Misconception
8 Carma
Notas iniciais
Sala de Estudo dos Trouxas, segunda-feira, 10:10 a.m
Como de costume, sentei em um canto onde costumavam se sentar os alunos que gostavam de ficar sozinhos nas aulas, é como eu era a única sonserina que preencheu o horário de Estudo dos Trouxas, não tinha muito com quem me sentar. A aula já havia começado há alguns minutos, mas eu não estava o que se pode chamar de atenta ao que era dito. O sono tomava conta do meu corpo e eu poderia a qualquer momento cair com o rosto em cima das minhas anotações, o que não seria muito formidável, pois eu poderia furar o meu olho com a ponta afiada da pena e ficar caolha. Ou então eu poderia ter uma hemorragia muito grande e morrer por perda de sangue. A questão é que, o meu sono estava tão absurdo, que eu não sei ao certo se pensei nessas probabilidades ou ocorreu de eu dar um cochilo e sonhar com esses acontecimentos.
Eu me levantei e fiz um sinal para a professora pedindo licença para me retirar da sala. Andei em passos lentos pelos corredores, observei o lado de fora da escola e o clima fresco só me parecia mais favorável para dormir e descansar cada parte do meu corpo cansada. Eu voltei aos treinos de quadribol na sexta. E no sábado. E resolvemos que no domingo seria uma boa repetir. O meu sono era o de menos comparado às dores no meu corpo todo.
Adentrei o banheiro feminino do andar e ele estava extremamente vazio, agradeci mentalmente por isso e também pela expressão sofrida que fiz para a professora antes de sair. De qualquer modo ela entenderia a minha demora. Entrei em uma das cabines do final do corredor e sentei sobre a tampa fechada do vaso. Eu sempre odiei quem dorme nas aulas, acho desrespeitoso com o professor e com os alunos que estão cansados e aguentando firme. Fora que isso não combinava com o meu perfil de aluna. “É só um cochilo” pensei comigo mesma apoiando a minha cabeça na parede ao meu lado.
— Ei, você está desacordada? – acordei com uma voz irritantemente alta e socos na lateral da cabine.
— Agora não mais. – respondi com minha melhor voz de insatisfação.
— Você poderia me passar um pedaço de papel higiênico? – a menina pediu estendendo seu braço por baixo da cabine, deixando à mostra a barra da manga de seu suéter cinza e vermelho. Grifinória.
— Claro. – peguei uma quantidade de papel e passei por baixo da cabine.
— Obrigada. – ela agradeceu gentilmente – Está tudo bem com você? Você estava desacordada.
— Eu estava dormindo. – respondi – Odeio quem faz isso em aula, acho desrespeitoso. Mas eu estava realmente precisando.
Saí da cabine em direção a pia e joguei a água gelada em meu rosto na esperança de acordar. Ouvi a porta destrancar e me virei para ver com quem eu estava tendo uma conversa e me deparei com Granger vindo em minha direção, com um espanto quase perceptível no rosto.
— Ledger! – ela exclamou.
— Olá, Granger. – respondi dando-lhe um sorriso que logo foi retribuído com vontade.
— Então era só um cochilo, não é? – ela perguntou analisando meu rosto – Não quer que chame alguém? Sua amiga, talvez.
— Estou bem, obrigada. – respondi realmente grata – É um acúmulo de cansaço apenas, tive muitos treinos para o próximo jogo na semana que vem durante o final de semana.
— Entendo. Ginny se sente como você. – ela respondeu e um nervoso a respeito dos treinos da Grifinória estarem sendo tão maçantes quanto os nossos me percorreu – Vocês jogam na mesma posição, não é?
— Sim, jogamos. – respondi – Nunca joguei contra ela, na verdade, e o fato dela estar acabada como eu só me deu um maior receio. – confessei e nós duas rimos.
— Tenho certeza que para você ter entrado no time você joga incrivelmente bem também. – a menina falou enquanto lavava as mãos – Afinal, você sabe...
— Como o Malfoy colocaria no time uma garota nascida trouxa que o afronta a todo o momento? – perguntei e ela assentiu com cuidado – Você não tem ideia das suposições que já ouvi.
— Não acredito! – ela falou espantada – Eles de verdade te acusaram de...
