Mrs. & Mrs. Swan-Mills
5 Bem-vindo ao último dia de sua Vida
Notas iniciais
EMMA
Lembrei-me da festa dos Nolans a caminho de casa. Essa não era exatamente minha ideia de felicidade. Mas havíamos dito que estaríamos lá, e achava importante cultivar a boa vizinhança.
Assim que entrei em casa, constatei que Regina já havia voltado do “trabalho”, pois ouvi passos no andar de cima, em nossa suíte. Então subi as escadas para lembrá-la da festa.
Não vou dizer que me esgueirei até o quarto, mas admito que não fiz o menor esforço para anunciar minha chegada.
No vão da porta, vi que Regina sofria para abotoar um vestido rosa. Havia algo de estranho em seus movimentos, mas eu não sabia exatamente o quê.
De repente ficou imóvel como uma gazela pressentindo a aproximação do caçador.
Depois se virou.
— Querida! — disse com um sorriso forçado. — Não vi você lá embaixo.
— Acabei de chegar. — Meus olhos estavam pregados nos dela. — Como foi o trabalho?
Ela deu de ombros, indiferente.
— Tranquilo, o de sempre.
Quando se aproximou de mim, farejou o ar — as narinas latejando de reprovação — e franziu as sobrancelhas.
— Andou bebendo com o Killian outra vez?
— Fui assistir ao jogo de basquete no bar — falei como quem não quer nada — e apostei uns trocados com o pessoal.
— E ai, se deu bem?
Pensei em Lucky e nos acontecimentos da noite.
— A sorte demorou a chegar, mas logo foi embora — respondi. Sei que o humor negro não é politicamente correto, mas, caramba, a gente precisa se divertir um pouco quando não pode contar com uma conversa estimulante na companhia da própria mulher.
Regina passou por mim e saiu do quarto. Fez o que pôde para evitar que nos tocássemos. A famosa dança dos casamentos falidos. Segui-a escadaria abaixo e peguei uma garrafa de vinho ao passarmos pela cozinha.
Estava até aliviada por termos uma festinha pela frente.
Um pouco de conversa fiada, regada a um bom vinho, talvez fosse mesmo a melhor pedida da noite.
— Tudo bem no escritório? — perguntei, já na varanda dos Nolans.
— Tudo ótimo — não falava muito mais do que isso quando o assunto era trabalho. — E o jogo, como foi?
— Péssimo — respondi sem pensar. — Os Knicks perderam por um ponto na prorrogação.
— Os Knicks jogaram hoje? — ela perguntou, ajeitando algumas mechas do meu cabelo como fazia de vez em quando.
— Jogaram. Ei, pára com isso... — eu disse, voltando as mechas para o lugar de sempre e tentando me lembrar se os Knicks tinham realmente jogado naquela noite.
Felizmente a porta se abriu, e David e Mary nos receberam como se fôssemos suas melhores e mais antigas amigas.
— Bem-vindas, vizinhas!
— Oi! — eu disse, caprichando no sorriso para que não parecesse tão falso.
Regina e eu ficamos juntas o suficiente para que nos servissem os drinques e nos julgassem o mais feliz dos casais. Depois nos dispersamos, visitando cada uma das rodinhas de conversa.
Acabei chegando ao piano de meia cauda, onde um convidado com o cabelo emplastrado de gel tocava alguma coisa: “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, ou a “Mondschein”, de Beethoven, eu não sabia ao certo. Depois atravessei uma nuvem de fumaça de charutos produzida por um grupo de investidores que não falava de outra coisa a não ser de ações e debêntures.
— Está brincando? — disse um deles. — A Duxbury jamais chegará a esse preço! Ouvi dizer que as ações estão sendo abatidas a cutelo.
— Um banho de sangue — confirmou um outro.
— E você, Emma, como se saiu neste trimestre? Levou uma surra?
Tive a impressão de que alguém estava se dirigindo à mim. Isso mesmo. Precisei relembrar a pergunta.
— Na verdade — eu disse, apontando o polegar na direção hipotética da minha casa —, toda a minha grana está enterrada naquele jardim ali ao lado.
O que eles acharam engraçadíssimo — muitas gargalhadas. Por uma fração de segundo fiquei tentada à dizer àquela gente o que mais estava enterrado no meu jardim, mas ainda não estava bêbada o suficiente, e eles também não.
Um problema que precisava ser remediado já.
