Motsatt

3 Capítulo 2 - Um estranho bilhete


Notas iniciais
Que emoção, estou conseguindo escrever tudo o que eu quero! Não garanto postagens sempre assim, rápidas, mas pra mim, isso está sendo uma surpresa xDD Bem, espero que gostem do capítulo.

Capítulo 2 – Um estranho bilhete

Demorou em torno de uns dois dias até que se sentisse bem o suficiente para retornar à escola. Entretanto, somando aos dois dias que passara desacordado, teve de esperar o fim de semana terminar. E talvez houvesse sido melhor, assim teria ainda mais tempo para se recuperar.

A família Silverman pertencia à classe alta de Nova York, e sua mãe adotiva era dona de uma grande rede de lojas de roupas femininas. Seu pai provinha de uma família de advogados bem sucedidos, mas anos antes, quando os Estados Unidos entraram na guerra contra a Tríplice Aliança, John não hesitara em se alistar, inclusive chegando a participar do cerco de Berlim.

Somando-se os fatos, muitas pessoas acreditavam que Jake havia sido encontrado em Berlim ou algo parecido, porém, era uma das únicas coisas que tinha certeza que não. Quando era mais novo arranjara coragem o suficiente para questionar, mas John havia simplesmente lhe dito que não havia o encontrado durante a guerra ou algo do tipo, mas se recusara a dizer como havia o achado, se tornando completamente evasivo. O que certamente não era um bom sinal.

Era óbvio que faltavam muitos pingos nos is. Havia quem dissesse que ele poderia ser um filho bastardo, mas tinha certeza que não. Seu pai adotivo tinha um rosto achatado e quadrado, nariz de batata, olhos esbugalhados escuros e um corpo grande e parrudo, com cabelo castanho e encaracolado. Jake era alto e esguio, de rosto fino, nariz reto, olhos azuis gelo e o seu cabelo liso parecia à primeira vista negro, mas com alguma iluminação se era possível ver que na realidade era de um profundo tom de vermelho. Já estava mais do que acostumado a quando John o apresentava como seu filho, as pessoas olharem para ambos e então perguntarem: “Ele é adotado, não é?”.

– Como você consegue ler esse livro?

Olhou para o lado, vendo Pearl pendurada em seu ombro.

– Como assim?

– Não tem figuras! – ela espetou um dedo numa linha qualquer. – Eu nem consigo ler esse nome feio!

– Qual? – abaixou o olhar. – Agamenon?

– É! Que feio!

Acabou reprimindo o riso. Pearl tinha apenas sete anos. Não conseguia se estressar com ela, nem com Celinne, a de onze. Na realidade, a única irmã que tinha um péssimo relacionamento era Debrah, que era a única filha biológica do casal Silverman.

Pearl saiu de seu ombro e subiu na cama, se esparramando sobre suas pernas.

– Eu estou vendo sua calcinha.

– Ei! – ela levou a mão até a saia e engatinhou até o lado do irmão, deitando-se. Jake apenas riu. Era engraçado vê-la emburrada. – Não é engraçado! Seu per... Per...

– Pervertido?

– É!

– Eu não sou pervertido.

– É sim!

– Não sou.

– É!

– Não.

– É, é, é, é, é, é sim!

Claro que sabia que era uma discussão infantil. E claro que estava se divertindo com aquilo.

– Pearl, pare de incomodar o seu irmão, ele precisa descansar! – ouviu a voz de sua mãe do lado de fora do quarto.

– Aaah, mas mamãe!

– Fica aí, não está incomodando. – Jake disse e ela voltou a se esparramar no colchão.

Pearl era pequena. Talvez até para uma criança de sete anos. Possuía a pele bastante alva, com as faces rosadas e o cabelo se dividia em delicados cachos cor de pérola até o meio das costas, além de seus olhos serem de um tom profundo de azul mediterrâneo. Não havia outra maneira de descrevê-la além como sendo adorável.

Como se tomada por uma súbita urgência, Pearl se levantou num salto e foi até a janela, se pendurando nela de modo que Jake cogitou em levantar e ir pegá-la só para garantir que não caísse.

