Notas iniciais
Era pra ser um prólogo, ne? Partes em itálico = flashbacks

~ PROLOGUE ~

Inglaterra, 1842.

Madrugada no condado de Dorset. A chuva finalmente tinha dado uma trégua. Poucos postes se acendiam e se apagavam por estarem com defeito. A neblina já estava espessa, dando a impressão de que poderia ser cortada com uma faca.

Quem sabe não poderia mesmo, já que, naquela madrugada, tudo parecia possível?

A lua cheia se pendurava no céu negro como um retrato; era o clima propício para se filmar um suspense macabro. E os atores em breve estariam no palco.

Sob as luzes oscilantes da rua ainda molhada, alguém corria desesperadamente. O ar gélido doía em suas narinas a cada inspiração, congelando também os rastros das lágrimas que derrubara há pouco. Não tivera tempo de apanhar um casaco, estando totalmente à mercê do frio, mas não se importava. Apenas corria como se sua vida dependesse daquilo — e estava começando a acreditar que dependia.

O coração batia no mesmo ritmo dos saltos a cada vez que tocavam o chão naquela corrida interminável. Queria apenas acordar daquele pesadelo, porque só podia ser aquilo. Um terrível pesadelo, e nada mais.

Tinha que ser...!

Chegou ao local indicado no telefonema que, durante todo o caminho, rezara para que fosse apenas um trote de algum idiota desocupado. Porém, a sirene do carro da polícia o fez mudar de ideia. Aproximou-se do aglomerado de homens de farda e curiosos de plantão. Olhou para um dos policiais, aflito. Um aceno de cabeça foi a confirmação de que ele podia se aproximar.

A multidão abriu caminho para que o lolita passasse. Um grito de horror escapou de seus lábios finos antes que pudesse tapar a boca com as mãos cobertas pelas luvas de renda. Dos olhos, voltou a correr a parede de lágrimas.

Estirado no chão, estava o único homem que mais amara na vida. As roupas negras molhadas pela chuva, sujas também de sangue e terra. No peito, próximos à rosa na lapela, cinco buracos abertos à bala.

"- Se você quer que eu use este terno, é ele que vou usar." — as palavras pareciam sair de trás de cada pedra, cada poste.

Ele jamais entraria na Igreja vestido de noivo.

Não conseguiu encarar o corpo por muito tempo. Virou para o lado, vomitando o café da manhã, o almoço, o jantar e o que ainda nem tinha comido. Caído de joelhos, limpando o canto da boca com um lenço que lhe fora oferecido por um policial, chorava toda a sua dor enquanto via imagens do último momento que tiveram juntos.

Estava diante do espelho da penteadeira quando seus olhos foram tapados pelas mãos de alguém.

- É você, Yu~ki?

- Como adivinhou?

- Porque você é o único que não me deixa pentear os cabelos em paz! — virou-se para bater no maior com a escova de cabelos, deixando-a ir ao chão quando deparou-se com um enorme buquê de rosas azuis. — Yu~ki! Que coisa mais linda!

- Não tanto quanto você. — deixou o buquê na penteadeira, voltando sua atenção a acariciar o rosto pálido do menor, que fechou os olhos ao toque. — Minha rosa azul...

Há uma semana, eles eram o casal mais feliz do mundo. O aristocrata e seu frágil lolita que, dentro de cinco dias, estariam trocando alianças na Catedral de Dorset, fazendo a promessa de ficarem juntos até que a morte os separasse. Entretanto, o destino quis que Yu~ki desaparecesse naquela mesma noite em que lhe trouxera o buquê, sem deixar qualquer rastro. Ele jamais abandonaria Mana, não daquela forma, sem um motivo aparente...

Foram cinco dias movendo céus e terra para encontrar o noivo desaparecido. Cinco dias de embates com a polícia, entre um vai e vem de carros e gente prestando depoimentos na delegacia. Cinco dias de angústia até que, na data da cerimônia, veio a ligação que destruiu todos os seus sonhos. Ligação esta onde alguém lhe dizia ter encontrado o corpo de Yu~ki próximo às docas.

"- Eu te amo, Mana."

A voz do ex-noivo ressoando em seus ouvidos fê-lo reunir forças que nem sabia que tinha para levantar-se. Cerrando os punhos, abriu os olhos, com seus orbes azuis e frios agora encarando o nada. Ignorando o amparo dos policiais, pôs-se a caminhar de volta pela mesma rua enevoada por onde tinha vindo.

- Eu também te amo, Yu~ki. E juro que vou encontrar quem fez isso com você. E quando isso acontecer...

Ergueu a mão direita para o céu, encarando com fúria a pedra azulada do anel de noivado.

- ... irei matá-lo!

Notas finais
E então? Mereço reviews? õ/