REGINA
Cheguei em casa pouco depois das nove. Não tinha tempo para tomar banho; portanto, peguei um vestido qualquer do meu guarda-roupa de “mulher recatada” e joguei-o por cima do modelito dominatrix que eu vestira antes.
Eu ainda fechava os botões quando meu alarme interno disparou. Logo pude identificar a invasora no espelho da cômoda.
Emma, parada no vão da porta, me analisando. Na verdade, quase me matou de susto. Que ousadia, a dela. Ninguém espreita Regina Mills.
Além do mais, que espécie de esposa espreita a outra dessa maneira?
Por quanto tempo ela estava ali, me olhando? Teria visto o que eu usava por baixo do respeitável vestidinho rosa?
Andamos pelo quarto cuidando para não nos tocarmos — como se dançássemos uma quadrilha às avessas, que somente os casais de longa data sabem dançar —, trocamos algumas alfinetadas de cunho passivo-agressivo e por fim nos dirigimos à casa dos Nolans, bem ao lado da nossa. Eu não era lá muito fã das reuniõezinhas que eles costumavam oferecer, mas naquela noite fiquei feliz por ter onde me refugiar.
Ainda antes de entrarmos, Emma começou a fazer perguntas sobre meu trabalho. Estranho, pois havia muito ela deixara de se interessar. Fiz o que pude para não começar a transpirar, o que se mostrou quase impossível, dada a quantidade de couro que eu trazia debaixo da minha fantasia de country club. Para encobrir meu nervosismo, fiz algum comentário sobre o jogo de basquete e tentei ajeitar os cabelos dela, o que serviu apenas para deixá-la irritada.
No entanto, quando os Nolan abriram a porta, Emma e eu estampávamos no rosto nossos sorrisos pré-fabricados de casal perfeitamente feliz.
Os anfitriões nos fizeram entrar e nos serviram drinques; nesse meio tempo, pensei com os meus botões: “Que diabos estou fazendo aqui?”
Toda aquela gente que víamos nos churrascos e nas festinhas de fim de ano. “Acham que somos o casal perfeito”, pensei enquanto sorria e retribuía os beijinhos. Talvez eu estivesse apenas cansada. Missões como a daquela noite às vezes me deixavam deprimida — eu preferia mil vezes o bom e velho tiro certo.
Além disso, não se tratava apenas de um disfarce; aquela era a minha vida, aqueles eram os meus vizinhos. Pessoas legais — a maioria delas —, talvez só um tantinho enfadonhas. Esse era o mundo perfeito com o qual eu sonhara desde menina.
Portanto, talvez fossem os trajes de dominatrix sob o vestido que me davam a sensação de não pertencer àquele lugar. Uma “vida dupla” para a maior parte daquelas mulheres significava abandonar as obrigações de mãe e esposa para presidir voluntariamente a Associação de Pais e Alunos. O que diriam se soubessem o que realmente faço da minha vida?
Como de costume, Emma logo me abandonou em favor da conversa mole dos outros. Deixando-me livre para trocar receitas de bolo, dicas de jardinagem e fofocas sobre os vizinhos com as outras mulheres.
Então ali estava eu, conversando com três mulheres cujos acessórios incluíam um bebê entre os braços.
A mamãe número um exibia sua queridinha como se fosse a primeira menina a nascer no planeta. Tive de sufocar o riso quando o bebê “perfeito” regurgitou uma gosma horrível sobre as calças do terninho dela.
Mas a mamãe número um apenas sorriu, resignada; depois olhou para mim e disse:
— Segura ela um instantinho só enquanto eu me limpo?
O quê?
E a mulher jogou a criança nos meus braços. Nenhuma das situações pelas quais eu havia passado naquele noite chegou a me assustar tanto quanto aquela.
— É que... —tentei dizer.
Mas a mamãe já havia desaparecido.
Prendi a respiração e baixei os olhos para ver aquele pacotinho que não parava de se contorcer. Armas, nenhum problema. Homens se comportando como bebês — eu tirava de letra.
Mas bebezinhos de verdade — eu mal sabia como segurá-los. “Deus queira”, pensei “que eu não deixe a pobrezinha cair no chão!”
Por um instante a menininha e eu ficamos olhando uma para a outra; ela parecia tão assustada quanto eu por ter sido jogada naquela inesperada relação. Talvez pudesse perceber que eu não era do tipo maternal.
