Motsatt

31 Capítulo 30 - O Dragão


Notas iniciais
Pois é, último capítulo. Só o epílogo agora.

Capítulo 30 – O Dragão

Klodike não sabia dizer exatamente o que sentia. Feliz em ter suas memórias de volta? Talvez. Feliz em rever seu pai? Não tinha tanta certeza. Era um misto de alegria em perceber finalmente seu mundo nos eixos com um gosto amargo de uma espécie de traição. Traição? Não era traição atacar a ele e Naphees quando já lhes garantira que tudo estava bem, para então apaga-los de si mesmos?

Já sabia quais foram as motivações para aquilo, porém... Havia alguma confusão ali, não havia? Simplesmente havia chegado àquele ponto? Não havia tido outro meio? Precisava ter sido daquele jeito?

O silêncio dominava o acampamento, porém não olhava para ninguém, apenas para seu pai ainda deitado. Com uma boa dose de esforço e ignorando os apelos de Aegis, Rhelt se sentou.

– Estou surpreso. Você está sendo mais amigável do que eu pensei que seria.

– Amigável. – repetiu.

– Espera... – ouviu Vannes murmurando atrás de si, provavelmente com Naphees. – Ele está dizendo que somos filhos do filho do Arenai?

– Basicamente, é o que parece. – foi a resposta.

Abriu a boca para dizer algo, qualquer coisa, porém não saiu nada. Os olhos de seu pai não eram inexpressivos como pareciam à primeira vista. Eram calmos. Apenas calmos. Aquelas eram suas maiores armas, afinal, como conseguiria se irritar e ter uma reação como a que realmente gostaria de ter enquanto aqueles olhos estivessem o fitando?

– Não vai dizer nada?

– O que eu poderia dizer? – sentiu uma pequena pontada da irritação. – Num momento eu sou eu, no outro sou nada.

– Certo, certo... – Baskar se intrometeu. – Entendo que este aparentemente é um reencontro familiar tenso, mas acho que isso pode esperar, não pode? Quer dizer, Rhelt, você pode estar sentado, pode estar falando, mas essas feridas ainda estão abertas aí. – Os olhos amarelos desceram para o próprio peito, torcendo o nariz com a visão. – Acabamos de parar depois de um dia cansativo e as coisas continuam acontecendo, sinceramente...

Rhelt soltou um suspiro e Aegis o fez deitar novamente. Arenai olhou de Klodike à Rhelt, e sinceramente esperou-o dizer algo, porém ele não disse nada. Um fato entremeou-se na mente de Klodike: Se era filho de Rhelt, aquilo queria dizer que era então neto de Arenai.

Que estranho. Não conseguia se ver chamando-o de “avô”.

A mão de Naphees em seu ombro chamou sua atenção. Olhou para ele, vendo-o com Maya abraçada ao seu braço, como de costume. Nero engoliu o seco discretamente. Os olhos de seu irmão haviam perdido seu brilho usual, sendo substituídos por olhos glaciais. Era quase como se por um momento fosse outra pessoa à sua frente.

– O que houve? – Klodike questionou.

–... Você está bem?

– Ótimo. – respondeu simplesmente e pela primeira vez não teve vontade de insistir. Olhou para Winter, que parecia ter congelado no lugar, fitando Klodike com uma expressão composta. Era visível que ele também havia percebido a diferença.

– Dante, o que tá acontecendo? – a vozinha da menina soou baixa do outro lado do acampamento.

–... Dorme Heidi.

– Mas eu acabei de acordar...!

– Dorme.

Ainda controlando sua respiração, Klodike levou a mão até o rosto, pressionando a região da testa e dos olhos com a ponta dos dedos. Tudo fluía de forma tão natural agora. Não simplesmente batia numa parede invisível e se fazia retornar, deixando-o sem respostas sobre si mesmo.

Porém agora não conseguia relaxar. Sentia-se no estado permanentemente tenso que havia se posto quando tinha dez anos. Era como se a qualquer momento alguma coisa fosse pular em si tentando mata-lo. Ergueu os olhos, vendo os olhares sobre si. A grande maioria eram dos seus irmãos.

Soltou um suspiro. Talvez a melhor coisa a se fazer no momento era tentar dormir, e deixar com que as coisas se ajeitassem naturalmente durante o sono.

