Mrs. & Mrs. Swan-Mills
21 Promoção: Duas Vidas por o Preço de Uma!
Notas iniciais
REGINA
Todo mundo um dia já teve vontade de “comprar até cair”.
Mas o que Emma e eu estávamos prestes a fazer corria o risco de se transformar em algo como “comprar até cairmos... mortas”.
Então o que precisávamos fazer era cuidar para que os mortos fossem os outros, e não a gente.
Tínhamos acabado de chegar ao nosso destino final: o estacionamento da Home-Made, minha loja preferida, uma megastore de móveis e artigos para casa. O lugar perfeito para começar uma vida nova.
Paradas ali, Emma e eu mais parecíamos um jovem casal à procura de móveis bons e baratos para o apartamento novo. No entanto, até onde podíamos saber, éramos as únicas que usavam coletes de kevlar, à prova de balas. Nada muito confortável para uma manhã de compras, mas, se tudo desse certo, passaríamos os dias seguintes com o mínimo possível de roupas sobre o corpo.
Inebriadas de amor e animadas diante das possibilidades, havíamos planejado tudo com o maior entusiasmo. Esperávamos ganhar nossa liberdade muito em breve. A liberdade para viver nossas vidas do jeito que queríamos: juntas.
Mas agora a realidade exigia o máximo de sobriedade. Numa espécie de sintonia fina, nos preparávamos para nossa missão em silêncio, reunindo o equipamento necessário e cuidando para não estorvarmos uma à outra. Ali estavam duas assassinas calejadas e profissionais preparando-se para entrar em ação.
Como atletas olímpicas, precisávamos da mais perfeita concentração.
Todavia, para mim não era tão fácil assim. Nenhuma outra missão havia sido tão importante quanto aquela. Antes, grande parte da minha coragem advinha do fato de que não pensava muito no preço que talvez tivesse de pagar cada vez que colocava minha vida em risco.
Ninguém quer morrer, é claro. Mas no passado minha motivação se confundia com um vago instinto de sobrevivência; agora, no entanto, eu tinha um excelente motivo para continuar viva.
Minha vida. Com Emma.
Toda a experiência que eu havia acumulado até então seria colocada à prova. As lições que eu havia aprendido ao ludibriar cada um dos meus inimigos, ao sobreviver a cada ferimento, bem como os músculos, os reflexos e a malícia que eu havia desenvolvido ao longo de mais de trezentas missões — tudo isso seria testado naquela luta derradeira. Sentadas no carro, repassávamos mentalmente todos os passos do nosso plano. E então chegou a hora: já havíamos adiado demais.
Estávamos prestes a sair quando Emma me deteve. Mas apenas para fazer um ajuste final no meu colete à prova de balas.
— Você esqueceu essa fivela aqui... — ela sussurrou.
Para mim, aquele gesto valeu mais do que uma vida inteira de jantares à luz de velas.
Quando me virei para agradecer-lhe, vi o medo estampado em seus olhos. Estávamos, por iniciativa própria, nos metendo numa situação complicadíssima. Sabíamos que nossas chances de sucesso eram ínfimas. Uma missão suicida, por assim dizer.
Tanto eu quanto ela havíamos nos isolado em ilhas separadas naquele casamento suburbano e insípido. Mas depois de nos termos redescoberto como casal, era bem possível que eu perdesse Emma mais uma vez. E agora para sempre.
Mas não tínhamos outra escolha.
Se não fizéssemos nada, seríamos encontradas e acabaríamos mortas de qualquer maneira. Não nos restava outra coisa a fazer senão lutar.
E, graças à “roupa suja” de Emma, tínhamos um arsenal inteiro para nos auxiliar naquela luta.
Então nos beijamos — um beijo doce e preguiçoso, mas não um beijo de adeus. Depois segurei o rosto de Emma entre as mãos por um instante, bebendo da sua força e revigorando-a com o poder do meu amor. Caramba, isso soou brega até pra mim.
Seríamos fortes uma para a outra, juramos mutuamente, mas sem dizer palavra.
Por fim, desviei meu corpo e minha atenção exclusivamente para o trabalho.
Emma tirou do bolso o microtransmissor que havia encontrado no cinto de Neal Cassidy. Aquele que nossas agências haviam usado para nos localizar. Colocou o chip de volta e subitamente uma luzinha vermelha se acendeu.
Isso significava que o aparelhinho estava funcionando de novo, delatando nossa posição para Mr. Gold e Cora.
Eles não tardariam a chegar.