Bebês não são a minha praia. E daí? Foi uma escolha que fiz muito tempo atrás. Nunca tive alguém de quem pudesse depender e escolhi uma vida em que não há lugar para ninguém que dependa de mim. Coisas como amamentar às duas da madrugada ou ficar em casa por causa de um filho com febre jamais se encaixariam na minha agenda. Sem falar que coloco minha própria vida em risco sempre que ponho os pés fora de casa para trabalhar.
Não seria capaz de fazer isso com uma criancinha.
As outras mães viam a coisa por outro ângulo. Eu era uma mulher jovem, casada, morava nos subúrbios abastados da cidade e ainda não tinha um filho! Eu via o ponto de interrogação nos olhos delas todos os meses, sempre que me viam.
— Filhos são tudo na vida, sabia? — disse a mamãe número dois.
— Também acho — interveio a mamãe número três. — É como se eles fossem capazes de enxergar até a nossa alma!
“Essa não!” pensei. Olhei para o E.T. em meus braços, que também olhava para mim. Seria possível que a espiãzinha fosse mesmo capaz de ler meus pensamentos? De ver minha alma e saber o que eu fizera uma hora antes com essas mãos que agora a seguravam?
Respondi às mamães com um sorriso amarelo e tive a sensação de que a qualquer momento eu seria presa, julgada e condenada pelo estilo de vida que havia escolhido.
E, de repente... ela sorriu para mim.
A pequena assassina!
Por um instante não consegui respirar. Foi como se tivesse recebido um choque elétrico direto no coração.
— Ela gosta de você! — disse Mary, olhando sobre meus ombros. Por fim soltei o ar dos pulmões e sorri de volta para a criaturinha adorável. “Obrigada por não me delatar, bonitinha.”
Senti uma espécie de alívio. Mas não foi só isso. Senti também alguma outra coisa, muito estranha, que eu não sabia ao certo como descrever. De repente, ao tentar pegar o meu colar, a diabinha abriu o botão de cima do meu vestido rosa, revelando um pedacinho do couro que eu usava por baixo.
Rapidamente fechei o botão, na esperança de que ninguém tivesse visto nada.
Por sorte a atenção das mamães já havia se virado para alguma bugiganga nova nas prateleiras de Mary. Mas eu sentia claramente um par de olhos distantes pregados em mim.
Os olhos de Emma, observando-me com o bebê no colo.
Estranho. Eu jamais havia visto tanto medo estampado no rosto dela.
Deixamos a festa pouco tempo depois. Falei que estava com uma dor de cabeça horrível, e Emma desculpou-se dizendo que tinha uma reunião importante pela manhã.
Minutos mais tarde estávamos de volta a nossa casa adorável, vestindo nossos adoráveis pijamas, escovando os dentes diante das nossas adoráveis pias conjugadas. Nosso rosto refletido nos espelhos me fez lembrar daqueles quadros de museu, muito antigos, em que as pessoas são retratadas sem nenhum brilho no olhar.
Os gestos que fazíamos ao escovar os dentes pareciam ruidosos demais no silêncio.
Emma cuspiu na pia e esfregou os olhos. Olhei para ela — aquela mulher com quem eu partilhava as atividades mais ordinárias, porém muito íntimas, do dia-a-dia — e vi uma estranha.
Eu não fazia a menor ideia do que se passava na cabeça dela. Um mistério.
Mas não um mistério bom.
Encontrei uma mulher certa vez, uma misteriosa desconhecida — uma mulher que dançava no fio da navalha e jamais olhava para trás, a não ser para tomar minha mão e me puxar para junto dela.
Mas quando tentei seguir seus passos — quando nos casamos —, Ela desapareceu. Quem sabe essa mulher jamais existiu?
Emma levantou o rosto e viu meus olhos cravados na figura dela. Sorri com os lábios retesados. Então fomos para a cama. Apagamos as luzes.
Puxei as cobertas até o queixo e dei as costas para a minha esposa. Talvez, se procurasse, pudesse encontrar aquela mulher em meus sonhos.
Não sei se dormi. Mas, deitada de lado, ainda de costas para Emma, tive a impressão de que via os segundos da minha vida se sucederem no relógio digital, os minutos parecendo horas.
11h15. 12h04. 1h37...
3h00.
De repente, dois telefones tocaram. Emma e eu nos sentamos imediatamente e nos viramos em direções opostas.