Obviamente, acordou antes de todos por ter dormido mais cedo do que os outros. Sentou-se sem fazer barulho, olhando envolta. Arenai estava dormindo meio sentado meio deitado contra uma árvore. Aegis era uma bolinha de pelos ao lado de Rhelt. Naphees dormia com Maya, Esben dormia com Zia e Heidi estava espremida entre ambos. Vannes estava sozinho, assim como Elden e Baskar.

A mão de Rhelt levantou-se, apontando para seu filho.

– Estou o vendo acordado. Venha cá.

Levantou-se e foi silenciosamente até ele, sentando-se ao seu lado. Suas feridas encontravam-se cobertas por ataduras – provavelmente haviam vindo nas coisas de Elden, Baskar ou Arenai -, e ele ainda usava outras roupas. Ele não sentia mais o cheiro pútrido, então tinha quase certeza de que Aegis havia tratado com dedicação seus ferimentos.

– Você não dorme?

– Passei quase um dia inteiro inconsciente. Não conseguiria dormir nem se quisesse.

Klodike não disse, nem mesmo quando com esforço seu pai se pôs sentado, certamente contrariando o que Aegis havia lhe dito para fazer. Ele era bom em mascarar sua dor, porém ainda assim sabia que ele estava a sentindo.

– Entendo que esteja com raiva de mim, filho. – começou. – Você vai continuar com essa cara emburrada ou vai deixar com que eu me explique?

– Creio que eu entenda mais ou menos os seus motivos. Meu pai adotivo me contou o que sabia. – Rhelt ergueu uma sobrancelha. – Depois que os Bergais me encontraram, não havia mais o que esconder, certo?

– Deveria imaginar quando o vi aqui. Ainda assim, foram longos anos até que os encontrassem. Fico surpreso por terem demorado tanto.

Os dedos de Klodike estalaram quando os comprimiu. Haviam demorado para encontra-lo? Sim, haviam, porém quando o encontraram, a situação foi muito mais desastrosa do que poderia ter imaginado, com suas memórias ou sem.

– Foi realmente o último recurso? Quer dizer, selar a memórias, minhas e de Naphees?

Rhelt hesitou.

– Não sei. Pode parecer ironia, mas não me recordo de muita coisa antes de eu leva-los para a Terra e os entregar àqueles homens. Não. Dizer que não me recordo é errado. Eu me recordo, a questão é.... Foi confuso. Tudo ocorreu rápido demais e de um modo.... – um suspiro pesado exalou de suas narinas – Recordo-me que havia os ataques Bergais. Mas havia algo mais. E foi exatamente esse algo que me levou à tirá-los de Aurtrai. A questão é: É como se houvesse uma mancha justamente sobre essa coisa, assim não consigo identifica-la.

– Outra... Coisa. – repetiu lentamente, os olhos baixando-se e forçou a memória, até o fatídico dia. Estavam como agora, num acampamento na floresta. Bergais apareceram, provindos de um ataque à uma cidade nas redondezas...

Recordava-se agora. Havia algo matando os atacantes. Porém era exatamente como Rhelt dissera, ela era apenas uma mancha sobre sua memória, como se tinta houvesse sido vertida sobre uma pintura já pronta. Matava-os de forma sangrenta, chegando a atacar Rhelt. Pulara sobre o pescoço da pessoa, acertando-o repetidamente com as adagas que usava na época, enquanto quem quer que fosse tentava afogar seu pai ao perceber que ele não cairia diante cortes ou coisa do tipo. Ele não parava, mesmo com todos os golpes que levara, e o próprio Rhelt teve de se soltar quando conseguiu atingir um chute na pessoa.

– Ele matou os Bergais e tentou mata-lo.

– Afogado. E tentou arrastar você e seu irmão para algum lugar. Os Denores que conseguiram salvá-los.

– Sim... Me lembro. Todos atingimos ele de todas as formas possíveis, mas ele não morria. Acertei seu pescoço, Naphees lhe atravessou a cabeça. Aegis e Rarac atacaram seus olhos, o senhor quase lhe arrancou o ombro.

