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4 Capítulo 3 - Visões Fragmentadas
Notas iniciais
Capítulo 3 – Visões fragmentadas
Jake apenas conseguia encarar enquanto Nero se aproximava. Eram milimetricamente idênticos, tirando por dois detalhes: Os cabelos de um estranho tom de prateado, o qual jamais vira em alguém e os olhos de um amarelo vivo. Manteve-se calado até que este parasse à sua frente.
Que ironia. Tinham a mesma altura.
– Desculpe por ter mandado o recado daquele jeito. – deu um sorrisinho sem graça. – Mas eu queria falar com você.
–... Você... – ainda estava chocado. Era óbvio apenas de se olhar: Possuía um irmão gêmeo, entretanto, sua mente parecia ter entrado em falha e recusava o recebimento daquela mensagem.
– Quer sentar? Parece que vai cair ou coisa do tipo.
Olhou envolta, atrás de um banco. Assim que o encontrou, foi até ele, sentando-se. Nero tinha razão, sentia suas pernas bambas.
Era óbvio que não estava bem. Não lembrava uma mísera vírgula de seu passado e de repente um rapaz idêntico a ele aparece do nada! Não sabia se estava tomado por uma súbita emoção ou se estava em algum tipo de estado de choque.
– Espera... Disseram-me que você mandou a carta por Cynthia, então você é filho de...
– Robert Clearwater? Adotado, assim como você é de John Silverman.
– Mas o Sr. Clearwater sempre apareceu lá em casa... – Ah, estava confuso. Como assim? Os Clearwater iam visitar sua casa desde que haviam se mudado para ela, quando possuía em torno dos dez anos. Isso já cotava quase oito anos! E Nero era o filho dele...
– Assim como o Sr. Silverman aparece na minha. – replicou, e seu sorriso se tornou triste. – Você com certeza não se lembra de mim, não é?
Jake balançou a cabeça negativamente.
– Não. Sinto muito... Espera, você disse o meu pai?
Nero assentiu, então suspirou e sentou ao lado de Jake. Este se arrepiou. Não soube dizer o porquê, mas o rapaz de cabelos claros ao seu lado parecia liberar uma estranha energia que não conseguiu identificar.
– Sim. Creio que assim como eu, não ouviu uma única palavra sobre sermos irmãos. O... Seu pai me falava sobre você, mas coisas como você se comportava e agia, mas nunca sobre sermos idênticos.
As palavras ditas por ele soaram bem mais verdadeiras em voz alta do que em sua mente, mas ainda encontravam-se difíceis de engolir.
Engoliu o seco. Seu pai... Era verdade que de vez em quando ele saía para ir à casa dos Clearwater, e era verdade que o Sr. Clearwater comentava sobre Nero. Ouvia falar que era bastante recluso, que ele comparava os desenhos de ambos... Mas nunca, jamais uma mínima descrição, uma mísera pista sobre algo.
E o seu pai sabia. Sentiu aquilo quase como uma traição. Ele acompanhara todo o seu esforço para tentar lembrar-se de algo ou de alguém, enquanto ia a casa onde Nero estava.
Falando em Nero, este pôs a mão dentro do cachecol dourado que usava, e de lá tirou um cordão que deu calafrios em Jake ao vê-lo. Era uma corrente de ouro vermelho, e o pingente na ponta era feito de obsidiana, ricamente esculpido em mínimos detalhes com arabescos sinuosos avermelhados, como se fossem magma ainda aceso. No centro estava incrustada uma pedra que Jake jamais identificara. Era refinada, cor de fogo e brilhava ao ponto de parecer acesa, às vezes parecendo se tornar cor de sangue ou dourada.
Pôs a mão dentro de seu casaco, tirando o seu também. Era a única coisa que possuía que poderia lhe indicar algo sobre seu passado, e jamais a tirava do pescoço. Percebeu que a de Nero parecia ligeiramente diferente, como se ambas fossem asas, mas como se a de Jake fosse a asa esquerda, e a do outro, a direita.
– Isso diz muita coisa, não é?
Jake apenas assentiu.
– Você perguntou se eu me lembrava de você, e me chamou de...
–... Klodike. – completou. – Esse é o seu nome.
Voltou a encará-lo. Então Nero sabia seu nome, e isso também significava muita coisa.
– Você se lembra? Quer dizer, tem memórias?
– Não. – negou, fazendo com que Jake sentisse-se um tanto quanto decepcionado. – Às vezes possuo flashes, mas a única coisa que consegui lembrar com clareza foi você.