– Ele tá aqui de novo!

– O quê?

– Aquele cachorrinho. – ela apontou para o lado de fora. – Ele aparece aqui desde ontem!

Com um pouco de esforço, Jake se levantou, deixando seu livro da Ilíada sobre a cama, indo até a janela. Olhou pela janela na direção apontada por Pearl e quase arregalou os olhos. Cachorrinho era eufemismo, mesmo de longe era visível que aquele cachorro era gigantesco!

Além de imenso, era possível perceber que possuía uma densa pelagem castanha, completamente emaranhada e suja. Ele estava com a língua para fora, resfolegando, e se encontrava deitado praticamente em frente ao portão da casa. Por algum motivo, sentiu-se impelido a sair e trazer o animal para casa.

– Eu quero...

– Hm?

– Eu tô com pena do cachorrinho.

– Er, Pearl, você sabe que...

–... Ele tá triste, olha a cara dele!

– Pearl, você não tem que pedir essas coisas pra mim.

– Mas o papai não tá em casa!

– E a mamãe não está? – ela assentiu. — Então por que você fica falando do cachorro para mim?

Ela virou-se para ele com os olhos azuis grandes e brilhantes. Jake quase gemeu. Era aquele olhar. Logo viu que haveria uma pentelha atrás dele pelas próximas horas para garantir que aquele cachorro fosse levado para dentro.

Por volta das três da tarde, Pearl finalmente o convenceu a falar com a sua mãe para levar o cachorro para dentro. Não entendia porque ela queria que ele pedisse, mas de tanto importuná-lo acabou o fazendo.

Levou quase uma hora de argumentos para convencer a Carolina, mas depois sob a condição de dar um banho no animal, foi atrás do bendito cachorro para trazê-lo para dentro.

Ele era mais dócil do que aparentava. Fora só abrir o portão e chamar sua atenção que ele se aproximara tímido e de rabo abanando. Jake torceu o nariz quando ele se aproximou, estava claro que o animal se encontrava abandonado há muito tempo. Dava para ver pelo fedor.

Levou-o para os fundos e foi na garagem atrás das coisas que haviam sobrado do velho Trick, o antigo cachorro da família que havia falecido há aproximadamente dois meses. Até comprarem algo novo, com certeza não haveria problemas em usá-los, certo?

– Cachorrinho, cachorrinho, cachorrinho... – Pearl estava cantarolando, sem perceber que estava deixando a tina de água ficar cheia demais.

– Presta atenção! – repreendeu, fechando a torneira. Assobiou e o cachorro saltou para dentro. Estava certo, pois no momento em que o corpo imenso entrou na tina, a água transbordou, fazendo com que ambos pulassem para trás para evitarem se molhar, enquanto o cão apenas continuava a encará-los com seus olhos amarelos.

E esse era o primeiro cachorro que Jake via abanar o rabo enquanto tomava banho num dia de inverno.

Levou um bom tempo para tirar toda a sujeira emaranhada no pelo do animal, e ainda teve de secá-lo e catar carrapatos, o que lhe tomou bastante tempo, mas estava menos infestado do que esperava.

Não conseguiu identificar a raça do cão. Parecia-lhe um labrador, entretanto mais magro e musculoso, além de maior, de pelo castanho e bem mais comprido. Era claro que era grande o suficiente para que Pearl pudesse montar em suas costas. Depois de tudo terminado, o pobre parecia mais uma bola de pelos gigantesca.

E esse cachorro lhe parecia estranhamente familiar.

– Ele ainda não tem nome. Tem alguma ideia?

– Senhor Fofão!

O cachorro olhou para Jake. Seus grandes olhos pareciam pedir socorro. Minha nossa, nem o cachorro havia gostado do nome!

– Er... Pearl, você tem certeza?

– Tenho, ele é peludão e grandão!

O cão soltou um ganido baixinho.

–... Tem certeza? Absoluta?

– Ahan!... Espera. Mamãe! – Pearl gritou e entrou correndo dentro de casa, fazendo com que seu irmão mais velho suspirasse.

