Mrs. & Mrs. Swan-Mills
7 O Jantar Perfeito
Notas iniciais
EMMA
De volta à cidade, passei pela lanchonete para contar à Killian o que eu havia descoberto.
Eu olhava fixamente para uma xícara de café preto enquanto ele devorava um lauto café da manhã, o mais completo de todo o cardápio. De dia ou de noite, o cara comia feito um leão.
Mas eu estava sem fome. Não conseguia pensar em nada, a não ser na minha missão fracassada e no agente que havia puxado meu tapete.
Passei o dedo na minha orelha lascada. Ninguém havia chegado tão perto assim de cravar uma bala nos meus miolos.
— Dois atiradores na mesma praça. Já ouviu falar de coisa parecida?
— Não que eu me lembre — disse Killian, mastigando uma bocada de ovos e torrada. — Você viu o cara direito?
Como se a situação não fosse estranha o bastante, algo na figura do meu inimigo martelava na minha cabeça. Tentava me lembrar do que poderia ser.
— Não era muito alto. Metro e sessenta, metro e setenta no máximo. — “Não muito mais alto que Regina”, pensei. Foi então que me dei conta. — Não tenho tanta certeza assim de que era um homem.
Killian deixou o garfo cair no prato e, de olhos arregalados, disse:
— Você apanhou de outra mulher? Emma, acho que tem outra garota querendo tomar seu título de garota que chuta a bunda dos bandidos.
Au! Não gostei nem um pouco do jeito que ele resumiu a situação.— Acho que sim — admiti. Girei no banco para olhá-lo de frente.
— Killian, a mulher era uma profissional. Talvez quase quanto eu!
Killian deu de ombros e voltou à comilança. Depois disse:
— Bem, nesse caso não vai ser difícil saber quem é. Não tem muitas gatas nesse ramo, você mais do que eu, sabe disso.
Ele tinha razão. Isso eliminaria a grande maioria de todos os agentes ainda em atividade.
Killian seguiu uma garçonete com os olhos.
— Eu adoraria levar uma surra daquela ali... — O apetite de Killian para as mulheres era quase tão aguçado quanto seu apetite por ovos e bacon. Talvez ele ainda não tenha superado o fora que dei nele assim que nos conhecemos. Esperei pacientemente até que ele se desse conta de que eu ainda estava ali. — Você tem mais alguma pista? — Ele disse, voltando finalmente para nossa conversa.
Eu tinha. O Laptop que encontrara nos escombros. Estava bastante avariado, mas não morto. E eu conhecia uma garota capaz de operar milagres com pedaços retorcidos de metal.
Bebi um último gole de café e me virei para ir embora.
— A gente se vê mais tarde, Killian.
Entrei no quartinho dos fundos de uma oficina de desmanche digital — minha favorita — e procurei por um gêniozinho da eletrônica chamada Ruby.
Ela estava debruçada sobre uma mesa coberta de quinquilharias — uma espécie de cemitério de computadores. Com aquele cabelo com mechas vermelhas e aquela camiseta com estampa de lobo, lembrava muito mais uma babá do que o gênio que de fato era.
Disse à ela que tinha um laptop ligeiramente avariado e, ato contínuo, coloquei a máquina sobre o balcão para que ela a examinasse.
Ruby examinou o volume amorfo e fumegante em que tinha se transformado o laptop.
— Apagou uma fogueira com ele? — perguntou, cética.
Respondi apenas com um sorriso.
— Quer saber o que eu acho? — ela disse, limpando as mãos com um trapo.
Redobrei a atenção, esperançosa.
— Melhor você comprar um computador novo.
— Mas este tem um valor sentimental para o proprietário.
— E quem é esse proprietário?
Abri um sorriso inocente e disse:
— Era isso mesmo que eu gostaria que você descobrisse pra mim. Ruby crispou os lábios e examinou a máquina.
— Não tem número de série — observou. — Deve ser do governo, ou algo assim. — Jogando as mãos para o alto, emendou: — Impossível saber de quem é.
Ora, não era difícil imaginar para onde aquela conversa estava indo. Mas preferi esperar, a bola ainda no campo dela.
— Mas tem uma coisa que talvez a gente possa fazer. Não é fácil — ela olhou para mim — nem legal.
Saquei da carteira uma nota com o retrato de Benjamin Franklin, meu presidente favorito.
— Ahh... — ela disse, numa vozinha de Shirley Temple. — É duas vezes mais ilegal do que isso.
Claro que sim. Então saquei o irmão gêmeo de Ben.
Ela sorriu e tomou a nota da minha mão; depois saiu para cuidar do meu assunto.
Obviamente eu não ia deixar aquela prova tão valiosa sair fora do alcance da minha vista; então fiquei por ali, olhando para o nada através da janela, pensando em tudo que havia acontecido.
— Mas diz aí... — Ruby perguntou enquanto atacava as entranhas da máquina —por que você quer tanto saber de quem é isto aqui?
— Você me conhece, Ruby. Apenas uma cidadã honesta tentando devolver um objeto perdido.
— Ah, claro.
— Eu... Espera aí. Afinal, quem molhou a sua mão com duzentas pilas pra que você pudesse trabalhar depressa e de bico calado?
Ruby apenas riu e continuou investigando. Por fim, deu um ligeiro sinal de ânimo. Vamos lá. Módulo RAM atualizado. — Ela passou o código de barras contra o Leitor. Informações transbordaram na tela de sua máquina de diagnósticos.
— Muito bem — disse Ruby, correndo os olhos sobre as novidades. — O chip é chinês, importado pela Dynamix, distribuído pela blá, blá, blá... — Depois começou a digitar, os dedos se misturando numa única sombra. — Acho que posso conseguir um endereço de cobrança pra você. — Olhando de soslaio, perguntou: — Vai só mandar flores, né?
— Chocolate — sussurrei na minha voz mais sexy.
— Pára com isso, assim você me faz perder o juízo. — Seus dedos voavam sobre o teclado.
Eu estava prestes a fazer mais uma gracinha quando ela parou, leu alguma coisa na tela e balançou a cabeça.
— Nenhum nome, só o endereço.
— Tudo bem — eu disse, ansiosa. — Passa pra cá.
— Avenida Lexington, 550, 52° andar.