– Ao menos isso você tem. – murmurou em voz baixa. – Eu não me lembro de absolutamente nada.
Nero suspirou, e fitou a sua frente, parecendo perdido em pensamentos. Jake olhou para baixo e viu suas mãos retorcidas, cobertas por grossas luvas de couro. Franziu o cenho. Havia algo de estranho nelas, mas não sabia dizer o que era. Não pareciam ser do tipo em que entraria numa loja e simplesmente compraria. Eram negras como breu a ponto de não emitirem o reflexo do material e eram aparentemente sem costura.
– Até algum tempo atrás eu não tinha nada. — Nero começou, seu tom de voz cauteloso, chamando a atenção de Jake. – A não ser pesadelos. Tantos que passei a me perguntar de onde vinham, e então... Começaram a vir. Memórias. Não completas, apenas coisas tão rápidas que não faziam sentido. – deu de ombros. — Comecei a me focar nelas, até que consegui me lembrar de algumas de forma mais extensa. E eram sempre as com você.
– Por que eu? – As palavras saíram antes que pudesse reprimi-las.
– Não sei. – o outro replicou. – Acho que perdi minhas memórias quando tinha dez anos, então posso considerar que tenhamos ficado juntos até aquele tempo, mas também pode não ser... É, realmente não sei.
Jake suspirou. Amaldiçoando-se pelo que ia fazer, puxou de seu bolso um maço de cigarros, tirando um e pegando após um isqueiro. Simplesmente precisava de algo que o fizesse relaxar, portanto, ali estava.
– Até onde eu me lembro, tenho dezessete anos. – Nero comentou casualmente quando deu a primeira tragada, mas entendeu que ele não estava se referindo à data de nascimento de ambos ou algo do tipo.
– Eu também. – fez uma careta. – É um vício. Te incomoda?
– Não... Tanto. – respondeu. – Minha... Argh, mãe, tem o costume de fumar muito.
Franziu o cenho. Qual o problema dele com a Sra. Clearwater? Nero demonstrara claramente o desgosto de chamá-la de mãe, e por algum motivo, Jake comparou com a sua própria atitude em relação à sua mãe.
– Mais uma pergunta: Se nem meu pai te falava sobre mim, e nem seu pai falava sobre você, como acabou... Descobrindo sobre onde eu estava, ou algo do tipo?
– Cynthia. – Respondeu simplesmente. – Quando comecei a ter flashes de memória, comecei a contá-los para meu pai, mas ele me mandava ignorar. Obviamente eu simplesmente não conseguia, e pus em minha cabeça que precisava encontrá-lo. Acho que em algum momento, Cynthia se apiedou de mim e veio me contar sobre você. E resto se resolveu por si só.
– Com um bilhete.
– E sua curiosidade. – acabou por arrancar uma risada seca de Jake. — Fui deveras vago nele.
– Isso é verdade, mas se você pusesse algo como “Venha me encontrar, sou seu gêmeo perdido”, eu acharia que você era um completo louco e te deixaria aqui.
– E pelo que lembro, você sempre foi assim. – Nero passou despreocupadamente a mão pelo cabelo, fazendo com que percebesse que o prateado parecia-se ligeiramente azulado. – Uma das coisas que mais consigo lembrar é de um homem oferecendo para comprar doces para nós. Você disse que estaríamos o seguindo, e me arrastou na direção oposta no momento em que ele virou de costas.
– Do modo que me contou, ele soou como um pedófilo.
– Acredito que é meio óbvio que era um pedófilo.
Teve de concordar. Mesmo sendo um fato irrelevante – ou não –, não deixou de sentir uma ponta de inveja de Nero. Ele ao menos recordava de alguma coisa, enquanto tudo o que Jake possuía era uma coisa obscura a qual denominava de “antes de ser levado para casa”, e com isto talvez fosse sua própria identidade sufocada naquele meio.
Mesmo que não demonstrasse para Near, Far, e houvesse parado de demonstrar em âmbito familiar, ainda se sentia muito preso ao fato de não lembrar quem ele mesmo era. Quem era antes de ser “Jake”.
Agora sabia que era quando se chamava “Klodike”.
Repentinamente, outro nome dançou em sua mente, quase como ocorrera com Rarac.
– Naphees. – Sussurrou.
– Hm?
–... Parece loucura, mas... O seu nome é Naphees?
Ele só escutou uma risada baixa de Nero, mas não uma risada qualquer. Era um misto de descrença e talvez alegria.
– Não era você que não se lembrava de nada?
– Eu... Eu não sei, só me veio à mente... Espera, isso quer dizer que eu acertei?!
