Mrs. & Mrs. Swan-Mills
22 Os Dois Últimos Pinos de Pé
Notas iniciais
REGINA
Lá estávamos nós — na antessala da nossa única chance de sobrevivência. A hora da verdade. Depois que a operação entrasse em andamento, não haveria mais volta.
Emma e eu trocamos um último olhar. E nesse olhar tentei mostrar à ela tudo o que sentia naquele momento: esperança, remorso, perdão, confiança. E amor. Acima de tudo, amor.
A julgar pelo sorriso em seus lábios, Emma recebeu minha mensagem claramente. E parecia retribuir os mesmos sentimentos. Depois piscou os olhos como se dissesse: “Vamos lá.”
Eu estava com medo, não vou negar.
Mas nunca tinha me sentido tão viva.
Podia sentir os assassinos disfarçados infiltrando-se na loja. Não podia vê-los, mas sabia que estavam ali, saindo dos cantos e das frestas como um bando de baratas.
Emma apertou meu cotovelo, sinalizando: “Agora!” Assim que as luzes se apagaram, saltamos da rede. E bem a tempo. Atrás de nós, pude ouvir: Tund! Tund!
Em poucos segundos o tumulto se formou na loja. Corremos para dentro da casa, à procura de uma saída pelos fundos. Quando passamos por um cercadinho de bebê recheado até a borda com ursinhos de pelúcia, “Homey”, o urso-mascote da loja, de tamanho natural, surgiu do meio da pilha, usando um chapéu em forma de casa, um bigode e... uma escopeta de cano serrado.
Sem titubear, Emma e eu atiramos no cabeção do urso, que caiu para trás, disparando a escopeta em plena queda e acertando o teto da casa com um grande bum!
O que antes se resumia a uma pequena batalha às escuras agora havia se transformado num alvoroço de grandes proporções.
Clientes berravam e atropelavam-se mutuamente à procura das saídas.
De repente, em ambos os lados do prédio, portas explodiram para dentro e novas equipes de assassinos tomaram a loja de assalto.
CRASH!
Claraboias estilhaçaram no alto, e uma meia dúzia de facínoras “rapelou” até o chão.
Caramba! O exército inteiro estava atrás de nós! Na casa cenográfica, Emma e eu demos meia-volta e rapidamente saímos pela porta da frente.
Quando passamos pelo canteiro de petúnias, recolhemos as granadas de fumaça que ali havíamos escondido como se fossem ovos de Páscoa. Puxamos os pinos e mandamos as granadas rolando pelo chão. A fumaça colorida nos forneceu uma excelente cobertura.
Andando de cabeça baixa e usando o pânico generalizado a nosso favor, desviamos para a seção de acessórios de banheiro.
Levantei uma tábua de vaso e retirei o rifle de atirador de elite que eu havia deixado ali.
Enquanto eu montava o cano, Emma disse:
— Precisamos abrir fogo, mas longe dos suburbanos. Por cima ou por baixo?
— Deixa que eu vou — respondi.
Corri até a seção de artigos de escritório, alcancei as prateleiras de um corredor sem saída e, sem a menor dificuldade, como se estivesse brincando de alpinismo, escalei os 15 metros que me separavam das vigas do teto.
Pendurada no alto, peguei um par de binóculos de visão noturna e olhei ao meu redor.
Dali eu podia ver o pavimento quase por inteiro. As baratas estavam se multiplicando; calculei que deviam somar algumas dezenas.
Tive a impressão de que todos os agentes, de ambos os lados, haviam comparecido ao evento —uma verdadeira reunião de família.
Também pude ver Emma abrir caminho ao longo de uma fileira de refrigeradores na seção de eletrodomésticos. Nossa, ela passou ao lado de uma geladeira linda... Talvez se eu conseguisse um desconto... "Foco, Regina!"
E vi também os dois facínoras que esperavam por ela no fim do corredor.
— Pé no freio, Emma — alertei-a pelo walkie-talkie. — Saída às nove horas.
Emma deu uma guinada para a esquerda e desapareceu do outro lado.
Do alto, apontei meu rifle e disparei um único tiro.
Os dois facínoras caíram ao chão.
Emma, que havia disparado o segundo tiro, surgiu novamente no meu campo de visão e levou o walkie-talkie à boca.
