Notas iniciais
Olá, amados. É hoje. Hahahaha, boa leitura para vocês ♥

Dormitório da Sonserina, 31 de Outubro de 1996, quinta-feira, 7:00 p.m.

Era Halloween, e já havia se passado semanas após a notícia do ataque que foi feito em minha casa. Desde então consegui falar com meus pais direito por horas sem interrupções através da Sala Precisa, mas em nenhum momento consegui visitá-los. O Professor Dumbledore pediu para que eu não contasse com isso, então certamente o máximo que eu pude fazer foi agendar tudo para ir para casa no natal e estender até a celebração do ano novo.

As coisas com Beatrice tinham voltado ao normal, não que eu esperasse outra coisa, afinal, não foi a primeira briga que tivemos. Dessa vez foi só esperar que ela viesse conversar comigo, e minha felicidade pelo fato de meus pais estarem bem foi mais que suficiente que eu a recebesse com um abraço e poupasse-a das palavras.

Minha relação com Pansy também melhorou muito, e agora eu já estava completamente conformada de que ela e Beatrice não se desgrudariam, e eu não me acostumaria com isso a menos que a recebesse de fato para a nossa amizade. Ela se mostrou uma garota agradável, e já tivemos ótimas conversas juntas e trabalhos bem sucedidos quando nos reunimos. Também dividimos nossos passeios para Hogsmeade entre algumas bebidas e brincadeiras.

Sobre trabalhos bem sucedidos, eu resolvi finalmente ir a um dos jantares do professor Slughorn, e não foi de todo o mal, ele me convidou para a sua festa de natal, e quando eu pensei em recusar porque iria passar o natal em casa, ele me garantiu que a festa seria antes da véspera. Perdi a minha desculpa convincente, mas acho que posso lidar com uma comemoração a mais.

As coisas com Malfoy estavam atipicamente boas. Não era como se fossemos um dia virar melhores amigos, mas tínhamos uma relação muito engraçada de lidar com as provocações um do outro, que já tornou até rotina algumas tardes na beira do lago estudando Aritmancia e alguns cumprimentos com olhares mais amigáveis quando nos vemos no Grande Salão ou em algum outro lugar muito cheio de gente.

— Está pronta, Charlie? – Beatrice me perguntou enquanto penteava os cabelos.

— Quase. A capa está escondendo a roupa bem? ­– perguntei enquanto cobria meus jeans e minha blusa preta com a capa mais larga que eu tinha.

— Está sim, nem da pra ver. – opinou Pansy fazendo o mesmo – Charlie, você pode me emprestar um dos seus coturnos pretos?

— Claro. Pega ali no meu malão. – comentei enquanto guardava o meu batom escuro no bolso interno da capa.

— Vamos repassar, ok? – Beatrice falou quando já estava pronta – Vamos para o jantar de Halloween e ficar lá até os últimos minutos, porém hoje a chance de encontrar o Filch, ou pior, o Pirraça pelos corredores é bem maior, então precisamos sair em momentos diferentes. Quem vai primeiro?

— Eu vou. – Pansy se manifestou enquanto amarrava os cadarços.

— Ótimo. – Beatrice deu continuidade – Então Pansy se levanta e sai primeiro, vai pela passagem da pilastra depois da gárgula alta do corredor, quando viramos à esquerda. É muito difícil encontrar Filch lá nos últimos minutos do jantar.

— Tomara que a gata nojenta dele não esteja lá também. – Pansy lembrou – Tudo bem. Irei por lá.

— Depois sou eu. – Beatrice falou com um pouco de dúvida, mas eu assenti para que ela fosse a próxima – Eu vou pela passagem perto do banheiro feminino do segundo andar. Vou sair um pouco depois da Pansy.

— Mas esse não é o banheiro da fantasminha lá? – Pansy perguntou confusa.

— É a Murta, Pansy. – a corrigi – Se quer que ela guarde seus segredos, seja sua amiga.

— Vocês fizeram amizade com a Murta só para poder sair do castelo pelo banheiro dela? – ela questionou um pouco abismada.

