Montre - A Sinfonia do Tempo
5 Ampulheta
Clarence sempre fora acostumada ao movimento e ao burburinho das várias pessoas que enchiam suas ruas. Também raramente se surpreendia com os novos rostos e sotaques diferentes dos visitantes de todo o país. Entretanto, naquele dia, o movimento estava assustando boa parte dos moradores.
Já havia se passado mais de quatro horas desde que aquele estranho grupo estivera vasculhando a cidade. Os mais curiosos sabiam que o enorme homem de cartola que o liderava não era ninguém além de Victor de Constance, uma das personalidades mais importantes da região, e também chefe da ainda operante guarda do Duque de Chamberlain.
O grupo perguntava sobre relógios, lordes e mágicos, mas ninguém realmente sabia do que se tratava. No fim, acabaram chegando a Alistair, e Victor saiu em direção ao castelo. Entretanto, não conseguindo encontrar o Lorde lá nem em lugar algum, finalmente, para alívio dos moradores, o estranho grupo desistiu e partiu no próximo trem em Blackfell Hollow.
...
Lorde Crawford apresentara-se novamente como mecânico e inventor. Parecia conhecer a história do Duque tão bem quanto Lilet, e de maneira um tanto quanto inesperada, mostrou-se igualmente preocupado com a ideia de que Chamberlain pudesse voltar à vida. Mas Alistair, fosse pelo conselho de Laynon, ou pela atitude zombeteira que o homem apresentava de tempos em tempos, não havia podido simpatizar facilmente com o tal Lorde. Lilet também ouvia com desconfiança, embora se mostrasse um pouco mais aberta à conversação.
– Vim à Clarence seguindo as histórias sobre o lendário relógio de Duran Chamberlain – explicou o inventor. Havia tomado uma poltrona e se sentado com a naturalidade de quem acaba de entrar na própria casa — Meu interesse é, naturalmente, procurar alguma pista não-mágica sobre como o objeto consegue resistir ao tempo. Seria uma ótima propriedade para se aplicar a máquinas de qualquer espécie! – disse de maneira entusiástica. Mas, no momento seguinte, suspirou e deu de ombros – Por outro lado, infelizmente, sei o suficiente de História para ter certeza de que esse relógio não pode continuar intacto depois de ter sido remontado...
– Bem, o que sugere que façamos? – indagou Lilet, investigando o novo visitante.
– Que peguemos rapidamente um trem para a Cidade Central – declarou, levantando-se da poltrona — Conheço um inventor muito talentoso (e incomum) de nome Garrett. Imagino que se ele não puder destruir o relógio, pelo menos será capaz de nos dar alguma informação sobre ele.
Alistair não estava muito satisfeito:
– E como espera nos convencer de que... – começou, pronto para reclamar a respeito da pouca confiabilidade de Crawford, quando foi interrompido por Lilet:
– Certo então, iremos para a Cidade Central. – afirmou a jovem, encerrando o assunto por si própria.
– O quê? – Alistair respondeu automaticamente.
– Sei que você pode confiar tanto nesse homem quanto confia em mim, já que acabamos de nos conhecer, Alistair. Mas, veja bem, nossas opções são muito limitadas ficando com o relógio aqui em Clarence. A Cidade Central é cheia de recursos, e se não pudermos fazer nada lá, é bem possível que, no mínimo, encontremos alguém que possa.
– Ou alguém disposto a nos roubar... – resmungou Alistair, mas pôs-se a pensar por alguns momentos sobre o assunto. Era mesmo provável que fossem encontrar mais problemas na Cidade Central do que em Clarence, mas Lilet tinha um pouco de razão: estavam sem informação suficiente e sem ideias sobre o que fazer com o relógio. Além disso, se Crawford estivesse realmente sendo sincero, era possível que o tal Garrett fosse de alguma ajuda.