– Isso mesmo. – a voz do outro soou suave. – Bem, é a primeira vez em muito tempo em que não escuto esse nome em um lugar que não seja uma memória.
Olhou para Nero. Seu rosto ainda encontrava-se composto, porém seus olhos eram muito mais expressivos do que qualquer outra reação que ele pudesse ter. Pegou-se perguntando se seus olhos o traíam tanto quanto os de Nero estavam o traindo, pois também se esforçava para se manter composto em diversas situações.
– Isso me lembra... Ah, esqueça.
– O quê?
Nero de ombros mais uma vez e arranhou a costa de sua mão por cima da luva. Aparentava ter se perdido em si próprio.
– Se você depois planeja confrontar o seu pai, aconselho a não fazer isso.
Olhou confuso para Nero. Sequer pensara quanto a essa possibilidade, mas analisando-a, era bem capaz de que depois que fosse embora, fizesse exatamente isso. O sentimento de traição parecia estar gritando dentro de si, clamando por respostas. Engoliu o seco para obrigar aquilo a descer.
– Tudo bem.
– Estou falando sério. – Nero soou sério, antes de se levantar. – Eu queria ficar e conversar mais, porém, não posso.
Jake olhou-o surpreso, para só então perceber o quanto sentia suas extremidades geladas, que comprova que bastante tempo havia passado. Assentiu, se levantando também e esfregando suas mãos mais uma vez numa tentativa de esquentá-las.
– Então... Até um dia desses.
Por algum motivo, Nero sorriu. Não foi difícil perceber que ele possuía o sorriso muito mais fácil que Jake.
– Até. – o de cabelos prateados começou a se afastar, mas antes disse. – Cuidado com os carros!
Não soube se por coincidência ou força das palavras de Nero, mas quase foi atropelado no caminho de volta para casa.
Quando chegou, constatou que não havia ninguém, apenas Rarac do lado de fora, preso por uma corrente. Soltou-o e abriu a porta, pendurando seu casaco no gancho ao lado. Subiu as escadas de madeira escura, pesadamente, escutando o cão seguindo-o como uma sombra.
Chegando em seu quarto, tirou o suéter e a camisa de botões que usava, ficando apenas com a camisa lisa de mangas curtas que sempre usava por debaixo. Tirou também o sapato e as meias, antes se jogar sobre sua cama.
Soltou um longo suspiro, passando a mão sobre a testa, puxando a franja demasiadamente longa para trás. Parecia que só agora seu cérebro voltara a funcionar.
Tinha um irmão gêmeo. A constatação parecia martelar repetidamente. Um irmão gêmeo que sempre estivera tão ridiculamente próximo e nunca sequer desconfiara. Era óbvio que havia aquele sentimento de confiança perdida e de raiva contra seu pai e o Sr. Clearwater.
Mas por quê?
Se eles sabiam sobre ele e Nero, por que havia separado a ambos, por que haviam escondido de um a existência do outro?
Simplesmente havia algo que não estava certo, algo que não encaixava.
Aquilo o deixava com raiva por não possuir memórias. Talvez se as possuísse, as coisas poderiam ser muito mais fáceis naquele momento. Rolou na cama e foi até a janela, abrindo-a e permitindo que o ar frio entrasse em seu quarto. Pegou novamente um cigarro e sem pensar em muita coisa, o acendeu. Sabia que sua mãe sentiria aquele cheiro como um cão farejador, mas não se importava tanto com o fato agora.
Sua mente pareceu se turvar por um instante, e somente com o ato de piscar pareceu mudar todo o cenário em que estava. Encontrava-se numa ruela escura e aparentemente suja, as paredes à sua frente encontrava-se com a pintura descascada.
A confusão veio como uma avalanche. O que merda havia acontecido?
Olhou para o lado numa vaga tentativa de ver onde estava e viu um rapaz de cabelo ruivo sentado sobre um caixote, um cigarro aceso em sua mão. Mesmo estando de lado para si, conseguia ver que seu olho direito estava enfaixado e parte de seu cabelo caía sobre ele. O outro se enrijeceu, e no momento em que pareceu que ele iria se virar...
...Suas costas atingiram o chão.
Piscou, e o cheiro de queimado preencheu o suas narinas. Ainda aturdido, olhou para o lado, vendo que o cigarro aceso havia caído no tapete.
Quê?
– Merda! – sibilou, levantando-se num salto. No desespero para evitar que o fogo tomasse proporções descontroladas, pisou certeiro nas chamas.