— Não é nada demais. – Beatrice deu de ombros – E ela sempre conta pra gente algo que escutou e acha que devemos saber. Ter a confiança dela foi uma das coisas mais úteis que já conseguimos.

— E como sabem que ela não vai contar nada de vocês? – Pansy perguntou desconfiada.

— Se ela contar será para a pessoa que precisa saber, e somente o necessário. – Falei e ela pareceu se convencer.

— Continuando... – Beatrice recomeçou – Por ultimo, Charlie, você sabe muito bem por onde ir, certo? Passagem do sétimo andar, minutos depois que eu sair do Salão. Iremos parar em lugares diferentes, então nos encontramos todas no Cabeça de Javali, na mesa de sempre, longe do balcão.

Depois de repassado o plano para sairmos da escola, endireitamos nossas capas de tecido pesado sobre nossos ombros e fomos para o Grande Salão. Quando chegamos por lá todas as mesas já estavam ocupadas de ponta a ponta e todos comiam debaixo daquela decoração alaranjada e bem temática em todo o ambiente. Pansy se sentou com Blaise em uma distância considerável, Beatrice se sentou com Millicent Bulstrode, em uma distância onde conseguiria se comunicar com Pansy sem muitas palavras, e eu me sentei ao lado de Lerman, do lado oposto de Beatrice com poucos metros de distância. Enquanto esperávamos o horário combinado até fizemos uma refeição e trocamos algumas palavras. Lerman foi somente elogios e incentivos para que eu voltasse para o time logo antes que algum jogo contra a Grifinória fosse marcado. Eu apenas ria e comentava sobre os jogos superficialmente, quando vi Pansy se levantar e caminhar para fora do Salão de maneira confiante. Logo depois foi a vez de Beatrice, que saiu da mesma maneira. O tédio para ocupar os minutos que faltavam para eu sair me fez correr os olhos pela mesa e acidentalmente procurar os cabelos platinados que sempre se destacavam na ponta da mesa. Mas lá estavam apenas Zabini, Crabbe e Goyle.

— Lerman, eu já venho, preciso ir ao banheiro. – falei o interrompendo de um assunto que eu já nem prestava mais a atenção.

Levantei-me e caminhei rapidamente para fora do salão, em sentido as escadas que me levariam ao sétimo andar. Subi cada vez tomando mais cuidado com meus passos que faziam barulho por conta do solado da minha bota. Quando cheguei ao sétimo andar, andei mais devagar ainda, praguejando quase que silenciosamente quando ouvi um miado atrás de mim. “Merda” pensei quando me veio a voz da Pansy falando sobre a gata do Filch e apressei meu passo, na esperança de que eu já estivesse sumido dali quando ele aparecesse por lá. Já correndo descompensadamente, me lembrei que na direita daquele corredor em que eu estava, teria o necessário para eu me safar dessa: a Sala Precisa.

Corri um pouco mais na esperança de que ela aparecesse mais depressa e quando virei o corredor em passos largos e apressados avistei a figura loira que eu procurava no jantar saindo de dentro do cômodo que eu mais precisava agora.

— Ledger? – ele perguntou confuso enquanto me via correndo em sua direção.

Quando avistei a porta ainda materializada em sua frente, o puxei pelo pulso e a abri novamente.

— Não fala nada, volta pra cá – adentrei a sala com ele e fechei a porta atrás de mim esperando ela sumir em meio aos tijolos de concreto do lado de fora.

— O que foi isso? – ele perguntou ainda confuso me olhando enquanto eu apoiava minhas mãos sobre o joelho procurando ar.

— Eu estava subindo para resolver algo, e acabei chamando a atenção da gata do Filch com o barulho do solado da minha bota – falei cansada e fiz uma pequena pausa – aí ela saiu em direção contrária, logo ele apareceria por aqui e estaríamos ferrados.

— Estaríamos? – ele perguntou dando ênfase ao plural.

— Claro que sim. Ou você acha que só eu estou errada de estar aqui essa hora? – perguntei sugestiva.