Voltou mais uma vez seu olhar para o animal, que agora apenas o encarava, a cabeça pendendo para o lado. Seus olhos eram incrivelmente inteligentes e ternos. Repentinamente, um nome pareceu flutuar em sua mente.

– Rarac. – murmurou, e o cão latiu para ele, as patas se movendo animadamente e a cauda abanando rapidamente. – É esse, não é?

Levantou, indo novamente para dentro de casa, e o cachorro o seguiu calmamente. Talvez fosse adestrado ou algo do tipo. No momento em que o viu, sua mãe arregalou os olhos.

– Por Deus! Este cachorro é enorme!

– Mas ele é bonzinho, não é Jake?

Olhou mais uma vez para o cachorro que sentara ao seu lado no momento em que parara.

– Acho que isso responde por si só.

– Está bem... Segunda-feira teremos de levar ele para o veterinário. Já escolheram um nome?

– Senhor Fofão! – Pearl gritou e o cachorro ganiu mais uma vez.

E ninguém tirou da cabeça da menina de chamá-lo de Senhor Fofão.

Já havia voltado para seu quarto e retornado a ler Ilíada quando bateram na porta e a abriram antes de receber a resposta. Ergueu o olhar e viu Celinne.

– De onde veio aquele cachorro? – questionou.

– Da rua. Trazer ele foi ideia da Pearl.

– Mas ele tá comendo na vasilha do Trick.

Jake suspirou. De todos na casa, Celinne era a mais apegada ao antigo cão. Deveria imaginar que ela se incomodaria ao ver o outro.

– É só por enquanto, ok? Segunda-feira irão levá-lo ao veterinário, então provavelmente vão comprar coisas novas pra ele.

Ela fechou a cara, o que fez Jake revirar os olhos. De qualquer modo, não iriam se livrar do pobre agora, que a caçula da casa já se encontrava completamente apaixonada por ele. Inclusive o próprio Jake havia gostado do cão dócil e obediente.

Como se ouvindo seus pensamentos, Rarac apareceu pelo corredor, entrando sem cerimônia nenhuma no quarto e se enroscando no tapete em frente a sua cama, fitando-o incansavelmente. Celinne olhou para o animal com desconfiança, os olhos alaranjados faiscando por trás dos óculos, analisando-o. Os cabelos pretos estavam puxados no usual rabo de cavalo, presos por uma fita de cetim e suas roupas estavam sempre impecáveis. Estudiosa e inteligente, Linne era a própria criança modelo.

– Ele é gigante.

– Percebi. – Jake murmurou, vendo-o tomar praticamente todo o espaço do tapete. – Não tente arranjar desculpas para não gostar dele, achei-o ainda mais bonzinho que o Trick.

Celinne o olhou com a expressão como se houvesse cometido alguma heresia ao comparar Rarac a Trick, mas o irmão mais velho apenas riu e voltou mais uma vez ao seu livro, enquanto o cão ressonava no tapete.

Depois do jantar – no qual ele e Debrah tinham uma regra restrita e silenciosa de jamais trocarem olhares para que não terminassem os dois de castigo. -, quando se deitou, percebeu que o cão estava muito bem acordado. Cogitou em pô-lo para fora, mas percebeu que sua presença ali o tranquilizava, então decidiu deixá-lo acomodado ali.

Sua visão pareceu nublar, e a imagem de um quarto completamente diferente surgiu, e também havia um cão sobre o tapete próximo à sua cama. Estendia sua mão pequena até ele, e o animal a lambia, antes de se aninhar nos lençóis.

Piscou e tudo voltou ao normal. O que fora aquilo?! Inconscientemente, estendeu sua mão até Rarac, e este a lambeu, antes de voltar a se deitar no tapete, mas continuou a encará-lo, porém desistiu com um suspiro. De que adiantaria se forçar?

Sem muitas alternativas, Jake adormeceu.

Na segunda-feira, levantou cedo, tomou um banho e se arrumou. Já se sentia bem o suficiente para ir à escola, além do fato de que não gostaria de continuar empatando sua mãe em casa. Era sempre assim: Quando tinha um ataque, Carolina sempre ficava em casa para cuidar dele. Talvez não fizesse tão mal, já que ela era a dona do negócio.