– Bem, que seja então – deu de ombros. Também havia gostado da ideia de ir visitar uma cidade diferente, embora não fosse confessar para si mesmo que isso pesara em sua decisão.
– Ótimo! – aprovou Lorde Crawford. Assim, o recém-formado grupo logo partiu para a estação, fazendo apenas uma pequena parada para que Lilet pudesse buscar sua mala na estalagem na qual passara a noite.
...
A paisagem pela janela do trem mudava rapidamente, passando de bosques verdes para pequenas cidades agrárias. Entretanto ninguém dava atenção ao lado de fora da cabine:
– Você deve ter feito algo muito importante para receber o título de Lorde tão cedo... – disse Alistair à Lorde Crawford. Ainda lhe custava acreditar no que este lhe dissera.
– Já não disse que sou um grande inventor? Ganhei esse título depois de construir um autômato para a Rainha. E eu não era tão jovem assim... Você é muito distraído... – respondeu o outro — Aliás, também gostaria de saber como foi que conseguiu seu título, Lorde Alistair.
– Eu? – não sabia ao que reagir primeiro: a ser chamado de distraído ou a pergunta do visitante. Acabou ficando com a segunda – Não sou um Lorde, as pessoas simplesmente resolveram me chamar assim...
– Imaginava que tivesse a ver com sua família – disse Lilet surpresa, até Lady Catherine o havia tratado dessa maneira.
– Ah, não tive família... – disse ele tranquilamente – Vivi muito tempo em um castelo em Greenshire, e depois me mudei para cá. O lugar lá esteve abandonado por muito tempo porque as pessoas diziam que era mal-assombrado, então facilmente concordaram em me deixar ficar com ele se eu os livrasse dos fantasmas. A verdade é que fantasmas não existem, e só bastou que eu limpasse as coisas e iluminasse o castelo para que todos ficassem convencidos de que não havia nada para temer. O povo de Greenshire era muito supersticioso, mas também eram muito alegres e sempre me convidavam para as comemorações...
– Não entendo porque você se enjoaria deles... – disse Lilet, mas Alistair pareceu não ouvir, pois já começava a fazer novas perguntas à Lorde Crawford.
– Como funciona essa máquina? – perguntou. Ele já estava avisado de que Crawford não queria falar sobre ela, mas sua curiosidade ainda era enorme. Entretanto, antes que o outro pudesse responder, o balanço do trem fez com que uma das malas de Lilet caísse do bagageiro direto na cabeça de Alistair. Crawford começou a gargalhar.
– Oh, Alistair, me desculpe – disse Lilet enquanto pegava a bagagem no chão. O mecânico estava tendo dificuldades para controlar o riso:
– Achei que alguém com uma reputação como a sua teria reflexos mais rápidos – zombou ele.
Alistair não disse uma palavra, e emburrado, passou a simplesmente olhar a paisagem pela janela.
– De acordo com o pessoal da cafeteria estaremos na Cidade Central em meia hora. – disse Lilet desviando o assunto – Embora eu me preocupe com a ideia de irmos para tão perto da guarda do Duque... Acha que possível que Chamberlain já tenha acordado?
– Acho estranho que, se isso já tiver acontecido, ele ainda não tenha se manifestado. Mas é impossível saber o que está acontecendo de verdade no momento... – suspirou o inventor – De qualquer maneira, é melhor destruirmos esse relógio o mais cedo possível. Quanto a Guarda, vamos esperar que, justamente por estarmos tão perto deles, não pensem em procurar por nós na Cidade Central tão cedo.
Embora Lorde Crawford parecesse se preocupar com o assunto, Lilet suspeitava que sua principal intenção ao ir para a Cidade Central era encontrar sua oficina, onde poderia examinar o relógio e descobrir seus segredos. A jovem não estava tão convencida quando se fazia parecer, mas imaginava que Lady Catherine pudesse estar na cidade e isso a confortava, já que sua mestra nunca errava em seus conselhos.
