A Cidade Central era uma grande metrópole carregada com uma enorme quantidade de fábricas e indústrias, por isso, devido ao grande volume de fumaça emitida, o céu nunca se mostrava completamente azul. Esse fora o motivo para que, a decreto da nova Rainha, em um dia específico do ano toda a Cidade desligasse seus motores, a fim de que assim seus cidadãos pudessem apreciar o céu limpo por pelo menos algumas horas.

Sua saída leste dava em um grande campo, que se estendia a perder de vista. Esse relevo curiosamente vazio somado à grossa neblina que se formava acima das planícies, renderam o apelido de “Caminho de Prata” ao lugar. No centro da cidade encontrava-se o Palácio Real, e nos seus arredores, a região mais contrastante com o restante cinzento da paisagem: arborizada e ventilada, somava a maior porcentagem de área verde da capital. As ruas do centro eram decoradas por bandeiras que se intercalavam entre vermelho e azul, com o símbolo da coroa real inscrito nelas. Todas as casas dessa região eram do mais alto padrão e Catherine morava em uma das ruas mais caras da cidade.

Lilet havia convencido os dois colegas a passarem por lá, mas infelizmente, Lady Catherine não estava em casa quando chegaram. Havia apenas um criado, chamado Antoine, que informou a Alistair e os outros que, aparentemente, Catherine tinha ido encontrar alguns velhos amigos em Neor, uma vila não muito grande, a leste da Cidade Central. O criado também dissera que ela regressaria em breve, e como tivesse sido avisado que visitas chegariam pela própria Catherine, disse para o grupo entrar e esperar por ela, que não tardaria a voltar.

...

As portas da antiga igreja em ruínas se abriram lentamente, e de trás delas uma mulher de longos cabelos negros pôde ser vista. Uma segunda mulher tocava uma bela melodia em um piano entalhado em branco, mas não se deu ao trabalho de tirar os olhos das teclas:

– Ora, se você não resolveu mesmo aparecer, terceiro... – disse, com uma voz quase tão melodiosa quanto o som que vazava do instrumento.

– Não se preocupe em parecer hospitaleira, vigésimo segundo – respondeu com frieza a mulher que se aproximava. Seus passos ecoavam, se misturando a música – Mas acho que usar nossos nomes não seria tão ruim assim, Lenore.

– Se você prefere desse modo... – respondeu a mulher de nome Lenore, tocando uma melodia mais suave e virando-se para olhar pela primeira vez à pessoa a sua frente – O que quer aqui?

A mulher de cabelos escuros tomou a liberdade de ir sentar-se em um divã próximo ao piano. A mobília era tão imaculadamente branca quanto o resto da igreja:

– Não viria se não precisasse, mas acredito que esse tipo de problema também lhe diga respeito – respondeu.

– Bem, então seja rápida – foi o retorno.

O sol que entrava pelos ocasionais vitrais azuis fazia as ruínas adquirirem um ar fantasmagórico.

– Acredito que sabia que Victor de Constance está procurando pelo relógio do Duque novamente.

– Acredito que saiba que não tomo partido nesses assuntos. – respondeu duramente Lenore. A mulher era quase tão espectral quanto o próprio cenário: na verdade, tinha muito em comum com o lugar, com seu longo vestido branco e seus vibrantes olhos azul-marinho. A interlocutora, contudo, não parecia se afetar por aquela atmosfera singular:

– Achei que quisesse saber que o responsável por colocar Victor em busca do relógio novamente é um antigo conhecido da Ordem.

Lenore esboçou uma expressão de surpresa, mas sua voz estava muito calma quando disse:

– Howell?

Não precisou de resposta. A expressão da mulher de cabelos negros era de óbvia confirmação.

– Ótimo – disse então, levantando-se e fechando a tampa do piano – Mas irei sozinha.

E então, Lenore abandonou a igreja, deixando a outra mulher a sós com seus próprios pensamentos, em meio a um silêncio tão onipresente quando a brancura do salão.

...

A elegante sala de estar de Lady Catherine estava um pouco agitada:

– Me recuso a esperar junto desse garoto! – disse Alistair, revoltado, evitando olhar para o rosto do jovem sentado a sua frente. O Lorde não estava se dando muito bem com suas novas experiências sociais.

– Tente não ser tão radical, Lorde Alistair – zombou Crawford, que parecia já ter se habituado as reações quase infantis do colega – O jovem foi um perfeito cavalheiro.