– E ele não caía. E continuava a nos perseguir, como se não houvéssemos feito mais do que arranhões a ele. Num momento em que conseguimos despista-lo que decidi tirá-los daqui. Pensei que só teria tempo de leva-los para a Terra e quando retornasse ele me atacaria mais uma vez. Talvez me matasse. Não foi isso que aconteceu. Retornei e me recordo de ter visto quem quer que fosse. Preparei-me para me defender e ele desapareceu no segundo seguinte.

– O que fez após isso?

– Me juntei ao exército, indo cuidar principalmente em ataques diretos à Berga. De vez em quando conseguia ir atrás de você e Naphees, porém achei que talvez fosse melhor mantê-los afastados desse meio. – desviou o olhar. – Faz quantos meses agora...? Nem me recordo direito. Me desentendi com um subcomandante do Golbazi, que estava encarregado daquele ataque. O que aconteceu depois... – balançou a cabeça. – Só me recordo da muralha ruindo e quando dei por mim, já estavam me arrastando para a prisão. Lá eu encontrei sua mãe. Ironia do destino ou dos Bergais, nos jogaram na mesma cela.

– Ela não mencionou nada disso... – comentou distraidamente, e Rhelt olhou-o surpreso. – Eu e Vannes fomos capturados há alguns meses, e também escapamos. Na fuga, a encontramos.

– Creio que só esteja vivo por causa dela. Tentaram me matar lentamente várias vezes, porém ela se utilizava das reservas de energia que possuía para me manter vivo. – passou distraidamente a mão por um ombro machucado. – Eu não estou gelado porque passei tempo demais no frio. Foi ela que fez isso. Creio que já teria morrido de hipotermia se não fosse por isso.

– Sendo assim, onde ela estava...

– Certamente perceberam que eu estava resistindo tanto devido à ela. Arrancaram-na de lá e a levaram para algum lugar, porém vocês já a resgataram. Admito que foi absolutamente inesperado encontra-la viva...

– Pensávamos que ela havia morrido em Nirllys junto com Vannes e Esben.

– Exato. Ela fez o mesmo que eu fiz com eles, porém não teve tempo de ir com eles. Mas vejo todos aqui. – seu olhar correu pelos corpos adormecidos ao chão. – Creio que é apenas uma questão de tempo, mas posso retirar o selo mental deles também.

– Mas e quanto à você?

– Isso não vai me matar. – retrucou, então olhou ligeiramente para Arenai. – Agora não sei o que pensar pelo fato de tê-los encontrado justamente com meu pai.

– Arenai não sabe que nós somos seus netos?

– Bom, deveria saber...

Abriu a boca para questionar o que quisera dizer com aquilo, porém houve algo estranho. Uma estranha lufada de ar, uma estranha pressão, como se algo empurrasse o ar para baixo. Uma grande quantidade de ar.

Tum.

Levantou-se, e percebeu Arenai acordando. Seu pai olhou envolta, e Klodike ergueu-se, vistoriando as proximidades com o olhar. As árvores eram espaçadas, e estavam nas planícies antes das cordilheiras de montanhas ao longe. Avistava Amardad, a maior delas, despontando-se como se fosse um imponente castelo de pedra com centenas de metros de altura, cercada por montanhas menores.

Tum.

A movimentação indicava que os outros acordavam. A pressão fazia os ouvidos de Klodike doerem, e acabou pegando as Peregrinas por precaução, prendendo-as ao cinto. Viu os olhos verdes de Zia inquietos, enquanto Heidi se agarrava, assustada, a ela. Esben abriu seu olho direito e fechou o esquerdo. Ele também se levantou, cauteloso.

Tum.

Naphees pegou Fim.

Tum.

Viu Vannes sacando Sanadora.

Tum.

O vento soprou de modo que as roupas e os cabelos dos que estavam ali chicotearam furiosamente. Klodike imediatamente percebeu que havia algo errado, muito errado. Olhou para Esben, poucos metros à sua frente. Ele olhou para cima e ambos os olhos se arregalaram.

Tum.

Só sentiu as garras fechando-se envolta de si, agarrando-o com uma força inacreditável que arrancou o ar de seus pulmões. Antes de gritar, antes de reagir, seus pés foram arrancados do chão. Impotente, pareceu que em apenas um segundo estava próximo a seu pai, no seguinte o chão distanciava-se de seus pés o acampamento, as árvores, os rostos daqueles que o acompanhavam desapareciam, tornando-se meros pontos à distância.

