Saint-Claude era uma cidade de médio porte, assim como Clarence. Ficava incrustada no meio das montanhas e era acessível apenas pela estação de trem, embora alguns poucos viajantes mais experientes tivessem descoberto um atalho pela floresta. Não havia muito que ver na cidade a não ser uma feira de antiguidades que acontecia o ano todo ao lado do Museu Municipal. Este provavelmente teria sido o motivo da escolha do ponto de encontro da Rosa Escarlate, visto que ninguém daria atenção a um relógio de pêndulo antigo no meio de todos aqueles objetos do mesmo tipo.

Victor havia chegado há pouco tempo e estacionado seu carro perto da pequena praça principal da cidade. O museu estava a sua direita, e a esquerda se espalhavam as inúmeras lojas de antiguidades e algumas barracas que ofereciam itens menores. Victor sentou-se em um dos bancos trabalhados da praça e esperou, com Rhea em pé ao seu lado, até o homem de roupas brancas se aproximar, carregando algo grande e pesado atrás de si.

Lilet, sentada em uma mesa um pouco mais distante, observava-os tirarem o tecido que encobria o objeto, revelando o conhecido relógio de pêndulo do Duque. Victor pareceu sorrir e então uma mulher de chapéu vermelho saiu de uma das lojas, carregando consigo uma pequena caixa. Lilet fez o que pôde, mas não conseguiu identifica-la, já que a sombra da aba do chapéu escurecia seu rosto. Howell havia dito uma coisa muito perturbadora sobre Lady Catherine na noite anterior:

– Sinto dizer, Srta. Clermont, mas sua professora de piano provavelmente é uma das lideranças da Rosa Escarlate — tinha dito ele, quando por algum motivo o assunto havia voltado para Catherine outra vez. Não estava seguro sobre falar algo desse tipo para a aluna da mulher, mas acabou por decidir-se a deixa-la de sobreaviso, caso viessem a descobrir que Lady Catherine estava realmente trabalhando com Victor:

– Ela esteve tentando me desacreditar nos últimos tempos, assim como Oliver parece estar fazendo agora. Não espero que confiem nisso, mas não quero que acreditem cegamente nela caso venhamos a encontra-la amanhã.

Lilet contestara essas afirmações inúmeras vezes, e Alistair e Crawford também não pareceram dar muito crédito a Howell. Mesmo assim, a pianista não pôde deixar de se esforçar para tentar enxergar o rosto que a mulher de vermelho tentava esconder.

A senhora de chapéu logo abriu a pequena caixa e fez menção para tirar algo de lá, o que fez Lilet começar a se perguntar por que seus colegas estavam demorando tanto. Então, quando viu o ponteiro cintilar na mão enluvada e se levantou para dar início a sua parte no plano, acabou avistando Howell em cima do telhado de uma das lojas. Se ele estava ali, provavelmente Crawford já havia conseguido as passagens para que pudessem fugir pelo trem. Isso significava que ela tinha de agir. Conferiu seu reflexo no espelho para garantir que não se parecia com ela mesma: usava o cabelo escondido por um chapéu um pouco menor que o da mulher de vermelho, um par de óculos, embora as lentes fossem falsas, e um vestido florido que jamais teria usado se a situação não a obrigasse.

Depois de conferida a indumentária, levantou-se e seguiu em direção ao grupo uniformizado. Aproximou-se apressada, fingindo esbarrar na mulher – que, com o empurrão, acabou derrubando o ponteiro no chão. Lilet ergueu os olhos para encontrar um rosto furioso fitando-a: agora de perto não restavam dúvidas, era mesmo Lady Catherine! A garota congelou.

Desde o começo a jovem não tinha se mostrado muito contente com a parte que tinha que desempenhar no plano, mas depois de algumas discussões acabara aceitando, na esperança de que com isso pudesse ser capaz de provar a inocência de sua mestra. E agora estava não só abalada, como extremamente decepcionada. Era Catherine com certeza, mas por sorte ela não parecia ter reconhecido Lilet. Por isso, a garota tentou desculpar-se, falando de um modo assustado, e pegando o ponteiro que caíra no chão. A ideia do plano era trocar o ponteiro verdadeiro por uma cópia que Howell tinha conseguido, e se isso não desse certo, todos estavam prontos para um confronto mais direto.