Um choque elétrico perpassou meu corpo inteiro, e isso não tinha nada a ver com o que quer que fosse na oficina de Ruby. O endereço me pareceu familiar. Muito familiar. Ruby olhou para mim, curiosa.
— Conhece o lugar?
Fiz que não com a cabeça. Estava na dúvida. E algo nas entranhas me alertava: eu iria me arrepender profundamente se descobrisse.
REGINA
Irrompi no escritório da Magic-Click soltando fogo pelas ventas.
Ainda bem que Emma estava “fora da cidade”; e eu, supostamente, passando a noite na casa dos meus pais. No estado de fúria em que me encontrava, não sei se seria capaz de fazer toda aquela encenação de esposa perfeita diante dela.
Não que ela fosse reparar.
Mas fiquei aliviada por não ter mais nada com o que me preocupar além do meu trabalho.
Joguei minha maleta sobre a mesa.
— Perdemos o pacote — informei. — O FBI tomou-o sob custódia essa manhã.
Kathryn afundou na poltrona, desanimada. Sabia tanto quanto eu que aquele assunto era demasiado importante.
Resumo da ópera: a gente meteu os pés pelas mãos.
Mas minha teimosia é famosa nos quatro cantos do planeta. Preciso vencer a qualquer custo. E ainda não tinha me esquecido daquele estraga prazeres de merda.
Resumo da ópera: o cara tinha de pagar.
— Quero saber quem é esse puto e o que ele estava fazendo no meu quintal...
— Regina...
— ...e quero falar com o...
— Regina!
Virei-me para ver o que era, impaciente. Mulan, uma garota asiática, segurava um telefone.
Merda. Para Mulan interromper assim a minha dança da guerra, só poderia ser uma pessoa do outro lado da linha.
— É pra você. Mr. Gold.
Olhamos uma para outra, receosas. Ela sabia que eu preferiria mil vezes enfrentar o esquadrão da morte do que atender àquela chamada. Mas a coragem é um dos pré-requisitos do meu trabalho, portanto não hesitei. Peguei o aparelho e atendi.
O sotaque britânico de Mr. Gold, principalmente quando estava nervoso, era tão incisivo quanto um picador de gelo. Ouvi tudo que ele tinha a dizer sem interrompê-lo, ciente de que merecia cada uma daquelas tijoladas.
Mesmo assim, tentei sair em defesa da minha equipe.
— O FBI está com o pacote. O guichê está fechado... — A resposta de Mr. Gold não foi fácil de ouvir. — Senhor, havia um intruso no...
— Eu disse à você que não havia margem para erros dessa vez!
Por algum estranho motivo, senti um calafrio na espinha. Livrei-me dele com um leve tremor do corpo, da mesma maneira que um cachorro molhado se livra da água no pêlo.
—Mas havia um intruso no...
—Jamais deixamos testemunhas — interrompeu Mr. Gold. — Risco zero. Se esse intruso identificou você...
—Compreendo, senhor.
—Você conhece as regras — continuou Mr. Gold, a voz fria como gelo. — Tem 48 horas para limpar a sujeira que deixou para trás, Regina.
Prendi a respiração ao perceber que ele ainda tinha alguma coisa a dizer.
Mas a ligação foi interrompida.
“Tchau pra você também, Mr. Gold.”
De fato eu conhecia as regras. Além disso, estava naquele ramo havia tempo suficiente para saber que Mr. Gold dizia exatamente o que pensava e fazia exatamente o que dizia. Não haveria uma segunda chance.
O sucesso era minha única opção.
Mas isso não constituía um problema; nada me dava mais prazer do que correr atrás do sucesso.
Bati o telefone na base e voltei para minha equipe.
Ainda estava furiosa, sim, mas também sentia o ânimo redobrado pela perspectiva de mais uma caçada, a adrenalina correndo solta nas minhas veias.
— Temos um novo alvo — informei a elas. —Mas antes precisamos descobrir quem o indivíduo é.
EMMA
Avenida Lexington. Conferi o endereço mais uma vez. Mais duas quadras. Mais duas quadras e eu saberia de tudo.
Estava na dúvida se deveria apertar o passo ou sair voando. Preferi seguir andando calmamente, mãos nos bolsos, olhos grudados na calçada.
Dois cruzamentos depois, constatei que não era mais possível postergar o inevitável. Criei coragem e olhei para o alto. Lá estava: avenida Lexington, 550. Típico arranha-céu para inquilinos endinheirados.
Quanto mais eu me aproximava, mais apertava o passo. Atravessei a porta giratória como um foguete, praticamente fiz um sprint até o balcão da recepção e, conferindo uma última vez o endereço que já sabia de cor, corri os olhos pela placa onde se lia o nome de cada um dos ocupantes do prédio.
Achei. Suíte 108. E, ao lado, o nome de uma empresa:
“Magic-Click, prestação de serviços de informática”
O sangue sumiu do meu rosto.
— Não é possível — suspirei. Foi como se aquela explosão no deserto me derrubasse novamente.
Se eu conhecia aquela empresa? Claro que conhecia! Na verdade, conhecia até uma pessoa que trabalhava lá.
Conhecia muito bem.
Uma pessoa que, por acaso, tinha uma relação muito próxima comigo.
REGINA
Sempre que possível, gravávamos nossas missões em vídeo. (Embora eu me “esquecesse” de gravar certas missões, como aquela noite com Marco Racin — certas lembranças não fazem jus à posteridade.) Muitas vezes algum detalhe visual acaba por revelar informações importantes.
Então coloquei as fitas de nossa malfadada missão para rodar em câmera lenta, disposta a examinar cada centímetro quadrado da tela. Quando cheguei à fita do carinha do buggy, fechei o zoom, na esperança de captar algum detalhe que não havia percebido antes.
Um objeto reluzente chamou minha atenção. Inclinei o tronco para ver melhor.
Parecia um...
Pisquei os olhos.
Parecia um cantil, daqueles que as pessoas usam para levar sua birita predileta ao Kentucky Derby ou a outro evento chique qualquer. Como bourbon. Ou scotch...
Já ia avançar a fita quando algo atraiu o meu olhar.
Aquele frasco me parecia familiar, o que me deixou totalmente abismada. Tive a mesma sensação de alguém que se hospeda num hotel e encontra um objeto seu dentro de uma das gavetas.