Gritou, e quando olhou para cima, gritou mais ainda.

Era um dragão.

Suas escamas eram de um amarelo profundo, quase passando para um tom de mostarda. Ele era imenso, a cabeçorra estendendo-se à sua frente, enquanto as asas, que lhe recordavam imensas asas de morcego que batiam vigorosamente. Estava preso entre suas patas dianteiras, enquanto as traseiras estavam elegantemente curvadas para trás, a imensa cauda serpenteando atrás de si.

Havia sido pego por um dragão. Assim, tão rapidamente. Tudo o que lhe passava por sua cabeça era que viraria comida. Como poderia lutar contra um dragão?! Um dragão?! De onde ele saíra? E por que havia sido justamente ele?! Klodike sentia o desespero amargo no fundo da garganta, os olhos azuis arregalados. Não conseguia parar de olhar para o abismo que abria-se sob si. Se caísse, estaria acabado. Mas se continuasse ali, estaria acabado do mesmo modo.

Era isso? Sobrevivera à uma guerra, à Bergais, à tortura, ao treinamento do Esben, à uma cova de ladrões para no fim das contas ser devorado?

Sua boca estava seca, e erguendo o olhar, via o dragão movendo-se habilidosamente entre as montanhas. Já havia seguido tão rápido?! O coração de Klodike parecia que ia sair pela boca. Batia tão furiosamente que parecia que iria explodir. Sinceramente, jurava que estava prestes à chorar. Que alternativa tinha? Não tinha como se soltar sozinho. Uma dentada iria acabar consigo. Se ele pressionasse aquelas garras contra seu corpo, morreria do mesmo jeito.

Pensou em Far. Se morresse, o que fariam com ela? Nunca mais a veria? Viveria presa em algum lugar? Seria executada, vendida como escrava?

O dragão entrou em uma montanha de um modo que Klodike não conseguiu identificar. Apenas viu a escuridão tomando conta de si, o vento assobiando por seu cabelo. Certo. Certo. O dragão o levava para seu covil. Estava prestes à virar comida. Oh não...

As garras se soltaram e com um bufo, caiu no chão. Devido à velocidade, acabou rolando ainda por alguns metros, batendo em estalagmites e soltando gemidos doloridos. Seu peito subia e descia, e o estrondo próximo à si lhe indicou que o dragão pousara à sua frente. Abriu os olhos, arregalando-os ao ver as presas enormes. Rolou, conseguindo desviar, e o dragão soltou um rosnado baixo.

Levantou-se aos tropeços, correndo. Um lugar para se esconder, uma saída, qualquer coisa...! Sua mente em desespero sequer pensava no fato que qualquer tentativa de fuga seria inútil, que não importava quantas marcas pusesse em seu braço, nunca conseguiria escapar de um dragão.

Ele o chicoteou com a cauda, e conseguiu saltar no último segundo. Rolou mais uma vez, e se escondeu atrás de uma estalagmite. Outro rosnado e o inferno se fez ao redor de Klodike. O fogo foi dividido devido à pedra, porém à sentiu esquentando insuportavelmente para si, que era uma criatura do fogo. Os estalos o advertiram que deveria sair dali, então correu, saltando com cuidado para não atingir o fogo, para trás de um conjunto de pedras.

A estalagmite que se encontrava escondido antes quebrou com um estrondo, e ouviu outro rosnado do dragão. Não importava o quanto tentasse controlar sua respiração, seu peito descia e subia rapidamente, os arfares soando audivelmente. Ele logo seria encontrado daquele modo. Sequer percebera, mas as lágrimas já escapavam de seu rosto, e tremia quase que compulsivamente.

– Problemas com a comida – uma voz enrouquecida e grave soou. – Illuria?

– Não é para mim. – uma voz semelhante, porém claramente feminina. – É para Nalle.

Um estrondo soou, e Klodike se jogou no chão, encolhido e protegendo a cabeça com os braços. Estalactites caíram, vários pedaços voando em todas as direções enquanto eles literalmente explodiam.

– Maldito duas pernas... Ele é rápido.

– Deveria tê-lo queimado.

– Eles são ruins queimados. Os bons são os frescos, o sangue ainda pingando.

