadores se entreolharam, se envergonharam e nada disseram. Mishel foi ficando nervoso.
– Até telefonema das mães de vocês eu tive que atender! Elas estão apavoradas! Como podem ser tão egoístas, se importar tão pouco com os sentimentos dos outros? E eu que pensei que fossem meus amigos... – finalmente falou, suspirando.
Dean olhou dentro daqueles olhos azuis. Era impossível não lembrar de Castiel... Mishel estava magoado, e tinha todo direito de estar. Jen e Jay deviam ser amigos próximos, isso estava na cara.
– Vamos contar toda a verdade para ele – disse o louro, olhando seu irmão nos olhos.
– Que verdade? – gaguejou Sam. Dean estava doido em achar que realmente poderiam contar a verdade, a verdade verdadeira... Então prosseguiu, dando a desculpa que podia.
– Desculpa Mishel, nós não tínhamos contado ainda porque não tivemos coragem... Não pretendíamos magoar ninguém... Essa não foi nossa intenção...
Mishel estava ficando vermelho. Parecia que ia explodir.
– Não tiveram coragem?! Mas tiveram coragem de se casar com duas mulheres apaixonadas por vocês, e tiveram coragem de declarar seu amor publicamente um pelo outro, sem o menor respeito por elas. Tiveram também coragem de colocar filhos no mundo, sem se importar com eles. E como pretendiam não magoar ninguém? Acho que nunca me decepcionei tanto com duas pessoas, dois amigos...
Aqueles olhos azuis estavam a ponto de chorar. Dean nunca havia visto Castiel chorar. Seria demais para ele...
– Eu vou contar a verdade – disse novamente, em tom sério.
Antes que Sam pudesse protestar e falar alguma coisa, Dean prosseguiu:
– Olha, cara, nós não somos quem você pensa que somos...
– Isso está claro para mim agora... – respondeu Mishel, decepcionado, abaixando o rosto.
– Não, olha... Nós não somos esses atores, Jen e Jay. Nós viemos de outra dimensão... – disse Dean.
Sam estava aflito com aquela confissão, e encarou o irmão com ar severo. Mishel olhou com impaciência. O que mais aqueles dois podiam inventar para deixar as coisas ainda piores? Dean não se intimidou com os olhares, e continuou seu discurso.
– Mishel, eu sou o Dean, e esse é o meu irmão, Sam. O Castiel... você conhece bem ele, né? Ele é um bom amigo... Foi ele que nos trouxe para cá...
– E onde estão Jen e Jay? – perguntou Mishel, impaciente, só para saber até onde a cara de pau do Jen iria.
– Bem, para falar a verdade eu não sei ao certo... – respondeu ele – Só sei que nós não queremos viver a vida deles, não queremos trabalhar como atores, não queremos ficar casados com as esposas deles, nem criar os filhos deles...
– Então essa história de casal homossexual era mentira?
– Sim, tudo mentira, nós somos irmãos.
Dean se emocionava olhando para Mishel, a imagem escarrada de seu anjo Castiel. Lembrava-se dele, e desejava que por um minuto Mishel não fosse Mishel, fosse Castiel. Apesar do ator não passar de um desconhecido, doía desapontá-lo. Sam notou aquele olhar, e se irritou profundamente. Aquela confissão não planejada, que poderia atrapalhar seus planos... Como Dean podia se levar tão facilmente por suas emoções?
– Bem, é isso. Ele já disse tudo – completou Sam – por favor guarde isso para você, o meu irmão obviamente sentiu que não podia mentir para o Castiel... E você é a cara do Castiel...
Dean não protestou, sabia que o irmão tinha razão. Por um instante se arrependeu de largar toda a verdade nos ouvidos de um estranho.
Dean e Sam estavam tão sérios, e pareciam tão sinceros, que Mishel ficou sem saber em que acreditar. Seus amigos eram bons atores, talvez estivessem representando. Porém pareciam genuínos demais. E eles sempre pareceram genuínos demais. Eles não podiam estar enganando a todos esse tempo todo. Não podiam ter tanta cara de pau...
