Montre - A Sinfonia do Tempo
15 Barrilhete
Era um lugar muito diferente de qualquer coisa que Alistair já tinha visto. Era impossível dizer as horas, já que o céu parecia continuar sempre cinza, independentemente do tempo que se esforçava a passar. Parecia desligado e desconexo de qualquer realidade que ele conhecia ou viria a conhecer. E estava vazio. Seu único conforto era saber que o vento suave que corria pela interminável rua de paralelepípedos teria vindo de algum lugar. Ainda assim, esse mesmo vento, que servia de guia para a saída, parecia prenunciar que o eterno cinza que pairava por sobre sua cabeça poderia mudar a qualquer instante, o que era bastante inquietante.
Alistair tinha certeza de que não estava em Clarence, mas não sabia exatamente o que era aquele lugar. À sua frente, a rua se estendia ao horizonte e o mesmo acontecia na direção contrária. Resolvera-se a andar, e visto que não possuía muitas opções sobre qual caminho escolher, seguiu em frente — ou para onde achava que era “em frente”. Várias casas beiravam a rua, coladas uma após a outra, exatamente iguais, com seus tetos triangulares impedindo a passagem para qualquer outro lugar além do caminho interminável. Alistair imaginava que a magia do mago da Guarda pudesse ter dado errado e tê-lo enviado para um lugar diferente. “Honestamente...”.
Já havia há muito caminhado e nada naquele cenário desolador mudara. Já tentara bater nas portas das casas, mas ninguém respondia, e tampouco as portas e janelas abriam a força. Estava planejando parar para pensar melhor quando ouviu um ruído de passos vindo em sua direção. Viu uma figura subir a rua de pedra, e o reconheceu:
– Você! – reclamou, quando pôde ter certeza de quem se tratava. Mas seu interlocutor não pareceu tão surpreso em vê-lo:
– Ora, Lorde Alistair, quem diria que nos encontraríamos aqui – disse sarcasticamente Louis, o mago que conjurara o portal. Alistair o interrompeu, antes que começasse algum tipo de discurso:
– E onde exatamente é “aqui”? – perguntou de mau-humor — Pensei que tivesse recebido ordens para criar um portal para Clarence.
Louis sorriu com desdém, fazendo o possível para não parecer incomodado com a situação:
– Estamos em um lugar entre Saint-Claude e Clarence, dentro do portal – disse pausadamente, como se estivesse ensinando uma criança algo complicado que ela provavelmente não iria entender. Mas, ficou evidente para Alistair que o mago havia cometido algum erro quando tentara os enviar para o castelo, e agora fazia o máximo para não chamar a atenção para o deslize.
O Lorde olhou a sua volta novamente, agora com outros olhos, uma vez que sabia não estar no mundo que conhecia. Realmente, nada parecia ser mesmo muito real: a arquitetura das casas era um pouco incomum, o chão era de uma textura extremamente lisa, imprópria de uma rua verdadeira, e até o céu tinha aquela estranha fragilidade que o fazia parecer estar prestes a desabar em chuva, embora continuasse num cinza imutável. E depois, pela primeira vez, olhou para si mesmo. Não estava mais com as roupas que estivera usando em Saint-Claude, mas com uma indumentária quase toda negra, que lembrava vagamente o corte dos uniformes da Rosa Escarlate. Então percebeu também que Louis, que se vestia de branco na última vez que Alistair o vira, ganhara agora uma longa sobrecasaca marrom e calças escuras – que, por ironia, eram peças bem melhores que as que ele tinha escolhido por vontade própria.
– Para sairmos temos de encontrar o outro portal – disse então o mago, aproveitando o silêncio do Lorde – Esse lugar é como um corredor entre uma realidade e outra: quando encontrarmos a porta correta, sairemos em Clarence.
O plural incomodou Alistair:
– Está supondo que vou cooperar com você? – perguntou, desconfiado. Era muito claro que Louis não estava confortável com tudo aquilo, e que não insistiria em colocar Alistair a par de tudo se não houvesse um motivo para isso:
– Ora, vamos, Lorde Alistair. Precisa sair daqui tanto quanto eu, e se não o fizermos dentro de uma hora, o portal se fechará e ficaremos presos nesse plano para sempre. Não parece ser algo muito agradável, não é?