Seria possível que ela também estivesse acordada todo aquele tempo?
Acendemos nossas luminárias. Depois nos sentamos na beira da cama — cada uma de seu lado, como imagens espelhadas uma da outra — e atendemos nossos telefones.
— Regina Mills.
— Emma Swan.
Do outro lado da linha, uma voz masculina. Elegante, sotaque britânico. Era meu chefe. Codinome: Mr. Gold. Eu podia vê-lo em seu escritório escuro e sóbrio; na minha imaginação Ele jamais saía daquele lugar nem sequer dormia, a mente sempre ocupada com novos planos secretos.
— São três da manhã — eu disse baixinho. — Tudo bem... ?
Uma nova missão. Urgente. Mr. Gold me deu as instruções com palavras curtas e diretas, dispensando qualquer tipo de amenidades. Nenhum “Olá, como vai?”. Nenhum “Acordei você? Nenhum “Dê um abraço em sua esposa por mim”.
— Sim. Tudo bem. Claro — eu disse.
Um clique e a chamada se interrompeu. Nenhuma palavra de despedida. Atrás de mim, Emma ainda falava em seu celular.
— Essa foi a segunda vez nesta semana — Ela sussurrou. Uma pausa longa e: — Certo. Eu compreendo. Tudo bem.
Ouvi o clique do celular se fechando.
Ficamos ali, em silêncio por algum tempo. Eu podia ouvir os pensamentos de Emma.
Viramos uma para a outra no mesmo instante.
— O que foi? — perguntou Emma casualmente.
— Papai não está muito bem — eu disse, afetando um ar de preocupação. — Mamãe está apavorada, acha que é pneumonia. Provavelmente é só uma gripe.
Emma refletiu um pouco e, com cautela, disse:
— Talvez seja melhor você faltar ao trabalho amanhã... Não custa nada dar um pulinho até lá e ver como o velho está.
Analisei o rosto de Emma através da penumbra.
“Por que tanta gentileza?”, pensei.
— Sua mãe ficaria super feliz — Ela continuou — se você passasse a noite na casa deles.
“E você também, não é?”, tive vontade de perguntar. Mas em vez disso falei:
— Você é um anjo.
— Só estou pensando na saúde do velho — Ela retrucou, sacudindo os ombros.
“Na saúde do velho... Sei.”
— E a sua chamada, quem era?
— Escritório de Boston — Ela respondeu de pronto. Talvez um pouco demais. — Mandaram um e-mail com as estatísticas de tensão-deformação da barragem. — E sacudindo novamente os ombros, emendou: — De qualquer jeito eu já sabia que os próximos dois dias não seriam nada fáceis. Vou trabalhar como uma mula de carga.
Então balançamos a cabeça uma para a outra, satisfeitas. Eu havia engolido a história dela; e Ela, a minha. Como numa coreografia de balé, apagamos juntos as luminárias e voltamos para de baixo das cobertas.
— Maldita barragem — sussurrei na escuridão.
— Maldita, mesmo — ela retrucou.
Fechei os olhos e fiquei ali, no escuro, mãos cruzadas sobre o peito como as de um cadáver no caixão. E podia sentir que Emma fazia a mesma coisa.
Lenta mas progressivamente, estávamos nos enterrando vivas.
EMMA
Madrugada — a melhor parte do dia para mim. O mundo se equilibrando entre a noite e o dia. Escuridão e luz. Passado e futuro. Durante esse breve instante, tudo parece possível.
Maleta na mão, assoviando uma melodia qualquer, atravessei o gramado dos fundos em direção ao anexo que funcionava como depósito de ferramentas. Como qualquer pessoa feliz se preparando para mais um dia de trabalho.
Uma vez dentro, tranquei a porta e parei de assoviar. Aquele quartinho não passava de uma fachada para as verdadeiras ferramentas do meu negócio.
Como sempre, a bancada do torno deslizou facilmente para o lado, revelando uma tampa de metal sobre o chão. Ajustei os números do cadeado, soltei a lingueta de metal e abri o alçapão. Arrastando a maleta atrás de mim, desci uma escada, acendi a luz e avaliei as possibilidades. As pilhas de cédulas guardadas ali estavam criteriosamente organizadas seguindo país emissor. Minha coleção de armas era quase um arsenal: morteiros, granadas, uma miríade de armas portáteis. Escolher uma delas era como fazer compras num hipermercado.