Claro, muitas pessoas andam por aí com seus cantis. E suponho que cinqüenta ou sessenta por cento dos cantis sejam de prata. Talvez mais.
Avançando a fita mais um pouquinho, percebi outra coisa, jogada no chão ao lado dos pés do sujeito.
Torta.
E daí? Eu havia assado uma torta outro dia mesmo. Torta de maçã, para ser mais exata. A favorita de Emma. Eu havia colocado uma fatia no lanche dela, antes de saber que ela teria de sair da cidade a negócios.
Teria Emma levado o lanche na viagem? “Não sei. Não verifiquei a geladeira.”
Mas que bobagem a minha... Muita gente faz torta todos os dias. Ou compra em qualquer delicatessen ou supermercado. Todo tipo de torta.
Não há nada de especial numa torta.
E que importância tinha a torta naquele vídeo se parecer com uma torta de maçã? Além disso, tenho certeza de que muitas pessoas sabem fazer aquele plissado especial na borda da massa. O plissado que eu acreditava ser invenção minha. Uma espécie de assinatura culinária.
Ora, um cara carregando um cantil de prata e comendo torta, uma torta de maçã igualzinha à que eu fazia, com plissado e tudo, bem, o que havia de incomum...
Rapidamente voltei a fita até o close no rosto do indivíduo que eu ainda suspeitava ser um homem, e ampliei o máximo possível. A imagem estava muito granulada, quase não revelava nada. Além disso, o sujeito usava capacete e viseiras protetoras.
Poderia ser qualquer pessoa.
Mas a leve inclinação da cabeça, a postura dos ombros... o jeito especial de ficar de pé...
Eu já havia visto aquela pessoa antes.
Não podia ver os olhos direito por causa das viseiras. O capacete cobria todo o resto, à exceção da boca.
Prestei atenção na boca. Aqueles lábios...
Caramba. Senti o sangue ferver no rosto. Engoli a seco e me aproximei da tela para ver melhor.
Estava tão perto que meu nariz quase tocava a tela. Tão perto que meus lábios quase tocavam aqueles lábios...
— É a sua esposa —disse Kathryn atrás de mim.
Levei um susto e me virei para trás.
Mas Kathryn não olhava para o rosto estampado na tela. Segurava um telefone na mão.
— É a Emma — repetiu. — Já voltou de Boston. Quer saber sobre o jantar.
Ela tinha voltado. De Boston. Ou de onde quer que de fato estivesse antes.
Talvez algum lugar ainda mais quente.
Mais árido.
O chão pareceu se inclinar. Imagens da minha vida pessoal e do meu trabalho se misturavam, resultando em conclusões que não faziam sentido nenhum.
“Sua esposa...”
Palavras tão banais, de súbito sem nenhum significado.
— Diz à ela que... — minha voz sumiu. Dizer à ela o quê? Que já sei de tudo?
“Agora já não sei de mais nada.”
— Diz que...
Kathryn olhava para mim, sem compreender o que se passava comigo.
— Diz que... o jantar será às sete.
Virei-me na cadeira para dar mais uma olhada naqueles lábios. Lábios que podiam levar qualquer um à loucura. Ou sussurrar uma vida inteira de doces mentirinhas.
EMMA
O jantar será às sete? Isso é tudo que ela consegue dizer? O jantar será às sete?
— O jantar é sempre às sete — resmunguei ao telefone, e depois desliguei.
Saí do prédio e fiquei ali um instante, parada na calçada, olhando para o 52° andar.
O jantar será às sete, o jantar será às sete...
Santo Deus! Fazia cinco longos anos que eu acertava o relógio pelo horário do maldito jantar. Eu escovava os dentes ao lado dela, dividia o mesmo closet. Diabos, eu dormia ao lado dela, completamente indefesa e exposta, pelo que poderia ser uma eternidade! E durante todo esse tempo...
Ela saía sorrateiramente para assassinar pessoas sempre que eu lhe dava as costas.
Ontem mesmo, caralho, tentou me APAGAR — e tudo que consegue dizer é “O jantar será às sete?!”.
Eu participava de joguinhos psicológicos com uma das agentes mais traiçoeiras do mercado. Essa mulher... Puxa, ela ainda me levaria à loucura.
Apoiei ambas as mãos numa lata de lixo da esquina, estava prestes a vomitar, e lentamente deixei cair o papelzinho amarfanhado onde estava anotado o endereço.
“Agora tenha calma”, disse para mim mesma.
Eu era uma profissional treinada para operar mesmo nas situações mais perigosas. Tinha a experiência e as habilitações necessárias para lidar com isso também.
Levantei-me, arrumei os punhos da camisa e fui direto para o estacionamento onde havia deixado o carro.
Tinha uma perigosa missão a cumprir.
Ia jantar em casa.
REGINA
Saí cedo do escritório, talvez pela primeira vez na vida. Disse à Kathryn que não me sentia bem. Que talvez algum inseto tivesse grampeado meu pescoço no deserto. E por falar em grampear...
“Lembrete: verificar carro, casa, corpo, à procura de grampos que aquela assassina de aluguel possa ter plantado enquanto tentava quebrar meu pescoço.”
Kathryn engoliu minha desculpa. Pelo menos não disse nada. Mas seus olhos faziam todas as perguntas.
Ainda era cedo para falar de minhas suspeitas. Não podia contar à ninguém — nem mesmo à Kathryn, que sabia quase tudo à meu respeito.
Eu ainda não estava pronta.
Precisava ter certeza — ver com os próprios olhos — de que minha vida com Emma havia sido uma simples ilusão de ótica.
Quando cheguei em casa, meus dedos doíam de tanto apertar o volante do carro. Minha sanidade mental repousava sobre uma única coisa.
O jantar às sete.
Durante todo o trajeto, planejei detalhadamente o menu. Decidi que pratos e que toalha usaria. Pensei em parar para comprar flores.
Queria — ou melhor, precisava — que tudo saísse perfeito. Pelo menos uma última vez.
Antes que tudo desmoronasse.
EMMA
Os faróis do meu carro iluminaram a fachada de casa, o jardim, a garagem. Coisas para as quais eu sequer olhava mais, tudo tão familiar.
De repente, aquela casa perfeita, num dos melhores subúrbios de Nova York, pareceu-me o cenário de um novo seriado de TV chamado “Essa vida que não é minha”.