— Eles não me encontrariam. – ele falou dando de ombros.

— Que seja. – respondi indiferente andando no local. – O que de tão secreto você faz aqui?

— O que de tão secreto você faz aqui? – ele me devolveu a pergunta.

— Converso com meus pais. – falei enquanto despia a minha capa e a jogava tranquilamente sobre um dos móveis no local. – Tenho mais privacidade aqui do que no salão comunal.

— Também venho pra cá por privacidade. – ele respondeu indiferente – Estava saindo para Hogsmeade, não é?

— Estava. Estou ainda! – corrigi a tempo – Tomara que eu consiga chegar ao mesmo tempo em que elas.

— Você esqueceu o casaco, Ledger. – ele comentou enquanto eu me distraía em olhar ao meu redor.

— Como? – perguntei quando percebi que não havia prestado a atenção.

— Estamos em uma noite de outono, você sentiria um bom frio ao sair sem casaco. – repetiu apontando para minha roupa.

Eu estava vestindo um jeans confortável, minhas botas longas sem salto e uma blusa cinza colada com mangas curtas.

— Eu saí de capa e não percebi. – dei de ombros – Eu passo no dormitório antes de sair e pego um casaco, mãe.

— O que? – ele perguntou confuso.

— Parece com as preocupações da minha mãe. – comentei rindo e dando um soco de leve em seu braço.

— Credo, Ledger, vamos maneirar no carinho. – falou passando a mão onde eu havia acertado.

— Não foi nada demais, pare de ser crianção, Malfoy. – respondi de modo presunçoso.

— Você deveria ser batedora, não artilheira. – ele falou sugestivo e eu ri.

— Eu não sou artilheira. – respondi séria.

— Ah vamos, pare com isso, não tem ninguém aqui, você já pode dizer que ainda está no time. – ele sugeriu e eu ri ironicamente.

— Já que é assim, não tem ninguém aqui, você não se importaria de admitir que não consegue achar um artilheiro melhor para colocar em meu lugar porque eu sou o maior talento que esse time já teve desde quando você faz parte. – respondi vagamente

— Eu sou o maior talento desse time. – ele respondeu convencido se aproximando mais – Mas você até que era boazinha.

— Você é o maior talento desse time? – perguntei cética e gargalhei quando ele assentiu confiante.

— Pare de rir, sua desmiolada! – ele pediu claramente se irritando.

— Mas até o Potter manda melhor que você, e ele é míope. – falei rindo e ele se aproximou de mim.

— Retire o que disse. – pediu sério um pouco mais irritado.

— Me deixe pensar... – fiz uma expressão pensativa – Não.

— Eu não estou brincando, Ledger. – ele falou se aproximando mais ainda – Retire o que você disse.

— Eu não estou brincando, Malfoy. – falei subindo nas pontas dos pés para ficar em sua altura – Não vou retirar.

— Pare de me afrontar. – ele falou em um tom sério, tão perto do meu rosto que pude sentir seu hálito quente e com cheiro de balas de menta em meu rosto.

— Admita que eu sou tão boa quanto você. – falei no mesmo tom que ele, sem me abalar com sua expressão fria tão perto de mim

Não tive muito tempo de raciocinar sobre o que estava fazendo, apenas senti seus lábios em choque com os meus e minhas costas em choque com uma das paredes geladas da sala. Nos beijávamos com uma urgência gritante, sem muitas cerimônias, eram nossas bocas se explorando com uma fascinação imensurável, meus dedos em seus cabelos finos e suas mãos me imprensando na parede e colando mais ainda nossos corpos. Só no momento em que a falta de ar começou a me surgir eu fui pensar no que estava fazendo e espalmei minhas mãos em seu peito o afastando.

— O que é isso? – perguntei alto ainda esbaforida.

— Você quem me beijou, maluca, por que está gritando? – ele perguntou irritado.

— Foi você quem me beijou! – respondi gritando de fato.

— Foi você! – ele gritou comigo de volta.