Eu precisava de algo leve e quase invisível, mas com alcance e poder de fogo razoáveis. Encontrei o que buscava, joguei na maleta e tranquei.
Assoviando, caminhei até a garagem, tranquei a maleta no porta-malas do carro e saí de ré em direção à rua, já inteiramente concentrada no trabalho. Por puro condicionamento, olhei pelo retrovisor e me lembrei de que tinha negligenciado uma de minhas obrigações conjugais.
Apertei o controle remoto da garagem, e a porta se fechou lentamente. E fui embora para minha outra vida.
REGINA
Eu ainda estava na cama, mas meus olhos estavam abertos. E os ouvidos, alerta. Por fim ouvi o carro saindo para a rua.
“Não se esqueça de fechar a porta da garagem, Emma.”
Ótimo. O barulho inconfundível da porta se fechando. Ela havia se lembrado, pelo menos dessa vez.
Saí da cama e fui direto para o banheiro. Não tinha tempo a perder. Quatro minutos no banho, três me vestindo (sou uma profissional, ora bolas); depois desci correndo para a cozinha e acionei a função “limpar” do forno.
Não. Não sou dessas donas-de-casa obsessivas que não conseguem sair de casa com os restos da lasanha da noite anterior grudados na grelha do forno. Era outra coisa que eu havia “Assado” na minha cozinha.
O timer apitou, e com um gesto abrupto abri a portinhola do forno. Depois digitei vários números no painel de controle e... Biiiiip! Uma advertência de dez segundos. Assim que digitei o código de segurança, o bip parou. A base do meu forno se abriu.
E eu sorri.
Era ali que eu guardava meus utensílios de cozinha especiais: armas de última geração, facas reluzentes. Limpas, lubrificadas, tudo muito organizado.
Logo que nos mudamos constatei que o melhor lugar para esconder meus segredinhos era a cozinha, uma vez que Emma não sabe sequer ferver uma água.
Analisei as opções e depois guardei na perna direita minha faca predileta.
Luzes apagadas, cafeteira elétrica desligada, fui para a garagem e saí com o carro. No para-choques, o adesivo: “Vizinhos vigilantes: mantendo nossas ruas em segurança.” Era isso o que eu fazia todos os dias, mas não exatamente da maneira que os vizinhos imaginavam.
Pouco depois eu estava num dos arranha-céus da cidade, atravessando a porta giratória em direção ao átrio. Diante dos Elevadores, conferi minha aparência nas portas espelhadas: blazer preto e justo, saia acima dos joelhos, salto alto, maleta executiva.
“Perfeito”, constatei. Eu estava pronta para o trabalho.
Subi até os andares superiores do prédio, onde ficava meu escritório. Saindo do Elevador, passei pela câmara de segurança, onde feixes de luz ultravioleta banharam meu corpo, procurando por armas e verificando minha identidade.
A logomarca da minha empresa apareceu no monitor de segurança, ao lado de uma lista de dados a meu respeito: temperatura corporal, pressão arterial, armas, jóias. Se quisessem, saberiam até a marca do rímel que eu estava usando.
“Regina Mills”, disse uma robotizada voz feminina. “Confirmado.”
Tentei abrir a porta da minha sala, mas a mesma voz de antes disse: “Aguardar contato.”
Fiquei surpresa. Aquilo não era comum. E então um rosto apareceu na tela do monitor.
Um homem de aparência familiar e elegante, o Big Boss.
Mr. Gold.
— Desculpe a intromissão — Ele disse com seu sofisticado sotaque britânico —, mas temos um... probleminha. E preciso que você cuide dele pessoalmente.
Fiquei intrigada. Aquilo não era o procedimento-padrão.
— Alvo? — perguntei.
A foto do meu novo alvo surgiu na tela.
— Neal Cassidy — informou Mr. Gold. — As especificações seguem agora mesmo. O trabalho deve ser rápido, limpo e discreto. Assenti com a cabeça e disse:
— Entendido, senhor.
Tentei abrir a porta outra vez, mas a voz de Mr. Gold me interrompeu.
— Regina...
Olhei para o monitor.
Ele hesitou um instante e depois disse apenas:
— Boa sorte.
Fiquei ainda mais intrigada. Isso era muito, muito incomum. Mr. Gold geralmente era sucinto e eficiente. E apesar de minha longa ligação com a empresa, ele raramente perdia tempo com amenidades sociais.
