Mrs. & Mrs. Swan-Mills
17 Divórcio Consensual
Notas iniciais
REGINA
Então saímos vivas daquele enrascada. Não sei se por causa, ou apesar, do nosso trabalho em equipe.
E depois?
Tantas mentiras... O casamento dela, os meus pais... Que chances nós ainda teríamos como um casal?
Na noite anterior eu chegara a achar que finalmente havíamos nos reencontrado. Mas a realidade mostrou as suas garras logo na manhã seguinte, e agora eu já não sabia de mais nada.
Às vezes as coisas se quebram de tal forma que inviabilizam qualquer possibilidade de reparo.
Emma e eu olhamos uma para a outra e depois para a rodovia.
— Alguma sugestão para o café da manhã? —perguntei. — Deixei minha carteira em casa. — A gente pode voltar — sugeri.
Emma olhou para mim e, visivelmente triste, fez que não com a cabeça.
É, ela tinha razão.
EMMA
Quando apareci na lanchonete, Killian estava tão entretido com a montanha de comida à sua frente que sequer notou minha presença.
Só me viu quando levantou a cabeça do balcão para conferir a bunda da garçonete.
— Emma! — ele disse. — Puxa, até que enfim!
— Bom dia, Killian.
Ele me pegou pelo braço e foi logo perguntando:
— E então, eliminou a perua?
Fiz um sinal para ele, indicando que não estávamos sozinhos. Sentada no banco ao meu lado, Regina sorriu para Killian com uma gentileza que ele certamente não merecia.
Acho que foi a primeira vez que vi o cara enrubescer.
— Bem, deixa eu me corrigir...
Mas Regina foi direto ao assunto.
— Killian, nós temos um probleminha.
— Não, não — ele retrucou com sarcasmo. — Os viciados em crack têm um probleminha. Vocês duas... Como posso dizer... — Killian girava a mão no ar como se procurasse palavras para descrever um vinho raro. — Vocês duas estão fodidas!
Não era exatamente isso que eu gostaria de ter ouvido.
— Pode ser — falei.
— Pode ser? — exclamou Killian. — Todo o nosso pessoal está atrás de você, cara! E provavelmente o pessoal dela também!
— Mas você, não — observei.
Killian balançou a cabeça e voltou a atenção para a bomba calórica à sua frente.
— Hoje estou fazendo uma espécie de operação tartaruga, se é que você me entende — ele resmungou. — Pelos velhos tempos. E você me deve uma grana, eu acho.
A garçonete parou ao nosso lado e, sorrindo ao mesmo tempo que mascava uma bolota de chiclete, perguntou:
— E aí, vão pedir alguma coisa?
— Um waffle com manteiga e a metade de um mamãozinho — respondi. — E algumas torradas de pão de centeio para a senhorita.
— Bem douradinhas, por favor — acrescentou Regina.
Killian levantou sua xícara.
— E pra mim um pouco mais de...
Mas a garçonete já tinha ido embora. Talvez já soubesse da sovinice de Killian para as gorjetas.
Regina colocou a mão esquerda sobre a minha — um gesto delicado e manso —, e pela primeira vez percebi que ainda usava nossa aliança de casamento. Senti um repentino aperto no coração.
Virei-me para Killian e disse:
— Você não acha que se a gente pedir desculpas eles dão o nosso emprego de volta, acha?
— Se ela trabalha para quem eu desconfio que ela trabalha... — Killian olhou para Regina à espera de uma confirmação.
Ela confirmou com um gesto da cabeça.
— ...então você é Coca-Cola e ela é Pepsi. Árabes e judeus. Tom e Jerry. — Killian estava claramente preocupado. — Quando alguém sai do controle deles, aí não tem mais volta.
— Então o jeito é fugir — disse Regina sem mais nem menos.
Eu já havia pensado naquela possibilidade. Mas, no nosso mundo, fugir não era lá uma coisa fácil de fazer.
— Na sua opinião, quais são as nossas chances? — perguntei.
— Cada uma pro seu lado? —Killian varreu o último pedaço de ovo com uma torrada e mandou tudo para dentro. — Nesse caso eu diria uma chance em dez. Juntas, uma chance em cem.
Não imaginava que a situação pudesse ser tão ruim assim. Xinguei alguma coisa baixinho. Killian não tinha o menor discernimento quando o assunto era comida, mas era bastante confiável quanto a todo o resto.
— Ei — ele disse, até com certa doçura, arrotando enquanto se afastava do balcão —, deve haver um motivo pra Deus ter criado o divórcio consensual.
Regina e eu precisamos de alguns segundos para digerir aquelas palavras. Subitamente fiquei sem fome. Cancelamos nosso pedido, deixamos uma gorjeta sobre o balcão e saímos da lanchonete.
Sem dizer palavra, caminhamos lentamente pela calçada até chegarmos ao estacionamento.
Ali paradas, esperei que Regina se afastasse primeiro. Sei lá, queria uma última olhada ou qualquer coisa assim. Mas ela não se mexeu, esperando que eu me afastasse primeiro.
Que diabos a gente podia fazer? O mundo inteiro parecia contra nós. Colocávamos uma à outra em perigo só por estarmos juntas no mesmo quarteirão.
Nossos olhares se entrelaçaram. Provavelmente pela última vez.
No entanto... quando demos por nós estávamos atravessando a rua. Juntas. Em direção a uma van.
Algo nos mantinha conectadas. Eu não tinha a mais vaga ideia do que poderia ser. E tampouco queria saber.
Mas havíamos chegado à conclusão de que estávamos juntas na mesma enrascada. Pelo menos por ora. E “por ora” era tudo que nos havia sobrado.
— A gente precisa de alguma coisa pra barganhar em troca das nossas vidas — eu disse.
Regina concordou.
— Algo ainda mais importante pra eles do que ver a gente pelas costas.
Caramba, eu quase podia ver o computador rodando dentro daquela cabecinha linda, surfando a web daquela mente brilhante. E de repente ela sorriu. Como um gato. Havia encontrado a resposta.
— O que foi?
Regina me contou sua ideia.
Ela bolara um plano! Mais que isso, tinha coragem suficiente para colocá-lo em prática.
De início hesitei em concordar com ela. Não queria mais um motivo para admirá-la. Mas a ideia era boa.
Puxa, se a gente tivesse uns dez minutinhos para...
Mas o tempo era fundamental, como ela mesma havia dito. Cada segundo que esperávamos era um segundo a mais para que alguém de nossas agências colocasse uma bala na nossa testa.
O plano?
Nós iríamos atrás de Neal Cassidy.
Isso mesmo. Aquele filho-da-puta de quem estávamos atrás quando ambas tentamos nos matar, no calor insuportável daquele deserto. Todo mundo queria o cara: minha agência, a agência de Regina, o FBI. Por quê? Não tínhamos a menor ideia. Mas sabíamos que, se conseguíssemos botar as mãos nele, talvez pudéssemos barganhar algum tipo de acordo que nos tirasse daquela situação infernal.
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