Arregalou os olhos e saltou para trás um segundo depois ao perceber o que havia feito, mas para sua surpresa, no momento em que pisou no chão seu pé – que tecnicamente deveria estar bem queimado — não doeu. Pelo contrário, foi como se não houvesse feito nenhuma besteira. Olhou para o tapete.
Se não fosse uma mancha escura nele, teria certeza de que tudo não haveria passado de sua imaginação.
– Droga! – sibilou. Sua mãe iria o matar por aquilo.
Rarac simplesmente apareceu gingando, e jogou o corpo imenso sobre o tapete, logo começando a roncar. Jake apenas o encarou por algum tempo, incrédulo.
–... Talvez isso resolva o problema. Por hora.
Sentou-se mais uma vez na cama, encarando do tapete ao seu pé, e então se lembrando do... O quê? Da alucinação?
E o fato de ter encontrado com Nero voltou-lhe à mente.
Talvez fosse melhor ir dormir. Parecia que havia informação demais para o seu pobre cérebro continuar a trabalhar.
Acordou de madrugada, e estava tremendo de frio. Franziu o cenho, e ao erguer o olhar, viu a porta de sua varanda aberta. Olhou para o lado, vendo Snowflake ainda adormecida sobre o tapete. Encolheu-se entre os cobertores por um segundo, antes de tomar coragem e levantar.
A gata ergueu a cabeça e suas orelhas pareceram se levantar no momento em que pisou no chão. Olhou-a por um segundo, dirigindo-se à porta, mas antes que chegasse até ela, um calafrio chegou até sua espinha.
Snowflake chiou atrás de si. Havia algo muito errado.
Cautelosamente se aproximou, mantendo-se meio escondido contra a parede, e espiou. Sentiu seu queixo quase caindo.
Havia um homem parado bem de frente para sua janela. Mas não era simplesmente um homem como qualquer um que pudesse encontrar na rua, ou até mesmo um assaltante. Ele simplesmente parecia... Brilhar. Um brilho gélido que parecia ser emitido de dentro de seu corpo, e não demorou a perceber que a grama ao seu redor encontrava-se branca, congelada. Seus cabelos eram de um tom de azul semelhante ao do mar, lisos e compridos até sua cintura, entretanto flutuavam à sua volta como se ele estivesse debaixo d’água.
Impossível também não perceber suas roupas. Já as vira antes, eram semelhantes às roupas que vira de samurais que vira em fotos. O tecido era azul, mas não acreditou no que vira ao perceber do que eram feitas as peças de sua armadura.
Era... Gelo?
Repentinamente, o rosto do desconhecido virou em sua direção, e o chiado de Snowflake tornou-se ainda mais constante. Ele apontou um dedo em sua direção.
Uma dor lancinante tomou conta de seu peito e o ar lhe faltou. Cambaleou, caindo em sua cama, ofegando. Levou sua mão até o local, sentindo a crosta de gelo formada sobre ele. Arquejou.
O gelo queimava em seus dedos.
Seus olhos se arregalaram. O homem já estava literalmente sobre si, como uma imagem fantasmagórica. Estava certo, ele emitia uma horrível aura de frieza que o fazia tremer quase convulsivamente de frio, entretanto, este parecia se tornar cada vez mais fraco e distante, dando lugar a uma estranha dormência.
– Galrdai.
– Q-quê?!
– Finalmente te achei.
O que viu a seguir foi Snowflake saltando sobre o homem, as garras em riste.
Finalmente conseguiu se mover, levantando-se o mais rápido que conseguiu, e a primeira coisa que pensou em fazer foi ir até a porta de seu quarto para sair dali, e... Chamar ajuda? No momento em que correu até ela, ambos os seus braços foram agarrados por mãos congelantes. Tão frias que pensou que fosse gritar de dor no momento em que o tocaram.
E então dispararam.
Jake abriu os olhos e sentou de súbito, a respiração ofegante. Levou a mão até o peito, parecia que ainda sentia o gelo preso ali, colado contra sua pele.
Se bem que era sua camisa que se encontrava colada contra sua pele. Pelo suor, para ser mais exato.
–... Um pesadelo? – murmurou, sua garganta se encontrava seca. Sentia-se zonzo. Fora real demais, como se tudo realmente houvesse ocorrido consigo.
O toque em seu braço o quase fez saltar, para então perceber que era nada mais que o focinho de Rarac. O cão encontrava-se com a cabeça apoiada no colchão, as orelhas caídas e os olhos pareciam enormes e expressivos, enquanto gania baixinho.