— Sim. – respondi a cortando e ela se espantou ainda mais – Mas já foi resolvido, ele foi expulso do time e eu ganhei um jogo sem a ajuda de Malfoy. Logo os boatos pararam.
— Que ridículo. – ela falou ainda desacreditada – São muitos preconceito e insegurança juntos. Mas dizem por aí que a Sonserina nunca teve uma artilheira tão boa em anos.
— A questão não é ser uma artilheira, Granger. – falei dando de ombros – É ser uma nascida trouxa e ter conquistado isso por talento. Ainda existe muita intolerância quanto a isso, você melhor que ninguém entende.
— Nós duas melhor que ninguém entendemos. – ela corrigiu e trocamos um sorriso cúmplice – Como estão os seus pais?
— Estão ótimos, obrigada pela preocupação. – agradeci e ela assentiu – Já estão em casa e voltando a trabalhar aos poucos, meu avô também está em casa.
— Seu avô também estava lá no momento do ataque? – ela perguntou curiosa.
— Estava, mas nada aconteceu com ele. – respondi rapidamente – Com auxílio da Burbage o encaminharam para uma casa de repouso.
— Entendo. – ela comentou compreensiva – Não pude deixar de sentir uma preocupação absurda e essa ideia não me saía da cabeça por dias.
— Foi bem aterrorizante. – comentei dando por fim o assunto que eu não gostava de tocar – Granger, você tem horas?
Perguntei e ela consultou o pequeno relógio em seu pulso.
— Faltam cinco minutos para as onze. – ela respondeu.
— Não pode ser! – falei assustada – Eu cochilei por quase uma hora, parecia tão pouco.
— Você deve estar cansada mesmo, para conseguir dormir nessas cabines. – ela comentou apontando para o cubículo ao nosso lado.
— Eu vou matar o Malfoy. – falei revirando os olhos.
— Nós agradeceremos. – a garota comentou e me tirou uma risada.
— Só depois do jogo, Granger. – lancei-lhe uma piscada e ela riu.
— Cuidado então, Harry pode fazer o seu trabalho. – ela comentou rindo e eu me juntei a ela.
— Foi muito bom o cochilo e a nossa conversa, mas eu realmente preciso ir e arranjar uma desculpa muito plausível para a professora Burbage. – falei já caminhando para fora do banheiro – Tchau, Granger.
— Tchau. – ela respondeu amigavelmente – Ledger?
— Sim? – me virei para a menina de cabelos castanhos.
— Você vai estar no jantar de Slughorn essa noite? – ela me perguntou.
— Passarei lá um pouco, mas se eu não aparecer é porque estarei dormindo. – expliquei e ela assentiu. – Até mais tarde, então.
Quando eu estava chegando à sala vi o pequeno movimento de pessoas saindo e pensei comigo mesma que agora seria mais difícil ainda encontrar um motivo convincente para minha ausência. Do outro lado da sala estava Malfoy, me esperando para estudarmos Aritmancia e adotou uma expressão de confusão enorme a me ver. Ele se aproximou em passos lentos até a mim e eu achei melhor já explicar para que eu pudesse entrar na sala e fazer o mesmo:
— É sua culpa. – falei apontando para meu rosto – Eu não consigo nem ficar em pé direito.
— Uau você está péssima. – ele comentou reparando na minha cara de sono
— Só não te soco porque não consigo me mexer muito bem. – falei me desviando dele para entrar na sala.
— Ninguém mandou sair do time, artilheira. – ele disse sorrindo vitorioso.
— Me aguarde, Malfoy. – falei deixando ele sozinho ali e entrando na sala. – Com licença, preciso arranjar uma desculpa convincente para justificar uma aula inteira perdida no banheiro.
— Com licença, professora... – eu ia começar a gaguejar uma mentira qualquer mas ela se levantou e veio até a mim.
— Senhorita Ledger, está se sentindo bem? Você já foi para a ala hospitalar? – ela pareceu preocupada e eu resolvi que me aproveitar se sua preocupação não seria de todo o mal.
— Eu estou com umas dores, professora Burbage. E eu estava lá até agora. – falei medindo internamente o peso das minhas mentiras – Eu pegarei as anotações que faltam, não se preocupe.
— Está tudo bem em sua casa, querida? – ela perguntou e eu honestamente me segurei para não bufar.
