Mrs. & Mrs. Swan-Mills
18 Trezentos e Doze
Notas iniciais
EMMA
Estávamos em uma van ao lado do prédio que íamos invadir, aparentemente o FBI guardava o homem no palácio da Justiça Federal.
— Você terá 30 segundos. Corto a força e você pega o garoto. Simples. Entendeu? — Regina informa.
— Entendi. — afivelo o equipamento de segurança. Ela parecia tão segura de si. Logo a curiosidade me domina. — Diga, quantos você matou?
— Faz diferença? — questiona.
— Eu digo primeiro?
— Vá em frente.
— Não sei a conta certa, mas... — claro que sabia mas não queria ficar me vangloriando. — Eu diria... Uns 57, 63.
Ela fica quieta, como se tivesse digerindo a informação.
— Estou no ramo há muito tempo. Adquiri experiência, mas o importante é que...
— 312. — diz rapidamente.
— 312?! — só podia ser brincadeira. — Como?
— Às vezes eram dois ao mesmo tempo. — responde traquilamente, como se estivesse comentando sobre o tempo.
Fiquei ali, digerindo a novidade. Tive de me esforçar para não reagir como uma criança, mas, porra, trezentos e doze era um número muito alto de alvos derrubados!
Um bip soou num dos monitores, mas eu mal percebi. Foi preciso que Regina me alertasse com uma cotovelada.
— O neném está no berço — ela disse, já totalmente concentrada no trabalho. — Está pronta?
Fiz que sim com a cabeça, vesti as últimas peças de equipamento e desci da van.
— Trezentos e doze... — resmunguei. E bati a porta atrás de mim.
REGINA
Eu adorava aquilo.
Claro, é sempre divertido agir — a adrenalina, a encenação, a caça, a fuga.
Mas ficar ali, na van de apoio, era também muito legal — aquela parafernália toda lembrava um filme de Guerra nas Estrelas ou um videogame de última geração.
Eu não podia negar: sentia certo prazer em estar no controle das coisas. Do lado de fora, a van parecia uma furreca comprada num ferro-velho de quinta categoria.
Do lado de dentro, parecia uma estação móvel da Nasa. Eu estava cercada de monitores que me davam todo tipo de informação: a planta baixa do prédio, os sistemas de alarme etc. Além disso, por meio da minicam que Emma levava sobre a testa, via tudo o que se passava do ponto de vista dela: participava da diversão, mas não precisava sujar as mãos.
Enquanto Emma penetrava no prédio, eu digitava dados, conferia leituras, monitorava a movimentação do lado de dentro — eu podia ver coisas que Emma não via e dizer à ela o que fazer, para onde ir, o que evitar. Sou uma excelente digitadora, diga-se de passagem. E raramente cometo erros tipográficos.
Digitei alguns comandos — e os sistemas de alarme se desarmaram. Outros comandos — e os sistemas de segurança entraram em pane. Checagem do monitor: Emma se arrastava pelos dutos de ventilação, nada muito interessante de acompanhar.
Mas...
Com o nosso sistema de comunicação, Emma podia falar baixinho num minúsculo microfone, e eu ouvia tudo o que ela dizia por meio de um headphone.
— Checou o perímetro? — ela perguntou.
— Chequei o perímetro — respondi.
— Está de olho nas frequências da polícia?
— Estou de olho nas frequências da polícia.
— Conferiu o...
— Ei! — eu disse, irritada. — Essa não é a minha primeira vez, sabia?
— Nem me fale.
“Engraçadinha!”
Emma continuou se arrastando, a luz da lanterna iluminando as paredes. Chequei sua posição na planta dos dutos de ventilação.
— Emma, vire pra esquerda.
Ela não virou para a esquerda.
— Emma! Pra esquerda!
De repente a imagem transmitida pela minicam começou a chacoalhar e a rodar — como se alguém tivesse arrancado o equipamento da cabeça de Emma.
O que poderia estar acontecendo?
E então o rosto de Emma ocupou toda a tela do monitor — a lanterna apontada para cima, sob o queixo, criava uma estranha composição de luz e sombra que a deixava parecida com um demônio.
— Não me diga o que fazeeeer... — ela disse, com uma voz de zumbi.