– Afinal qual é problema? – Lilet pensava que todo esse súbito ataque de nervos fosse por conta da suposição que Crawford fizera sobre o mágico ser parte da Ordem, mas não via motivo para tanta agitação.

– Ele ter sido educado não muda o fato de que seja um ladrão! – disse Alistair indignado enquanto mostrava os bolsos vazios de seu casaco.

Hector chegara há pouco tempo e não precisara trocar muitas palavras com o Lorde para que a confusão toda se instalasse. Mas o rapaz, que ouvia a discussão, parecia pouco preocupado com todas aquelas acusações repentinas:

– Não entendo porque acha que fui eu. Tem alguma teoria? – disse com indiferença, enquanto lançava uma moeda para cima.

– Ora, como? – retrucou Alistair revoltado – Uma das moedas que carregava comigo era especial por ter sido fabricada com um defeito, e eu a guardava como amuleto. Ninguém além de mim deve ter um objeto assim e agora o vejo brincando uma moeda idêntica a essa nas mãos.

Hector, ao ouvir isso, parou imediatamente o movimento de jogar a moeda para cima e para baixo que estivera fazendo até então. Ia dizer que era bem possível existir outra moeda com o mesmo defeito, mas ao se virar para Alistair acabou por derrubar uma pequena bolsa de dentro de seu casaco. A carteira abriu-se e espalhou seu conteúdo monetário pelo chão. Hector olhou para todos que o encaravam e não vendo saída, suspirou:

– Você deveria ser mais esperto para um lorde, ficou o tempo todo olhando pela janela, feito bobo! – disse despreocupadamente enquanto pegava o resto do dinheiro que deixara cair — Devia tomar como exemplo seu amigo aqui, — continuou rindo e apontou para Lorde Crawford — dele só consegui tirar essa engrenagem dourada que estava em uma máquina dentro daquela bolsa estranha...

Crawford, que até aquele momento estava se divertindo com a conversa mais do que ninguém, ao ver sua engrenagem nas mãos do mágico, ficou ultrajado:

– Não posso acreditar! — exclamou ele, batendo com as mãos na mesa de centro e ignorando o conselho que dera há poucos minutos para Alistair se acalmar.

Hazel Crawford sempre fora muito cuidadoso em relação as suas invenções, e por isso, raramente as mostrava em público antes que fossem devidamente patenteadas. Pelo mesmo motivo, evitava até mesmo falar de seus projetos, temendo que fossem copiados ou algo parecido. Dessa forma era de se esperar que ficasse irritadíssimo ao perceber que alguém roubara uma de suas peças:

– Sendo assim, — disse ele para o mágico — tenho certeza que vai gostar de saber para quê essa máquina serve! – desembrulhou então o estranho mecanismo, que formado por peças de cobre e tubos de vapor, tinha um formato semelhante ao de um rifle. Apontou-a para o mágico sem pestanejar. Hector deu um passo para trás e caiu no sofá.

– Vamos, parem com isso! – interferiu Lilet, mas não precisou dizer outra palavra porque Lady Catherine acabava de aparecer na porta da enorme sala. Todos congelaram onde estavam quando a perceberam, e Crawford se sentiu bastante desconfortável com a sua nova situação.

– Olá, Cathy – disse então Hector tranquilamente, acenando para a anfitriã.

A reação de Catherine não foi bem a que todos imaginavam que seria:

– Olá Hector. E Lilet. Você deve ser Lorde Hazel Crawford, não é mesmo? – disse ela com uma polidez digna de uma rainha, parecendo ignorar completamente a bizarra situação de seus convidados. Depois com certa surpresa acrescentou – Ora, se não é Alistair!

Lilet, aliviada por Lady Catherine não ter se irritado com seus colegas, aproveitou o momento para mudar de assunto e fazer uma pergunta que já havia algumas vezes lhe passado pela cabeça:

– Lady Catherine, você conhece esse homem, não é mesmo? – disse, indicando Alistair. Ele não tinha reconhecido o selo de sua professora, e na verdade era bem possível que Lilet o tivesse confundido com outra pessoa — Não existe a possibilidade de você ter me mandado entregar a carta para alguém diferente, não é?

– Ah, não. Conhecemo-nos em Greenshire, em um leilão... Não é verdade? – respondeu ela, a última parte da frase dirigida ao Lorde.

– Provavelmente – Alistair limitou-se a responder, não se lembraria dela por mais que se esforçasse.