— Sim, está tudo ótimo, meus pais já voltaram a trabalhar. – respondi o que já saía da minha boca no automático.
— Ótimo! – ela comentou parecendo realmente feliz e eu forcei um sorriso – Descanse, querida, isso provavelmente deve ser estresse acumulado.
— Com certeza é. – falei pegando meus materiais sobre a mesa em que eu estava. – Até mais, professora.
Cruzei a sala com pressa antes que ela tentasse dar continuidade no assunto, quando saí pela porta encontrei um Malfoy sorrindo de lado exalando ironia.
— Ala hospitalar? Dores? – ele perguntou enquanto caminhávamos para nosso destino.
— A parte das dores não é mentira. – falei dando de ombros – E eu não estava de fato na ala hospitalar, eu estava dormindo.
— Você me disse que estava no banheiro. – ele falou e eu ri fraco pensando na explicação.
— Eu estava no banheiro dormindo. – falei rindo e ele riu pelo nariz.
— Francamente, você me surpreende às vezes. – disse ele balançando a cabeça.
— Eu sei disso, eu sou surpreendente. – falei para irritá-lo.
Discutimos coisas banais até chegarmos à ponta do lago, na margem que costumávamos ficar. Malfoy se sentou no chão e eu me sentei ao lado dele esfregando os olhos e sentindo o vento gelado de novembro bater em meu rosto e bagunçar o meu cabelo.
— Nós nem terminamos o capítulo nove na semana passada. – Malfoy praguejou quando abriu o livro na página marcada.
— Não, por favor. – eu pedi dramaticamente segurando em seu braço – Não abre esse livro, eu preciso desse tempo para descansar.
— E o que você sugere que façamos então, gênia da Aritmancia? – ele perguntou sarcástico e eu revirei os olhos.
— Nada. – falei enquanto me deitava sobre as folhas alaranjadas caídas no chão.
— Nada? O que você está achando que meu tempo é, Ledger? – ele perguntou irritado se virando para mim.
— E que diferença faz? Você está aqui de qualquer forma, você sabe tudo o que iria me explicar, você está em ótima companhia. – dei de ombros – Você não está perdendo coisa alguma.
— Só porque estou no lucro. – ele concordou contrariado e eu abri um sorriso enorme – Que droga de sorriso é esse?
— Você concorda que eu sou uma ótima companhia. – falei vitoriosa e ele revirou os olhos.
— É diferente, Ledger. – ele falou enquanto se deitava de barriga pra cima ao meu lado – Companhias a gente escolhe, o carma não.
— Você escolheu estar aqui comigo. – rebati fingindo irritação.
— Não escolhi. – ele se justificou – Você é a consequência que a vida me deu por uma merda muito grande que eu já fiz, o que parece ter sido escolha, mas foi só consequência. Um carma.
— Acho bom essa coisa de carma ser justificada com erros de outras vidas. – falei indiferente – Eu não consigo pensar uma merda tão grande que eu tenha feito nessa vida aqui que me fez merecer você.
— Muito engraçada. – ele comentou sem ânimo.
— Muito inteligente. – corrigi – Inteligente e cansada.
Fechei os olhos e apoiei meus braços sobre o rosto para cobrir a claridade forte da hora do almoço, mas meu braço foi puxado pelo garoto ao meu lado e eu bufei irritada.
— Você não vai dormir. – ele reclamou – Está me fazendo perder tempo e ainda quer que eu te veja dormindo?
— O que você quer que eu faça? – perguntei irritada – Estou cheia de dor, Malfoy, eu só quero ficar deitada e descansar.
— Vamos conversar. – ele falou olhando para o céu igual eu estava fazendo.
— Nós estamos conversando. – falei óbvia e foi a vez dele de bufar.
— Vamos conversar sobre o Halloween. – ele propôs sério e eu me virei para ele.
— O que tem o Halloween? – perguntei e ele virou o rosto para mim também.
— Não se faça de sonsa, Ledger, não combina com você. – ele falou entediado e eu praguejei baixinho.
— Não acho que tenhamos o que conversar. – falei olhando para ele – Não é como se as coisas fossem acontecer naturalmente de uma hora para a outra.
— Mas aquilo aconteceu naturalmente. – ele devolveu a resposta e eu considerei que era verdade. – E de uma hora para a outra.
