Mrs. & Mrs. Swan-Mills
6 Agente Inimigo
Notas iniciais
REGINA
Eu havia escolhido como base de operações o casebre de uma mineradora, velho e empoeirado, plantado no topo de uma colina rochosa em algum lugar do deserto.
Onde exatamente? Só Deus sabia — em algum lugar ao norte da fronteira entre o México e os Estados Unidos; isso era o máximo que eu podia dizer.
Vasculhei a área com um par de binóculos, mas não vi nada além de quilômetros e quilômetros de areia escaldante. Mas aquela beleza árida de alguma forma me deixou comovida. O vazio, a solidão...
Ei, mas o que era aquilo?
Uma nuvem de poeira chamou minha atenção para um comboio de utilitários que reluzia sob o sol do meio-dia enquanto avançava por uma estrada coberta de areia, quase invisível, serpenteando através do deserto.
— Alvo chegando — informei aos outros membros da minha equipe, que ouviam pelo rádio.
— Entendido —respondeu Kathryn.
Sorri. Era hora de entrar em ação.
Este era o plano: eu havia conectado um timer box relativamente simples a cabos de mineração que se estendiam até o chão do deserto. Aquela área havia sido definida em meu laptop por meio de uma imagem tridimensional onde se viam vinte pontinhos brancos: uma ampla armadilha que logo seria atravessada pela caravana.
Uma espécie de ratoeira.
O comboio entraria nela e — “bum!” — jamais sairia de lá.
Esperei que minha presa se aproximasse mais e depois coloquei o plano em ação.
— Carga pronta — informei. — Detonação ao primeiro contato.
As imagens sobre a tela trouxeram a boa notícia: o comboio seguia direto para a armadilha. Chegaria em um minuto. Perfeito.
— Bem na hora — murmurei, sorrindo.
Planejamento minucioso, posicionamento perfeito, trabalho de equipe impecável...
Achei que resolveríamos nosso assunto e cairíamos fora dali muito antes que nossos desodorantes vencessem sob o calor do deserto. Uma sopa.
Foi então que uma mosca pousou em nossa sopa.
“Caramba!” pensei, “o que é aquilo?”.
Ajustei os binóculos. Nada além de areia.
E depois —lá estava de novo!
Agora eu podia ver: uma espécie de carrinho esporte, talvez um Buggy. Ele voou sobre o topo de uma duna de areia, sumiu no horizonte e reapareceu na duna seguinte. E depois sumiu outra vez.
E reapareceu. E sumiu.
— Que diabos é isso? — perguntou Kathryn em meu fone de ouvido. — Uma ameaça?
Balancei a cabeça, irritada.
— Talvez seja apenas um maluco fazendo cross na areia. O deserto está cheio deles.
Quando o veículo se aproximou o suficiente, pude enxergar a figura do motorista. Ele usava um capacete e óculos de proteção, bem como um cachecol ridículo, tremulando ao vento. Parecia que nunca tinha se divertido tanto.
Filho-da-mãe.
Com tantos tanquinhos de areia no mundo ele tinha de vir brincar justamente no meu!
Olhei para o laptop, preocupada. O buggy aparecia na tela como um pontinho intermitente, movendo-se da esquerda para a direita.
Seguia direto para a minha armadilha.
Mas que filho-da...
— Vai disparar as cargas! — continuei olhando, cada vez mais tensa. — Pare... pare... pare...
A poucos centímetros do laser-gatilho, o buggy parou. Soltei o ar dos pulmões sem me dar conta de que havia prendido a respiração.
O infeliz podia tanto dar o fora dali...
E então ele fez uma manobra radical, girando o buggy praticamente no próprio eixo — e fazendo com que o pneu traseiro tocasse levemente o feixe de laser.
No entanto, como em diversas outras situações na vida, esse “levemente” rendeu o mesmo resultado de um “inteiramente”.
O laptop entrou em modo de alerta, as luzes verdes indicando que as cargas tinham sido ativadas e explodiriam em trinta segundos.
— Contagem regressiva iniciada — ouvi Kathryn exclamar. — Regina, eles estão na zona de fogo? Estão?
—Não, não! As cargas vão explodir cedo demais! Preciso reprogramá-las já!
O mais rápido que pude, peguei o timer box e comecei a trabalhar, desconectando fios, tentando anular comandos que tinham sido programados para serem executados irremediavelmente. A tarefa era árdua e complexa — nada que devesse ser feito com pressa.