— Claro que não fui eu! – mantive o tom escandaloso – Eu não te beijaria nem em um milhão de anos.

— E eu não te beijaria nem em cem milhões de anos! – ele retrucou gritando mais alto que eu.

— E eu não te beijaria nem em cem milhões de vidas! – gritei mais alto infantilmente – Ou melhor, eu não te beij...

Quando fui continuar o senti colando seus lábios sobre os meus novamente, e entre outro beijo, sorri de satisfação por ele ter feito isso. Resolvi me entregar novamente para o beijo sem me importar muito com toda a discussão e circunstancia. Sentir o seu gosto na minha boca foi, no mínimo, satisfatório, com uma sensação de longe familiar, mas extremamente provocante e mais gostosa. Fiz questão de cravar minhas unhas em seu pescoço enquanto ele desceu os beijos para minha mandíbula, mas logo colei nossos lábios novamente, com a mesma urgência de antes. Paramos em busca de ar, e eu o afastei – de modo mais sutil.

— Tudo bem – falei entre uma respiração pesada – eu preciso ir, tenho um jantar um pouco longe, sabe como é.

Ele apenas riu e endireitou os cabelos lisos pouco bagunçados, logo depois ajeitando sua gravata. Eu apenas arrumei minha blusa e limpei o meu batom borrado nos cantos da boca. Saímos da Sala Precisa olhando os corredores já apagados quando nos direcionamos em sentidos diferentes.

— Não vai buscar o seu casaco? – ele perguntou apontando em direção ao corredor das escadas.

— Já estou quente o bastante. – falei sugestiva lançando-lhe uma piscada.

— Boa noite, Ledger. – ele falou rindo de lado.

— Boa noite, Malfoy. – falei divertida arrancando-lhe um sorriso enquanto balançava a cabeça indo para seu dormitório.

Cabeça de Javali, Hogsmeade, 10:00 p.m.

Adentrei o pequeno pub imundo a procura de minhas amigas no lugar em que combinamos. Elas nem perceberam quando eu entrei, então me dirigi até elas e sentei na mesa esperando o sermão.

— Tomei o seu Whisky, você demorou. – uma Pansy bem mais feliz do que de comum me avisou.

— A onde é que você estava? – Beatrice me perguntou sugestiva – Atrasou só uma hora e meia.

— Tive problemas, quase fui pega por Filtch enquanto chegava ao sétimo andar. – respondi tentando soar indiferente, mas percebendo o quão esfarrapada a minha desculpa foi.

— Sério? – ela perguntou maliciosa – Se Filtch não te pegou, quem foi?

— O que? – perguntei soando atipicamente como uma péssima mentirosa.

— Caramba, Charlie, quem te pegou fez um trabalho e tanto em deixar esse chupão enorme e roxo no seu pescoço! – Pansy falou espantada e eu cobri meu pescoço com a mão na hora.

— Não tem chupão nenhum, garota, você caiu direitinho! – Beatrice falou e eu a fuzilei com o olhar enquanto Pansy gargalhava do meu lado.

— Você precisava ver seu desespero. – ela falou rindo – Beatrice, você agora me deve três galeões.

— O que? – perguntei incrédula – Vocês apostaram no que eu estaria fazendo?

— Era mais divertido do que esperar você. – Beatrice se justificou.

— Eu não acredito que você perdeu a aposta, Beatrice! – respondi falsamente brava e as duas riram.

—Eu gosto de apostar com nomes, mas a Pansy limitou a aposta em um simples sim ou não, então eu resolvi perder. – ela se explicou dando de ombros.

— Já que você é tão boa com nomes, quem você acha que foi, espertona? – perguntei provocando-a.

— Isso eu não vou dizer agora, mas quando eu disser, você vai ver como estará certo. – ela falou levantando as sobrancelhas e me fazendo rir.

Dali em diante as duas tentaram arrancar todo o tipo possível de explicação para o meu atraso, e em meio as nossas bebidas, decidimos que já era o suficiente e também que já era hora de voltar para o castelo.

