Mistérios do ensino médio
6 Pateta
Notas iniciais
Depois daquele sonho estranho eu passei uns dias com uma dor fantasma nas costas, era como se eu realmente tivesse caído de uns três metros de altura. Também evitei falar com a Julia e o Dan por quase uma semana, mas aí percebi que era bobagem evitá-los por coisa que nem aconteceu.
A páscoa estava chegando e minha mãe já planejava comprar aqueles peixes estranhos para fazer na sexta feira santa, eu achava bobagem e acabava comendo qualquer outra coisa que não tivesse uma medula espinhal como recheio. O importante era ter chocolate e feriados para não ter que ir na aula.
Mas para ser sincera, eu não estava achando uma tortura a escola, acabei me apegando a ideia de ir para ficar olhando o Dan durante a aula, meio maníaco alimentar esse comportamento, eu sei.
Eu tinha conseguido fácil convencer meu irmão a fazer taekwondo com o pessoal da sala, não queria mostrar que estava preocupada com as surras que ele levava na escola então só chamei de uma forma desinteressada e ele aceitou de boa.
— Que bonito, vocês dois estão se dando bem! — Papai me disse esses dias.
— É só um pretexto para espancar ele, papi. — brinquei.
A ideia de ter aulas com o menino que eu gosto era legal, então fiz de tudo para parecer uma pessoa atlética antes do dia da primeira aula.
— ABAIXA ESSA TV! — Minha mãe não gostou.
— VOCÊ SÓ SABE VER ESSE CANAL DE GINASTICA? — Caio já estava de saco cheio também.
O único que não reclamava era meu pai, estava preocupado demais pensando no caso do seu amigo que foi assassinado, o tal juiz Sato. Pelo que ele disse as investigações não concluíam quem foi o responsável, eu só pensava em como estaria a filha dele.
Enfim, sem mais delongas... O primeiro dia da aula de luta chegou, e minha ansiedade também, era um final de semana anterior ao da páscoa e por coincidência, aniversário de casamento dos meus pais.
— Vamos nos atrasar, vem logo Caio! — eu disse brava com o meu irmão que sempre se atrasa.
— Calma aí, ainda vou tomar banho. — era para a gente se encontrar daqui meia hora na casa da Julia e esse animal fala que ainda vai tomar banho, fiquei furiosa.
— NEM PENSE EM TIRAR A ROUPA, SE NÃO TOMOU BANHO AINDA, NÃO VAI MAIS TOMAR!!! — berrei alto e puxei ele pela camisa.
— Ai, que estresse, tá bom — vendo que não tinha jeito ele me seguiu até a porta.
Nos despedimos dos nossos pais e saímos até o ponto de ônibus, em menos de cinco minutos passou o circular que ia para o centro da cidade onde mora Julia, chegamos em cima da hora.
— Oi Ca, oi irmão da Ca — nos cumprimentou com um beijo no rosto.
— O nome dele é Caio, Ju — apresentei os dois — e essa é a Julia.
— Vocês querem beber alguma coisa? — perguntou gentilmente.
— Eu quero uma cerveja — Caio respondeu.
— Não quer nada não, não me faça passar vergonha! — disse tentando não esganá-lo. — Cadê os outros? — perguntei.
— Daniel chegou mas voltou para a casa porque esqueceu de pegar alguma coisa, nunkacho... nunchaxo... algo assim. — Julia explicou confusa.
— E a Daniela e o Vitor?
— Ah, eles vão se atrasar. — disse com ar de desprezo.
— Como sabe? — perguntei.
— Passei o endereço errado para eles.
— Ai meu Deus. — exclamei em uma mistura de choque e contendo os risos.
— Que malvada — Caio disse.
Julia me puxou para longe do meu irmão e comentou baixinho:
— Sabe que se você já não soubesse meu endereço também iria se atrasar né?
— Você é do mal, haha — gargalhei.
A casa de Julia era enorme, logo na entrada tinha um quintal com paisagismo bem fino, nas paredes azulejos brancos com adesivos de flores, e no chão, vasos de flores decorados de uma forma delicada, seguindo tinha uma porta de ferro grande que dava para a garagem, devia caber uns três carros lá mas só um estava estacionado, atravessando a garagem estava o pátio em que teríamos aula e passando pelo pátio finalmente entrava na cozinha e nos cômodos sociais do primeiro andar, a casa tinha três andares.
— Chegamos! — Era Daniela e Victor no portão da casa, vimos e ouvimos por uma telinha que tinha no pátio os dois se anunciando, era conectado a uma câmera do lado de fora da casa.
— Droga, como me encontraram? — Julia bufou de raiva e foi atender.
Eu e Caio estávamos sentados em puffs que tinha no pátio, quando a anfitriã saiu, meu irmão comentou:
— Essa sua amiga é gatinha, eu pegaria!
— Cala a boca, babaca. — respondi ignorando seu comentário.
— Nossa, a gente se perdeu duas vezes, mas encontramos Dan pelo caminho e ele explicou o caminho certo. — Victor disse se alongando. — A propósito, cadê ele?