Apaguei os faróis e olhei para a casa por um instante, com apenas uma pergunta em mente: que diabos Regina serviria no jantar daquela noite?
Quando tentou me matar naquela montanha, será que sabia que era eu, a mulher dela, quem estava ali? Ou achou que eu não passava de um agente inimigo que se metera no caminho dela?
Será que ela sabia sobre mim? Será que sabia que eu sabia sobre ela?
Meu Deus, como isto era possível: duas pessoas morarem na mesma casa, com tantos segredos importantes, e sequer suspeitarem da verdade?
Olhei pela Janela da cozinha.
Nenhum sinal da minha querida esposa. Estaria ela planejando um jantar ou um assassinato?
Ao mesmo tempo apreensiva e furiosa, forcei a aliança no dedo e abri a porta do carro. A dobradiça chiou. Um cachorro latiu ao longe. Arbustos farfalhavam próximo à porta da frente. Naquela noite, minha casa adorável parecia incrivelmente ameaçadora, semelhante a uma linda mulher com ideias malignas na cabeça.
Totalmente alerta, segui pela calçada e abri a porta da frente. Com cautela, pisei no hall de entrada, uma das mãos carregando a maleta e a outra no bolso da calça, onde eu guardava minha coragem.
Estou falando da arma, e não da bebida.
Deixei a porta se fechar sozinha e segui em frente, olhos atentos para qualquer movimento.
— Timing perfeito.
Pulei de susto, e quase mandei bala no meu próprio pé.
Regina. Ela havia surgido do nada, sorrateira e fatal. Vestida para matar, por assim dizer. E trazendo nas mãos dois drinques gelados.
A mulher perfeita. Como nos velhos tempos. Como se o universo inteiro não tivesse virado de cabeça para baixo desde que eu havia deixado aquela casa pela última vez.
Olhei para os drinques e disse:
— Isso é novidade... — Regina vivia no meu pé por causa da bebida.
— Uma novidade boa, eu espero — ela disse, com um sorriso sedutor. Depois empurrou a taça de cristal na minha direção, e, por mero reflexo, tirei a mão do bolso para pegá-la. Do bolso onde estava a arma.
Coincidência? Ou truque esperto de uma assassina experiente?
Ela ofereceu os lábios para um beijinho.
Beijei-a como de costume, mas sem fechar os olhos.
E então notei. Ela também não fechou os olhos.
— Voltou mais cedo — falou. Um desafio.
— Estava com saudades.
— Eu também.
Seria imaginação minha ou teria ela rapidamente espiado o curativo na minha orelha?
Mas Regina não disse nada e, com o queixo, apontou para a sala de jantar.
— Vamos?
— Après vous — eu disse.
Com um leve movimento dos ombros, Regina virou-se e seguiu na minha frente. Deixei que meus olhos passeassem pelo corpo dela, à procura de alguma pista, talvez de armas. A primeira vez, em muitos anos, que de fato a enxergavam.
Verdade seja dita: aquele vestido revelava muito mais do que escondia. Nenhuma arma a bordo. Pelo menos do tipo convencional.
Decerto eu teria me deleitado mais com a paisagem não fosse o receio de que, a qualquer minuto, Regina pudesse estourar os meus miolos.
Quando entrei na sala de jantar, minha apreensão ficou ainda maior. O lugar estava todo emperiquitado, como se fôssemos receber a família real britânica em peso: flores, toalha de linho, talheres para todo lado.
“Fica esperta”, alertei à mim mesma. “A vadia vai aprontar a qualquer instante.”
— Achei que você guardasse essas coisas para as ocasiões especiais — falei.
— E jantar com minha mulher não é uma ocasião especial?
Ela chegou ao ponto de afastar uma cadeira para que eu sentasse.
Sentei-me devagar, meus olhos fixos nos dela, todos os sentidos atentos. Como se fosse o maitre de um restaurante sofisticado, Regina retirou o guardanapo de linho de cima do meu prato, abriu-o com um gesto brusco e ruidoso — devo admitir que nesse momento senti um frio na espinha — e por fim estendeu-o em meu colo.
— Ora, ora, muito obrigada — eu disse, fazendo o jogo dela.
— Por você eu faço tudo — ela sussurrou.
Aposto que sim.
Aproveitei que Regina estava atrás de mim e furtivamente escondi minha faca sob o guardanapo.
Aparentemente ela não notou; seguiu feliz para a cozinha, jogando um sorriso coquete por sobre o ombro antes de desaparecer.
Lutei para reprimir uma sonora gargalhada e peguei meu drinque.
Até que vi algo na cozinha, pouco antes da porta se fechar. Uma embalagem de soda cáustica sobre a bancada da pia.
Minha taça congelou no ar, a poucos centímetros da boca.
Caramba, como era mesmo o cheiro da soda cáustica? Farejei a bebida. Nenhum cheiro esquisito. Pensei. Quem sabe... Mas isso não provava nada.
Sem tirar os olhos da cozinha, derramei o drinque num vaso de flores sobre a mesa, torcendo para que elas não explodissem.
Enquanto esperava, examinei a mesa à procura de... não sabia exatamente do quê: pistas, armas, armadilhas. Os talheres de prata brilhavam, ameaçadores, sob a luz das velas. O vinho se transformou num veículo para o veneno; o centro de mesa, num instrumento de estrangulação; o arranjo de flores, num possível esconderijo para uma granada.
Então minha adorável esposa voltou à sala, carregando um assado nas mãos e sorrindo como uma mistura de coelhinha da Playboy e dona-de-casa exemplar.
O assado tinha uma faca cravada no topo, uma faca de aparência sinistra.
— Humm... Carne assada. Meu prato predileto.
A lâmina cintilava sob a luz das velas enquanto Regina afiava a faca, empunhando-a como se quisesse deixar bem claro que sabia cortar muito mais que um pedaço de carne.
Como se tivesse vida própria, minha mão rapidamente se fechou em torno do pulso dela.
— Não, não, não... — murmurei. — Você já teve trabalho demais preparando esta maravilha. Deixa que eu corto.
De início ela resistiu, mas, acabou cedendo. Fez questão de se afastar da mesa assim que a faca, afiada como uma gilete, passou às minhas mãos.
Segurando a faca no ar, pronto para cravá-la na carne, vi o reflexo de Regina sobre a lâmina.