— Que droga, eu sou horrível nisso. – falei pousando as mãos no rosto e me virando para cima novamente.
— Horrível em que? – ele perguntou e eu tornei a olhá-lo.
— Em conversar com quem eu me agarrei por aí sobre isso. – disse por fim.
— Nós estamos conversando normalmente desde então, nos treinos, no salão comunal até, qual a diferença? – ele perguntou confuso.
— Eu sou ótima fingindo que nada aconteceu, é assim que eu sigo depois de ficar com alguém que sei que não vai dar em nada. – rebati e ele riu fraco.
— Então estamos fingindo que nada aconteceu? – ele perguntou e eu assenti – Tudo bem então, nada aconteceu.
— Mas Malfoy... – comecei e ele me deu um sorriso debochado por eu ter engajado no assunto – Por quê?
— Por que o que? – ele perguntou vitorioso me fazendo formular a pergunta inteira.
— Se caso algo estivesse acontecido... – falei sugestivamente e ele levantou uma das sobrancelhas – Você iria querer conversar sobre isso por quê?
— Bom, se caso algo estivesse acontecido... – ele manteve o mesmo tom que o meu – Eu iria querer saber o que você faria a respeito.
— Você acha mesmo que daríamos certo juntos? – falei rindo e ele riu também.
— Nunca em um milhão de anos. – ele respondeu rindo e eu olhei para ele para que ele desse continuidade – É que você não enche o saco quando está me beijando.
— Ah, então isso seria um acordo para que não enchamos o saco um do outro? – perguntei rindo e ele assentiu – Boa desculpa, Malfoy, mas eu tenho uma coisa para te contar.
— O que? – ele perguntou sério.
— Eu preciso te atormentar para ser feliz. – falei divertida e ele rolou os olhos.
— Está desperdiçando O cara só para manter um hábito infeliz? – ele questionou exibido e eu tive que rir.
— Infeliz para você. – falei dando de ombros – Eu sou extremamente boa nisso.
Continuamos em uma discussão frenética com boas respostas até não perceber o tempo passar extremamente rápido e fora do nosso controle.
— Vamos, tormento. – ele disse se sentando – Já está na hora do almoço.
— Que droga, você tirou o meu tempo de sono. – reclamei me levantando de uma vez.
— Você nem está com sono mais, revigorou suas energias me tirando a paciência. – ele disse se levantando também e caminhando ao meu lado.
— Eu nem tirei sua paciência em um nível suficiente para revigorar minhas energias! – rebati e rumamos para dentro do castelo.
O restante das aulas passou de maneira mais rápida, e eu aproveitei a minha falta de sono para de fato me dedicar para àquilo e correr atrás das anotações que eu perdi, e sei que com isso quando percebi já estávamos saindo da aula de Poções para nossos salões comunais.
— Você precisa mesmo ir nisso, Charlie? – disse Pansy reclamando enquanto adentrávamos o dormitório.
— Não, de fato não preciso. – falei enquanto tirava a minha gravata já frouxa
— Então por que você não fica aqui com a gente, divide seus doces e empresta o seu trabalho de Poções para a gente copiar? Você nunca vai nesses jantares mesmo. – Beatrice perguntou.
— Exatamente por isso, eu nunca vou. Achei que deveria aparecer por lá mais de uma vez. – me justifiquei.
— Tudo bem, aluna brilhante e exemplar, nós respeitamos a sua escolha. – Pansy falou me fazendo rir.
— De qualquer maneira, meu trabalho de Poções está na gaveta, podem copiar a vontade, mas nada de comerem os meus doces. – falei apontando meu dedo em riste para as duas.
Me vesti com um vestido preto que iria até abaixo de meus joelhos e passei o meu batom vermelho escuro, calcei uma bota de cano curto da mesma cor do vestido e soltei os cabelos.
— Estou indo. – falei já saindo do dormitório – Prometo não demorar, alias, pretendo não demorar. – corrigi a tempo o que fez com que as duas rissem.
— Bom jantar, aluna dedicada. – Beatrice disse e eu ri mandando-lhe um beijo e saindo do cômodo.