Alistair abriu a boca para recusar novamente, mas Louis não tinha terminado:
– Eu sei o primeiro passo para sair daqui, mas depois disso você terá de cooperar... – disse; e ignorando os protestos do outro, aproximou-se de uma das casas, tirou uma chave do bolso e abriu a porta da frente da curiosa construção.
Pela abertura era possível distinguir uma grande floresta congelada, em vez do interior da residência. O chão branco se estendia a perder-se de vista, e as árvores marmóreas se espalhavam por todo lugar. Só o céu continuava no mesmo cinza, o que dava a sensação de que aquilo ainda fazia parte do plano do portal.
– Opções deixam de existir a partir do momento em que você acredita que elas não estão lá – disse Louis, se sentindo importante, assim que a porta de se abriu – Foi o que aprendi. Esse lugar é como um sonho, assim que você passa a ter consciência dele as coisas ficam mais fáceis de serem controladas. Olhe em seus bolsos, deve ter uma chave igual a que usei aí em algum lugar...
Alistair mecanicamente tateou os bolsos e percebeu que havia mesmo uma chave ali. Vendo-o confirmar sua teoria, Louis continuou:
– Mas há um detalhe, um problema que acontece quando muitas pessoas sonham o mesmo sonho: as coisas se misturam...Vê essas casas? São exatamente iguais a uma antiga loja de doces da minha cidade natal. Uma vez, quando criança, um funcionário pediu que eu segurasse a chave e esperasse o dono voltar para entrega-la, pois tinha algo importante a fazer. Lembro-me de tê-la posto no bolso. Compreende? Essa é minha parte do sonho, mas não terei o mesmo controle na sua, ou na das outras pessoas que entraram aqui...
Não que Alistair estivesse duvidando muito da veracidade da história, mas não tinha nenhum interesse em ajudar Louis, mesmo na situação em que estava. Estava pronto para recomeçar a recusar a proposta quando alguma coisa através da porta chamou sua atenção: viu alguém passar correndo por entre as árvores, olhando para trás, como se fugisse de alguma coisa, e o que aconteceu depois fez com que Louis também se virasse para assistir a cena:
– Ora, mas o que é isso? – disse o mago automaticamente ao perceber que logo atrás do fugitivo voavam uma enorme quantidade de folhas brancas, cortando o ar como flechas. Não faltava muito para que alcançassem a pessoa que corria.
Alistair não tinha certeza de quem se tratava, primeiramente porque nunca enxergara muito bem e isso, acrescentado ao fato das cores das roupas terem mudado na passagem para dentro do portal, tornava ainda mais difícil à tarefa de reconhecimento em que estava empenhado. Felizmente, só ficou com esse tipo de dúvida por alguns segundos, pois logo pôde ouvir ao longe uma voz conhecida gritar: “Qual o problema com essas árvores?!” e não pôde duvidar de que se tratava de Hazel Crawford.
Louis só teve tempo de ver Alistair entrar porta adentro para ajudar o amigo, e visto que não tivesse muitas opções, pôs-se a correr atrás deles também — embora, se houvesse algum observador ali, ele poderia ter percebido que a expressão do mago era de visível descontentamento.
...
Lilet estava em uma espécie de labirinto formado por inúmeras lojas que surgiam a sua frente com letreiros coloridos pintados à mão. Não sabia do que se tratava, mas quando pensou ter visto uma sombra passar pelas construções, decidiu segui-la. Estava tendo problemas para desvencilhar-se das lojas, que fechavam o caminho a todo o momento, e já havia muito perdido a sombra de vista, quando, depois de andar por um bom tempo, acabou terminando em um largo pátio com alguns espelhos compridos colocados em cada um de seus cantos. Pela única porta a sua frente via um caminho que se abria em meio a uma floresta branca.
Não teria reparado que os espelhos não refletiam o pátio se não tivesse escutado um barulho e se virado a tempo de ver Lady Catherine sair de um deles. Não se parecia com sua professora de piano em nada: os cabelos negros estavam desalinhados e suas roupas estavam diferentes, mas era sua expressão que realmente a tornara irreconhecível. A mulher a olhou com seus imensos olhos verdes cheios de reprovação, e ficou avaliando-a por alguns instantes. Quando Catherine se mexeu para dizer alguma coisa, Lilet percebeu que o canto de sua testa parecia trincado, como uma boneca quebrada:
– Onde estamos? – perguntou Catherine, fitando Lilet com firmeza, a espera de uma resposta imediata.