Merda! Ela havia retirado outra faca, ainda maior que a primeira, do bolso de seu aventalzinho ridículo. Como foi que ela fez aquilo caber ali? O facão era grande o suficiente para abrir uma trilha no meio da floresta, mas ela usava-o para cortar ao meio as batatas assadas.
Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Como uma desajeitada discípula de Martha Stewart.
A situação era sinistra. Nós duas ali, juntinhas, como se fôssemos recém-casadas, talvez procurando meios para degolar uma à outra. Reparando em Regina, fiquei abismada com a facilidade com que ela manejava uma faca. Diabos, por que nunca havia notado isso antes?
Aquela mulher tinha as mãos de um samurai. Perguntei a mim mesma o que ela usava para treinar.
— Como vão as coisas no trabalho? — perguntei casualmente.
— Tudo em paz — ela respondeu. — Na verdade, tivemos um probleminha com uma comissão esta semana.
— É mesmo? — perguntei, todas as antenas levantadas.
— É. Duas empresas contratadas pra executar o mesmo serviço. — Servi uma fatia do assado no prato de Regina.
— E as coisas se arranjaram depois?
Ela serviu uma batata no meu prato com um gesto eficiente. Olhando bem, tudo que ela fazia era de modo eficiente.
— Ainda não — ela falou. — Mas vão se arranjar.
Tudo bem, admito que até então eu vinha me comportando de maneira um tanto paranóica, procurando segundas intenções em cada detalhe sem importância. Mas agora eu tinha a nítida sensação de que conversávamos numa espécie de código, falando por enigmas.
Sentamos nas cabeceiras da mesa, fora do alcance físico uma da outra. Ela bebericou o vinho e esperou que eu começasse a comer.
Olhei para o prato à minha frente, hesitante. E se a comida estivesse envenenada?
Depois percebi Regina me observando com atenção. Não podia deixar que ela notasse meu pavor; portanto, como uma guerreira medieval, parti um enorme naco da carne e cravei os dentes nele.
— Hummm... Delicioso — eu disse, refreando o impulso de cuspir tudo no chão. — Fez alguma coisa diferente?
Ela me encarou pela primeira vez naquela noite.
— Você sempre pergunta isso.
Ora bolas, o que mais eu poderia dizer depois de mil e oitocentas refeições ao lado dela? Para virar o jogo, sorri entre dentes e disse:
— Sempre me esqueço de como esse prato é delicioso.
Regina gostou do que ouviu e sorriu também. Eu brincava com a comida, na tentativa de ganhar tempo.
— Você pode me passar...
Zuuum! Algo veio zunindo na minha direção, e automaticamente lancei a mão na mesa para pegá-lo. O saleiro.
Fosse uma lâmina qualquer, eu estaria morta antes que o sorriso chegasse aos lábios dela.
De certa forma, Regina estava fazendo o que sempre fazia: sempre caprichava na arrumação da mesa; sempre servia um jantar legal, como aqueles que aparecem nas revistas; sempre corria atrás da inatingível perfeição.
Porra, era como se eu comesse no mesmo restaurante todo santo dia.
Mas naquela noite ela estava diferente. Não estávamos apenas num restaurante diferente. Estávamos em outro planeta.
Tudo parecia ter um subtexto. Seus gestos pareciam sutilmente diferentes.
Observei quando ela levou a mão ao copo de água. Seus movimentos pareciam seguros, deliberados; cada um deles, uma linha reta.
Como era possível que eu nunca tivesse percebido os músculos rijos que delineavam aqueles braços tão lindos? Aquele seu jeito de andar, gracioso como o de uma ninja? O estado de alerta constante, a reação imediata a qualquer barulho?
Como uma verdadeira profissional, Regina tinha consciência de cada um de seus movimentos, sabia que reflexos bem condicionados e movimentos seguros muitas vezes significavam a diferença entre a vida e a morte.
Talvez tivesse escondido todas essas coisas de mim. Ou talvez fosse eu que, entediada demais, preocupada demais ou estúpida demais, não tivesse tido olhos para enxergar o que estava bem debaixo do meu nariz aquele tempo todo.
— Como foi em Boston, querida? — ela perguntou especificamente.
Sabia muito bem que eu não tinha estado lá.
— Tive uns probleminhas com uns números — respondi sem titubear. — Algumas coisas não batiam umas com as outras.
— Coisas importantes?
— Vitais.
Nosso olhar se entrecruzou sobre a mesa. Eu podia ver as chamas — talvez das velas — que ardiam em seus olhos.
— Mais um pouco de vinho? — ofereci. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, adiantei: — Deixe que eu sirvo; afinal, a garrafa está no meio da mesa.
Levantei-me da cadeira e fui servi-la.
Gostei de ver o medo subitamente brotar nos olhos dela.
REGINA
Olhem só para isto.
A filha-da-puta.
Sentada do outro lado da mesa, exatamente como vinha fazendo todas as noites por seis longos anos. Os mesmos gestos, as mesmas palavras, como uma esposa de brinquedo, movida à pilha. Sempre sorrindo. Sorrindo para mim. Sorrindo para tudo o que eu dizia. Sorrindo para o maldito pedaço de carne. Sem jamais enxergar o que quer que fosse. E mentindo deslavadamente durante todo esse tempo.
— Como foi em Boston, querida?
Tudo bem, fora uns probleminhas com uns números. Blá, blá, blá. Acontece, meu amor, que eu não estava em Boston. Estava no deserto, tentando explodir os seus miolos com os meus CANHÕES!
E bebendo do cantil de prata que eu dera à ela e... e... comendo minha torta!
Por um instante fiquei ali, observando-a repetir o mesmo teatro de sempre. Será que pensava em mim quando não estava em casa? Será que riu da mulherzinha ridícula quando enfiou minha torta naquela boca imunda? Ok, verdade seja dita: ela possuía uma boca espetacular. Mesmo assim...
Será que fazia piadas com o meu nome quando se jogava nos braços de uma agente qualquer, provavelmente uma femme fatale, nas noitadas pós missão cumprida?
Era por isso, então, que virava para o lado e dormia feito pedra sempre que passava as noites comigo. Não que lhe faltasse apetite. Mas gastava cada gota de sua energia vivendo aquela emocionante vida dupla! Outra pessoa dormia a agente sexy; e eu dormia com a engenheira sem graça.
