Miss Missing You, Kise.
3 Capítulo 3
Kagami encarava Kuroko com certo espanto. Não era de se esperar, porém, outra reação que não fosse aquela quanto a tudo que Kuroko lhe dissera. Seu cérebro ainda tentava organizar as informações, principalmente sob o olhar crítico do menor, que parecia aguardar algum tipo de resposta.
— Isso é um tanto surpreendente. — cuspiu o ruivo, apoiando os cotovelos sobre as coxas. — Ao menos, para quem é o protagonista de todo esse drama.
— Desde o acidente... Ele não fala mais comigo sobre o assunto. É como se quisesse que isso morresse com ele.
— Ahomine. — resmungou, olhando para seus próprios sapatos. — Acho que temos que ajudá-lo. Quem sabe se falarmos com Kise ou algo do gênero. — Kuroko negou com a cabeça.
— Acho que ele tem tomar a iniciativa disso, Kagami-kun. O futuro deles depende da coragem de Aomine-kun. — as orbes azuis se fixaram no ruivo. — Não acha? — antes que Kagami respondesse, o celular de Kuroko começou a tocar sobre a mesinha de centro e o de cabelos azulados pegou o aparelho, franzindo a testa. — Kise-kun? — os minutos se passaram enquanto o menor ouvia a conversa com devida atenção. Ao fim, abriu um pequenino sorriso. Desligou o telefone e voltou a encarar Kagami. — Bom, ao menos algumas coisas estão voltando para seu respectivo lugar. Kise-kun está conseguindo lembrar de algumas coisas.
— E te ligou para informar?
— Não. — o sorriso de Kuroko se estendeu um pouco mais. — Ele ligou para saber do Aomine-kun.
*
— Vamos ao mercado. — afirmou Sakura, quando faltava pouco para anoitecer. Ela o chutou de seu sofá e, sob uma chuva de xingamentos, ele se levantou, catou um casaco quente e se pôs a acompanhar a garota que já o esperava na porta. O centro da cidade ficava a uns vinte minutos a pé, então não se incomodaram em ir andando. Aomine ainda reclamava quando chegaram ao mercado, fazendo Sakura suspirar e lhe dar outro chute agressiva em sua perna para que ele parasse. — O que você quer comer?
— Qualquer coisa. — ela o fuzilou com o olhar e deu as costas para ele, entrando nos curtos corredores e separando algumas coisas que precisaria para preparar o jantar. Além disso, separou uma outra cesta para uma coisa que ao menos faria o rapaz parar de reclamar por um tempo. Levou as coisas ao caixa para pagar, saindo dois minutos depois e encontrando Aomine parado em frente a loja. Ele segurava um celular cuja tela estava desligada e aquilo fez a mulher franzir a testa. Deixou de lado a questão, naquele momento e o arrastou para a casa, obrigando-o a levar algumas das sacolas. — Você é insuportável, Sakura.
— É recíproco. — replicou com um sorriso tão fofo que o rapaz a olhou desconfiada. — E só pelo elogio, não vou deixar ficar com o que tenho aqui. — mostrou a única sacola que carregava com certa força, atiçando a curiosidade do moreno. Ele a importunou durante todo o caminho, tentando até mesmo roubar a sacola dela, mas Sakura conseguia se resolver o suficiente, o que o estava deixando um pouco estressado (mais que o usual). Até que, por fim, chegaram em casa e finalmente a garota resolveu revelar o que tinha comprado. Uma a uma, colocou as latas de cerveja e chuhai¹ sobre a mesa de centro e, com habilidade, abriu duas latas, estendendo uma ao rapaz.
— Agora você não é mais tão insuportável assim. — respondeu Aomine, depois de brindarem.
— Pra mim, não mudou nada. Mas a vantagem é que você continua sendo bonito. — com uma piscadela e uma gargalhada alta, ela foi para a cozinha preparar o jantar. O moreno acompanhou-a com as latinhas e foram se embebedando cada vez mais no decorrer do tempo.
Era mais simples assim. As coisas se tornavam mais engraçadas e leves e Aomine não sentia tanto peso no peito. Sakura também ajudava, conforme fazia besteiras ou contava piadas, assim como suas histórias de bebedeiras com amigas. Ao fim da noite, após o jantar, eles estavam jogados na sala espaçosa. A dona da casa havia trocado as roupas por pijamas frescos (na verdade, havia sido uma guerra, já que ela queria ficar nua por estar em sua casa, independente da visita, mas com alguns gritos, Aomine conseguiu mantê-la vestida, mesmo que fosse com shorts curtos e blusas soltas demais) e Aomine havia vestido a calça de moletom confortável e uma regata branca. Quando foi se trocar, porém, deixou o celular cair no chão e isso chamou sua atenção. Então, ele estava deitado no sofá segurando o aparelho desligado, olhando para tela com certa frustração.
— O que você está fazendo? — resmungou Sakura, olhando as feições dele. Percebeu que ele parecia pensar a mesma coisa que na hora que o encontrara na frente do mercado. A passos trôpegos, levantou e foi até ele, se jogando em cima do pobre rapaz.
— Você está bêbada demais. — disse, de forma engrolada, arrancando uma risadinha da mulher.