Alistair olhava para a paisagem do lado de fora, e embora ainda estivesse um pouco ressentido com os novos colegas, sentia-se inesperadamente feliz. Não sabia como um objeto daqueles tinha vindo parar justo em suas mãos, nem como arranjara pessoas para ajuda-lo, mas estava bastante animado em finalmente ter algum objetivo para alcançar. Disse para si mesmo que estava disposto a ir até onde fosse preciso para resolver aqueles mistérios.
Mas o Lorde teve de subitamente voltar a si quando a porta do gabinete se abriu, deixando os ruídos do lado de fora entrarem todos de uma vez. Por ela puderam ver um jovem de cabelos castanhos pedindo permissão para entrar:
– Com licença, posso me sentar aqui? As outras cabines estão cheias... – ele carregava uma jaqueta escura em uma das mãos e uma maleta na outra.
– É claro que pode – disse Lilet antes que alguém pudesse responder. – Lorde Crawford, tire isso daqui... – e apontou para a estranha máquina que ele levava para todos os lados e que agora estava ocupando um dos bancos.
– Lorde? – perguntou o jovem, curioso, depois de se sentar, tentando começar uma conversa.
– Sim — respondeu Crawford, franzindo as sobrancelhas – Mas tenho ouvido muito essa pergunta ultimamente, tem alguma coisa de errado com a minha aparência?
– Não, não. Minhas desculpas. É que não é todo dia que encontramos um Lorde em uma cabine de trem... – respondeu o rapaz embaraçado e um tanto surpreso com o tipo de resposta que recebera. Crawford achou aquilo engraçado, já que realmente não se importava de ser chamado de Lorde ou não. Aproveitou o embaraço do jovem para fazer uma brincadeira:
– Imagine então encontrar dois! – e apontou para Alistair – Este é Alistair Delacroix, o ‘percussor do caos’ de Clarence. Talvez não seja muito seguro sentar perto dele! – riu, tentando assustar o rapaz. Entretanto, não seria difícil levar a sério o que ele dizia, já que Alistair não estava com a sua expressão mais amigável.
– Er... Suponho que a senhorita também venha de uma família nobre? – disse o jovem tentando desviar o assunto para Lilet e se perguntando como raios fora parar em uma cabine cheia de gente tão complicada.
– Ah não — disse ela, de maneira simpática – Sou Lilet. Lilet Clermont. Não ligue para eles. A propósito, seu nome é...
– Sou Hector Astaroth — sorriu – Mas sou só um simples mágico de rua...
– Ora, tem um nome bem interessante para ser um “simples mágico de rua”... – interferiu Crawford, ajustando-se no banco, e parecendo repentinamente interessado.
Alistair, que até então não tinha se dado ao trabalho de analisar o novo companheiro de cabine, resolveu averiguar se a aparência do mágico fazia a jus ao seu nome incomum. O jovem de cabelos castanhos bem penteados tinha estranhos olhos dourados, o que fez o Lorde se lembrar vagamente de uma das apresentações de rua que tinha visto no Festival das Vinhas. Ademais, seu nome também inspirava uma ou duas recordações de conversas que ouvira em Clarence a respeito de furtos.
A conversa já tinha mudado de rumo quando Alistair resolveu prestar atenção novamente:
– Então você vai para a Cidade Central procurar por Lady Catherine? – disse Lilet surpresa – Mas que coincidência! Acontece que sou aluna dela, posso guiar-lhe até o estúdio, o que acha?
– Seria ótimo — disse Hector politicamente – Mas espero não atrapalhar o caminho de vocês...
– De forma alguma – insistira Lilet, e embora soubesse que ir até Lady Catherine não estivesse exatamente nos planos, não podia deixar uma oportunidade como aquela passar. Por isso confirmou – Já íamos mesmo passar por lá...