Vagabunda.
Agora vinha para o meu lado com esse sorriqDe repente, meu coração parou. Não gostei nada daquele brilho em seu olhar. A questão era a seguinte: será que Emma sabia que era eu, sua mulher, quem ela quase havia apagado naquele desfiladeiro no deserto? E agora estava ali para terminar o serviço?
Talvez não soubesse. Nem soubesse que eu sabia. E no final das contas quisesse apenas me servir um pouco de vinho. Ou talvez estivesse cansada da mulher enfadonha e quisesse dar cabo dela apenas para fugir com alguma agentezinha ordinária chamada Natasha!
Ela vinha na minha direção, casualmente carregando a garrafa na palma da mão, olhos sempre pregados nos meus.
Isso mesmo. Continue com o teatro.
Aquela garrafa me deixou tensa. Se quisesse, Emma não teria a menor dificuldade para espatifá-la no meu crânio.
Meus olhos procuraram a faca mais próxima. Prendi a respiração, cruzei as pernas, levantei minha taça.
Quando Emma se abaixou para me servir — ou matar —, percebi que ela parecia surpresa.
Meu vestido havia subido um pouco nas pernas, revelando meu joelho enfaixado e os hematomas adquiridos na queda sobre as rochas no deserto.
Emma deixou a garrafa escorregar da mão.
Num gesto rápido, estiquei o braço e peguei a garrafa em pleno vôo. Uma manobra brilhante. Reflexos excelentes.
Reflexos incomuns para uma dona-de-casa.
Que estupidez, a minha.
Emma lentamente abriu um sorriso.
Nosso olhar se cruzou outra vez.
Ela sabia. E sabia que eu sabia. E agora eu sabia que ela sabia que eu sabia.
Isso mesmo. De repente nos transformamos num casal que sabia demais.
Deixei a garrafa cair.
Vendo-a cair — aparentemente em câmera lenta — em direção ao nosso tapete perfeitamente branco, fui surpreendida por certas lembranças...
Nosso encontro em Maputo. Emma sempre envolvida nas coisas. Nunca lhe perguntei o que estava fazendo por lá, nem por que saía em horários tão estranhos para supervisionar um projeto de construção. Só me interessavam aquelas horas abençoadas em que ela estava livre para passar em minha cama.
Quando não estava fazendo amor com ela, cuidava das missões que me haviam levado até lá. Três assassinatos em apenas uma semana.
E Ela? Decerto fazia exatamente o mesmo.
A piranha vinha mentindo para mim desde o início.
Com um barulho surdo, a garrafa se esborrachou no chão, espalhando vinho para todos os lados e cobrindo nosso tapete perfeito com uma terrível mancha vermelho-sangue.
EMMA
Falamos ao mesmo tempo.
— Vou buscar uma toalha — disse Regina.
— Deixa que eu busco — eu disse.
Uma desculpa. Nós duas precisávamos fugir.
Corri até meu escritório e fechei a porta, arfando, a mente funcionando a mil por hora.
Numa única noite, num único instante, o mundo inteiro havia mudado. Nenhuma palavra dita. Nenhuma bala disparada.
Mas nossos olhos haviam confessado tudo.
Ela sabia, eu sabia. Não havia caminho de volta.
Olhando nos olhos de Regina enquanto o vinho se derramava, tive um pequeno flashback. Recordações de Maputo.
Não tinha perguntado à ela o que fazia ali. Não tinha estranhado a facilidade com que tinha caído na minha cama. Apenas havia ficado feliz, muito feliz, por tê-la ao meu lado. E entre um encontro e outro, quando eu dava um jeito de escapulir para cuidar das minhas missões — quatro assassinatos numa única semana —, ela escapulia para fazer a mesma coisa.
A vaca vinha mentindo para mim desde o início.
Já havia tentado me matar antes. Agora que estava ciente de que eu sabia de tudo, não tinha outra coisa a fazer senão me eliminar.
Ouvi uma porta bater em algum lugar e gelei. Colei o ouvido contra a porta, mas não ouvi nada. Fui até a escrivaninha e abri um compartimento secreto dentro de uma das gavetas.
Uma arma, um pente de balas e um silenciador.
Três movimentos rápidos, e as partes se encaixaram. A arma escondida nas costas, respirei fundo e saí para o corredor.
Varri com os olhos a sala de jantar. As chamas das velas cintilavam de maneira estranha. Como se Regina tivesse acabado de passar correndo por elas.
— Regina? — chamei. — Querida...?
Nenhuma resposta.
Talvez já não respondesse por esse nome.
Então ouvi um barulho do lado de fora. Imediatamente olhei pelas Janelas. A porta da garagem estava se abrindo. O carro... Ela estava fugindo de carro!
De um pulo atravessei a sala, saí pela porta da frente, cruzei o jardim e cheguei à garagem a tempo de vê-la engatar a ré para sair. Joguei-me no caminho, impedindo que ela continuasse. — Pare o carro, Regina!
Não parou. Em vez disso, pisou fundo no acelerador, jogou a traseira do nosso lindo Mercedes contra a mureta externa e seguiu em disparada sobre a grama do jardim.
Sabia que não poderia alcançá-la simplesmente correndo atrás do carro. Mas talvez pudesse cortar caminho pelos quintais dos vizinhos...
Péssima ideia. Especialmente no escuro. O quintal dos Nolans foi fácil, mas, depois, saltei por cima de uns arbustos e...
Merda! Aterrissei sobre um brinquedinho infantil qualquer. Depois de abrir caminho entre as gangorras, pulei para o quintal seguinte e dei de cara com um cachorro que não parava de latir. Em seguida...
Bem, digamos que tive de enfrentar toda a parafernália dos quintais suburbanos até chegar ao fim da corrida.
Teria sido engraçado se fosse um filme.
Por fim, cheguei ao outro lado do quarteirão e subi numa cerca segundos antes de Regina dobrar a esquina.
Não é todo dia que encontramos uma mulher capaz de dobrar uma esquina sobre duas rodas.
Nossos olhos se encontraram.
— Alguma coisa que você queira me contar? — berrei.
A expressão no olhar dela teria incendiado até mesmo um boneco de neve, e talvez por isso a cerca onde eu me encontrava tivesse escolhido justo aquele momento para desabar. E lá fui eu, meter a cara numa poça de lama. O que já teria sido uma desgraça. Mas então...
