Mr. Lecter
3 III - Reditum
Notas iniciais
~ Dedico esse capítulo para a Tai Bluerose e a Killer. ~

Druid Hill Park, Baltimore
4h
As luzes das viaturas eram vistas de longe. Policiais passavam a faixa, delimitando o perímetro da cena do crime. Uma legista tirava fotos do corpo enquanto outros o examinava.
Um carro preto chega. Jack Crawford e Will Graham descem, indo em direção a área do crime. Uma jovem policial se aproxima de ambos.
— Jack e Will. — estendeu o braço para cumprimentar os investigadores — Eu sou Margareth Parker, do Departamento Policial de Baltimore. — disse, andando até perto do curioso corpo — A vitima é Thomas Kellan, 37 anos, solteiro e contador da Pittsburgh Inc.
Will se aproximou do corpo, enxergando os detalhes do homicídio: O corpo de Thomas estava sentando em um banco ao ar livre, com a boca aberta para o escuro céu da madrugada. Dela pendiam várias notas de dólares, preenchendo toda a boca do homem. O corpo de Thomas estava completamente nu, mas o que mais chamava a atenção era o corte retilíneo em seu abdômen, onde se encontravam milhares de moedas. Elas recobriam toda a base do corpo até o ferimento.
O ferimento. Ele com certeza chamava a atenção de Will. Não por ser brutal ou feio, mas por ser, apesar de tudo, limpa.
— A pessoa que fez não queria que houvesse muito sangue. — averiguou, com uma lanterna — Não sei dizer se o corte foi muito profundo.
— Acredita que isso tenha matado o homem? — perguntou Jack, logo atrás de Will.
— Meu palpite é que não. — disse, examinando o resto do corpo. Confuso, Will se virou para Jack. — Bem, precisaremos do Zeller.
Baltimore, Maryland
8h
— Há várias maneiras de expressar afeto por uma pessoa, Hannibal. Mas te conhecendo bem, sei que você é um tanto reprimido quando o assunto é sobre seus relacionamentos. — diz Bedelia Du Maurier, antes psiquiatra de uma grande clínica em Baltimore, agora Bedelia se resumia a atender unicamente Hannibal, que insistia em manter as consultas mesmo após o fechamento da clínica.
— Meus relacionamentos são, de certa forma, restritos. Mantenho quem eu quero por perto, enquanto repulso a presença de indesejados. — diz Hannibal, bebericando um vinho tinto suave de alguma reserva italiana no qual não conhecia. Bedelia deveria ser um pouco mais seletiva.
— Está se relacionando com Alana Bloom. O que move o seu afeto por ela?
— Não posso responder com exatidão. Talvez o delicioso cheiro de seus cabelos, ou suas belas curvas. Pode ser também por sua inteligência e meticulosidade. — explica, tentando buscar na memória as qualidades de Alana. E por mais que sentisse afeto por ela, tinha plena certeza que o relacionamento entre eles não passaria de um bom sexo seguido de uma boa bebida.
— Também tenho ciência que Will Graham tentou te matar, mesmo estando internado em um hospital no interior de Maryland. O que te faz quere-lo por perto, Hannibal? — perguntou, mais curiosidade pessoal do que profissionalismo.
Percebeu que Hannibal ponderava, e que seus olhos pareciam um tanto receosos. Ávidos por algo que ela tentava, falhadamente, entender. O que Hannibal sente por Will? Piedade ou afeto?
— Às vezes eu me pergunto o que Deus sentia por Adão, sua criatura, a partir do momento em que o criou. Ele era perfeito, criado a sua imagem e semelhança. — Hannibal se levanta de sua cadeira acolchoada e vai em direção a grande janela da sala. Dela, ele conseguia observar o bonito jardim de Bedelia, desde selvagens margaridas e delicadas rosas vermelhas. — E ainda mais curioso por saber o que Ele sentiu ao ver sua perfeita criatura se corrompendo ao pecado. O que você acha? Amor incondicional ou ódio repentino? — perguntou, tornando a sentar na cadeira, encarando Bedelia em seus olhos.
— Will não é uma criatura criada a imagem é semelhança de algum deus, Hannibal. É um homem, e eles se corrompem por sua própria ignorância, não pelo pecado. — Bedelia estava peculiarmente curiosa para entender onde a sádica mente de Hannibal a levaria, e para isso, precisava dar um pouco mais de corda para que o brinquedo continuasse a andar — Mas se fosse apostar em algo, diria que apesar de todas as más circunstâncias, Deus amou sua criatura incondicionalmente, pois, segundo o que dizem, Ele é misericordioso e pleno.
Hannibal sorriu maliciosamente, parecendo saborear as palavras de Bedelia, como se a mesma tivesse revelado algo sem a intenção.