Lilet não pretendia estragar o plano.

Com um pouco de esforço para controlar a tremedeira, conseguiu completar a troca em pouquíssimo tempo, e estava prestes a entregar o objeto para Catherine quando algo fez com que todos olhassem para o começo da Rua das Antiguidades:

– Lileeet! – alguém estava gritando, correndo e acenando para ela. Lilet estremeceu quando a mulher rapidamente voltou-se para olhá-la.

– Lilet?!

Catherine a fitava diretamente agora, e não havia dúvida de que tinha finalmente reconhecido sua aprendiz. Lilet, com o susto, havia se esquecido de guardar o ponteiro verdadeiro e agora estava segurando ambos, o falso e o original, um em cada mão. A mulher percebeu o que ela tinha tentado fazer, e antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, havia se lançado em Lilet para tentar recuperar o ponteiro. Em instantes a jovem se desviava por reflexo e Howell descia do telhado para tentar ajuda-la, mas Victor já se encontrava no caminho, reagindo ao ataque.

Alistair, que até o momento também estivera escondido em uma das lojas, se pôs para fora, e chegou a tempo de ver Lilet arremessar os dois ponteiros para o meio da rua, para evitar que Catherine os pegasse. Infelizmente isso também fez com que ninguém mais fosse capaz de saber qual era o verdadeiro e qual era o falso. Catherine largou-a e precipitou-se para onde eles caíram, mas Alistair chegou a um ponteiro exatamente no mesmo momento em que ela alcançava o outro, fazendo com que cada um conseguisse pegar apenas um dos pedaços. Mas qual seria o verdadeiro?

Lilet tentava se por de pé enquanto via a cena que se desencadeava. As pessoas das ruas corriam na direção oposta. Lorde Crawford havia aparecido há pouco e atirava com uma pistola comum em direção a Rhea, que por sua vez, respondia com tiros igualmente precisos em sua direção. Howell usava uma espécie de lança retrátil para atacar Victor, que desarmado, recuperava uma espada antiga de uma das barracas de antiguidades para fazer sua defesa.

E a pessoa que havia causado tudo aquilo estava agora tendo que se enfrentar com o homem de branco, que carregava o relógio:

– Lilet! – disse Hector, enquanto tentava se esquivar de uma rajada mágica de seu oponente – Tudo bem com você? – sorriu.

Lilet fez que sim com a cabeça e lembrou-se que precisava recuperar os ponteiros. Infelizmente não estava conseguindo enxergar direito no meio daquele caos, e os tiros de Crawford estavam colidindo em paredes muito próximas de onde ela estava. Foi então que avistou Catherine, correndo em direção ao relógio e Alistair a seguindo. Viu Rhea cair, atingida na perna ao mesmo tempo em que Catherine, mais rápida que Alistair, chegava ao relógio e encaixava o ponteiro no espaço que faltava. Viu o pedaço dourado fundir-se com a parte que já estava presa no relógio e então ouviu uma melodia tão forte, que a fez cair no chão novamente e tampar os ouvidos.

Victor também havia caído, não se podia dizer, entretanto, se era pelo som ou por um golpe de Howell, e todos os outros pararam o que faziam para observar os ponteiros do relógio que corriam compassadamente por entre as horas, saindo do número cinco, passando pelo seis e o sete, e continuando constantes com sua melodia cada vez mais insuportável.

O relógio havia marcado afinal às onze horas, e os ponteiros começaram a diminuir o ritmo até finalmente pararem por completo, marcando no total, onze horas e cinquenta e nove minutos. E então tudo ficou silencioso.

– O que houve?! – disse Catherine, com uma voz histérica que Lilet nunca ouvira antes. E então a mulher passou a revirar o objeto de todos os jeitos que podia e Alistair não pode esconder um sorriso: “Era só isso?”, pensou ele. Catherine deu voltas e procurou freneticamente por alguma coisa no relógio. De repente, gritou para Victor, que já se colocava de pé novamente:

– É a chave de corda! Onde está?!