Andei pelo estreito corredor que levaria nosso dormitório até o Salão Comunal, onde havia ainda muitos alunos. Em um sofá mais distante estava sentado Zabini ao lado de um Malfoy com a gravata afrouxada e nada por cima da blusa de botões branca amarrotada, enquanto eu reparava o quão aparentemente ele ficava bem desse jeito mais casual, reparei que ele me olhava com uma sobrancelha levantada e fui até ele rindo fraco.
— Está meio cedo para ir para Hogsmeade, não acha ? – ele perguntou e Zabini se virou para mim.
— Concordo mesmo. – falei de maneira simples – Porem dessa vez estou indo para um outro jantar, legalmente.
— Ei, Ledger, você vai no jantar do Slughorn hoje ? – Zabini perguntou se levantando.
— Vou sim. – respondi me lembrando que ele também fazia parte do grupo.
— Me espere, eu vou acompanhar você. – ele falou já rumando ao seu dormitório.
— Sem problemas, obrigada. – agradeci e me sentei no lugar que ele estava, de frente para Malfoy.
— Qual é a desse grupinho ? – ele perguntou fingindo pouco interesse.
— Ah, sabe como é... – respondi vagamente – É meio restrito aos alunos destaque, seria muito complexo para explicar para um aluno regular.
— Exibida. – ele falou bufando.
— Então estou conversando com a pessoa certa. – respondi – Não fique com ciúmes, Malfoy, eu trarei seu amigo de volta e inteiro.
— Então acho que vou me juntar a sua amiga durante o jantar. – ele falou empinando o nariz.
— Ela e a Pansy estão no dormitório copiando o meu trabalho de Poções. – respondi indiferente – Quem sabe se você se juntar a elas não consegue ser um pouquinho mais destaque e entrar para o clube ? – falei na tentativa de irritá-lo mas ele adotou uma expressão mais séria.
— Você e a Pansy são muito amigas agora ? – ele perguntou sério e minha expressão se fechou também.
Eu reparei que ele continuava sério esperando por uma resposta, e até cogitei dizer que muito amigas ainda não era um termo que eu usava para classificá-la, mas me lembrei de como conversei com Pansy sobre ela precisar seguir em frente e ter todo o meu apoio para isso. Me lembrei de como me incomodava eu ter ficado com o cara que ela gosta, e me ocorreu que se eu confirmasse a pergunta que Malfoy fizera, talvez não se repetiria o que aconteceu e eu pudesse ver Pansy livre de qualquer incômodo de nossa parte.
— Sim, somos muito amigas. – respondi com um sorriso no rosto – Sabe como é, cinco anos dividindo o mesmo dormitório, uma hora teríamos que acabar conversando, e nos demos muito bem.
— Entendo... – ele falou pensativo e nessa altura eu já estava me coçando para perguntá-lo o porquê de sua curiosidade.
— Mas por que ? – perguntei por fim, mas antes que ele pudesse responder Zabini chegou.
— Vamos ? – ele me perguntou e eu virei para acompanhá-lo.
— Vamos. – falei por fim – Até mais tarde, Malfoy, divirta-se.
— Até mais tarde. – ele respondeu um pouco irritado e eu segurei um riso.
Saí das masmorras caminhando ao lado de Zabini até a onde seria o jantar do Clube do Slugue, eu estava pensando em como quebrar o silencio até que ele começou por mim.
— Preparada para o jogo de sábado ? – perguntou colocando as mãos nos bolsos da calça e olhando para mim.
— Sim, estou. – respondi mas a minha cara de dúvida o fez rir – Bem, eu espero que sim, pelo menos eu estou destruída.
— Destruída é bom, acredite. – ele falou e nós dois compartilhamos uma risada – Draco disse que você estava preparada.
— Ele disse isso ? – perguntei arqueando as duas sobrancelhas em surpresa – Por essa eu não esperava.
— Não espere que ele diga isso para você, Ledger, na cabeça dele você não precisa ouvir. – ele justificou o ponto de vista do Malfoy e eu achei engraçado.
— E de fato eu não preciso. – respondi óbvia – Mas faz parte de mim já tirá-lo do sério por causa disso.
— Posso te perguntar uma coisa ? – ele perguntou sério e eu assenti – Não precisa responder se não quiser.
— Vá em frente. – o encorajei.
— Já que agora você e Pansy se aproximaram, o que você acha que ela pensa sobre sua proximidade com o Draco ultimamente ? – ele perguntou de maneira tão direta que eu fiquei até tonta.