— Belas palavras para uma descrente. — sorriu novamente — Will era fraco, vivendo atormentado por sua mente fraca. Eu, o fiz forte. E assim como Deus, eu amo incondicionalmente a minha criatura, porque a fiz igual a mim. — Hannibal apreciava cada palavra que dizia, o que deixava Bedelia cada vez mais ciente de algo que ela ainda não entendia. Pelo menos não por completo. — À minha imagem e semelhança.
Knight Gunsmith Co., Baltimore
11h
Alana mirava com destreza, segurando a respiração por alguns segundos. Acerte no centro, Alana. No centro…
O tiro acertou no ombro do velho alvo da loja de armas. Mais um pouco de prática e logo acertaria bem ao centro, no coração do homem de papel a frente.
Segurou a arma com ambas as mãos, logo a frente de seu rosto. Fechou o olho direito e interrompeu sua respiração. Apertou o gatilho. E, como em uma câmera lenta, Alana viu a bala correr todos os sete metros e acertar em cheio o coração de Hannibal, que caiu sem vida e jorrando sangue. Alana fechou os olhos fortemente, tentando apagar aquela indesejável imagem de sua cabeça.
Expirou o ar de seus pulmões e tornou a olhar o alvo. O tiro havia acerto em cheio, fazendo um belo furo no papel.
Travou o cão da arma e a pôs sob uma bancada de madeira. Uma forte dor de cabeça atingiu sua cabeça, a fazendo sentar em um banco que havia por perto. Seus dedos massageavam a sua têmpora delicadamente. O que eu estou fazendo? Qual é a necessidade disso?
Mas algo nela sabia o real motivo de estar ali, apreendendo a atirar e treinar a sua mira. Algo a alertava, como grandes sinos de uma igreja. E algo que havia aprendido a muito tempo é que sempre confie em seus instintos.
Wolf Trap, Virgínia
12h
O sol daquele dia estava caudaloso, derretendo a neve superficial e fina que cobria o relvado de sua casa.
Will serrava tábuas para arrumar o teto de seu depósito, que aos poucos cedia com o peso da neve.
O depósito era um tanto maltrapilho, com ferramentas mal arrumadas, correntes ao chão e serragem espalhada por boa parte das superfícies. Toda a estrutura era de madeira de carvalho escura, o que fazia ser constantemente atacada pelos famigerados cupins, consumindo muito tempo do já escasso de Will.
Subiu as escadas que levava para perto do teto e com dois pregos martelou a tábua, reforçando o teto e prolongando um pouco a queda daquela cobertura mal feita.
Descia lentamente quando ouviu um ruído de carro se aproximando. Não esperava ninguém, e muito menos queria alguém ali. Se era algo que ele não abria mão era de seu tempo livre, escutando o grandioso e etéreo som do silêncio.
Foi até a porta do depósito e abriu. Ao ver o carro, Will suspirou fundo. Era o carro de Hannibal. E o mesmo esperava em sua porta, trajado elegantemente como se fosse enfrentar uma nevasca.
Sem muito barulho, Will seguiu para a porta dos fundos de sua casa e adentrou. Tirou a sua camiseta suja de serragem e suor e a jogou na pilha de roupas sujas, que se acumulava do lado de sua máquina.
Prosseguiu pela cozinha estreita, passando por seus cães sonolentos, e abriu ambas as portas de sua casa.
— Hannibal. — saudou, sem muito ânimo.
— Will. — disse, estendendo a mão e revelando uma sacola recheada de alguma coisa no qual não conseguiu identificar — Parece estar faminto.
— Entre. — disse, abrindo a porta para Hannibal, que não pestanejou.
Colocou a sacola sob a mesa de centro da sala e a abriu, revelando um cheiro maravilhosamente suave e gostoso. Mas Will ainda se perguntava porque aquele homem estava ali, lhe oferecendo comida e a sua estanha companhia. Era como que, apesar de tudo, Hannibal gostasse da presença de seu “amigo” Graham. O que você está planejando, Hannibal?
— Um simplório Cassoulet de fígado acompanhado de bisque de camarão. — disse, como se degustasse o cheiroso prato somente pela fala. Abriu a vasilha de porcelana branca, espalhando pelo cômodo o perfume de fígado bem temperado e camarão, acordando até os cães, que antes dormiam pesadamente.
— Por que? — perguntou Will, sem rodeios — Por que você faz isso?
— Talvez você não tenha percebido, mas existe algo comum entre nós dois. Algo que você ousou despertar quando esteve naquele hospital. — Hannibal sorriu ao ver que Will, mesmo não aparentando, concordava com ele. Seus olhos estavam agitados, o que é um sinal de questionamento. Auto questionamento. — Sente-se, antes que o Cassoulet esfrie.