Depois do café da manhã – com Rarac deitado sobre seus pés, já que de algum modo o cão conseguiu se por sob a mesa -, pegou suas coisas, um casaco para protegê-lo do frio do inverno e saiu.

Foi diretamente até a casa dos Toy. Apesar de aquele ser um bairro de classe alta, não ficaria surpreso de que aquela família fosse a mais abastada do lugar. Charles James Toy era simplesmente o dono da Joalheria Tagas, provavelmente uma das maiores e mais sucedidas do país.

Eles viviam literalmente na “Mansão no fim da rua”, uma propriedade de imensos jardins e a casa erguendo-se branca e majestosa no centro. Possuía apenas dois andares, mas era extensa, com direito a pilares e sacadas, estufa, biblioteca, piscina e tudo mais o que alguém poderia sonhar.

Parou em frente ao portão de ferro fundido e o zelador, Martin, apenas espiou por um instante, antes de dar um sorriso bem humorado.

– Ah, olá garoto Silverman! Eu já vou pedir para chamar os meninos, só um instante!

Como sempre, esperou próximo ao muro, esfregando suas mãos para adquirir mais calor. Deveria ter trazido luvas consigo, afinal, conseguia ver o vapor de sua respiração. Pedia para que os irmãos não demorassem, ou congelaria lá fora, mas não tomou muito tempo para que Near, Faz e Mihael saíssem pelo portão.

Com exceção do terceiro filho – no caso, Mihael -, todos os filhos Toy eram loiros, e sem exceção, todos eram bonitos. Claro, era um pacote, algo do tipo... “Seja irritantemente rico e belo”.

Near e Far se encaixavam novamente no tipo de nomes que Jake não entendia como os pais poderiam dar aos seus filhos, — na verdade, nem os próprios entendiam. Tudo bem querer dar nomes que combinam a gêmeos, mas... Como se já não bastasse o sobrenome deles ser “Toy”, ainda os nomeavam de Near e Far.

– Oi Jake, está melhor? – Mihael questionou quando se aproximou o suficiente.

– É, melhor. Não cem por cento. – Deu de ombros e se desencostou da parede.

– Acha que não vai passar mal ou algo do tipo? – Far questionou. Escutou a preocupação em sua voz, e foi como se um serzinho surgisse em seu interior e berrasse “Ela se importa com você!” e começasse a sapatear loucamente uma música estranha sobre seu peito.

Fez questão de pisotear a criatura para as profundezas do ser. Novamente, se achava patético.

– Acho. – disse com firmeza, esperando que aquele conflito interno passasse despercebido. Aparentemente passou para Far e Mihael, mas Near o encarava com uma sobrancelha erguida. Talvez devesse passar menos tempo com ele para que o loiro parasse de conhecer todas as suas reações, pois tudo o que não precisava era problemas com o irmão gêmeo da garota. – Acredito eu que não vou passar mal em nenhuma aula hoje. A menos que seja química.

– Aí até eu passo mal. – Near fez uma careta. O professor era simplesmente insuportável.

– Ótimo, podemos ir indo? Estou congelando! – Far exclamou. E era verdade. O próprio Jake estava congelando. A garota passou o braço pelo do irmão mais velho, numa clara tentativa de se esquentar, o que fez reprimir um suspiro cansado. Não conseguiu reprimir o desejo de estar daquele modo com ela. Sabia que era idiota desejar esse tipo de coisa, ainda mais se considerando que Far, juntamente com Near, era uma das únicas pessoas que pessoas que poderia chamar de amiga.

Simplesmente sentia que não era certo ter esse tipo de sentimento por ela. Deveria vê-la apenas como uma irmã dado há quanto tempo se conheciam, mas toda vez que punha os olhos sobre a garota de cabelos claros, sentia seu coração bater da mesma maneira que batera na primeira vez que há vira, quando era apenas um garoto. Já se amaldiçoara diversas e diversas vezes por isso, mas não conseguia evitar.

– Jake, está me ouvindo? – A voz de Mihael lhe tirou de seus pensamentos.

– O quê?