– Provavelmente? – repetiu Lilet que estava visivelmente desconcertada – Se Lady Catherine enviou-lhe uma carta sobre um assunto tão importante, não seria normal que você pelo menos se lembrasse dela?

– Não espera mesmo que eu me lembre de todas as pessoas que vi nos leilões em que fui por todo esse tempo? – disse Alistair tranquilamente, ademais, tinha péssima memória para nomes.

Enquanto a conversa corria, Lorde Crawford já havia guardado de volta o estranho artefato e agora estava sentado em uma das poltronas, tentando chamar o mínimo de atenção possível para si mesmo. Entretanto, ao contrário deste, Hector não estava suportando ser ignorado. Resolveu fazer um comentário para se por de volta no assunto:

– Não duvido que você tenha a velocidade de um velho, – zombou sobre o roubo no trem – mas não pode ter ido a tantos leilões quanto fez parecer, não é mesmo? Quantos anos você tem? Duzentos? – riu ele.

– Duzentos e cinquenta e dois – corrigiu Alistair com naturalidade. Com efeito, essa frase causou certa mudança nas expressões de todos ali presentes, excluindo Catherine, que continuava impassível.

– Não pode estar falando sério, como alguém pode viver tanto tempo?! – disse Crawford esquecendo de que tentava ser o mais discreto possível.

– Não sei. – foi a resposta sincera de Alistair.

Alistair não se lembrava de muita coisa: suas memórias começavam em uma noite numa floresta congelada. Nunca soube como parara lá, só abrira os olhos e encontrara as árvores esbranquiçadas e o chão frio. Havia começado a andar sem rumo até entrar em um vilarejo próximo, onde encontrara pessoas falando sobre fantasmas. As entendia perfeitamente e pensou em ficar com o castelo que tanto temiam. Não foi complicado, na verdade.

Ficou por muito tempo lá e viu muitas coisas acontecerem, mas nunca se perguntara por que ele, em especial, continuava vivendo enquanto pessoas na vila iam e vinham o tempo todo. Não foi diferente em Clarence. Achava que tudo era questão de sorte.

– Isso é bastante incomum – disse Catherine, perfeitamente calma. Pareceu ter pensado em algo mais para dizer, mas achou melhor averiguar algumas coisas primeiramente — Soube que os três vieram aqui por causa daquele relógio, não? Onde ele está?

Lilet apontou para um objeto no canto da sala, encoberto por um manto de linho. Catherine se dirigiu até ele com o pretexto de analisar o relógio, mas para a surpresa de todos, quando o pano foi retirado, perceberam que os ponteiros que até então estiveram marcando uma hora, já estavam agora contando três.

...

Clarence estava silenciosa como nunca estivera antes. Não havia ninguém nas ruas, e a chuva fraca que caía deixava o lugar com ares ainda mais desolados. Era a segunda vez que voltavam para a cidade, já que tiveram de sair para reportar os acontecimentos a seu superior. O grupo de Victor deslizava lentamente pelas ruas de pedra, como uma mancha negra, passando por cada canto da cidade. Diminuíram o passo quando seu chefe parou para dar palavra:

– Creio que não há mais nada aqui para ser feito – disse Victor enquanto arrumava os bigodes – Vendo que o Lorde recusa-se a abrir os portões de seu castelo, provavelmente precisaremos de ordens superiores para invadi-lo – acrescentou com um leve sorriso. Não teria podido imaginar situação melhor que aquela, pois se Alistair estivesse na cidade eles não poderiam simplesmente atacar o castelo. Entretanto sem o lorde para dizer alguma coisa, eles poderiam dissimular a situação o suficiente para conseguir um alvará de invasão.

– A guarda da rainha ficará contente em ajudar – foi a resposta que recebeu, vinda de uma mulher de cabelos loiros penteados em um coque. Ela também vestia um uniforme semelhante ao de Victor, mas sua falta de expressão superava a de seu chefe.

– De fato – continuou ele sem procurar olhar de volta para sua interlocutora – Mas seria melhor que tivéssemos uma testemunha a nosso favor...

– O relojoeiro? – sugeriu ela.

– Exato – disse Victor, retomando sua marcha, acompanhado pelo resto do grupo que o seguia. – Acha que pode persuadi-lo? – acrescentou com um leve repuxar dos lábios que poderia ter sido entendido como um sorriso.

– Certamente. – disse a mulher.