Então o que mudara naquele dia? A expressão no rosto dele... Havia algo de estranho ali. Mas antes que eu pudesse analisá-la melhor, a imagem desapareceu da tela.
Balancei a cabeça. Provavelmente estava imaginando coisas.
Uma vez confirmada minha identidade, a porta ao fundo do corredor se abriu, e finalmente entrei na sede da Magic-Click — uma agência prestadora de serviços na área de informática. Mas tudo isso era apenas uma fachada.
Parei por um instante e olhei ao meu redor. Puxa, como eu adoro este lugar. Aquela sala de metal, ultra-segura, fervilhava com o que havia de mais moderno em termos de tecnologia: vídeo conferência, imagens em tempo real e transbordando eficiência. Porém o mais importante de tudo era a equipe que eu havia reunido. Num setor prioritariamente dominado pelos homens, fiz questão de contratar as mulheres mais inteligentes e competentes que consegui encontrar. Elas eram maravilhosas. Cada uma escolheu um codinome para si como uma princesa da Disney. Achei aquilo simplesmente genial, afinal, princesas modernas salvam-se a si mesmas.
Cumprimentei Kathryn com um sorriso. É ela quem cuida de tudo na minha ausência.
— Bom dia, meninas, o que temos pra hoje?
Kathryn apertou uma tecla de seu computador, e uma enorme tela de plasma se acendeu com nossa logomarca e os dados relativos ao nosso novo alvo, enviados diretamente pela matriz.
Sim, Mr. Gold é rápido no gatilho.
— Muito bem, meninas — eu disse com entusiasmo —, ao trabalho!
Os dados sobre nosso alvo estavam todos ali: foto, dados biográficos, hábitos diários, tudo, menos a última vez que ele foi ao banheiro.
— Está sendo transferido hoje à noite, através da fronteira mexicana até uma unidade do governo federal — informei minha equipe. Num mapa, apontei para o local que nos interessava.
— O único ponto de vulnerabilidade é este aqui, ao norte da fronteira. Ariel, preciso da posição GPS e fotos de satélite do cânion, bem como dos relatórios meteorológicos dos últimos três dias — pedi. Ariel era a garota ruiva à quem eu recorria sempre que precisava de dados.
Minha nossa, como aquilo me fazia bem. Trabalhar era tudo de que eu precisava. Só assim eu conseguiria esquecer os momentos de confusão e dúvida que tanto me haviam atormentado na noite anterior, primeiro na festa e depois em casa. O trabalho veio como o sol, dissipando a bruma da manhã. Eu tinha uma missão a cumprir e sabia o que tinha de fazer para cumpri-la. Estava no meu habitat natural; aquele era o meu lar.
Estudei o rosto do homem, reproduzido em várias fotos. “Bonitinho”, pensei. Eu sabia que isto não deveria fazer a menor diferença. Alvo é alvo. Mas de alguma forma meu trabalho fica mais fácil quando o canalha é um ogro. Sei lá, talvez seja apenas uma coisa de mulher, mas para mim é sempre mais difícil assassinar um cara boa-pinta.
Mas ali não haveria problema. Afinal, não se tratava de nenhum Brad Pitt.
Estudei aquele rosto, observando cada ruga, cada cicatriz, o tamanho dos cílios, o formato das orelhas —firmando a ferro e fogo a imagem do sujeito na minha memória.
Neal Cassidy.
“Bem, Sr. Cassidy, seja bem-vindo ao último dia da sua vida.”
EMMA
Estacionei diante de um prédio sem nome, de frente para o rio, e depois me dirigi a um pequeno escritório no pavimento térreo — a placa do lado de fora informava: “Swan Engenharia.” Ali, pelo menos até onde sabiam as pessoas em geral, eu era apenas uma pessoa qualquer, no comando de uma empresa de engenharia com negócios no mundo inteiro.
— Bom dia, Granny — eu disse à recepcionista. Ela e o marido, Marcus, comandavam o escritório-fachada. Formavam uma dupla simpática e afável, e eu quase os tinha como pai e mãe. Mas ficaria com muita pena do infeliz que subestimasse as habilidades do casal.
Eles faziam as vezes de secretários, mensageiros e guarda-costas, tudo no mesmo pacote, e eu os tratava a pão-de-ló. Além disso, Granny fazia os melhores cookies de chocolate do planeta. Portanto eu precisava, a qualquer custo, ficar nas boas graças dela.