Como Mishel pudera ter estado cego daquele jeito? Jen e Jay não eram os mesmos desde aquele dia que haviam atacado Fred, achando que era Gale. O ator se sentiu culpado por não ter percebido isso antes, e ter feito alguma coisa por eles.
– Vou ajudar vocês – disse Mishel, dessa vez já com uma expressão bondosa no rosto – Vão precisar de alguém para ajudá-los com o divórcio, com a rescisão do contrato com a CW, com o gerenciamento dos bens de vocês... Conheço um homem de minha inteira confiança, e muito competente.
– E por que você iria nos ajudar? – perguntou Sam desconfiado.
– Bem, vocês se parecem muito com os meus amigos – Mishel sorriu para Dean, que corou.
Os irmãos concordaram em aceitar a ajuda, já que Mishel garantiu que Mr. Guttorp era de inteira confiança.
Após finalmente pegarem o restante do pagamento, todos retornaram ao hotel. Voltariam para o Canadá no dia seguinte bem cedo, ou pelo menos isso era o que estava planejado. Sam e Dean não pretendiam mais fugir, afinal poderiam resolver sua situação de forma legal com a ajuda de Mr. Guttorp. Por "coincidência", o homem morava em Chicago, e Misha garantiu que poderia conversar com eles ainda naquele dia.
O telefone de Dr. Guttorp tocou nervosamente. Assim que atendeu, ouviu a voz de seu amigo Mishel, esbaforido do outro lado da linha:
– Doutor, por favor, você precisa vir para cá com urgência... Dois amigos meus surtaram, e eu preciso que você dê um diagnóstico e um atestado antes que eles sejam obrigados a voltar para o Canadá amanhã. Eles não tem a menor condição de trabalhar...
Mishel sabia que o as gravações de Supernatural estavam atrasadas, e a produção do programa não iria liberar os protagonistas assim tão facilmente. Se um psiquiatra competente desse um atestado, não teriam outra escolha senão deixá-los se tratar. E Mishel estava preocupado com a saúde mental de seus amigos.
O Doutor morava perto, e em pouco mais de um hora encontrou-se com os rapazes no hotel. Antes de apresentar os amigos para o médico, Mishel contou tudo o que sabia sobre o surto dos dois.
Dr. Guttorp era muito competente, e cordialmente foi puxando assunto com os irmãos Winchester, ouvindo toda a sua história desde que vieram de outra dimensão. Puxou também pelas suas memórias de infância, e ficou alarmado quando de fato notou que eles pareciam apenas se recordar da vida dos seus personagens caçadores. Falavam de John Winchester com lágrimas nos olhos. Entretanto quando mencionou o estado desesperado das mães de Jen e Jay, o máximo que demonstraram foi uma leve compaixão.
– Eu os aconselho a ficar aqui pelos Estados Unidos mesmo, rapazes. Não voltem para o Canadá... Resolvemos toda a papelada por aqui mesmo, podem deixar que terão todo o apoio que precisarem – disse o Doutor – Não se preocupem com o trabalho por enquanto, achei uma brecha no contrato de vocês, e estarão liberados até o final da oitava temporada.
Todos o pessoal da produção ficou preocupado e alarmado quando Dr. Guttorp falou da gravidade do estado de saúde mental dos rapazes. Era um surto psiquiátrico sério, e precisavam de tratamento. Gravar o seriado seria a pior coisa do mundo para eles naquele momento, já que este havia sido o desencadeador da doença. Teriam aproximadamente cinco meses para se recuperar até o início das gravações da nona temporada, quando poderiam ser novamente avaliados.
Mishel voltou para o Canadá, deixando seus amigos aos cuidados do psiquiatra. Sam e Dean ficaram muito gratos a ele a ao Mr. Guttorp por toda a ajuda. Alugaram uma casa ali mesmo em Chicago, em um bairro agradável, de classe média. Estabeleceram-se como um casal gay. Gay e feliz.
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