Cabeça baixa, concentrada, comecei a suar copiosamente.
Por fim consegui interromper a explosão. As luzes ficaram brancas outra vez.
Levantei o rosto para ver onde estava o penetra.
Ele havia desligado o carro e pulado para fora.
Ele era menor do que eu esperava. Talvez fosse a distância, pois parecia mais esguio também... Eu diria um tanto feminino. Mas com a distância e as roupas esportivas não dava para saber exatamente se trava-se de um homem ou mulher, o cabelo estava coberto pelo capacete.
Olhava em torno de si. De repente, abriu uma maleta prateada. Um sistema de mísseis, talvez?
Não... um lanche? Quem era aquela criatura, afinal? Um agente inimigo ou um feliz aventureiro?
— O que esse cara está fazendo... Espera — resmunguei. Fiquei boquiaberta quando o indivíduo tirou da maleta um sanduíche embrulhado e o que parecia ser uma fatia de torta.
Péssimo lugar para um piquenique, meu amigo ou amiga! Fosse lá quem fosse, esqueceu o sanduíche e foi direto para a sobremesa.
EMMA
— Boa tarde, senhor Cassidy — eu disse, observando o comboio que se aproximava.
Com o auxílio dos binóculos, calculei que estaria a uns oitocentos metros de distância. Estávamos em algum lugar do deserto, não muito longe da fronteira com o México.
Estacionado no topo de uma duna alta, eu tinha uma excelente visão da estrada. O comboio estava distante o suficiente para que eu pudesse fazer um pequeno lanche. Abri a maleta e retirei um sanduíche e um pedaço de torta de maçã. Ambos estavam tão hermeticamente embalados em papel-filme que pareciam sufocar.
Essa é a minha Regina, perfeita até nos detalhes mais banais.
Puxa, quando foi que ela ficou assim, tão obcecada?
O sanduíche trazia um bilhetinho colado na embalagem: "beijinho, Regina." Tudo bem, eu reconhecia o trabalho dela, o carinho. Acontece que... Eram milhares e milhares de bilhetinhos nos milhares de sanduíches que ela já havia feito para mim — e todos diziam exatamente a mesma coisa. Cheguei a desconfiar que tinham sido impressos numa gráfica.
Desembalei a torta primeiro. Afinal, era deliciosa, e eu não queria correr o risco de comê-la com pressa caso o comboio chegasse antes do previsto.
O calor ali era pior que o próprio inferno. Mas me descobrir iria garantir no mínimo insolação dos diabos e, uma dor de cabeça a mais para explicar à minha adorável esposa como eu adquiri o meu lindo tom de tomate.
Minha boca salivava por uma marguerita. Sem despregar os olhos da carreata, busquei o meu cantil de prata, dei um trago no Red Label e tentei imaginar que tragava uma tequila bem geladinha.
Depois dei uma bela mordida na torta e quase gemi de prazer. Que delícia de torta! Das coisas que Regina cozinhava, essa era uma das poucas de que eu realmente gostava. Tinha um gostinho de noites quentes em lugares distantes. Como o Caribe. Ou Maputo. O sabor da maçã combinava perfeitamente com o uísque.
Mas era melhor que eu voltasse ao trabalho. A missão não era das mais difíceis, sobretudo em comparação com outras. Tudo muito bem planejado, tempo de sobra. Mesmo assim eu precisava me concentrar.
Eu me orgulhava de fazer tudo com perfeição, mesmo os trabalhos mais simples. Mas não havia motivo algum para que não me divertisse um pouquinho.
— Então — eu disse, imitando a voz de um locutor esportivo — nosso belo comboio já está em campo. A atração principal é um Navegador fortemente armado, bem no centro da fila. Osso duro de roer. Diz aí, Emma, o que você sugere?
Joguei sobre o ombro um morteiro Javelin CLU de 76mm e respondi a mim mesma:
— Bem, Bob, acho que vou tentar a sorte com o Javelin. Ativei a mira a laser e, procurando pelo alvo, prossegui com a encenação.
— Não há nada de mais moderno. Aquisição de alvos passivos, visor de termografia infravermelha... Todos os recursos de um sistema automatizado, mas é portátil, não pesa mais que sete quilos.
O comboio já estava suficientemente próximo. Os minutos de Neal Cassidy estavam contados. Dei uma última mordida na torta de maçã.