Teria achado aquilo engraçado se estivéssemos em pleno Halloween. Eu não podia me esquecer de que estava no controle da operação.
Felizmente ela colocou a câmera de volta na cabeça e voltou a agir como uma adulta
Logo chegou a um ponto crucial.
— Muito bem, Emma. Você está lá, você chegou — informei. — Fique aí um pouquinho. — Digitei mais alguns comandos. — Quando eu der o sinal, vá...
Pelo monitor vi que ela já seguia em frente. Que diabos estaria fazendo?
— Emma! Emma! Só quando eu der o sinal!
Um alarme soou no meu fone de ouvido. Merda! No monitor... Gente correndo, muita confusão!
Digitei como uma alucinada: “Porra, Emma!”
E então todas as luzes se apagaram. Ouvi gritos, gente tropeçando. E de repente...
Baruuum!
Emma havia conseguido detonar os explosivos. Ouvi claramente quando uma parede veio abaixo. Ouvi pessoas — guardas? — cambaleando e tossindo à medida que o gás preenchia a sala. Também ouvi um breve diálogo:
— Tem uma arma pra me dar?
— Bico calado.
— Ei! Você não pode me algemar!
— Fecha a matraca, meu irmão.
Um prisioneiro e um guarda, ao que parecia. Neal Cassidy?
Fiquei atenta, à procura de algum sinal que revelasse quem eram aquelas pessoas.
Barulho de corpos caindo ao chão. O gás começava a fazer efeito. Emma usava uma máscara de oxigênio, o que lhe permitia seguir em frente sem perder a cabeça. Tudo parecia acontecer de acordo com o planejado. Logo estaríamos longe dali.
Emma era excelente no que fazia; eu já tinha tido a oportunidade de vê-la em ação antes, mas mesmo assim...
Essa era a pior parte de ficar no controle.
A espera...
Minutos depois avistei uma figura com o tronco arqueado, correndo na direção da van.
Emma arrastando um corpo.
Torci para que não tivesse pegado o corpo errado no meio daquela confusão toda.
Abri a porta lateral e vi o rosto de Neal Cassidy quando Emma o jogou no banco de trás. Era ele mesmo, o homem que eu havia visto nas fotos. Jamais esqueço o rosto de alguém. Ele ainda estava com as mãos atadas, e a corrida pelo ar fresco da noite havia anulado um pouco do efeito do gás. Ele começava a despertar.
Emma entrou na van e arrancou todo o equipamento que trazia no corpo. Graças a Deus estava sã e salva.
— Saí de lá o mais rápido que pude — falou.
Mas agora que eu sabia que estava tudo bem com ela...
— Falei pra você esperar o meu sinal! — berrei a plenos pulmões. — Mas não foi isso o que você fez, foi?
— Eu sei, eu sei... Mas achei que já teria uns sessenta anos quando você finalmente desse o maldito sinal.
— Alguém com sessenta anos teria mais juízo que você!
— Poxa, Regina! Precisa sempre ter tudo sob controle? Esse nosso trabalho é noventa por cento intuição, você sabe muito bem disso.
— Você desviou do nosso plano! —tive de lembrá-la. — E a sua intuição disparou todos os alarmes naquele prédio! — Dei um tapa no volante para aliviar a tensão. — Ah, é sempre assim!
—É sempre assim o quê?
—A gente senta, discute tudo e concorda com um plano. Mas depois você vai e faz exatamente o que dá na sua telha!
—Porque você nunca leva em consideração o que eu quero! — Emma gritou. — É sempre o showzinho da Regina!
Showzinho da Regina?
— Claro que sim — tive de retrucar. — Já tive a oportunidade de ver o showzinho da Emma e sei que não vale um tostão furado!
Emma começou a protestar, mas não deixei que continuasse, fui logo dando um exemplo.
— O aniversário da minha mãe, quando alguém esqueceu de levar o presente.
— O aniversário da sua mãe de mentirinha, você quer dizer! — pelo retrovisor, vi que Emma estava à beira de um ataque. — Esse casamento não tem a menor chance de dar certo — ela sussurrou.
E por fim Neal Cassidy falou:
— Quem são vocês, afinal?
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