— Ele ainda não voltou, foi buscar umas coisas na casa dele. — Julia falou tentando esconder sua frustração.
— Cara, que baita carrão ele tem né? Tem até motorista particular. — Daniela comentou.
— O quê? Mas ele disse que veio de ônibus para cá. — a dona da casa pareceu confusa.
— Nós vimos ele em um carro, e parecia muito confortável aquele carro. — Vitor completou.
— Aquele carro? — Caio apontou com o dedo para a telinha, tinha um carro grande, preto e luxuoso do lado de fora da casa.
— Esse mesmo. — responderam em coro.
Julia foi para fora recebê-lo, da câmera vimos o motorista, estava com um uniforme todo social e elegante, ele tinha mesmo um motorista.

Dan saiu do carro com uma mala de equipamentos nas costas e o carro deu partida deixando-o, Julia abriu o portão e o abraçou, senti uma dor de cotovelo na hora, mas ignorei. Logo entraram e se juntaram a nós.
Então, após alguns alongamentos e corrida no pátio, nosso professor começou a explicar:
— Eu acho que o mais importante é começar a parte de auto-defesa, se somos bons guerreiros, não podemos deixar que nos ataquem! — disse encorajando todos.
Caio estava prestando atenção e repetindo os movimentos de defesa direitinho, mas ainda era um treino sozinho, não tinha testado em ninguém.
— Eu vou atacar cada um de vocês uma vez e vão ter que se defender — Dan sugeriu que formássemos uma fila e começou.
Primeiro atacou a Julia, ela era um pouco mais alta que ele e seu corpo ágil por ter sido bailarina quando criança. Defendeu com facilidade.
Depois atacou Vitor, mais alto que todos nós e jogador de basquete desde, sei lá, desde que conheço ele, ele joga. Defendeu e sua defesa foi quase um contra-ataque.
— Muito bem, estão indo bem — elogiou nosso professor.
A próxima foi Daniela, ela é menor que eu, pequena e delicada, com seus cabelos e olhos azuis, não tinha ar de que era fã de luta, achei que só estava ali pelo Dan.
— Wow, quem diria! Foi a melhor até agora. — Ele a cumprimentou como se estivesse em um tatame, realmente, mal consegui ver seus movimentos, defendeu mais rápido do que os outros.
Eu era a próxima, estava nervosa e com medo de passar vergonha.
"Vou fazer o melhor possível" — pensei.
Ele ficou na minha frente, a meio metro de distância, se posicionou para o ataque e me atacou na mesma velocidade que atacou todos os outros, quando pensei em me esquivar já estava no chão.
A dor fantasma das costas não era mais fantasma.
Consegui ver a rodinha de pessoas preocupadas que se formou ao meu redor, levantei a cabeça sentando no chão com uma expressão serena externamente:
— Calma pessoal, eu estou bem! — falei para acalmá-los.
"Puta que pariu, que dor do cacete" — pensei.
Caio foi o único que riu, eu não tinha caído por ter sido acertada por ele, porque com a força que me atacou nem era possível cair, talvez só bambear para trás. Eu caí porque me desequilibrei tentando defender e foi patético.
Pedi pausa, peguei uma garrafinha de água no frigobar que tinha no canto do pátio e sentei no puff.
Meu irmão foi atacado e defendeu bem. É, eu era a única pateta dali.
Depois daquilo eu decidi ficar de canto e só observar a aula deles. Treinaram diferentes tipos de chute, socos e o que chamam de "movimento de faixa", até escurecer e todos se mostrarem cansados. Dan tirou uma espécie de corrente com duas pontas de madeira cilíndricas e nos mostrou:
— Isso é um nunchako, no kung fu eu costumo lutar com ele. Vocês querem ver?
Todos concordamos e ele começou a se apresentar, era evidente que gostava de toda aquela atenção, aquele metido. Depois de se mostrar, guardou os equipamentos na mala e pegou uma toalha na mesa para secar o rosto, ele tinha se cansado mais do os outros, afinal, se esforçou mais.
— Eaí, o que acham de passar a noite aqui? — Julia sugeriu mas voltando seu pedido para Dan.
— Eu topo! — Caio respondeu logo.
— Topamos! — Victor e Daniela disseram em coro.
— Eu não posso, desculpa Ju. — Dan parecia triste e preocupado.
— Por que não? — Perguntou nos dando as costas e se aproximando mais dele.
— É complicado, não posso ficar longe de casa. — tentou explicar e sua voz ficou um pouco mais aguda.
— Pode ligar para os seus pais do telefone aqui de casa, ou se quiser eu posso... — ela insistia inutilmente.
— Dessa vez não vai dar, me desculpe mesmo! — ele gesticulou um pedido de desculpas abaixando a cabeça e juntando as mãos.
Julia fez uma cara muito infeliz, mais triste ainda foi sua expressão quando Dan foi embora e ficamos ali.
— A gente podia fazer um amigo chocolate essa páscoa — Vitor sugeriu.
— É, parece uma ótima ideia — Daniela também apoiou.
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