REGINA
Todas as minhas dúvidas se dissiparam quando vi o lobo solitário das dunas alojar um morteiro sobre o ombro. Merda! Ele ou ela estava atrás da minha presa!
Não gostei nada disso. Nem um pouquinho. Ponho de pé um plano perfeito e esse James Bond do subúrbio invade minha festa e esfrega um morteiro bem no meu nariz!
Merda! Merda! Merda!
Controlando a irritação, alertei minha equipe:
— Não se trata de um maluco. Temos outro jogador em campo.
Um momento de silêncio. Eu sabia que Kathryn examinava as imagens transmitidas ao vivo. E também sabia o que se passava na cabeça dela. Afinal, nós duas tínhamos estudado na mesma cartilha para assassinos profissionais.
Naquelas circunstâncias, a cartilha recomendava: abortar.
Merda! Merda! Merda!
Eu podia ouvir os segundos se esvaindo. Podia ouvir Kathryn mordendo a própria língua, privando-se de dar qualquer palpite.
Eu media freneticamente todas as opções. E de repente vi o intruso se preparar para atirar!
— Vai eliminar o alvo antes de ele chegar à zona de fogo! —Kathryn exclamou.
Isso é o que ela achava.
— Não vai, não — falei. Não se eu pudesse evitar. Fim das discussões. Hora de agir. Agora!
Eu trazia nas costas um rifle com silenciador; passei a bandoleira sobre a cabeça e me preparei para atirar. O lobo solitário mirava em seu alvo; e eu mirava no meu: ELE. Obrigada, amigão, por ficar assim, paradinho... Apertei o gatilho.
EMMA
Mais fácil, impossível.
A mira do Javelin seguia o alvo sem dar a menor trégua. Eu estava empolgada, mas não nervosa. E via o comboio marchar direto para as minhas mãos.
Se quisesse, poderia até descansar um minuto.
Tudo deveria transcorrer às mil maravilhas.
Falando em maravilha, lembrei-me da torta de maçã de Regina. Alguns pratos que Regina cozinha são indiscutivelmente péssimos — não que eu fale isso pra ela. Já corro riscos demais no meu trabalho, não preciso fazer loucuras desse tipo em casa. Além disso, viajando pelo mundo, já comi coisas muito piores.
Mas essa torta é demais.
Analisei o quadro geral. Eu teria tempo suficiente para mais uma mordidela. Mas quando olhei para a torta... Merda! Tinha areia caindo nela! Então me abaixei para cobri-la melhor. Fzzzzzzzzzt!
— Mas que p...
Felizmente, meu corpo bem treinado estava sempre à frente do meu cérebro. Minha boca se encheu de areia quando me joguei no chão. E fiquei ali por um instante, com medo de me levantar, medo de levar a mão à cabeça e não encontrá-la sobre o pescoço.
Mas aos poucos percebi que a bala tinha passado de raspão. Minha orelha direita parecia em chamas. Tinha sido rasgada pela bala. Sangrava, mas não muito.
Então fiquei puta.
Havia mais alguém ali.
Alguém que queria me ver pelas costas.
REGINA
— Intruso eliminado — informei minha equipe. — Estamos de volta ao jogo.
Nada mal. Um único tiro, e o cara já não oferecia mais nenhum obstáculo. Gosto de pensar que, na maioria dos casos, sou suficientemente aberta a negociações. Mas quando o assunto é trabalho...
“Ninguém se mete no caminho de Regina Swan!”
Pena que o moço — ou moça, a essa altura já não importava de qualquer forma — faminto não soubesse disso antes.
Aliás, trabalhar no deserto tem uma grande vantagem: não é preciso limpar a sujeira depois. Os abutres cuidam disso para nós.
Estalei os nós dos dedos e voltei minha atenção para o comboio que se aproximava.
EMMA
Examinei a área de onde supostamente tinha vindo a bala. Não vi nada além de um casebre abandonado.
Mas... Espera aí, alguém se movimentou lá dentro! Um vulto esguio passou do outro lado da porta aberta. Alguém estava lá, e certamente por um bom motivo. Parecia um homem baixinho.
Fossem quais fossem seus planos, não queria me ver bisbilhotando o lugar. Ali no deserto eu não tinha para onde correr, muito menos um lugar onde pudesse me esconder.