Grande Salão, sexta-feira, 07:30 a.m.

O clima mais fresco já começava a se manifestar, e então eu finalmente me dei ao luxo de colocar o suéter de mangas longas por cima da blusa de botões e da gravata verde musgo. O movimento no salão estava mais agitado do que nos demais dias por conta de ser uma sexta-feira, e eu tomava calmamente o meu café da manhã enquanto Beatrice falava sem parar.

— Pansy, agora é a hora da verdade, observe a Charlie, vamos saber quem ela pegou ontem. – Beatrice falou como se eu não estivesse ali.

— Olha lá, lá vem o apanhador da Corvinal. – falou Pansy empolgada – Ele vem dando umas encaradas sensacionais nela, quem sabe ela não deu a chance?

As duas então puseram-se a olhá-lo e olhar para mim de volta com muita atenção, até que eu não aguentei e soltei minha risada pelo nariz.

— Boa tentativa, Pansy. – falei enquanto tomava um gole da minha água.

— Olha quem está vindo. – Beatrice falou cantarolando – O outro artilheiro, como é o nome dele? Lerman?

As duas repetiram o que fizeram segundos antes, mas antes que pudessem tirar suas próprias conclusões eu as cortei novamente:

— Gente, por favor. – disse revirando os olhos – Acho que se fosse para ficar com Lerman eu já teria feito isso, não acham? Já podem desistir da brincadeira.

— Ainda não. – Beatrice disse e eu apenas revirei os olhos desviando meu olhar para a entrada do salão.

Quando meus olhos encontraram o garoto loiro que agora vestia uniforme ao invés do terno preto que usara na última noite, tive vontade de desviar meus olhos rapidamente para que ele não encontrasse os meus. Mas isso acabaria me denunciando para Beatrice ou Pansy, então continuei sustentando o olhar enquanto ele cruzava da entrada até a ponta vazia da mesa. Foi então que eu me peguei pela primeira vez prestando a atenção de verdade em suas feições: o rosto pálido, os olhos cinzas demonstrando um profundo cansaço, a simetria de seu cabelo com seu rosto e por fim, seus lábios já um pouco rosados. Enquanto analisava detalhadamente sua aparência, ele encontrou com meu olhar, me mandando um olhar sugestivo que precisei conter uma risada. Mas ao desviar meus olhos novamente para a mesa encontrei uma Pansy comendo e uma Beatrice me encarando incrédula.

— Malfoy? – ela perguntou em um tom incrédulo que fez Pansy levantar o olhar na mesma hora para mim. – Como assim, Charlie?

— O que? – perguntei tentando soar incrédula e falhando miseravelmente.

— Eu não acredito que você está pegando só o garoto que você mais odeia e não disse nada nessas últimas horas. – ela comentou claramente criando mais teorias sobre o que estava se passando em minha vida – Eu sabia que a faísca que saía entre vocês dois era tensão sexual!

— Beatrice, pare. – a repreendi sabendo que seria impossível prolongar a verdade daquele ponto. – Eu não estou “pegando” ele, aconteceu ontem só, e não significou nada.

— A ta. – ela falou irônica – Você quer mesmo que eu acredite que isso vai se resumir em só um dia? Vocês dois têm muita tensão para colocar em dia. – ela brincou e eu revirei os olhos.

— Acabei. – Pansy disse se levantado totalmente alheia ao que conversávamos – Vejo vocês em alguma das aulas.

— Caramba, Beatrice. – falei afundando meu rosto nas mãos depois que Pansy se afastou.

— Olha! – ela falou empolgada – Você está fazendo aquela cara de me-ajuda-eu-dormi-com-draco-malfoy outra vez!

— Não é isso! – eu falei séria e ela desmanchou o sorriso divertido – A Pansy. Ela não gostou de saber disso.

— O que? – ela fez uma expressão confusa. – Qual é Charlie, a Pansy já superou o Malfoy há tempos.

— Não exatamente... – falei tentando buscar alguma pista disso na conversa que tivemos – Ela pareceu triste, de qualquer modo, eu preciso falar com ela.