— Será? — quando levantou e se afastou, carregava o celular dele e apertava o botão para que ligasse.
— Oe! — gritou ele, ficando rapidamente em pé. — O que está fazendo?
— Não sei muito bem. — replicou ela, olhando a tela do celular. Arregalou os olhos por um instante, antes de estreitá-los. Apertou alguns botões. — Alguém quer muito falar com você, Aho. — devolveu o aparelho para ele, que deu as costas para ela.
— Você é uma idiota e...
— Ele deve estar preocupado. — ele parou de falar e mirou seus olhos azuis escuros na garota de cabelos platinados. — O dono das ligações. Esse que eu acabei de apertar o botão de rediscagem. — Aomine arregalou os olhos e ameaçou investir contra a mulher, mas travou ao olhar a tela e ver que parecia que sua ligação tinha sido atendida.
— Maldita. — resmungou. — O que eu faço?
— Fale, oras! Ou eu farei isso. — Aomine levou o telefone ao ouvido e escutou a voz engrolada de sono de Kise.
— Quem é? — o moreno não conseguiu impedir a imagem do loiro sonolento, o que de um modo totalmente hétero, devia ser algo bem fofo.
— Kise. — sussurrou ele baixinho, antes de sair da sala e ir para a varanda da casa de Sakura. — Estou ligando para dizer que está tudo bem.
— Aomine-kun! — a voz pareceu mais desperta, o que fez o moreno sorrir. — 'Tá todo mundo te procurando! Onde você está? — ele olhou para a frente da casa de Sakura.
— Tirando uma folga, apenas. — sorriu. Era incrível a facilidade com que Ryouta podia arrancar um sorriso dele. — Em breve, eu volto.
— Estarei te esperando! Quero que conheça Misaki e... — começou a falar de tudo e Aomine somente escutava, se forçando a prestar atenção a todos os detalhes, mesmo que estivesse sonolento por causa do álcool. — Esqueci-me de contar!
— Você fala tanto que a única coisa que não esquece é o som da sua própria voz. — brincou o moreno.
— Cruel. — mesmo que não pudesse ver, sabia que o loiro fazia uma cara de choro que duraria três milissegundos. — Hoje tive uma lembrança com você.
Tinha sido sem querer, o moreno sabia. Mas mesmo tendo plena consciência disso, não foi capaz de impedir a taquicardia instantânea e a felicidade corrente em seu sangue. Não era capaz de fazer seus músculos pararem de relaxar num sorriso aberto.
— Aomine-kun? Ainda está ai?
— Lembrou o que, Kise?
— Um one on one no fundamental. Aquele onde a Momoi-chan tirou uma foto. — Aomine se recordava o suficiente. Tanto daquele quanto de todos os outros one on one. — Você parecia difer... Esquece.
— Diga, Kise. Não vou me ofender.
— É que você parecia... — ele perdurou a fala por segundos. — Feliz. Mas talvez fosse impressão.
Não era. Era óbvio que estava feliz, queria explicar ele. Estava com Kise e jogava basquete. Eram suas duas paixões juntas e ele não podia se encontrar em situação melhor. Estar feliz era apenas a consequência daquilo tudo.
— Está tarde, Kise, e você estava dormindo. Me desculpe por perturbar seu sono e também por te preocupar. — Aomine alisou os cabelos curtos. Não queria desligar. O silêncio permaneceu na linha. — Kise?
— É que... Ahn... Vai ter uma festa na produtora daqui a dois dias. Você não quer ir? Vou tentar levar a Misaki para que a conheça e... Ahn, você pode levar a companhia que está com você. — ele franziu a testa.
— Quem?
— Ouvi a voz de mulher durante a ligação. — Daiki realmente mataria Sakura depois de desligar.
— Ah, bem... Não é ninguém muito importante.
— Se está com você, deve ser não? Por favor, leve-a, será um prazer conhecê-la. — havia vergonha na voz do loiro e Aomine podia reconhecer.
— Vou ver se ela quer ir, mas estou avisando que vai se arrepender. — suspirou profundamente. — Vou desligar. Tchau, Kise e boa noite.
— Boa noite... Aomi... Aominecchi. — a ficha do moreno só caiu quando a chamada tinha sido encerrada. Lágrimas encheram seus olhos e escorriam por suas bochechas coradas até seu sorriso bobo. Era um idiota por ser emocionar, mas o apelido era a coisa que mais adorava em Kise. Era a voz dele que sempre sussurrava em admiração aquele —cchi que aprendeu tanto a amar. Assim como tinha aprendido a amar o loiro pouco a pouco.
Quando um frio gelado chamou sua atenção, ele retornou para o interior aconchegante da casa e encontrou Sakura sentada de uma forma que lhe parecia displicente. Seus cabelos presos num coque e seu óculos posicionado corretamente mostravam que ela não estava tão bêbada quanto ele pensara.
— Esteve chorando? — ele limpou o rosto com as costas da mão.
— Nada que a faça... — Sakura o cortou.
— Sabe que sou sua amiga, Dai-chan, e só quero seu bem. — ela piscou longamente os olhos violetas na direção dele. — Estou preocupada com sua situação. — Aomine fitou a garota e a determinação em suas orbes ametistas e, devagar, assentiu.
— Eu vou te contar tudo.
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