Ele se sentou, mesmo que um tanto contrariado. A presença de Hannibal acendia a raiva que tentava conter em seu âmago.
— Fiz o que tive de fazer, Hannibal. Você me enjaulou na porra daquele hospital, fazendo todos, inclusive eu, acreditar que estava enlouquecendo. — a raiva lhe subia a cabeça, e Will desejava ter em suas mãos o pescoço de Hannibal, para que concluísse o trabalho mal feito de Matthew Brown, entretanto, a sua recém adquirida sanidade não lhe permitia.
Hannibal admirou-o com incredulidade. Via tanto de si naquele homem, e, ao mesmo tempo, tanta diferenças. Seu trabalho ainda não havia terminado por ali. Precisava moldar ainda mais.
Se virou na direção de Will. Seu rosto não transparecia absolutamente nada. Era somente um rosto, vazio.
Hannibal segurou a mão dele com afeto, lhe olhando em seus negros olhos.
— Um dia você se olhará no espelho e verá que estou certo. — disse — E espero não seja tarde demais.
Hannibal o soltou e, sem mais nem menos, foi em direção a porta, deixando Will novamente sozinho.
Ele ficou sem entender absolutamente nada, mas se lembrava claramente do aperto de mão afetuoso de Lecter. Parecia que ele queria lhe passar algo com aquele simples gesto. Algo diferente de tudo que já havia proposto.
Seu estômago grunhiu e seus olhos fitaram aquele Cassoulet, que parecia terrivelmente apetitoso.
Apenas sentou-se naquele sofá, agarrou uma colher e comeu o delicioso prato, se lembrando de Hannibal a cada colherada. Magnífico.
Baltimore, Maryland
21h
A lareira de granito branco crepitava naquela fria noite. Hannibal lia Dogville, um livro estrangeiro de um autor um tanto desconhecido, mas que o admirava grandemente pela sua escrita ardilosa e sem escrúpulos, algo que lhe fazia se sentir plenamente familiarizado com os livros dele.
Bebericou seu chá preto e tornou ao seu livro, quando ouve alguém bater em sua porta. Lecter sorriu.
Foi até a grande porta de madeira clara e a abriu. Era Alana, que lhe cumprimentou com um tímido beijo.
A morena adentrou com várias sacolas, mas algo ali chamou a atenção de Hannibal. Um odor familiar, um tanto ácido e fétido. Revolver. Pólvora.
Poderia haver várias explicações para isso, mas Hannibal não se atentou a nenhuma delas. Ele sabia que algo ali não estava em perfeita sincronia, e isso o tirava do sério. Tinha convicção de que o relacionamento dele com Alana era algo mais físico a sentimental, e isso fazia com que houvesse um clima estranho e soturno quando os dois não estavam se amando, como se todo o relacionamento, se é que poderia chamar assim, se resumisse a cama, somente. E ao ver Alana ali, com roupas e afetuosa em sua casa, fazia se sentir estranhamente incomodado.
Além de que havia a pólvora. Aquele cheiro ferroso fedia a segredo. Alguém aqui não está em perfeita sincronia…
Alana abriu a sacola sob a mesa de centro da sala, revelando várias margaridas cheirosas.
— Achei que aquele vaso ali, em cima da lareira, estava precisando de uma cor — sorriu, retirando uma flor e colocando no vaso de porcelana negra, que contrastou perfeitamente com o amarelo da margarida.
Hannibal sorria da situação. Chegava a ser peculiar ver Alana fazendo tal coisa. Beirava o ridículo, pensava. Aquilo não era de seu feitio. Dê um basta, gritava sua mente. Mas preferiu deixar acontecer. Temos que dar corda para o brinquedo.
— Bonitas flores — disse, sem expressar muita emoção. — Agora você já pode ir.
Voltou-se para a poltrona e sentou, retornando a leitura e ignorando completamente a mulher.
Ela permaneceu imóvel, tentando assimilar aquilo. Foi quando percebeu que, apesar de tudo, Will estava certo. Hannibal não era uma pessoa de relacionamento, e ela só percebeu isso quando expressou um certo afeto para o mesmo.
Ele gostava do contato físico, do cheiro e das curvas, mas somente isso. Alana percebeu que havia sido, todo aquele tempo, um objeto para uso privado. Um estorvo.
A morena somente recolheu sua sacola e se virou para Hannibal.
— Boa noite. — e simplesmente deixou a casa.
Era somente disse que Alana precisava. Era somente disso que Hannibal precisava.