— Pronta, meu amor? — perguntou Emma.
— Já nasci pronta, querida — respondi.
Caminhamos em direção à loja, carregando sacolas supostamente cheias de artigos para devolução. Mas na verdade estavam repletas de armas.
Emma pegou um daqueles cestinhos de mão, como se estivéssemos ali para comprar apenas uma coisinha ou outra. Revirei os olhos. Essa garota evidentemente não sabia o que era afogar as mágoas no consumo desenfreado.
Quanto à mim, de forma alguma entraria numa loja daqueles — ou numa missão perigosa, diga-se de passagem — com algo menor que um carrinho de compras tamanho gigante. O carrinho poderia se transformar num instrumento de grande utilidade: num escudo ou num enorme projétil sobre rodas. Além disso, eu precisava de alguma coisa para carregar o meu arsenal — aquele tralha era muito pesada!
No entanto, e o mais importante de tudo, a gente nunca sabe quando vai se deparar com uma oferta irresistível. Afinal, tínhamos perdido quase tudo com a explosão da nossa casa.
Então peguei um carrinho e disse a Emma para fazer o mesmo. Escondemos nossas sacolas de armas sob alguns pacotes de roupa de cama em promoção.
Logo depois seguimos pelos corredores, casualmente inspecionando as prateleiras como um casal de compradores qualquer. Mas o que de fato procurávamos eram os nossos inimigos.
Quanto mais olhávamos, mais as pessoas pareciam suspeitas.
O cara perto dos beliches. O casal pagando pela mobília de jardim. A velhinha esquisita escolhendo toalhas de mesa. Seriam pessoas normais? Ou assassinos disfarçados?
Embalados pela música de elevador, Emma e eu seguimos em direções opostas para esquadrinhar a loja. Fingindo inspecionar mercadorias, espalhávamos armas carregadas pelas diversas prateleiras; assim, onde quer que tivéssemos de entrar em ação, teríamos munição fresca ao nosso dispor.
Quando finalmente nos reencontramos, Emma me entregou um dos walkie-talkies que havia retirado na seção de brinquedos. Mostrei à ela o utensílio de amaciar carnes que eu tinha encontrado na seção de cozinha.
Emma se deixou distrair com uns mini-aspiradores computadorizados, e tive de puxá-la pelo braço.
Agora estávamos prontas!
De mãos dadas, procurávamos por uma espécie de promontório onde pudéssemos receber nossos inimigos. E logo encontramos o lugar perfeito.
A seção de móveis de campo estava decorada com uma casa cenográfica montada sobre uma plataforma elevada — uma casa completa, com varanda, rede e tudo o mais. Ao fundo, um enorme painel reproduzia a imagem de um trigal exuberante e dourado.
Subimos os degraus e sentamos na rede, de onde tínhamos uma excelente visão da loja inteira.
Emma passou o braço sobre meus ombros e ficamos ali, balançando, aproveitando a calmaria até que viesse a tempestade.
Quase cheguei a acreditar que éramos um casal comum, relaxando numa varanda depois do jantar enquanto as crianças jogavam bola no quintal, berrando quando viam os primeiros pirilampos das noites de verão.
Espera aí, de onde tinha saído aquela fantasia?
EMMA
Talvez sentarmos naquela rede tivesse sido uma má ideia. Especialmente na companhia de uma mulher como Regina.
Meus pensamentos vagaram para verões remotos, verões da minha infância, quando o pior que podia me acontecer era ser picada por um pernilongo. Fiquei pensando como seria deitar numa rede daqueles todas as noites depois do jantar, apreciando o pôr-do-sol, abraçada a uma mulher chamada Regina...
No entanto, achei prudente voltar à realidade e prestar atenção no meu trabalho; caso contrário, talvez não continuasse viva para fantasiar sobre o que quer que fosse.
E em boa hora. Alguém estava nos observando. “Fica fria”, alertei a mim mesma.
Então nós duas ouvimos um dique. O ruído inconfundível de um cão sendo armado. E não daqueles que a gente pode comprar numa pet shop.
Paramos de balançar. Era como se o mundo inteiro tivesse congelado.
Olhei de relance para Regina.
Ambas sabíamos: o momento havia chegado.
Calmamente enfiamos a mão no bolso e retiramos nossos óculos escuros.
— Vejo você na próxima vida, Regina — eu disse.
— Espero que sim — ela respondeu.
Então — apenas para aumentar a diversão — apertei o botão de um aparelho de controle remoto que eu trazia num dos bolsos.
E todas as luzes se apagaram.
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