— Obrigada, querida. Hoje é o dia do meu aniversário.
— É mesmo? — eu achava que fosse dali a três meses. — Então, parabéns!
Eu detesto me esquecer do aniversário dos outros. Mas acho que dei à Emma um bom presente. No entanto, se saíssemos vivas daquela situação, jurei a mim mesma que faria o melhor bolo de aniversário da vida dela.
EMMA
É claro que eu estava com medo. Ossos do ofício. Mas...
De modo algum estava preparada para morrer. Especialmente no dia do meu aniversário.
Eu perscrutava a loja à procura de assassinos. Aspersores anti-incêndio jorravam água para todos os lados. O lugar estava molhado, escuro, tenebroso... Quase surreal.
Vi um trio de assassinos vasculhando a seção de utensílios domésticos e apavorando uma turba de compradores desorientados.
Deixei que eles soubessem que eu estava na vizinhança.
Tríiiim! Tríiiim!
Toquei o sinete do triciclo de brinquedo que eu dirigia e comecei a pedalar o mais rápido que pude. Sobre o guidão, uma arma de grande porte. À medida que eu avançava pelos corredores, a bandeira de segurança (amarrada na extremidade de uma grande antena) revelava meu paradeiro a quem quisesse saber — mas era exatamente essa a ideia.
E assim prosseguia nossa brincadeira de pique-esconde pelos corredores da loja. Cada vez que atravessava um cruzamento, eu disparava aleatoriamente para a direita e para a esquerda, e depois desaparecia de novo. Pedalar, perseguir, atirar!
Mas então cheguei a uma grande interseção para a qual todos os corredores convergiam.
Assim que viram a bandeirola, eles abriram fogo impiedosamente.
Mas eu já estava muito longe dali. Dessa vez a bandeirola não estava amarrada ao triciclo, mas a um carrinho de compras repleto de tanques de propano que eu havia recolhido na seção de acampamento.
Os tanques explodiram na mesma hora.
Adiós, amigos.
REGINA
Equilibrando-me nas vigas, eu atirava sempre que localizava uma arma no meio da multidão. Mas o problema era que os facínoras continuavam a brotar por todos os lados.
Miras a laser tentavam me localizar. Os fachos cruzavam acima da minha cabeça como holofotes em noite de Oscar. Pelo menos numericamente eu estava em terrível desvantagem.
Além disso, havia perdido Emma de vista.
— Emma? — chamei pelo walkie-talkie. —Mais alvos no corredor seis! Emma?
Nenhuma resposta.
— Merda! Quando a gente mais precisa... — reclamei, sem querer encontrar uma razão para o silêncio dela.
Pulei para um dos lados e desci algumas prateleiras até aterrissar na seção infantil.
Abandonei meu rifle sem munição e vasculhei uma prateleira de bichinhos de pelúcia.
Ela ainda estava lá! Uma semiautomática ultrapoderosa.
Eu poderia ter esperado até que os bandidos viessem atrás de mim. Mas nunca gostei de esperar. Então fui atrás deles.
Dobrando uma esquina, avistei um trio de assassinos. Todos nós abrimos fogo, balas ricocheteando para todos os lados. Uma delas me acertou o ombro, mas numa área protegida pelo colete.
Voltei para o corredor de onde tinha saído e recostei-me na parede, resfolegando. Aquela porcaria doía pra caramba.
Não sabia exatamente o que fazer. Foi então que ouvi o ronco de um motor. E depois... CRASH!
Uma parede inteira de hamsters em trajes de ninja veio abaixo quando Emma passou por ela a bordo de um daqueles quadriciclos de jardinagem, com reboque e tudo. Quando derrapou debaixo de um aspersor, levou ao chão os três que pouco antes me perseguiam.
— Mandou bem, Steve McQueen! — eu disse.
Emma sorriu e ofereceu a mão para que eu subisse no reboque. Depois saiu em disparada pelos corredores, derrubando mercadorias e serpenteando pelo caminho de modo a dificultar a vida dos inimigos.
No reboque eu havia encontrado uma mini metralhadora Gatlin.
De repente Emma meteu o pé no freio e fez o quadriciclo rodopiar 180 graus. Preferi não perguntar onde ela havia aprendido aquele truque.
