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30 Capítulo 29 - Pai


Capítulo 29 — Pai

Jake não entendeu muito bem o que havia acontecido. Na realidade, ainda estava um tanto aéreo com tudo o que havia acontecido com Dante. Nero havia falado nele no dia anterior e então eram acordados com toda aquela situação. Agora havia aquele homem à sua frente, que fez com que até mesmo Aegis e Phaeron assumissem suas formas humanas.

– Por Jaya, como ele... – Elden murmurou, indo ajudar a carregar Rhelt para perto da fogueira. Por curiosidade, se aproximou.

Já havia ouvido falar do filho de Arenai, já que era respeitado tanto quanto o pai entre os meios do Esben, e também sabia que este estava desaparecido. Só que ele surgir do nada no acampamento deles era outra história.

Viu de cara que era inegável que ele era filho de Arenai. As feições de ambos eram quase idênticas, tirando pelo fato de o rosto de Rhelt ser ligeiramente mais fino que o de seu pai, os olhos pareciam ser diferentes também. Sua pele também não era tão escurecida quanto Jake havia se acostumado a ver entre os Talbordais, e seu cabelo era mais liso, porém ainda não deixando de ser ondulado, caindo até ligeiramente após os ombros, sendo tão escuro que parecia negro, porém emitia diversos reflexos vermelhos.

Sua armadura estava em frangalhos, o que fez Jake ficar surpreso. Sabia por experiência própria que era praticamente impossível danificar a armadura do Esben a menos por duas coisas: Magia ou...

– Ele está gelado. – Aegis constatou ao tocá-lo. – Ele é um Talbordai e está gelado.

Viu a preocupação profunda no rosto de Arenai, como raramente havia o visto. O cenho de Baskar se franziu ao ouvir aquilo e pegou a moeda que estava na mão de Rhelt.

– O que é isso?

– Ei... Vannes, não parece aquela chave da prisão Bergal?

Winter piscou. A garotinha que havia salvo ainda estava dormindo em seu ombro.

– Sim... Parece... – constatou. – Então ele fugiu da prisão?!

Arenai olhou aos dois brevemente, enquanto Aegis arrancava o que restava da armadura de Rhelt. A roupa que ele usava sob estava toda puída, além de rasgada e com marcas de sangue. Era visível que ele emagrecera drasticamente, e ainda havia machucados abertos por seu tronco. Aegis aproximou-se, farejando um ferimento. Ela se encolheu.

– O que foi? – Arenai questionou.

– Passaram extrato de Kuraibi no que quer que tenham usado para feri-lo. – ergueu o olhar. – Não vai dar para curá-lo com magia.

Os lábios de Arenai se comprimiram.

– Mas dá para curá-lo, certo?

– Sim, mas vai demorar um pouco. – ela olhou envolta. – Vamos ter que usar enxertos, poções, extratos, tudo o que há direito. – ela suspirou. – Mas não podemos ficar estagnados aqui.

– Vamos fazer uma maca. – Baskar bateu no ombro de Elden e ambos saíram.

Arenai começou a ajudar Aegis a retirar a armadura de seu filho, enquanto Jake ia com Nero atrás de roupas para Dante e Zia. A garota era literalmente um centímetro mais baixa que eles, porém o mais novo dentre os quadrigêmeos era uns seis mais alto que seus irmãos. Zia precisou de ajuda para descobrir como tirar aquelas roupas, porém Dante disse que assumiria a tarefa num tom que nenhum dos dois ergueu uma palavra contra. E também tomaram cuidado para não olhar na direção onde ela se trocava.

Winter acabou passando Heidi para Maya e começou a guardar as coisas que haviam deixado pelo chão. Não era muito, mas acabaram indo ajuda-lo. Não muito depois Baskar e Elden voltaram com o que pareciam ser duas árvores jovens. O mais baixo sentou-se, pegando uma faca e retirando qualquer galho ou folhagem, enquanto o loiro foi até seu cavalo, buscando uma manta.

– Era para ser só nós três viajando, depois passou para quatro, então pra sete, e agora são onze! – Winter cochichou.

– Para de reclamar e trabalha! – Jake cochichou de volta.