– Como espera que eu saiba? – respondeu a jovem, mais secamente do que tinha planejado.
Lady Catherine suspirou. Parecia ter estado aguardando por aquele momento por muito tempo, porque logo que começou a falar, simplesmente não pôde mais parar:
– Sabe, Srta. Clermont, fico surpresa que tenha se voltado contra mim com tanta facilidade! Será que se esqueceu de que fui eu quem a acolhi? Fui eu quem a ensinei tudo que sabe! Você não vê? Estou tentando ajudar esse mundo, e tudo que recebo em troca é traição! – por um minuto pareceu que ia chorar, então subitamente se virou, como que indo embora, até parar a alguns passos da porta – Ah, mas eu esperava mais de você Lilet! Não aprendeu nada com esse tempo que passou comigo? Sou tão má professora que não guardou absolutamente nada do que ensinei?
Lilet só conseguia olhar para Lady Catherine, e isso pareceu irritá-la ainda mais:
– A carta, Lilet, a carta! – gritou ela com aquela voz estridente que Lilet só ouvira pela primeira vez em Saint-Claude – Porque acha que mandei você entregá-la aquele imprestável do Alistair? Você era a única pessoa que poderia decifrar a partitura, mas é estupida demais até para isso! Se tivesse lido a carta para Alistair do jeito que estava escrita não estaríamos aqui agora. E eu tentei de tudo, realmente tentei!
Um silêncio que parecera extremamente longo se fez até que Lilet finalmente perguntasse:
– Porque quer ressuscitar o Duque, Lady Catherine? Pensei que fizesse parte da Ordem... – questionou, embora não esperasse realmente que ela fosse responder. Por um instante a mulher pareceu que não ia mesmo se dar ao trabalho de explicar, mas resolveu-se a dizer:
– Não tenho o menor interesse em Chamberlain, mas acredito em Oliver... – falou com solenidade — Oliver quer o Duque vivo para que possa mostrar para mundo que pode ser mais forte do que ele. Nunca suportou estar atrás de Lorin ou ao lado de Howell, e eu o entendo! Ele pretende derrotar Chamberlain as vistas do mundo e provar para todos que qualquer um pode estar no topo se tiver vontade. Não é uma ideia maravilhosa? É uma chama de esperança em tempos apáticos como os nossos! E Alistair podia vir a ser um problema gigantesco ou uma grande ajuda. Tudo dependia de você prestar um pouco mais de atenção no que lhe disse!
Catherine resmungou mais alguma coisa, mas a jovem não pôde ouvi-la, pois a mulher já entrava na porta do centro e desaparecia em meio às árvores. Lilet não iria tentar segui-la, mas não podia deixar de sentir um pouco de pena da mulher. Lady Catherine sempre fora uma pessoa agradável e apoiara a carreira musical de Lilet com bastante empenho. Não sabia dizer se sua professora havia se importado de verdade ou se estivera apenas esperando o momento para colocar o que quer que estivesse planejando em prática, mas podia perceber que Catherine carregara amargura consigo por muitos anos, e por isso Lilet se compadecia.
A pianista ainda ficou certo tempo parada no pátio, pensando sobre o que acabara de ouvir: Catherine basicamente estava preocupada com Oliver, e não se importava com o que quer que acontecesse com o resto mundo, embora tentasse justificar-se como um exemplo. E tinha algo na carta. Será que havia alguma mensagem para que Alistair se juntasse a eles?
Estava divagando nesse tipo de coisa quando achou que devesse ser melhor escolher um dos espelhos para evitar o caminho que a mulher tomara, e procurar por seus amigos de uma vez. Como ela tivesse vindo do espelho da direita, que agora mostrava um infinito salão vermelho, Lilet pensou em entrar no espelho oposto. Mas quando se virou para observar o que havia no lado contrário, para sua surpresa, percebeu que aquele espelho mostrava claramente o portão do castelo de Alistair.
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