Crawford que até então se mantivera relativamente quieto pensando sobre o curioso nome do mágico, aproveitou a brecha para testar uma teoria:
– O estúdio de Lady Catherine é no caminho para a mansão do Duque de Chamberlain, estávamos pensando em visita-la mais tarde...
Alistair ergueu as sobrancelhas — podia não ser a pessoa mais sensata do mundo, mas tinha certeza de que falar abertamente sobre o relógio enfeitiçado do Duque era uma péssima ideia. Infelizmente não teve tempo para se manifestar verbalmente, já que o jovem mágico logo respondeu:
– Ah, mas não há mais nada do Duque lá. – disse, estranhando a pergunta – Depois que ele morreu sua mansão foi vendida para um milionário que fez fortuna escrevendo peças teatrais. E isso não é bem história recente... Mas imagino que conheçam as lendas sobre aquele relógio amaldiçoado do Duque – continuou o rapaz, parecendo finalmente entender o propósito da conversa – Também tinha curiosidade em vê-lo, mas o objeto está desaparecido há muito tempo. Entretanto, ouvi de algumas pessoas de Clarence que a guarda pessoal de Chamberlain, liderada por Victor de Constance, parece ter descoberto o paradeiro do relógio e estão revirando montanhas para encontra-lo. É um artefato muito poderoso...
– Victor está em Clarence? – repetiu Crawford, automaticamente. Se Victor já estava atrás deles, isso significava que teriam problemas com a guarda do Duque mais cedo do que imaginavam.
– Sim, e aquele homem é um demônio, se me permite dizer... – respondeu o jovem, enquanto tirava seu baralho de dentro da mala – Dizem que tem poderes sobrenaturais, mas isso eu garanto, é mentira — ia dizer mais alguma coisa, mas decidiu tentar algo diferente para passar o tempo, já que toda aquela conversa mais parecia um interrogatório:
– Mas o que acham de um jogo? Sou mágico, mas também sei usar o baralho para outros propósitos. Querem ver o que apendi esses dias? Lorde Crawford, por favor – disse para o lorde, indicando para que ele escolhesse uma carta. Crawford obedeceu, revelando um ás de espadas. O mágico fez um careta, pensou um pouco, depois disse:
– Ah, esqueça. Ia tentar ler seu futuro, mas acho que não está funcionando direito. Em compensação vou mostrar-lhes outro truque – dizendo assim, fez com que o baralho se transformasse em uma dobradura de estrela cor de ouro antes que qualquer um pudesse fazer alguma objeção.
Alistair, com certeza se lembrava desse truque, e também se lembrava de ter pensado que aquilo não era simples mágica. Infelizmente, não teve mais tempo para refletir sobre o assunto, já que o trem logo soou seu apito, avisando que acabavam de chegar à estação da Cidade Central.
– Vejam só, já chegamos! — disse o mágico, embora não achasse que o tempo tivesse passado tão depressa. Depois pareceu refletir por alguns momentos e continuou — Sinto ter que dizer que não poderei acompanha-los para a casa de Lady Catherine já que tenho alguns assuntos para resolver antes de ir para lá. Mesmo assim agradeço, e peço desculpas por não ter me lembrado disso antes, é mesmo uma pena. – disse o jovem se levantando para sair do trem e não deixando tempo para resposta.
– Bem, sem problemas... – respondeu Lilet desapontada, ia ter que arranjar outro jeito – Quem sabe não nos encontramos lá!
O mágico disse algumas palavras de despedida, proferidas ao longe. Alistair e os outros já estavam do lado de fora da estação, com o relógio e as poucas bagagens que tinham em mãos, quando Lorde Crawford finalmente disse:
– Esse jovem pode vir a ser um grande problema...
– Ora, porque diz isso? – indagou Lilet.
Alistair procurava ver o mapa da cidade que estava disposto na parede, embora ainda ouvisse a conversa.
– Astaroth era o nome do décimo sétimo Século.
Fale com o autor