Depois voamos de encontro aos nossos perseguidores boquiabertos.
Nossas armas chacoalhavam e cuspiam fogo à medida que avançávamos corredor abaixo. E os assassinos caíam um a um, como pinos de boliche. Fácil demais —como pescar num aquário.
Pela primeira vez comecei a achar que de fato podíamos sair dali vivas.
E então um bandido subitamente saiu de trás de uma tenda inflável.
Com um lança-foguetes apoiado nos ombros largos. Apontado na nossa direção.
Oops!
Sequer tive tempo de abrir a boca para me despedir de Emma — antes que ele atirasse.
EMMA
Caralho, doido!
Pisei fundo o acelerador e dei um golpe brusco no volante.
Escapamos do fogo direto por uma questão de centímetros. Mas quando a granada foguete explodiu bem na nossa esteira, fomos catapultadas — com quadriciclo e tudo — através de uma parede de gesso.
O que nos levou de volta à casa cenográfica, exatamente de onde tínhamos saído.
O quadriciclo rodopiou até parar, destruindo meia dúzia de árvores de Natal e cuspindo-nos numa paisagem coberta de neve cenográfica.
Uma aterrissagem macia, pelo menos.
Ficamos ali por um instante, agradecidas por ainda estarmos vivas, Regina empilhada em cima de mim. Estávamos sozinhas, eu e ela, no silêncio sinistro da escuridão. Ah como eu queria que tivéssemos mais tempo para...
— Acho que nosso plano está indo bem — ela disse, interrompendo os meus pensamentos.
— Está, sim — eu disse.
Mas eu sabia que a guerra ainda não tinha chegado ao fim.
Ficamos de pé e corremos até um barracão de metal, ainda no jardim da casa cenográfica, onde havíamos escondido boa parte do nosso arsenal. Tínhamos até fortificado as paredes com sacos de fertilizante.
Aquele seria a nossa última tacada.
Penduramos rifles sobre os ombros, enfiamos pistolas no cós e nos bolsos das calças, estocamos cartuchos de munição e guardamos facas nas caneleiras.
Improvisei um torniquete em torno do meu braço ferido e tranquilizei Regina, dizendo que não era nada grave.
De repente, balas perfuraram o metal do barracão, abrindo rombos nos sacos de fertilizante.
Em seguida ouvimos o tropel dos nossos inimigos, que se espalhavam ao nosso redor.
Regina olhou através de um dos furos de bala na parede.
— E então? — perguntei.
Ela respirou fundo e lentamente virou-se para mim com um sorriso sereno entre os lábios.
— Vai ser moleza — respondeu.
Ambas sabíamos que aquela seria sua última mentira.
— Não se esqueça — eu disse — as Berettas às vezes emperram.
— Tá bem.
— E sempre dê preferência à sua esquerda, querida. Da direita cuido eu.
— Entendido.
— Aquele barco lá no México deve estar louco pra zarpar — brinquei.
Regina deu de ombros.
— Não sei, não. Chove muito nessa época do ano. — Depois apertou minha mão e, deixando de lado o tom de brincadeira, disse: — Estou exatamente onde deveria estar.
Fiz um carinho no seu rosto machucado e sorri.
— Já não era sem tempo.
Regina olhou para mim, o semblante forte, desafiador. Uma guerreira.
Meu tipo de mulher. Para sempre. Não tínhamos mais nada a dizer. Hora de partir.
REGINA
Irrompemos do barracão armadas até os dentes e dispostas a lutar até sairmos dali, fosse de que jeito fosse.
Como duas bailarinas numa coreografia bem ensaiada — ou como um dragão de duas cabeças —, Emma e eu avançávamos de costas uma para a outra, abrindo fogo para todos os lados.
Nossos algozes tombavam como moscas.
Eu procurava não pensar em nada — apenas agir. Um pé na frente do outro, um assassino de cada vez, movimentos treinados, nervos sob controle.
Quando fiquei sem munição, Emma imediatamente me passou um cartucho, como se fosse uma extensão do meu próprio corpo.
Então fui surpreendida por uma bala no colete de kevlar e curvei o tronco para a frente.
Enquanto me recuperava do susto, ainda abaixada, Emma aproveitou para disparar o rifle alojado nas minhas costas. Pouco depois eu já estava de volta ao jogo.