Única opção possível: eliminar a ameaça. Limpei a areia do morteiro e mirei no casebre.
Por fim disparei e vi a boca de fogo cuspir uma ogiva sedenta de calor. Dez metros adiante a coisa tomou vida, deitando uma esteira de chamas e rugindo deserto afora em busca do infeliz que se escondia naquele casebre.
— Vamos lá, belezura. Pega o panaca.
REGINA
Na sexta série, eu tive uma professora que sempre criticava minha incapacidade de concentração.
Ah, se ela pudesse me ver agora.
Cada fibra do meu corpo estava concentrada no comboio. Eu era capaz de visualizar Neal Cassidy empertigado naquele utilitário como um príncipe.
Tinha feito meu dever de casa e estava pronta para tirar de letra aquela prova.
Mas de repente um barulho quebrou minha concentração. Algo parecido com wuuumpf.
O que significava...
PODER DE FOGO FENOMENAL!
Numa rápida olhada pude constatar que o destino de tanto fogo era meu endereço atual: o casebre.
“Merda!”
Um bólide reluzente vinha direto na minha direção. E eu estava prestes a recebê-lo na cara!
Por mero instinto, joguei-me nas rochas da colina.
EMMA
Bum! O velho casebre se desmanchou em um milhão de pedacinhos. Engoli a seco e, admirada, olhei para o objeto que ainda fumegava nas minhas mãos.
“Isto aqui nas mãos erradas...”, pensei.
O intruso havia sido eliminado com sucesso. Infelizmente, o estrondo da explosão havia denunciado minha presença ali.
O comboio parou, receoso. E agora manobrava para...
“Não, ninguém vai embora daqui.”
Eu ainda tinha uma chance de cumprir minha missão.
Sem pestanejar, recoloquei no ombro meu confiável morteiro e mirei novamente.
REGINA
A força da explosão levantou-me no ar. Quando me esborrachei no chão, meu rifle já não estava mais comigo.
“O laptop”, pensei, afastando-me tropegamente do casebre em chamas.
Sim, o computador também estava perdido. Se eu pudesse encontrá-lo, talvez ainda houvesse uma chance de sucesso. Ou teria sido destruído com a explosão?
EMMA
Antes que eu pudesse atirar, o deserto tremeu com uma súbita explosão. Eu nunca havia passado pela experiência de um terremoto antes, mas se fosse qualquer coisa parecida com aquilo, ainda que remotamente, eu faria de tudo para evitá-los no futuro.
O impacto me jogou ao chão. Nuvens de poeira eclipsavam o sol.
Permaneci deitada e esperei.
Quando o céu finalmente clareou, fiquei de pé, ainda meio zonza e coberta de areia. Olhei para ambos os lados, tentando entender o que tinha acontecido. Meu rival decerto havia plantado uma espécie de campo minado no deserto, preparado para explodir quando o comboio passasse por ele. Um artifício elementar — um truque que eu mesma já havia usado dezenas de vezes.
A despeito do meu ataque, o sistema dele aparentemente estava programado para operar no automático.
O único problema era que...
O comboio — alertado por nossa contenda — já ia longe na direção oposta.
Merda, fiquei furiosa. Meu dia estava arruinado.
Eu não fazia a menor ideia de quem aparecera ali para estragar meus planos. Sequer sabia se o agente inimigo estava vivo ou morto.
Fosse como fosse, eu estava determinado a descobrir o nome do sujeito. Jurei que, quando o encontrasse, faria o cara se arrepender amargamente do dia em que tinha nascido — isto é, se ele já não estivesse morto.
Então me preparei para sair dali. Mas depois avistei algo: uma luz piscando nos escombros da explosão do casebre.
Um laptop. Inacreditável. E ainda funcionava.
Contente com a descoberta, corri para buscá-lo.
REGINA
Aquele maldito.
Eu não esperava uma missão difícil. E muito menos com concorrentes desconhecidos.
Minha equipe era criteriosa, organizada, e estava sempre muito bem preparada. Teríamos tirado tudo aquilo de letra. Mas aquele pulha comedor de torta nos fez passar por amadores.
Eu não queria sequer pensar no que Mr. Gold diria diante do nosso retumbante fracasso.
Mas uma coisa prometi a mim mesma quando me juntei aos outros: custasse o que custasse, eu descobriria o nome daquele sujeito.
E faria com que ele se arrependesse amargamente de ter me conhecido.
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