Sede do Departamento de Análise Comportamental (B.A.U.), Virginia
23h
— Devemos seguir com isso, Will. — afirmou Jack, fitando as fotos do corpo de Druid Hill Park. — Hannibal Lecter é, atualmente, o principal suspeito. Sei que não confiamos em você antes, mas precisávamos de provas e evidências. Agora, estamos em uma posição de risco. Não podemos avisar os superiores que estamos investigando ele. Seria inadmissível deixar ele trabalhando para nós e o considerar suspeito. — Jack expirou profundamente, retirando sua gravata listrada — Lecter é inteligente. Temos que fazer ele pensar que está seguro. E se ele for realmente o culpado, a besta que vive nele retornará. — completou. Will permanecia calado, apenas analisando as fotos sob a mesa.
Ele sabe quem é o autor daquilo, mas não tem provas congruentes. Apenas sabia que Hannibal fazia tais atrocidades em suas horas vagas. O motivo? Só o mesmo sabia.
Repentinamente, o telefone de Jack toca.
— Crawford...Entendo...Interessante...Bem, estamos descendo para aí. — Jack desligou, e fitou Will com veemência. — Precisamos descer para o necrotério.
[...]
Brian Zeller estava ao lado do corpo, examinando novamente para ver se, em algum momento, havia perdido algo. Isso é diferente.
Ainda um tanto pensativo, retira a máscara e anota algo no relatório autopsial.
— Jack vai achar que sou…
— Jack vai achar o quê? — Zeller fora interrompido por Crawford e Will, que acabavam de adentrar na sala de autópsias. O cheiro alcoólico e pútrido provavelmente faria qualquer pessoa normal vomitar seu jantar, mas todos naquele recinto estavam acostumados com tais aromas.
— Chegaram no momento certo — diz Zeller, indo novamente em direção ao corpo — Quero que deem uma olhada nisso aqui. — sem drama, ele levanta a pele pálida do corpo, revelando todo o interior do corpo. As vísceras ainda apresentam uma coloração normal, constatou Will. Curioso considerando a forma que foi encontrado o corpo… — Como podem ver, as vísceras estão intactas. O que é peculiar considerando o grande corte no abdômen. — disse, apontando para o corte largo, que perfurou peles e músculos. Will franziu a testa. Não atingiu nenhum… — Sim, não atingiu nenhum órgão do homem. O corte foi tão perfeito e cirúrgico que o máximo que fez foi derramar alguns mililitros de sangue.
— Então, isso não foi o causa mortis? — perguntou Jack, coçando a barba por fazer.
— Sem dúvida não. — respondeu Zeller — Mas ainda mais curioso é que nem o corte nem as notas, que poderiam tê-lo matado sufocado, não fora a causa da morte do homem.
— Então o que foi? — indagou Will, que um momento antes parecia ser somente um fantasma, apenas examinando o que acontecia ao seu redor.
Brian Zeller sorriu amarelo e checou mais uma vez o relatório autopsial.
— É… inconclusiva.
— Inconclusiva? — perguntou Jack, descrente.
— Sim. Já fiz exame toxicológico, chequei a situação do cérebro, verifiquei órgão por órgão. — Brian entregou o relatório nas mãos de Jack, que logo passou para Will — Nada.
Will checou o relatório e percebeu que Brian havia se esquecido de mencionar algo. Mas algo naquilo fez seu estomago revirar, sentido o gosto forte de bílis em sua boca.
Não conseguindo segurar, Will Graham vomitou na primeira lixeira que achou.
Jack franziu o cenho e pegou o relatório novamente. Figado ausente?
— Ah, acho que esqueci de mencionar que o figado do homem foi removido. — completou Zeller, observando Graham ajoelhado na lixeira da sala. Jack também o olhava com certa curiosidade. — Você está bem?
Sem dizer absolutamente nada, Will saiu da sala. Queria respirar um ar que não tivesse cheiro de álcool por um tempo. Hannibal não fez isso comigo. Adentrou o elevador e apertou para subir ao térreo.
— E-ele não fez isso… — Graham conseguia sentir o gosto do fígado do Cassoulet serpentear em sua língua. Bruscamente, apertou suas mãos em sua boca, caso contrário despejaria todo seu almoço naquele elevador.
As portas sem abriram. Os olhos dele lacrimejavam com as contrações de seu estômago. Correu até as portas de ferro do B.A.U. e as abriu, vomitando compulsivamente.
Após alguns minutos, Will se levantou e se limpou com a manga de sua camisa. Agora, ele sentia novamente aquela raiva crescente. Queria mais que tudo esmurrar aquela cara bonita de Hannibal, que com certeza estava a rir em algum lugar de Baltimore.
— Você vai pagar por isso. Com certeza vai...
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