– Ah... Dane-se. – murmurou e bateu no espaço vazio ao seu lado na cama. O cão sem hesitar saltou para lá, e acomodou a cabeça no colo do dono, mas Jake ergueu-o um pouco, abraçando o pescoço musculoso e peludo, aproveitando aquele contato para se acalmar e parar de tremer.
Olhou para a janela.
Estava aberta.
– Ah não... – murmurou, e levantou para ir até ela. Foi hesitantemente, procurando se esconder contra a parede, para então espiar o lado de fora.
Não havia ninguém.
A fechou e praticamente correu de volta para cama e voltou a se agarrar a Rarac. O cachorro manteve-se quieto, quase como se inerte, mas apenas o calor daquele corpo parecendo ser o suficiente para conseguir acalmá-lo.
Que pesadelo fora aquele? Tão dolorosamente real que se sentia machucado.
E Rarac continuava ganindo.
Estranhou, então olhou para o lado apenas para tentar enxergar o seu relógio. Com algum esforço conseguiu constatar que era de madrugada. Olhou novamente para o cão.
– Você não saiu daqui nem pra comer?
Um ganido o fez suspirar, então levantou, saiu do quarto, indo até a cozinha, escutando o som das passadas pesadas de Rarac. O cão correu imediatamente até a porta dos fundos, sentando-se impacientemente ao lado dela. Quando a abriu, este correu para fora.
Suspirou e esperou Rarac terminar de fazer suas necessidades para retornar. Quando o cão estava seguro novamente dentro da casa, trancou a porta apenas por via das dúvidas. Pegou as duas tigelas de cima da geladeira, enchendo a primeira com água e a outra com ração, que foi vorazmente atacada por Rarac.
Pegou um copo de água e alguns restos gelados de comida da geladeira, mastigando-os sem vontade alguma, apenas para não ficar com o estômago vazio. Queria estar com a animação de Rarac para comer, mas simplesmente não conseguia. Encostou suas costas na cadeira, e ficou ali, procurando deixar a mente vazia.
– Filho?
Abriu os olhos, sobressaltado por ter mais alguém ali. Viu apenas seu pai, de pijamas e roupão, encarando-o com uma expressão estupefata, além do rosto ainda inchado de sono.
– Ah... Oi pai.
– O que está fazendo aqui a essa hora da madrugada?!
– O Ra... Fofão estava com fome. – a expressão de seu pai deixou claro que não fora convincente o suficiente. Precisava seriamente aprender a mentir melhor. – Eu tive um pesadelo.
John franziu o cenho, enquanto Jake retornava sua atenção ao copo de água, aparentando achá-lo repentinamente interessante. Repentinamente o assunto de Nero havia lhe voltado à mente, mas lembrava do aviso de não confrontá-lo. E naquele momento, percebia que não era a melhor hora, não de madrugada, não depois daquele sonho.
– Pesadelo?
– É. – respondeu simplesmente, vertendo tudo de uma vez.
–... Você está bem? Cheguei em casa e já estava dormindo...
– Estou bem. – O cortou, desconfortável. – Só estava esperando Rarac terminar de comer.
Levantou, indo rapidamente para as escadas, passando por seu pai sem dizer uma única palavra. Mas somente no ato de passar por ele, conseguiu sentir mais confusão e desconfiança que jamais sentira. E isso o deu calafrios.
– Quer falar sobre o p...
– Não. – disse simplesmente enquanto fechava a porta.
John suspirou, passando a mão pelos cabelos, preocupado. Havia conversado com Rob mais cedo, e este lhe dissera sobre o fato do tão recluso Nero haver saído de casa, sem dizer para onde ia, retornando horas mais tarde, se recusando a dizer onde estivera, agora Jake lhe parecia arredio. Isso era um péssimo sinal.
Havia os gêmeos se encontrado?
Mordeu a própria língua, voltando a passos lentos para o seu quarto. Carolina sequer havia dado sinal de que poderia acordar, se acomodando na cama. O rapaz parecia ser tornar a cada dia mais parecido com o verdadeiro pai, e a mera lembrança do imponente homem de olhos dourados lhe invocava calafrios.
Era claro que havia se apegado a Jake como se fosse seu próprio filho, mas toda vez que o via, que encarava aqueles olhos impenetráveis, a imagem inevitável daquele homem lhe aparecia em sua mente. Mesmo estando tão ferido e carregando duas crianças praticamente à beira da morte, possuía uma aura de poder que nenhum humano ousaria ter.
Olhou para sua esposa adormecida por um instante, antes de se afundar nos lençóis, lembrando-se do aviso que aquele homem dera.
Do que poderia acontecer se os gêmeos se reunissem.
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