– Antes que vocês dois comecem a brigar – Nero interveio. – vão guardar o que já arrumaram nos cavalos, que eu guardo o resto.

Dante se aproximou, claramente perdido. Seu olho direito estava fechado, mas sem dúvidas aquela cicatriz chamava atenção de longe. Ele pegou sua espada que Jake deixara no chão, junto com a de Zia. Nero o examinou. Dante era obviamente mais alto, e se passaria mais facilmente por um Talbordai do que os outros, com sua pele bronzeada e o cabelo ruivo aloirado, de um tom semelhante ao de Arenai. Mesmo com todo o treinamento que haviam passado, ele parecia tão musculoso quanto eles, talvez até um pouco mais.

Era um tanto difícil acreditar que ele era mais novo do que si, mesmo que por uns meros minutos.

–... Isso é mau... – Aegis murmurou. – Acho que alguns ferimentos estão infeccionados. Espero que ele não esteja com nenhuma hemorragia interna. Phaeron, arranja alguma coisa para eu limpar essas feridas!

Antes que o Denor tivesse reação, Jake lhe atirou um pano. Phaeron foi até o rio – o mesmo o qual Nero causara uma enchente -, molhando-o. Espremeu o excesso de água e o entregou à Aegis.

– Está gelado, precisamos...

– Não tem nada quente aqui, sinto muito. – Retrucou. Ela apenas relegou-se a bufar e começou a limpar os ferimentos que se concentravam principalmente no tronco de Rhelt, antes de limpar também seu rosto e pescoço. Ela ergueu uma garra que Jake nunca percebera que ela possuía, e começou a cortar ligeiramente os ferimentos afim de drenar o pus. Desviou o olhar. Mesmo que já houvesse visto coisas muito piores, sentia uma certa agonia com aquilo.

– Como você está? – questionou à Dante.

– Hm? – olhou-o um tanto surpreso. – Bem.

– Bem?

– As coisas aconteceram um tanto rápido demais, não dormi direito, quase não dormi, mas agora está tudo bem. – deu um suspiro cansado. – Eu acho. Estou com a impressão de que vocês tentarão me arrastar para algum lugar.

Abriu a boca para se defender, porém então recordou-se de que assim como ocorrera com eles, era mais provável que o mais novo fosse acabar parando no exército. Ainda com a boca aberta desviou o olhar, um tanto sem graça. Fora um palpite correto.

– Por que sua expressão me diz que eu acertei?

– Ahm... É....

Zia aproximou-se, as roupas e joias femininas em suas mãos. Havia desfeito as tranças para retirar as joias que estavam trançadas nelas, e o cabelo caía como uma cortina prateada por suas costas. Jake sentiu uma pontada de curiosidade com os desenhos em sua pele, que brilhavam como ouro derretido, mas se manteve quieto.

– Certo, as roupas couberam em mim. Mas e quanto a essas o que eu faço?

– Arenai, o que ela faz com essas roupas? – Jake questionou-se antes de se reprimir. O comandante ergueu o olhar por um instante.

– Por enquanto, guarde, caso quiser mantê-las para uma ocasião que as peça. Se não, guarde até chegarmos à próxima cidade e as venda.

– O que você vai fazer?

– Esse não é o tipo de roupa que eu usaria em sã consciência.

Dante desviou o olhar, e Jake jurou que conseguiu ler sua mente devido à sua expressão. Apesar de não saber os motivos daquelas roupas – que aliás, não pareciam ter sido bons -, ele deve tê-la achado linda nelas ou algo do tipo.

“É impressão minha ou casais estão se formando à minha volta?” pensou um tanto desgostoso antes de se afastar com um suspiro. Espreguiçou-se, sentindo os ossos estalando e viu os Denores passarem Rhelt para a maca improvisada feita por Baskar e Elden antes de prendê-la entre Clehn e Obadiah. Com um movimento de sua mão, Aegis fez com que uma árvore trançasse seus ramos e formasse uma cesta de tamanho considerável.

– Eu e Phaeron vamos atrás de qualquer coisa que possa ajudar Rhelt. Nos encontramos mais à frente no caminho.