Bum! Com o impacto, acidentalmente disparei minha arma.
— Merda!
As balas são assim: não há como chamá-las de volta. De certa forma, são como o sexo. Quando aquele martelo bate e diz “é agora”, pronto, a venda já foi feita.
E, tanto num caso como no outro, “acidentalmente” nunca é uma coisa boa.
Mas há algo ainda pior do que acidentalmente disparar uma arma.
É quando a bala escolhe — entre uma infinidade de alvos possíveis — acertar o parabrisa do carro da sua mulher. Caralho. Se Regina já não estivesse morta... decerto viria atrás de mim.
REGINA
Talvez Emma quisesse continuar em casa e brincar de polícia e ladrão. Caubói e índio.
Espião x espião.
Mas eu já estava farta de jogar. E não ficaria naquela casa nem por mais um segundo.
Então fugi.
— Seis anos... — sussurrei, enquanto atabalhoadamente tirava o carro da garagem. — Seis anos...
Saí cantando pneus pela rua e dobrei uma esquina. De repente, como dois holofotes, os faróis do carro iluminaram Emma, encaparada no alto de uma cerca feito uma ladra em fuga.
Provavelmente tinha cortado caminho através dos quintais dos vizinhos.
Ela berrou um insulto qualquer, que não pude entender, e respondi com um olhar de poucos amigos. Então a cerca onde ela se encontrava desabou, jogando-a na lama, e antes que eu pudesse fazer qualquer coisa...
Uma bala atravessou o para-brisa do meu carro!
Mal pude acreditar. A vagabunda estava tentando me matar!
Instintivamente fechei os olhos e meti o pé no freio, já preparada para o impacto. Precisei de alguns segundos para constatar que a bala havia passado raspando pela minha cabeça. Suspirando de alívio, olhei através do furo no para-brisa, e lá estava ela, a assassina.
Nas horas vagas, minha esposa.
— Filha da puta! — gritei.
Emma ficou de pé; estava coberta de lama.
— Calma, querida, muita calma! — Ela berrou, correndo como uma louca na minha direção e acenando com a arma. — Não tive a intenção de...
Mas eu estava furiosa demais para raciocinar. Sabia apenas que não queria mais ouvir suas mentiras.
Embiquei o carro na direção dela — e pisei fundo.
—Isso mesmo! — Emma gritou. — Libere a raiva! Mas depois percebeu que eu não estava brincando.
— Regina! —berrou. — Pare esse carro!
— Sinto muito, querida — murmurei para mim mesma. — Você não diz mais o que eu devo ou não devo fazer.
Uma das muitas coisas que Emma não sabia a meu respeito era o fato de que, ao longo dos anos, eu já havia passado por toda espécie de desafio e jamais havia perdido. Muitos grandalhões poderiam atestar minha coragem se já não estivessem debaixo da terra.
No último segundo, Emma saltou sobre o capo e depois, para cima do teto.
Dei uma olhadela para trás para ver onde ela havia caído. Tudo bem, para ver se ainda estava viva.
Nenhum sinal de Emma.
O que não poderia significar outra coisa a não ser...
Ela ainda estava no teto!
Meio segundo depois, uma das Janelas de trás explodiu com um chute vigoroso de Emma, que em seguida se jogou no banco coberto de estilhaços.
Uma manobra radical, devo admitir.
— Regina, escuta... —Ela começou a dizer, inclinando-se sobre o banco da frente.
Mas eu já estava a meio caminho da minha própria manobra radical: abri a porta do carro e pulei fora, rolando no asfalto até subir num gramado macio.
Cara Emma — eu gostaria de ter dito depois de pular —, adeus. Nosso casamento acabou. Pode ficar com o carro.
Mas ela não teria ouvido. Berrava alto demais.
EMMA
Caralho!
“Ela pulou do carro... E eu estou aqui, no banco de trás!”
Não restava dúvida. Ela ainda não havia perdoado o tiro acidental!
Olhei pela Janela e vi Regina, já de pé, limpando a sujeira da roupa como se nada tivesse acontecido.
E senti o carro — tumm! — bater no meio-fio.
— Regina! — berrei, os pneus já fora do chão. — A gente precisa conversaaaaar!
Não sei como, mas naquela mesma noite fui bater — suja de lama, machucada, mas sem nenhum osso quebrado — na porta do Killian.
Fisicamente eu estava bem.
Mas o coração e a mente nem tanto. O primeiro acabara de levar uma surra, e a segunda estava prestes a explodir.
Era tarde, mas eu precisava de alguém para conversar. Mesmo que esse alguém seja o Killian.
Killian abriu uma brecha e espiou para fora. Depois escancarou a porta, dizendo:— Que diabos aconteceu com você?
Mancando, atravessei a soleira.
— Minha mulher.
REGINA
Sem saber para onde ir, tomei a direção da minha segunda casa — o escritório-fachada da Magic-Click. Era tarde, mas Kathryn ainda estava lá. Olhou para mim e, sem hesitar, buscou uma cadeira confortável para que eu pudesse sentar.
Respirei fundo e... contei à ela as novidades.
— Como é que é?
Respondi com uma cara de reprovação, pois já não tinha sido fácil cuspir as palavras da primeira vez. Além do mais, ela havia compreendido muito bem toda a história e não precisava ouvir tudo de novo.
—O agente que tínhamos ordem para matar, o “homem” que tentou me matar. Para começo de história nunca foi um homem. Era um elemento conhecido. Quer dizer, relativa mente conhecido: minha esposa.
—Mas tudo isso é tão implausível! — disse Kathryn, puxando uma cadeira onde pudesse se jogar. — Uma chance em um milhão... — Ela balançou a cabeça. — Mas poderia ser pior, Regina.
As farpas que meus olhos lançaram na direção dela poderiam ter derrubado um touro no chão.
— É mesmo?
Kathryn encolheu os ombros de um jeito engraçado, e eu teria rido fossem outras as circunstâncias. Falávamos como duas amigas que compartilham os detalhes sórdidos da infidelidade de seus cônjuges. Só que, no meu caso, a traição ia muito além de um simples affair com a vizinha ou de uma bebedeira inconsequente numa viagem de negócios.
“Preferiria mil vezes não saber de nada...” diria a esposa ultrajada à amiga solidária. “Ah, se eu pudesse fazer de conta que nada disso aconteceu...”