— Minha proximidade com ele não é algo que se possa considerar ameaçador em caso de alguém que tenha sentimentos por ele. – respondi defendendo o meu lado.
— Qual é, Ledger, eu sou a Beatrice do Draco, você acha que eu não sei das coisas ? – ele me perguntou e eu gargalhei com sua analogia à confiança que eu e minha melhor amiga temos uma na outra.
— Tudo bem. – respirei fundo para dar continuidade – A Pansy não sabe do ocorrido depois do aniversário dela. Mas ela sabe do ocorrido do Halloween, e foi uma droga, sério. Ficou um clima super desconfortável para nós duas, mas depois disso tivemos uma boa conversa e chegou em uma conclusão. Concluímos que está na hora dela abrir o coração dela para novas chances e deixar ele para lá.
— E você acha que ela vai conseguir ? – ele perguntou com cuidado e eu me surpreendi com aquilo.
— Eu tenho certeza que sim. – respondi sorrindo – Ela nunca prestou muito a atenção no quanto ela é incrível. Ela nunca prestou a atenção em si porque prestar a atenção em uma pessoa que não dava a ela o menor valor sempre esteve acima disso.
— Não era fácil ver àquilo de fora sendo tão amigo dos dois. – ele confessou – Eu me preocupo muito com ela desde a distância que ela resolveu tomar de nós.
Ele falou aquelas últimas palavras com tanta sinceridade que eu tive que me controlar para não dar um daqueles meus sorrisos de quem acabou de ter uma ideia incrível.
— Não se preocupe. – respondi – Logo ela irá acabar com essa distância. Ela só precisava de um tempo, mas agora como ela se convenceu de que precisa seguir em frente, eu tenho certeza que logo as coisas serão como antes.
— Eu não consigo ver você como a garota irritante que Draco diz ser – ele comentou – Isso foi muito legal, Ledger.
— Você não me subestime, Zabini. – falei e demos outra risada.
Quando chegamos ao local uma grande mesa redonda já estava posta e alguns alunos já estavam sentados nela conversando com o professor Slughorn, que logo cortou seu assunto para dar-nos as boas vindas ao local.
— Senhorita Ledger, senhor Zabini, que bom que vocês vieram ! – ele falou com um sorriso abanando seus braços gorduchos – Sentem-se, sentem-se, tomem seus lugares, a comida logo será servida.
Nós entramos e olhamos mais de perto a mesa para ver quem frequentaria hoje. Vi Potter e Granger sentados lado a lado e puxei Zabini para que se sentasse perto deles junto a mim. Ele praguejou alguma coisa baixinho mas não dei importância. Me sentei ao lado de Granger que me cumprimentou com um sorriso simpático e devolvi a ela o mesmo sorriso, logo depois cumprimentando Potter com um aceno.
— Como você está se sentindo ? – ela perguntou rindo e me lembrando da nossa conversa de hoje cedo.
— Só vim pela sobremesa. – respondi baixinho arrancando dela uma risada – Estou melhor, obrigada.
— Poxa vida, então temos uma concorrente perigosa no próximo jogo. – ela comentou cutucando Harry que me deu um sorriso simpático – Vamos te apresentar a Ginny quando ela chegar.
E parece que foi como telepatia, pois no momento em que demos a primeira garfada em nossas comidas a garota ruiva adentrou a sala chamando um pouco mais de atenção do que ela realmente pretendia chamar. Ela tinha os olhos marejados e pediu licença ao caminhar em direção a nossa grande mesa redonda.
— Olhe os olhos dela... – Hermione comentou com Potter que não tirava os olhos da garota – Ela e Dean acabaram brigando de novo.
E então Potter se levantou bruscamente da mesa e a garota ruiva – assim como todos nós – se espantou. Eu encarei Zabini que trocava comigo um olhar confuso mas que logo se amenizou quando ambos se acomodaram sem demais comentários em seus lugares.
O jantar se seguiu sem qualquer outro acontecimento relevante ou conversas úteis. Assim que a sobremesa foi servida e eu comi, resolvi que seria prudente logo voltar ao dormitório, e por sorte Zabini concordou comigo e me acompanhou até as masmorras.
Campo de Quadribol, sábado, 10 :00 p.m.