O outro Denor abriu a boca – provavelmente para protestar sobre algo como o fato de merecer um descanso, já que quase morrera -, porém ela simplesmente enfiou o cesto em suas mãos, transformou-se numa coruja e saiu voando. Ele suspirou, revirando os olhos antes de virar uma águia e ir atrás dela, a cesta ainda presa entre suas garras.

Assim, montaram nos cavalos. Deoks balançou a crina alegremente quando o montou, e Zia acabou indo atrás dele. Ao contrário de Zurl, o equino negro nem pareceu se importar. Nero pôs Maya, que havia tirado seu véu e envolvido Heidi com ele, sobre Obadiah, montando logo atrás e Dante e Winter foram em Clehn. Piscou vendo a cena, parecendo que só então a ficha caíra, e que finalmente os quatro estavam lá.

Seguiram num ritmo não muito rápido, devido à maca, porém também não demasiadamente lento. Foi o suficiente para cobrirem uma boa distância até o anoitecer.

– Arenai. – Baskar o chamou enquanto ainda cavalgavam, alto o suficiente para que Arenai o escutasse, mas não os que estavam atrás de si.

– O quê? – foi tirado de seus pensamentos. Estava pensando na gravidade dos ferimentos de Rhelt e se o filho conseguiria sobreviver.

– Aquela garota que veio com Esben, a de cabelo prateado. Você viu as marcas dela?

Admitiu que não prestou atenção, então olhou discretamente sobre seu ombro em direção à Zia, analisando rapidamente os desenhos sobre sua pele.

– Uma fada de Lyb. Fora dos templos. Agora como?

– Não me pergunte como se eu soubesse. – Óbvio que Arenai sabia sobre as sacerdotisas da deusa do amor, as “fadas”. Eram conhecidas pelos desenhos que surgiam em suas peles e o fato de viverem reclusas na maioria das vezes em seus templos numa vida de celibato, o que sempre considerara uma ironia. – Ela também me parece ser companheira do mais novo.

– Oh certo, o que faremos agora? Entramos em contato com um templo?

– Eu – Arenai disse – vou fingir que não vejo essas marcas e esperar para ver o que vai dar.

Baskar pareceu achar que fazer aquilo era imprudente, mas não disse nada. Considerando-se a fama de orgulhosas das fadas, não queria se meter com elas. Mexer com quem se diz estar em união com um deus nunca fora uma boa ideia.

Seguiram praticamente por uma rotina durante os dias que se seguiram: Andavam o dia quase todo à cavalo, e algumas horas após o anoitecer armavam um acampamento onde parecesse ser mais propício, e mais ou menos durante este momento Aegis e Phaeron retornavam com os ingredientes necessários para se cuidar de Rhelt. Nesse dia em especial, pararam em uma planície, e Aegis surgiu voando vigorosamente, seguida por um Phaeron que parecia prestes cair de cansaço. Ele soltou a cesta repleta de flores, frutos, ervas e o que Jake não sabia mais descrever antes de cair com um pio cansado no chão. Talvez apiedando-se de seu Denor, Dante o pegou, deixando-o numa posição mais confortável.

Foi aproximadamente durante esse momento em que Heidi pareceu começar a acordar. Ela moveu-se ligeiramente nos braços de Maya que rapidamente a passou para o mais alto. Nero começou a pegar qualquer coisa com que pudesse fazer fogo, Winter foi caçar, sendo acompanhado por Baskar e Jake se aproximou de Rhelt, abaixando-se ao seu lado.

Os ferimentos eram certamente feios e precisavam de tratamento urgente. Havia um particularmente profundo em seu peito que Jake não sabia se era sua mente ou se ele realmente exalava um odor pútrido. Aegis criara um socador e um pilão usando-se da terra, pegando rapidamente diversos materiais do cesto. Quando ela terminava algo, criava um recipiente de terra para guardar o que quer que houvesse feito.

Se assustou porém quando com um movimento rápido, Rhelt lhe agarrou o tornozelo com força. Teria caído, mas com uma força do além se manteve abaixado, embora fora pego tão desatento que sentia o coração aos saltos. A pele dele estava gelada demais para um Talbordai, e Rhelt apenas o encarou com penetrantes e indecifráveis olhos amarelos, o rosto inexpressivo.

– Rhelt? – Aegis o chamou, surpresa.