— Bom dia, Sra. Swan — ela respondeu. — Problemas em Boston?
— Foi o que me disseram.
Marcus entregou-me um envelope e disse:
— Um pedaço de cartão de embarque, recibos de táxi, contas de hotel... e também temos as novas especificações para a barragem — acrescentou Granny, entregando-me uma planta enrolada.
— Ótimo, ótimo. Vou dar uma olhada nisso tudo — eu disse enquanto atravessava o corredor que conduzia à minha sala.
Já estava a meio caminho quando Killian surgiu da sua toca e me alcançou. Cantarolava uma musiquinha qualquer e fazia as palhaçadas de costume.
— E aí, Killian, quais são as novidades? — perguntei, muito mais para fazê-lo parar de cantar do que para colher informações.
— Mesma coisa de sempre. Pessoas precisando morrer. — Ele deu de ombros e depois continuou: — Ah! Vou fazer uma reuniãozinha esse fim de semana. Churrasco lá em casa.
— Tudo bem, se Regina não se importar... — eu disse, e depois segui para minha sala.
Killian balançava a cabeça enquanto me via atravessar o corredor.
— Ei, Emma! Quer meu celular emprestado? Caso você queira coçar a bunda, ou qualquer outra coisa, e precise consultar a Regina antes...
Simplesmente revirei os olhos e fechei a porta sem responder. Não precisava de conselhos matrimoniais de um cara que ainda morava com a mãe.
Era ali, dentro da minha sala — o único lugar seguro da Swan Engenharia —, que as coisas aconteciam de verdade. A decoração vintage, simples e esparsa, me convinha perfeitamente. O lugar era confortável, desobstruído, eficiente. Parecia cenário de um filme de James Bond muito antigo. Ali eu conseguia me concentrar, ali eu conseguia pensar. Ali era a minha casa.
A porta se fechou. A sala estava segura.
Joguei a planta sobre uma pilha de outras plantas que nunca haviam sido abertas, jamais haviam sido lidas. Depois sentei à minha mesa e puxei o braço de um guindaste em miniatura. Imediatamente, o painel que revestia uma das paredes retrocedeu para dar lugar a uma gigantesca tela de plasma, de ultimíssima geração, exibindo a logomarca da empresa.
— Bom dia — eu disse.
— Confirmando a identidade vocal... — respondeu a voz, apenas a voz, de uma secretária. — Bom dia, Sra. Swan.
Em seguida surgiu um rosto: o de uma mulher elegante, de cabelos escuros, que trazia nos olhos a marca dos muitos anos de trabalho naquele ramo.
Era a grande mandachuva. Minha chefe. Também conhecida como Cora.
Com um único olhar, era capaz de transformar o mais sanguinário dos seus agentes em um bebê chorão.
Empertiguei-me na cadeira, surpresa por vê-la na tela.
— Olá, Emma — Cora disse em sua voz aveludada e escura. — Muitas baixas esta semana!
“Vou tomar isso como um elogio”, pensei, mas não disse nada.
— Temos uma “Prioridade Um” — ela continuou —, e portanto preciso de suas habilidades especiais.
Os dados a respeito do alvo espocaram na tela: foto, biografia, tudo, menos a última vez que ele tinha ido ao banheiro para cagar.
Eles decerto tinham todas aquelas informações também, em algum lugar.
— O nome do alvo é Cassidy — informou Cora. — Também conhecido como “o Tanque”.
— O Tanque... — quase não consegui conter o riso. — Ele parece um adolescente.
Opa! Cora contraiu os músculos da face. Não estava para brincadeiras, e o assunto, fosse qual fosse, parecia muito importante para ela. Achei prudente me comportar.
— E uma ameaça direta à firma — ela continuou, um pouco mais incisiva. — Sob custódia da CIA. Vão entregá-lo para uma conexão via helicóptero, a uns vinte quilômetros ao norte da fronteira com o México. Quero você lá, de modo que nosso alvo não troque de mãos.
Inclinei-me um pouco para ler melhor os dados que atravessavam a tela. As pessoas podem mentir, trapacear, fingir que são aquilo que não são. Mas os olhos sempre as denunciam.
Bastou uma rápida conferida nos olhos do cara para saber que não passava de um panaca.
“Neal Cassidy”, pensei, “bem-vindo ao último dia de sua vida”.
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