Inglaterra, 1850.

8 da manhã.

O quintal estava abarrotado de folhas tingidas em belíssimos tons de vermelho e marrom-dourado. Embora essa cena devesse ser comum no outono inglês, a fria rua Gold Hill era uma exceção à essa regra, em suas casas de cores mortas e gente tão morta quanto. O quintal da residência 39 era o único lugar onde ainda existia a alegria do outono.
De dentro da casa, o dono observava o chão dominado pelas folhas através da janela, lamentando-se por não ter tempo de varrê-las enquanto ajeitava os últimos detalhes de sua roupa. Havia escolhido um vestido negro simples e discreto, e um par de meias negras longas que não o deixasse muito "doce". As sandálias de salto plataforma obviamente deixavam-no mais alto, mas ele continuaria sendo o menor perto de outros homens — pelo menos era isso que Yu~ki vivia lhe dizendo, deixando-o irritado. Embora gostasse de exagerar um pouco na maquiagem, daquela vez diminuiu os traços azulados que lhe coloriam os olhos e os lábios, pois queria deixar uma impressão agradável à pessoa que conheceria em algumas horas. Virou-se para o espelho, conferindo se havia ficado do jeito que queria. De pé ao lado de seu reflexo, via a imagem de Yu~ki lhe presenteando com um sorriso.
- Você está lindo, Mana.
- Sim, meu amor. Eu estou. — respondeu orgulhoso, sorrindo de volta.
Um carro buzinou na entrada da casa. A imagem no espelho desapareceu. Mana saiu do quarto, descendo as escadas com certa pressa; não queria chegar tarde a seu novo emprego.
Há um bom tempo perdera o medo de sair às ruas daquela forma. Em Gold Hill, pelo menos, as outras personalidades eram tão excêntricas como ele, de modo a não se importarem com a visão de um homem andando pela calçada em trajes femininos, muito menos entrando no carro de outro homem.
- Bom dia, Mana-chan! — cumprimentou a pessoa que viera buscá-lo.
- Bonjour, Gackt — respondeu ele, jogando-se no banco do passageiro.
- Nervoso?
O lolita deu de ombros.
- Talvez um pouco.
- Você vai se sair bem, pequeno. Acredite em mim.
Gackt era um imigrante francês, assim como Mana. 30 e poucos anos, cabelos castanhos sempre penteados para trás, olhos de um azul travesso e um belo sorriso. Entendido de arte, adepto a uma boa bebida nos fins de semana, extrovertido e muito, mas muito mulherengo. Trabalhava em uma galeria na capital e, por ter de se comunicar com pessoas, todos os dias, o assunto nunca lhe faltava. Mana gostava de dizer que ele falava demais, entretanto, talvez tenha sido por esse pequeno defeito que agora estava sendo levado a um emprego decente.


A ansiedade era tanta que os 20 minutos que a viagem levara pareceram ser uma eternidade. O carro parou diante de um portão de ferro aparentando muitos anos de existência. Atrás dele, erguia-se um grande edifício vitoriano de pedras amareladas que ocupava todo um quarteirão. Na entrada, estava hasteada a bandeira inglesa e, na porta de madeira escura da entrada do prédio, havia um guarda de uniforme negro e boina, armado com um cacetete.
- Bom dia, Közi! — disse Gackt, sorridente, ao aproximar-se
- Bom dia, Sr. Gackt. E bom dia a você também, jovem. — ofereceu uma reverência para Mana, que ficou envergonhado diante do brilho amarelo dos olhos do homem.
- B-bonjour...
Gackt entrou, seguido por Mana que, nervoso, tropeçava nos próprios passos. A tensão do lolita só fez aumentar quando, ao olhar em volta, deparou-se com a grandiosidade do interior do prédio. Pena que não pôde prestar atenção em tudo, preocupado em estar atrás de Gackt para não acabar se perdendo dentro da galeria.