E de repente senti Emma contorcer o corpo e cair no chão. Instintivamente joguei-me em cima dela, girando e disparando no ar — e derrubando pelo menos uns dez.
Era como tivéssemos esperado a vida inteira por aquele momento. Nossa sincronia beirava a perfeição...
Só então percebi que Emma havia levado uma bala na perna. Quando me ajoelhei para conferir a gravidade do ferimento, vi Emma balançar a cabeça, indicando que estava bem.
Lentamente ficamos de pé. Por causa do ferimento, Emma teve de se apoiar em mim.
Gostei disso.
Quando nos viramos, já prontas para atirar...
Fomos surpreendidas pelo mais absoluto silêncio.
Não havia sobrado ninguém para rebater nosso ataque. Absolutamente ninguém.
Zero.
Esperamos um instante, suspeitando alguma surpresa de última hora, receando que o fim da nossa tormenta não tivesse passado de um sonho passageiro.
Mas a única coisa que se ouvia naquele silêncio lúgubre era a nossa respiração ofegante.
Então era verdade. A guerra tinha chegado ao fim. E ainda estávamos vivas.
Com um suspiro de alívio, jogamos ao chão nossas armas ainda quentes.
Olhamos uma para a outra.
Nossos lábios se buscaram mutuamente. E nos beijamos em pleno campo de batalha, comemorando a nossa sobrevida como se fôssemos as duas últimas pessoas na face da Terra.
Um ruído interrompeu o nosso enlevo. Imediatamente nos viramos, sacando novas armas do colete.
Quatro canos apontavam na direção do barulho.
Mas era apenas a varanda da casa cenográfica que acabara de sucumbir às chamas e desmoronar.
Dezenas de corpos inertes cobriam o chão como se estivessem dormindo. Ali estavam quase todos os assassinos de aluguel do mercado, mortos. Mr. Gold e Cora haviam perdido todos os seus funcionários.
Todos, menos as Sras. Swan-Mills.
Eu não sabia dizer onde nossos chefes poderiam estar naquele momento. Mas sabia que, em algum lugar, de alguma maneira, eles tinham assistido a tudo. Podia imaginar a expressão de surpresa no rosto deles. O choque. O horror que sobreviera aos respectivos quadros de funcionários.
Durante muito tempo, ambas as agências dependeriam da colaboração de terceiros, se quisessem continuar operando.
E eu conhecia duas excelentes freelancers que talvez pudessem ajudá-los. Pelo preço justo, é claro.
Meus olhos piscaram freneticamente quando saímos à luz do dia.
“Bonnie e Clyde, Butch e Sundance, Thelma e Granny... Essa é pra vocês!” não pude deixar de pensar.
Meu Deus, nossa tormenta tinha chegado ao fim. Nós estávamos livres! Livres!
Então as palavras escaparam da minha boca:
— Emma...
— Sim?
— Quero ter um filho.
EMMA
De repente fui tomada de um sentimento estranho. Como se tivesse acabado de levar um soco na boca do estômago. E ao mesmo tempo como Super-Heroína.
Uma mulher esperta, essa minha Regina, dizer aquilo, naqueles circunstâncias...
— Quero ter um filho — foi o que ela disse.
E, olhando em seus olhos, eu soube imediatamente: eu também queria ter um filho.
Situações de vida e morte faziam parte da rotina do meu trabalho. Mas agora Regina havia mudado tudo.
O amor tem o poder de fazer a gente pensar nas coisas. Na vida, na morte, na eternidade... E no significado oculto de tudo isso!
O reencontro com Regina me havia dado uma nova razão de viver.
É claro que fiquei apavorada com a proposta dela!
Mas e daí? Meu trabalho envolvia coisas que fariam a maioria das pessoas borrar as calças de tanto pavor!
Um filho não poderia ser tão difícil assim.
— Tudo bem, meu amor — eu disse baixinho.
E, vendo o sorriso que brotou nos lábios dela, tive certeza de que não faltaria com minha palavra.
REGINA
Exaustas, imundas de sangue e suor, saímos do prédio como duas pistoleiras de bangue bangue, armas ainda em punho, apenas uma precaução contra possíveis surpresas.