— Você precisa é falar comigo. – ela corrigiu – Fala com ela na aula que vocês terão daqui a pouco, agora eu quero saber o que você tem na cabeça.

— Eu tenho cérebro, Beatrice. – falei obvia e ela bufou – Essas coisas não são pensadas ou planejadas com meu cérebro brilhante. Essas coisas são simplesmente feitas, e não foi nada demais, foi um deslize sóbrio e infeliz.

— Posso imaginar o quão infeliz foi. – ela falou sugestiva e eu a empurrei rindo.

Dali a conversa se prolongou até o último minuto do café, que nos despedimos com nosso típico abraço e partimos para aulas distintas. Ao chegar à sala de Runas Antigas senti o meu estômago revirar um pouco quando avistei Pansy sentada na mesa ao canto no fundo.

Me dirigi até ela com um sorriso no rosto e agradeci mentalmente quando ela me ofereceu um de volta – meio frouxo, mas o suficiente para eu não girar nos calcanhares e sentar na outra ponta da sala.

— Posso me sentar com você? – perguntei já me sentando caso ela pensasse em negar.

— Você é a minha dupla, Charlie. – ela lembrou se virando para anotar o que começava a ser passado em um pequeno quadro a frente.

— Certo. – me virei sem graça e comecei a fazer o mesmo.

Depois de alguns minutos anotando completamente desconcentrada o que a professora dizia, e escrevia, eu quebrei o silêncio que não costumava ser normal entre a gente.

— Pansy, olha... – comecei a falar mas fui interrompida.

— Charlie, você não precisa fazer isso. – ela falou largando sua pena sobre seu pergaminho e se virando para mim ­– Lembra o que eu te disse? Ele não é nada meu e nem nunca foi.

— Tudo bem, eu sei disso. – respondi séria – Eu só quero que você saiba que se caso isso te magoe, não significou nada para ele.

— E para você? – ela perguntou arqueando a sobrancelha.

— Para mim significou que eu beijei o garoto que diversas vezes já quis matar, e o pior: eu não posso nem usar a desculpa de que estava bêbada. – falei oferecendo a ela um sorriso cúmplice que foi, segundos depois, retribuído com vontade.

— Não se preocupe com isso, Charlie, de verdade. – ela falou mais baixo para não atrapalhar os outros alunos – Faça o que você quiser. Eu já vi isso acontecer antes, e eu não posso fazer nada.

— Pansy, você pode fazer sim. – falei chamando sua atenção – Você pode de vez levantar a sua cabeça para isso, seguir em frente de verdade e abrir o seu coração que já está fechado há um bom tempo por causa de um cara que não te deu valor algum.

— Não é a primeira vez que alguém me sugere isso. – ela deu de ombros – A questão é que eu nem sei por onde começar de fato.

— Com essa parte eu e Beatrice podemos te ajudar. – lancei para ela uma piscadela e recebi uma risada silenciosa em troca – Depois é com você, gata.

Interrompemos nossa conversa daquele ponto até o final da aula por conta dos olhares que já estávamos recebendo. Depois, Beatrice se juntou a nós na aula de Poções e de um momento para o outro todo o clima estava igualmente amigável como antes. O fato do incômodo de Pansy – mesmo que mínimo – com o ocorrido na noite passada, me deixava um pouco desconfortável ainda, mas sua naturalidade ao dizer-me que estava bem, me convencia por alguns segundos de que aquilo era verdade.

Ao fim das aulas anteriores ao almoço, Beatrice e Pansy foram direto para o Grande Salão e eu as disse que daria uma passada no Dormitório para escrever uma carta para meus pais. Elas apenas assentiram e disseram que guardariam o meu lugar.

Ao sentar-me na cadeira defronte a minha mesinha, peguei o pergaminho novo e já amarelado junto com a minha pena favorita e comecei a escrever.