— Uma última revisão: – Malfoy começou e todos paramos para escutar o que ele havia repetido inúmeras vezes durante a semana – Batedores, mirem nos artilheiros deles, não deixem em hipótese alguma eles lançarem mais goles do que os que serão lançados por nós. Artilheiros, mantenham o rítimo de revezamento de gols que vocês já efetuaram em partidas antes mas não voem acima dos aros, ouviu bem, Ledger ? – ele falou implicando e fazendo relação à todas as vezes que eu o atrapalhei por voar alto demais – Mantenham os olhos em suas funções que eu manterei os olhos na minha.
Após concordarmos e nos concentrarmos, entramos em campo no lado oposto do time da Grifinória. Nos pusemos em um circulo já montados em nossas vassouras a alguns pés do chão. Hooch se posicionou em nosso meio e abriu a caixa onde ficavam nosso material de jogo. Os balaços foram lançados e os batedores voaram para suas posições com seus tacos. A goles foi jogada e um mar de seis jogadores, incluindo a mim, se misturou em movimentos bruscos com vultos que contrastavam entre o vermelho e o verde.
— O pomo de ouro já foi lançado. – A voz do locutor levou a torcida em sua festa inicial.
Estava um jogo cansativo, e com todas as letras um jogo de quadribol de verdade, com toda sua voracidade e agressividade. Bem diferente do jogo contra a Corvinal, nosso placar estava sempre empatado ou virando vez ou outra, seria impossível usar a mesma estratégia de ganhar através dos artilheiros. O fim deste jogo estava extremamente dependente de um dos apanhadores, e os dois pareciam cada vez mais longe de localizar o pomo. Potter estava desperso, e isso era ótimo, já Malfoy estava tão concetrado que lhe causava cegueira. Eu havia feito bons gols, e os outros dois meninos também. Mas a Weasley era como um furacão, e era difícil manter a concentração entre impedi-la e virar os pontos que ela estava fazendo e foi em uma dessas observações em que eu fazia rapidamente que avistei o momento que ela se desequilibrou da vassoura e perdeu sua goles. Um dos batedores que estava abaixo da garota, com um forte impulso usando a vassoura, conseguiu lançá-la para cima outra vez, fazendo a goles voar tão alto que eu não conseguiria pegar a não ser se voasse mais alto e desrespeitasse totalmente as coordenadas de Malfoy. E maldita foi a hora que resolvi subir. Ele e Potter haviam avistado o pomo e faziam tornados no ar brigando pela pequena bola, e minha goles estava indo na direção dos dois rapazes na mesma velocidade em que eu a perseguia, que em tal ponto já era impossível não colidir com eles a menos que os dois pegassem o pomo antes, o que não aconteceu, e logo senti o impacto da colisão contra meu braço esquerdo. Senti que a vassoura não estava mais sob mim e um forte vento levava meus cabelos para cima com a velocidade da queda. ‘’Eu iria cair’’ pensei comigo mesma de olhos fechados já perdendo os sentidos de minhas pernas, até sentir uma forte pressão em minha cintura e o vento cessando.
Abri meus olhos abruptamente, na mesma velocidade em que me convenci de que iria cair e virar pó. Malfoy me segurava pela cintura com um dos braços, e com a outra mão erguia o pomo de ouro. Pela primeira vez me dei conta de que a torcida da Sonserina vibrava firmemente nas arquibancadas e me permitir abrir o meu melhor sorriso ignorando a dor que sentia em meu braço, e o desconforto que sentia em minha cintura – mesmo estando bem segura a onde estava agora.
— Sabe Ledger, eu tenho uma coisa para te contar. – o garoto loiro falou sorrindo e eu retribuí o sorriso.
— Vai finalmente admitir que eu sou uma artilheira incrível ? – perguntei rindo e contagiando o menino que antes nunca havia ouvido o som da risada.
E que risada linda.
Quando dei por mim, eu já havia parado de sorrir, e ele também. Quando dei por mim, ele já havia abaixado o braço o me segurado firmemente com os dois. Quando dei por mim, nossos olhos não olhavam para mais nenhum lugar que não os olhos do outro. E então ele me beijou. Ou eu o beijei. A questão é que já não importava mais quem havia beijado primeiro. Não importava mais se centenas de pessoas estavam assistindo. Nós estávamos nos beijando.
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