– Não. – o mais novo suspirou. – Eu perguntei por que a gente vai mesmo a pé pra escola neste frio de matar!

– É porque nosso amigo aqui fez muita besteira quando era mais novo. – Near dedurou. – Aí o Sr. Silverman disse que não ia comprar um carro pra ele até a faculdade, então como bons amigos bestas, vamos pagar o castigo com ele. E não, não adianta você dizer que eu e a Far somos mais amigos dele do que você, porque somos seus irmãos, então você vai fazer isso com a gente também.

Far riu da expressão do irmão mais novo, e Jake também não conseguiu se reprimir. Era óbvio que os Toy tinham condições de terem um carro bom com motorista – e na verdade o possuíam. -, mas poderia agradecer o suficiente pelos gêmeos pagarem seu castigo junto com ele.

Era verdade que fizera muitas besteiras quando mais novo. Como por exemplo, roubar o carro do pai para participar de corridas ilegais, ou sair de noite para beber. Nunca conseguira explicar para si mesmo porque fizera tais coisas, mas o fato era que largara tais hábitos há pouco tempo, quando seus ataques tornaram-se mais frequentes, e quando parara com tudo, se pegara perguntando o porquê fazia aquilo.

Depois de vários minutos excruciantes no frio, finalmente chegaram à Raubenstine High, a imensa construção que chamavam de escola. O pátio encontrava-se completamente apinhado de estudantes apesar da baixa temperatura, entretanto, sociabilidade não era o forte de Jake.

Infelizmente, era um tipo que atraía a atenção. Near já era bastante alto, e alguém ainda mais alto que ele, com os cabelos ligeiramente compridos e extremamente vermelhos era o mesmo que pregar uma placa de “me vejam” na testa.

Suspirou, como sempre fingindo que não escutava os cumprimentos ou então os respondia num tom extremamente baixo. Nunca entendia aquelas pessoas. Simplesmente deveriam ignorá-lo depois de perceberem que ele não se importava ou algo do tipo, mas era sempre assim. Parecia uma avalanche saltando sobre si.

Quando finalmente conseguiu sentar em sua carteira, deixou um suspiro escapar de seus lábios. Paz e sossego, finalmente. Ou ao menos por enquanto, até que o sinal tocasse e os alunos corressem para a sala de Biologia.

O professor Malinchak nunca, jamais passara uma linha de matéria para os alunos. Suas aulas eram pura bagunça e todos fazendo o que quisessem – com direito ao professor dançando Charleston com a tiazinha da limpeza. -. Depois os alunos que se virassem estudando em casa, mas se considerando pelo fato da alta carga de professores maçantes, aqueles momentos de liberdade eram um alívio, portanto, se esforçavam para que ninguém suspeitasse.

– Silverman?

Olhou para cima, vendo Larki Axos, um novato do primeiro ano com quem já jogara cartas algumas vezes.

– Hm?

– Er... Uma conhecida minha, de outra escola, mandou isso. – Ele estendeu um pedaço de papel dobrado. – Ela disse...

– Uma ex do Silverman, ou mais uma garotinha apaixonada? – Jett Beriz exclamou escandalosamente atrás de si, fazendo com que os alunos presentes na sala explodissem em gargalhadas. Jake apenas se relegou a dar um muxoxo.

– Ela disse que foi o irmão dela que mandou entregar. – Axos continuou com a voz firme. – Não me pergunte porque, ela só mandou.

– Um cara? Nossa Silverman, tirou a virgindade da garota e agora o irmão dela quer te...

– Beriz, faça o favor e cala a boca! – Jake exclamou e a sala inteira pareceu se silenciar. Talvez porque Jake mal falasse, e agora praticamente gritara, mas pouco se importou. Abriu o bilhete e estava simplesmente escrito numa letra redonda, quase infantil.

Olá Jake.

Desculpe se é muito repentino, mas poderia hoje, segunda, ir ao Central Park depois da sua escola? Preciso conversar com você.

Nero.

Franziu o cenho. Quem diabos era Nero. Olhou para Axos.

– Qual o nome da menina que te entregou isso?