Rastejou. Viu um dragão cor de cobre num ponto mais alto, percebendo que seria facilmente notado caso ele olhasse em sua direção. Engoliu o seco, tentando o mais rapidamente que conseguia seguir para outra formação de rochas.

Infelizmente, o dragão o viu.

Ele saltou de onde estava, pousando bem encima de Klodike, tentando abocanhá-lo. Num movimento desesperado, pegou Peregrina e golpeou uma de suas presas. O dragão pareceu se irritar e ergueu-se minimamente, antes de cuspir fogo furiosamente. Aquele mínimo segundo foi o que precisou para correr entre suas pernas, escapando das chamas mortais. Sabia que o fogo de dragão era capaz de matar até mesmo um Talbordai queimado, então o que era capaz de fazer à um meio Talbordai?

Gritou quando a cauda o chicoteou, os espinhos presos à ela penetrando-lhe dolorosamente a pele. Com um giro, o dragão lhe arremessou como um torpedo. O sangue pareceu fluir diretamente do fundo de seu peito para fora da boca quando a pedra da parede foi derrubada. O ar se recusava a entrar em seus pulmões e voou durante quase um minuto até cair de costas no chão, praticamente quicando e girando no ar, antes de bater de peito e parar.

Tudo doía. Trêmulo, ergueu a cabeça, vendo mais dragões. Oito, pousando envolta de si num círculo quase perfeito.

Ah, estava acabado. Muito acabado.

– Não o devorem! – a voz feminina veio novamente, percebendo ser da dragoa cor de mostarda que havia o capturado. – É comida para os filhotes!

Deveria desistir? Como escaparia daquilo? Tantos dragões envolta de si, como aquilo acontecera? Por que não estava no acampamento, à caminho de Ha’qin? Por que não reveria Far?

– Só para garantir que ele não levante mais.

Então, o fogo.

De todas as direções. De todos os dragões.

Seus dedos se retorceram e a agonia foi tanta que não conseguiu se levantar. Não havia fumaça, mas não conseguia respirar entre aquelas chamas, que pareciam entrar por suas fossas nasais e iam queimando todo o interior de seu corpo. Abriu a boca para gritar, um reflexo desesperado naquele inferno escaldante, porém sua boca secou-se completamente, a pele parecendo ficar tão seca quanto um couro prestes à se soltar e sua língua não se tornou muito mais do que um pedaço de carne seca.

A pele de seus ossos pareceu borbulhar, enquanto as roupas e os cabelos tornavam-se fumaça, e dava a sensação de que ela derretia como se fosse metal, fundindo-se com seus ossos, prontos para reduzi-lo a algo. Não seria Klodike Ergaton-Perais, muito menos Jake Silverman. Seria um resto de carne carbonizada no chão de uma caverna enquanto era devorado por filhotes de dragão.

Encolheu-se, esperando que a dor logo se tornasse nada, que a escuridão viesse e que morresse de uma vez. Porém não foi o que aconteceu. Simplesmente o fogo parou, deixando sua pele como se retinindo. A fumaça parecia se despontar de sua pele e Klodike sabia que se o fim ainda não viesse, viria agora.

– Deve ter sido o suficiente.

– Vou ter que caçar de novo, não vai sobrar muito depois disso!

Porém, ao invés da massa carbonizada que os dragões esperavam, assim que a fumaça abaixou, o que eles viram foi um corpo inteiro, nu, os cabelos e qualquer sinal de pelo que poderia ter por seu corpo havia desaparecido. A pele nem parecia ter se rosado depois de todo o calor que fora exposta, e os olhos do dragão cor de cobre foram diretamente para o dragão nas costas do Galrdai, as escamas completamente preenchidas por uma coloração negra. Klodike ergueu a cabeça hesitantemente, vendo as feições confusas, estupefatas e incrédulas dos dragões à sua volta. Nunca imaginara que eles pudessem ser tão expressivos quanto estava vendo naquele momento.

Um cujas escamas eram de um azul escuro, quase como imaginaria a cor do céu noturno, adiantou-se, pronto para abocanhá-lo. Klodike esperou a dor, porém o dragão cor de cobre impediu o outro.

– Não! Vá até Saadi! Lhe diga que Aquele Que Não Queima finalmente surgiu.