Pareceu que tudo ficou em silêncio, todos os olhares voltados para o homem deitado. O peito de Rhelt subia e descia lentamente, e os olhos moveram-se inquietos por um instante, verificando aqueles que estavam em suas proximidades. Os lábios se fecharam mais ainda por um instante, antes que este soltasse a perna de Jake, e fez um sinal para que este se aproximasse.

Um frio se passou por toda a coluna do rapaz, e não soube dizer porquê. Ainda assim, se curvou, se aproximando do homem afim de escutá-lo. Ao contrário do que esperara, que este tentasse se erguer minimamente ou dizer algo, ele simplesmente levou a mão até a testa de Jake.

Em sua cabeça, o que ocorreu a seguir foi uma explosão. A luz explodiu nos olhos de Jake e sua cabeça doeu tanto que pensou que os ossos estavam sendo partidos, comprimidos, o seu cérebro e seus olhos sendo espremidos enquanto faziam seu caminho por entre as fissuras dos ossos. Sua cabeça encheu-se de som, vozes, uma, duas, três, centenas, acompanhadas por uma cacofonia de sons. Diante de seus olhos milhares de imagens passavam de como um filme acelerado, inundando qualquer outro pensamento coerente que poderia ter.

Seu corpo amoleceu e a mão de Rhelt caiu ao lado do corpo. Winter reagiu primeiro, saltando e pegando o corpo do irmão antes que este batesse no chão. Sua temperatura parecia estar oscilando, os olhos abertos encarando o vazio.

– Rhelt, o que você fez?! – Arenai exclamou. Seu filho apenas riu de lado e deu um gemido de dor.

– Apenas... – não terminou a frase, um ofego tomando-lhe a respiração. Ele pareceu que iria se erguer mas Aegis pulou sobre ele, não o permitindo.

– Não, continue aí! Não pode se mover com todos esses ferimentos. – Rhelt acatou a quase ordem, voltando a se deitar. Winter arrastou o irmão dali, este nem se movendo. Nero olhou-o preocupado, sem entender o que estava ocorrendo. – Pelo amor de Kasihan, o que aconteceu com você?

– Eu fui preso. – respondeu o óbvio. – Na Fortaleza.

Aegis congelou, a Arenai teve reação semelhante.

– Fortaleza... Você diz a....

– Fortaleza Shigeaki. – acabou soltando uma risada dolorida e incrédula. – Eu fugi da Fortaleza Shigeaki, a fortaleza de gelo... Eu realmente fiz isso?

– Rhelt, tem certeza? – Arenai questionou sério. – A Fortaleza é conhecida justamente pelo fato de ninguém ter conseguido fugir dela.

– Tudo era de gelo. – respirou fundo, e fez uma careta diante as feridas. – O chão, o teto, as celas. E estava apinhada de pessoas. Completamente apinhada, todas as celas estavam cheias de pessoas. – passou uma mão pelo rosto. – Homens, mulheres, crianças, soldados. Havia de tudo lá. E todo os dias...

Arenai ergueu a mão, fazendo com que o filho parasse a narrativa assim que percebeu sua respiração alterada. Admitia estar feliz em vê-lo consciente, além do fato de ele estar vivo depois de tantos meses desaparecido, além dos anos que passaram sem qualquer contato.

– Deixe isso para depois. Você ainda está debilitado demais para sair falando assim. Mas o que você fez à Klodike?

– Ele está prestes à acordar, então o senhor terá suas respostas. – disse simplesmente. – De tudo.

Foi quase como se esperando aquele momento. Klodike piscou, zonzo e confuso, os olhos azuis ligeiramente vagos retornando ao foco progressivamente. Levou as mãos até a cabeça, que pesava algumas toneladas, respirando profundamente, contando cada expiração. As mãos de Winter apertaram brevemente seus ombros, antes que ele finalmente erguesse o rosto. Não soube dizer o que havia de diferente, porém algo na expressão do rosto do rapaz chamou a atenção de Arenai. Ele ao mesmo tempo parecia ser o mesmo e parecia ser alguém diferente. Simplesmente entendeu a magnitude da coisa, percebendo que estava certo em suas hipóteses.

– Irei considerar isso um pedido de desculpas. – Klodike disse simplesmente. -... Pai.