– Cynthia Clearwater. – respondeu, fazendo com que Jake se surpreendesse. A conhecia, não por já haver saído com ela ou coisa do tipo, mas pelos Clearwater serem amigos de longa data de sua família. E nunca, jamais, havia escutado falar desse Nero.

Se bem que o Sr. Clearwater de vez em quando comentava que tinha um filho, mas que o garoto não gostava de sair com a família...

O que raios ele queria com Jake agora?

– Uma morena de cabelo ondulado que vive de laço no cabelo?

– Essa mesma. – Axos deu de ombro. – Ela só pediu pra entregar e foi embora. Pelo que entendi é bem difícil o irmão dela falar com ela, então ela ficou toda animada quando ele pediu pra ela entregar isso. Bom, está entregue, e eu vou voltar pra minha sala antes que o sinal toque, se não se importa.

Franziu o cenho e olhou para a carta de novo enquanto Larki se afastava. Nero Clearwater. O que ele queria com Jake?

– Deixa eu ver? – Far questionou ao seu lado, quase o fazendo saltar. Desde quando ela estava sentada ali?! Ainda com o coração a mil, passou o papel silenciosamente a ela. – Hm... A letra é bonitinha, mas... Você o conhece?

– A irmã dele. – Ao ver a sobrancelha erguida – quase idêntica a do irmão -, apressou-se para se explicar. – O pai dela é amigo da família, então já foram jantar muitas vezes lá em casa... Mas o filho nunca foi.

– Resumindo, você nunca o viu na vida?

– É.

– Isso é estranho.

– Eu sei. – ele estendeu a mão e arrastou o papel de volta para si, reprimindo a vontade de cobrir a mão dela com a sua. – E agora?

– Agora? Você está perguntando pra mim? – ela fez uma expressão fingida de emoção e Jake acabou rindo consigo. – Não será um assunto sobre testosterona ou coisa do tipo?

– Não. – riu e quase viu os olhares da sala voltarem para si. Ele era a típica pessoa que ninguém nunca vira rir. – Acho que não. Como posso saber o assunto se nem sei com quem estou falando?

– Não são as conversas genéricas masculinas?

– Você passa mais tempo comigo e seu irmão. Olhe para a minha cara e diga que eu pareço esse tipo de cara.

– Não. – respondeu. – Mas você e Near não são exatamente os maiores exemplos de normalidade do mundo...

–... Vou tomar como um elogio.

– Não tome.

– Ai. – Jake botou a mão no peito. Óbvio que era puro fingimento.

– Nossa, você tem um coração?

– E está em frangalhos agora. – replicou no momento em que o professor sentou-se na cadeira e jogou as pernas sobre a mesa.

Teve de admitir que ficara curioso sobre aquele bilhete, ao ponto de depois do último horário tocar, inflou-se de coragem o suficiente para se despedir e encarar o frio sozinho. Pôs as mãos no bolso enquanto caminhava e ficava se reclamando sobre a distância entre seu bairro e o Central Park. Além de se amaldiçoar por não ter se lembrado de ter pegado luvas ou um cachecol. Tinha quase certeza de que seu nariz estava extremamente vermelho.

Quando finalmente chegou ao parque, quase bateu na própria testa. Em nenhum lugar do bilhete mencionava onde encontrá-lo ali, e o Central Park era gigantesco! Seguiu mais alguns metros, estalando sua língua e sua mente lhe dizendo que provavelmente aquilo fora um trote. Obviamente deveria ser muito engraçado levar alguém a andar no frio e...

– Sabia que você viria.

Jake quase congelou ao ouvir aquela voz. Ela soara extremamente... Familiar.

– Olá Klodike.

Virou-se em direção da voz, sua mente apenas começando a formular a pergunta sobre quem raios era Klodike, quando deu de cara com o dono da voz, e congelou ao ver seu rosto.

Ele era... Idêntico a ele?

– É bom te ver, mas acho que você não se lembra de mim. Agora, eu sou Nero.

Notas finais
=D Então... O que acharam? Gostaram do cachorro? Da Far? Ou de qualquer outra coisa? =D Críticas, elogios ou dúvidas, tudo nos comentários!