Enquanto o maior ia na frente, Mana pensava em um milhão de coisas à medida que subia as escadas. Estava ansioso em querer causar boa impressão e muito curioso quanto ao contratante. Como ele seria? Imaginava um velho caquético, gordo, austero e tipicamente insulso. Espantou-se ao ver Gackt apertar as mãos de alguém aparentando não mais do que 25 anos. Cabelos longos, castanhos e lisos presos em um rabo de cavalo comum. Um corpo bem definido enfiado num terno aristocrático de cor bege, olhos penetrantes e um sorriso mais do que encantador. Não era possível que aquele fosse o diretor da galeria.
- Hn... c'est un plaisir¹, m-monsieur...
- Kami — respondeu o rapaz, estendendo-lhe a mão direita. — Apenas Kami.
- Kami... — repetiu. Não se esqueceria daquele nome.
- E você, quem é?
- M-Mana, enchanté!² — educado, prontamente apertou-lhe a mão.
- Ótimo, ótimo. Segundo Gackt, você é um rapaz muito inteligente e comunicativo. — o homem pôs-se a caminhar pela sala e depois sentou-se em sua poltrona vinho, entrelaçando os dedos sobre a mesa enquanto fitava o mais jovem. — Ele me deu ótimas referências, espero não me arrepender de estar confiando nele, hm?
- Não se arrependerá, senhor Kami!
- Muito bom. Ele lhe apresentará as seções da galeria, e também a sala onde trabalharão. Você começa a trabalhar na segunda feira.
- Oui, monsieur!
- Venha, Mana-chan — chamou-o Gackt, já retirando as chaves do bolso.
Kami ficou observando o lolita sair da sala. Era um bonito rapazinho em trajes femininos. Seria também tão bonito por baixo daquele monte de roupa? Levou a mão ao queixo, pensativo, pronunciando em voz baixa suas primeiras impressões sobre o menor.
- Doce. Delicado. Um tanto quanto... atrapalhado, eu diria. E ingênuo, ah é... — sorriu. — Sinto que me divertirei com esse garoto.

Mana estava encantado com tantas obras de arte. Vasos, estatuetas e grandes esculturas para todos os gostos. A cada vez que parava diante de um quadro, imaginava em que os pintores estavam pensando quando se propuseram a fazê-lo. Todavia, um em especial lhe chamou a atenção. A pintura de belíssimas rosas azuis espalhadas sobre uma mesa. Gackt voltou-se para ele. Sentiu um aperto no coração ao ver o brilho triste que dominava os olhos do pequeno admirando o quadro.
- Mana-chan?
- Hn...?
- Está pensando nele, não está...?
- Não, não! De modo algum! — o lolita sorriu. — Onde fica sua sala, Gackt?
O mais velho sabia do assassinato de Yu~ki. Mesmo em oito anos, nada tinha sido capaz de diminuir o sofrimento de Mana pela perda de seu noivo.
- Se você diz... bom, venha por aqui. — Adentrou um corredor amplo onde havia uma grande porta com as palavras "Secretário Geral" talhadas em dourado. — É aqui — disse, abrindo a porta. Era enorme.
- Wow, Gackt! Você trabalha mesmo aqui? — perguntava Mana, maravilhado, deslizando os dedos pelo couro verde da poltrona e admirando a vista da janela, que dava para o gramado florido e bem cuidado em frente.
- Oui, Mana-chan. Porém, a partir de agora você deverá me chamar de Sr. Gackt aqui dentro. E aquela será sua mesa — o maior apontou para uma mesa de madeira envernizada abaixo de um quadro. — Acho que já tem tudo o que você vai precisar para trabalhar como meu assistente. Fique à vontade, sim?
- Pois não, monsieur Gackt!
O lolita não precisou pensar duas vezes antes de se dirigir à mesa que parecia tão imponente para ele. Mal podia acreditar que seria assistente de Gackt, o grandioso secretário da galeria de arte de Dorchester! Abria as gavetas, maravilhado com a quantidade de material que lhe era disponível até que seus olhos visualizaram algo um tanto quanto deagradável. Deu um grito, Gackt correu em seu socorro.
- O que houve, Mana-chan? O que você viu?!
Mana desmaiou nos braços do secretário, que não sabia o que fazer, abanando-o e chamando seu nome, esperando que ele acordasse. Logo, o diretor aparecia na porta do cômodo.
- O que está acontecend- — os olhos pararam sobre o lolita desacordado. — Céus, Gackt, o que fez com ele?
- Muito engraçado, chefe! — resmungou Gackt. — Ele abriu a gaveta, deu um grito e aí desmaiou!
O diretor aproximou-se da mesa, lançando um olhar minuncioso para o interior da gaveta aberta. Abaixo de alguns papéis, brilhava parte de um revólver. Kami o tomou nas mãos. Gackt suspirou, pesaroso.
- É verdade, é verdade...! Oh Mana-chan, me perdoe...!
Kami arqueou uma sobrancelha.
- Do que está falando, Gackt?
- Mana-chan tem medo de armas de fogo, monsieur.
O olhar do diretor oscilou do revólver para o corpo do lolita.
- Mas hein...?

Notas finais
N.A.: 1- "É um prazer" em francês. :3 2- "Encantado". Achei que seria útil colocar, mesmo parecendo meio claro quanto aos significados. Creio que daqui pra frente a fic terá muitos termos em francês, então estarei sempre colocando alguma notinha por aqui, hn? :3 Reviews? o/