“Chave de corda...” Alistair se lembrava de tê-la usado quando testara o relógio pela primeira vez, mas não imaginava onde ela pudesse estar agora. Entretanto, Lilet sabia exatamente onde encontra-la: havia visto o objeto pela última vez em cima do aparador da sala de jantar de Alistair, em seu castelo em Clarence. Não achou que ninguém fosse calcular algo assim até que ouviu Victor dizer:

– No castelo! Deve ter ficado lá! – grunhiu, e antes que alguém pudesse interferir ou dizer algo, ele ordenou — Louis, abra um portal imediatamente! – falava com o homem de branco, que respondeu com uma careta e disse ao mesmo tempo em que fazia um gesto com as mãos:

– Isso pode não dar certo...

O vento pareceu correr mais rápido e se concentrar nas mãos do homem de branco, até que um disco negro se abriu a sua frente. Ele acenou e Lady Catherine pulou para dentro do círculo, sem nem mesmo olhar para trás. Mal entrou e a magia começou a diminuir, fazendo com que os outros dois tivessem de correr desajeitadamente para dentro do portal, arrastando o relógio e abandonando Rhea, que estava impossibilitada, para trás. Quando percebeu que todos estavam fugindo, Alistair entrou com eles para dentro do círculo, seguido de Lilet, que estava próxima, e Crawford, resmungando alguma coisa. Hector ainda se precipitou para o portal, mas só teve tempo de ver o disco escuro desaparecer no ar.

A cidade havia ficado silenciosa novamente, e Hector ainda olhava para onde o portal estivera segundos atrás, quando ouviu a voz de Garrett, que chegava caminhando pelo outro lado da rua:

– Porque a demora? — perguntou o mecânico, que estivera esperando na estação – Não era só chamar Alistair e os outros?

– Parece que vamos para Clarence – disse Hector, virando-se para olhar seu colega – Não entendi direito, mas acho que Victor já estava com o relógio quando chegamos... Se a chave de corda não estivesse faltando, acho que estaríamos com problemas. Mas não temos tempo para conversar, vá um pouco para trás – pediu – Vou tentar algo que nunca fiz antes...

Garrett assentiu. Tinha lido na carta de Victor que o grupo havia encontrado um ponteiro, e esperava achar Alistair e os colegas na cidade para avisá-los de que não precisavam mais se preocupar com a Guarda. Afinal, finalmente tinham encontrado o Medalhão das Sete Luas e deveriam destruir o relógio imediatamente. Entretanto, pareceu-lhe que as coisas haviam saído muito diferentes do que imaginara.

Os pensamentos de Garrett foram interrompidos quando Hector, imitando os movimentos de Louis, fez com que o ar a sua volta se concentrasse em um disco branco em sua mão. Não estava certo se a magia funcionaria, mas era o único meio de chegar a Clarence a tempo.

– Vamos? – estava falando com Howell, que até então só observara – Howell não é? Já ouvi muito sobre você...

O primeiro século olhou desconfiado para o círculo branco, mas visto que não tinha outra opção, decidiu entrar, e assim que desapareceu no portal, esse também começou a se fechar. Hector e Garrett entraram em seguida, e nem notaram que Rhea não estava mais onde caíra.

...

– Onde estamos? – foi a primeira coisa que Garrett disse ao perceber que saíra em um lugar completamente diferente de onde estava há poucos segundos.

– Nos arredores de Clarence – disse Hector, um pouco preocupado – Parece que a magia só deu meio certo...

Encontravam-se em um caminho de pedra dentro de uma floresta e provavelmente estavam mais próximos de uma cidade vizinha do que de Clarence realmente. Isso era um problema:

– Quanto tempo até chegarmos lá? – perguntou Howell impaciente, que recebeu uma resposta imediata de Hector, já se adiantando no caminho da esquerda:

– Se não ficarmos conversando, vamos levar em torno de uma hora.

“Uma hora?!” pensou Garret, uma hora com certeza era tempo demais.