“Queridos mamãe e papai,

Como se sentem? Espero que bem, afinal, vocês estavam tendo uma recuperação incrível. Eu estou bem, não se preocupem, estou me alimentando melhor, sim, mãe, e garanto que não estarei magrela e desnutrida no natal.
Sobre o natal, meu professor de Poções, o Slughorn, me convidou para sua festa de natal na antevéspera, espero que não se importem, mas eu gostaria de ir. Já organizei os meus horários para que vocês me busquem na Estação King Cross no dia vinte e quatro de manhã, garanto que estarei aí para almoçar com vocês. E o vovô, como está? Espero que esteja se adaptando bem em casa novamente, não deixem de mostrar a ele as fotos que enviei, sei que ele ficará feliz de ser lembrado. E digam que mal posso esperar para chegar em casa e fazer os biscoitos que ele tanto adora!
Em breve estarei me comunicando com vocês através da lareira, garanto. Se cuidem, e cuidem do vovô. Amo vocês.

Charl.”

Guardei a minha carta em um envelope verde escuro e assinei atrás. Guardei o envelope no bolso de minha capa, já que a levaria ao corujal após o almoço. Quando fechei a porta atrás de mim e desci as escadas até o salão comunal, Malfoy estava apoiado no batente de uma das portas para os dormitórios masculinos. Quando ele levantou a cabeça e me viu, deu a entender que era por mim quem ele esperava ali.

— Sua amiga disse que você estava escrevendo, não quis atrapalhar. – ele se justificou confirmando minhas teorias.

— Prefiro fazer isso no dormitório. – disse me aproximando – O que foi?

Ele andou até a mim se aproximando bem mais do que uma distancia para uma conversa informal, então fiz questão de intervir antes que ele dissesse ou fizesse algo.

— O que você está fazendo? – perguntei franzindo o cenho e espalmando as mãos em seu peito.

— Você está achando que eu vou te beijar? – ele perguntou cético rindo pelo nariz – Você é segura de si mesmo, Ledger.

— Não vou mentir que eu sou. – falei dando de ombros entrando na brincadeira – Você não consegue nem se segurar.

— Foi você quem me beijou. – ele deu de ombros fazendo alusão a discussão da noite anterior.

— Foi você! – falei séria – E eu não vou continuar essa briga porque eu sei onde vai parar.

Ele riu do meu comentário e então continuou.

— Vim te fazer uma proposta, Ledger. – ele falou colocando as mãos no bolso da calça e me encarando de cima.

— Fique de joelhos pelo menos, né. – falei com tédio e ele me fuzilou com o olhar – Desculpa, capitão, continue.

— O que você acha de largar todas as aulas posteriores ao almoço para fazer algo bem mais interessante? – ele perguntou e eu a encarei incrédula.

— O que? – falei sem saber qual tipo de resposta eu poderia ouvir.

— Treinar para o jogo da semana que vem contra os grifinórios. – ele falou abrindo um sorriso de lado e eu ri pelo nariz.

— Então fale. – fiz a mesma pose autoritária que ele assumia.

—Falar o que? – ele perguntou confuso.

— As palavrinhas mágicas. – falei com um ar triunfante que o fez revirar os olhos.

— Esqueça, eu não vou falar. – ele riu pelo nariz girando nos calcanhares e eu o encarei enquanto ele cruzava o salão comunal em direção à saída.

—Malfoy. – eu gritei e quando ele virou, eu lhe ofereci um sorriso vencido pelo cansaço.

— Bem vinda de volta ao time, Ledger. – ele falou sorrindo de volta e me deixando em um salão comunal silencioso.

Notas finais
EU NÃO IA AGUENTAR ESPERAR ATÉ DOMINGO DESSA VEZ, GENTE, e da última vez prometi que postaria na sexta, e cá estou eu, adiantando DOIS DIAS. Isso é bom porque agora estou trabalhando no rumo da história que vocês realmente me cobram, e eu espero que vocês gostem. ESSE CAPÍTULO FOI O MEU FAVORITO, e eu espero que tenha sido o de vocês também. Não deixem de dizer o que estão achando ♥ muito obrigada pelas últimas visualizações! Até a próxima.