Mas não sou uma mulher como as outras nem minha vida é como a delas. Já ia longe a encruzilhada diante da qual eu havia escolhido o caminho menos percorrido. Fazia muito que estava em paz comigo mesma.
Mas então Emma entrou na minha vida e complicou tudo. Fez com que eu sentisse coisas que jamais havia imaginado poder sentir por alguém. Fez com que eu desejasse uma vida sabidamente impossível. No calor da hora, eu havia deixado que a excitação e o perigo de Maputo me turvassem a razão; deixado que o inimigo capturasse a última coisa que eu gostaria de um dia ver capturada.
Meu coração.
Kathryn me havia alertado, mas não lhe dei ouvidos.
Felizmente minha melhor amiga era uma profissional casca-grossa dos serviços de inteligência e tinha muito mais a oferecer que um lenço e um copo de água com açúcar.
— Tudo bem — ela disse. — A situação é um pouco esquisita. — A julgar pela expressão no olhar, Kathryn já tinha visto aquele filme antes. Um filme nada agradável de se ver. E pela primeira vez imaginei como seria a vida dela fora do trabalho. Esse era um assunto sobre o qual raramente falávamos nos domínios da Magic-Click.
Comecei a brincar com minha aliança de casamento.
— Olha — continuou Kathryn — isso tudo tem um lado positivo... Você não a ama. Precisa matá-la. Ora, ninguém faz isso melhor que você!
Fiquei calada.
Podia sentir Kathryn olhando fixamente para mim, tentando ler meus pensamentos.
— Espera aí — ela disse. —Não vá me dizer que você ainda ama essa mulher... Depois de perceber o olhar severo em meu rosto, Kathryn saiu da sala por iniciativa própria.
Era uma agente calejada e sabia como evitar o fogo amigo.
Ah, paciência... Eu me desculparia depois; por ora, estava contente por ficar sozinha.
Fui até o frigobar do escritório e busquei um copo com gelo e uma garrafa de scotch.
Servi a bebida como se fosse Coca-Cola Light; depois segurei o copo com as duas mãos e mandei tudo para dentro com um único shot. Nada muito elegante, eu sei. Mas resolveu o problema.
Aquela era — afinal — uma ocasião especial.
Enchi o copo outra vez. Depois tirei a aliança e fiquei olhando para minha mão. Uma aliança pálida e fantasmagórica permanecia na pele, onde, durante tantos anos, o ouro havia protegido a carne das vicissitudes da vida.
Essa marca desapareceria com o tempo? Ou ficaria ali até o último dos meus dias, como uma cicatriz?
“Não vá me dizer que você ainda ama essa mulher...”
A pergunta de Kathryn pairava no ar.
Santo Deus, eu tinha medo de saber qual seria a resposta verdadeira.
Mas estava diante de uma nova encruzilhada, e só poderia seguir por um único caminho.
Literalmente.
A aliança caiu no chão. Dei mais um gole na bebida. E fiz o inadmissível: eu, Regina Mills— matadora experiente e profissional, coração de pedra —, deixei a cabeça cair entre as mãos e chorei.
EMMA
Killian é meio lento para algumas coisas, mas naquela noite foi rápido no gatilho ao me aconselhar.
Depois de ouvir toda a história em detalhes, repetiu “eu te disse” um milhão de vezes (tudo bem, eu tinha feito por merecer) e depois sentenciou:
— Apaga a mulher.
Ouvi aquilo, ainda bufando de raiva, e imediatamente percebi que não havia outra coisa à fazer.
— Isso mesmo. Você tem toda razão. Vou apagar a vadia — dei um soco no ar, a título de ênfase.
— Assim é que se fala! — disse Killian. — Agora está pensando com a cabeça.
Precisei afastar um pote de biscoitos, uma fatia de queijo cheddar quase podre e um vidro de mostarda aberto para pegar uma pistola automática sobre a bancada da cozinha. Pela primeira vez na vida fiquei feliz por Killian ser tão desleixado.
— Vou levar isto aqui emprestado, pode ser?
Killian fez que sim com a cabeça, com total naturalidade, como se eu tivesse pedido para filar um cigarro.
Com a arma na mão, e pilhada de adrenalina, irrompi porta afora.
Exterminadora saindo em missão... para matar a própria mulher.
Mas alguma coisa no ar fresco da noite parecia me dizer: “Segura a tua onda aí.”
Talvez fossem as estrelas. Talvez fossem as vozes esquizofrênicas na minha cabeça. De um jeito ou de outro, não conseguia encontrar forças para atravessar o jardim de Killian. Fiquei ali, parada, como se tivesse encurralada em uma espécie de cerca elétrica psicológica.
Estava cansada. É, era isso, eu estava cansada.
Resignada, voltei para a casa e entrei.
— São quatro da matina — expliquei à Killian. — Amanhã eu acabo com ela.
— Tá certo, tá certo — ele concordou —, amanhã você acaba com ela. Já é tarde. — Killian tomou a arma das minhas mãos. — Quer dormir aqui?
Pensei em dizer “Não, vou dormir em casa”, mas logo me dei conta de que não tinha mais uma casa para onde ir.
Então aceitei o convite de Killian.
Subitamente tomado de uma exaustão física e mental, joguei-me num sofazinho surrado da sala. Killian pegou um cobertor, um cobertor de criança, bordado com gatinhos e vários arco-íris. Supus que tivesse sido dele um dia, pois notei que meu amigo relutou um pouco antes de entregá-lo.
— Boa noite, Killian — eu disse, desmaiando logo em seguida.
— Boa noite, Emma — ele disse.
Só então ele largou o cobertor e apagou as luzes.
Deitada ali — o cobertor cobrindo apenas metade do meu corpo —, eu pelejava para encontrar uma posição confortável quando senti um volume debaixo da cabeça.
Passei a mão sob o travesseiro e comecei a tatear. Por fim encontrei uma automática calibre 45, aninhada debaixo da almofada do sofá. Ah, Killian... como minha mãe costumava dizer, Ele só não perdia a cabeça porque ela estava grudada no pescoço. Bocejando, deixei a arma cair no chão e depois tentei me entregar definitivamente ao sono.
“Amanhã”, prometi a mim mesma, “amanhã eu cuido de tudo”.
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