Clientes da loja escondiam-se atrás dos carros. Velhinhas rezavam. Bebês choravam.
Marmanjos também.
De repente, uma mulher correu na nossa frente.
Emma levantou a arma para atirar...
Mas segurei o braço dela a tempo.
— Não precisa. Essa daí é de carne e osso.
Emma crispou os lábios; mas depois, aliviada, abaixou a arma.
Ajudei-a a subir na van e entrei pelo lado do motorista. Estávamos ambas exaustas. Meu Deus, o que eu não faria por um minuto de descanso? Mas as sirenes começaram a gemer ao longe.
Tínhamos de sair dali o quanto antes.
Olhei para o relógio. Se tudo tivesse acontecido de acordo com nossos planos, Mr. Gold e Cora estariam, naquele momento, computando suas respectivas baixas — trinta homens, pelo menos, da parte dela; não tive tempo de contar as vítimas da parte dele. Ali estava todo o contingente, tanto de um quanto da outra, na costa Leste. Talvez estivessem até aliviados por não terem convocado reforços das agências da costa Oeste, Londres e Taipei. Mas então seriam surpreendidos por uma visitinha de Neal Cassidy, que acreditava estar ali para uma reunião de prestação de contas. Ah, sim, o sinal de alerta no computador de Mr. Gold certamente denunciaria a presença de um explosivo qualquer... Mas era pouco provável que Cassidy encontrasse o cartão de crédito que Emma havia plantado no bolso dele.
Olhei para Emma e senti um tremor repentino.
Percebi que ela havia sentido a mesma coisa.
Saindo do estacionamento, cobri a mão de Emma com a minha e senti nosso sangue e nosso suor se misturarem.
Ela sorriu e recostou a cabeça no banco, olhos semicerrados. Eu conhecia muito bem aquele semblante: Emma lutava contra o sono. Pois era isso mesmo que devia fazer, dormir. Precisava do descanso. Quanto a mim, bastava a felicidade de conduzir minha heroína alquebrada de volta para casa.
Mas... que casa?
Onde ficava isso?
Nossa casa havia sido demolida.
Pensei nos móveis lindos que havíamos comprado, nos pequenos enfeites, nas obras de arte. Todas as caixas no porão, nossos pertences devidamente organizados em ordem alfabética.
Tudo isso tinha virado pó.
Meu Deus, tínhamos destruído tudo o que havíamos construído juntas. Não restava nada de pé.
Para onde iríamos agora?
Foi então que Emma sussurrou meu nome enquanto dormia.
Virei o rosto e sorri.
Todavia, quando ela se moveu no banco, vi a pontinha de um cantil de prata emergir do mesmo bolso. O cantil que eu havia lhe dado de presente tantos anos antes.
Algo havia sobrevivido afinal.
Uma garrafinha de prata. Com a qual poderíamos brindar nossa vida nova dali em diante.
“Às balas que não nos encontraram”, eu havia mandado gravar. E foram muitas essas balas. Não só as que haviam saído da boca de uma arma de fogo.
Mas também aquelas que nós mesmos havíamos disparado uma contra a outra, balas emocionais, ao longo de seis anos de casamento. Felizmente havíamos sobrevivido para conversar sobre elas.
Foi então que me dei conta: nossa casa havia sido destruída, mas não o nosso lar.
Tendo crescido sem um lar, fiz todo o possível para construir outro, e com meu próprio esforço. Um lar perfeito, cheio de objetos que acreditava amar. Por um nefasto processo de lavagem cerebral, fui levada a crer que perfeição era o mesmo que segurança, permanência, amor.
Mas aquilo que tínhamos, eu e Emma, não passava de uma casa cheia de coisas. Nada que de fato importasse.
Agora podíamos ir para qualquer lugar e ali teríamos um lar. Desde que ficássemos juntas.
Eu já não era mais uma recém-casada ingênua: sabia que muitas outras balas nos aguardavam no futuro — tanto no trabalho quanto fora dele —, mas havíamos provado a nós mesmas que estávamos à altura do desafio.
Nossa vida seria confusa, perigosa e imprevisível.
E eu mal podia esperar até que ela começasse.
EMMA
Regina. Que mulher extraordinária.
Nós havíamos conseguido. Agora tínhamos uma nova chance...
Amanhã...
Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz...
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