Minha vida com a filha do Diabo
1 Bento
Bom, para essa história é importante saberem quem é que vai narrar, por mais que eu não seja o grande destaque. Meu nome é Bento, tenho 23 anos e sou filho único da viúva dona Maria Aparecida, religiosa fervorosa nascida e criada no bairro da Glória. Gravem essa informação, pois tudo que te falei até agora está relacionado à religião, até o nome do bairro em que moramos. Não sou de uma família nem pobre e nem rica, mas sempre fomos bastante tementes a Deus. Fiz catecismo, crisma, fui do grupo jovem e minha mãe é religiosa a ponto de ouvir os programas de padres nas rádios AM e colocar água em cima da televisão para abençoar a casa livrando todos de todos os males. Acho que ela ultrapassou um pouco os limites quando ficou chateada após comprarmos uma televisão de LED que não dava para colocar o copo d’água em cima. Foram semanas para fazê-la acreditar que Deus não ficaria chateado se o copo ficar em cima do aparador e que Ele continuaria abençoando a nossa casa da mesma forma.
Obviamente, com a minha entrada no mundo adulto e no mercado de trabalho, além do ambiente estressante da faculdade de Direito, me afastei um pouco da igreja e da fé, que já não era das mais fortes. Continuei acreditando em Deus e ouvindo broncas semanais por sempre estar dormindo no horário de uma das dez missas que minha mãe comparecia por semana. Era uma rotina estar constantemente esgotado da rotina de faculdade, do trabalho na loja de sapatos e da busca incessante por um estágio. Ao menos, eu rezava na hora da janta com a minha mãe. Sempre que chegava a tempo de jantar num horário que não fizesse minha mãe morrer de fome me esperando. A vida do trabalhador CLT não é nem um pouco fácil.
A história da minha mãe e sua relação fervorosa com a igreja católica não foi uma coisa que sempre existiu. Antes da morte do meu pai, minha mãe tinha uma relação saudável com Deus e sua trupe, aonde ela ia quase todo domingo, sem obrigações, mas com vontade de louvar. Às vezes, ela ficava em casa. Às vezes esquecia de rezar antes das refeições, mas com certeza era muito mais feliz e eu a via sorrir muito mais. E vivia sua vida ao lado do meu pai pacificamente. Perder o marido para o câncer fez ela se aproximar da igreja e se afastar dos sorrisos, mas eu não trocaria a minha mãe carola por nada. Obviamente, nada disso vai importar muito para a história que vai ser contada, mas creio que seja importante para saber um pouco mais de mim.
O estágio que eu finalmente consegui arrumar na minha área era do lado da faculdade estadual e como eu não tinha ninguém para me indicar, só consegui iniciar quando estava terminando a faculdade e iniciando o trabalho de conclusão de curso. Larguei meu emprego de vendedor na loja de calçados e iniciei o estágio num escritório de advocacia onde vários jovens com sobrenomes estrangeiros de ricos diferentes formavam o nome do local. Lá dentro, esses ricos não trabalhavam e os “sem sobrenome” faziam todo o trabalho administrativo, e eu, além disso, fazia também o trabalho de copeiro e de faxineiro. Nem Jó sofreu tanto quanto sofre um estagiário. Mas como não tinha muita opção para mim eu aceitava. Afinal, nenhum estágio iria pagar o que eu recebia. E em nenhum eu seria faxineiro do local também, mas isso fica para uma denúncia futura no ministério do trabalho.
Minha vida de jovem adulto ocorria dentro dos conformes: de manhã faculdade, pela tarde escravizado no estágio e pela noite muito cansaço, padres rezando enquanto minha mãe cozinhava ou louvores ainda mais altos misturados a voz esganiçada da minha mãe, estudos incessantes para finalização do TCC e pouquíssimas vezes lazer. Lógico que eu saía algumas vezes com o pessoal da faculdade, beijava na boca, já tive uma namorada na época do colégio, algumas pretendentes, alguns casos passageiros e não sou um virjão. Vai dizer que você esperava um protagonista narrador de comédia romântica com zero experiência com o sexo oposto, virgindade intacta, problemas sérios para se comunicar com mulheres e completamente idiota? Esse gênero já nem cola mais. Nunca fui um garanhão, mas sempre dei meus pulos por aí. Se bem que naqueles últimos tempos, eu nem sabia mais o gosto de uma bebida alcoólica, não sabia mais como se beijava e nem tenho visto muito a cor do céu azul do Rio de Janeiro, mas é apenas uma fase complicada que eu tenho que passar e que Deus só dá as lutas mais difíceis para seus guerreiros mais fortes. Espero que dessa vez minha mãe esteja correta sobre a palavra Dele, mas porra, custava dar uma batalha mais tranquila?
Como eu disse anteriormente, minha vida ocorria tranquilamente. Eu havia lido em algum lugar que coisas ruins vem sempre em três parcelas. E foi numa fatídica sexta-feira que a minha vida mudou completamente e tudo ficou de cabeça para baixo.
Saí do meu prédio no horário para os primeiros tempos de aula na faculdade e o dia começou incrivelmente bem porque consegui ir sentado no ônibus. Isso é mais raro do que qualquer coisa que você possa imaginar nos horários de pico no Rio de Janeiro. Ônibus com ar-condicionado, passando na hora correta e sem nenhum idoso para que eu tivesse que ceder o lugar. Tudo perfeito e não eram nem nove da manhã. Provavelmente quem já sabia do meu futuro estava segurando o riso naquele momento.
Após as aulas também ocorrerem normalmente e sem nenhum aluno querendo aparecer mais que os professores, meu orientador, professor Arnaldo, me chamou para conversar em sua sala. Mesmo estando há meses em conversas semanais com o professor, ainda me sentia sem jeito ao entrar no escritório dele. Entrei timidamente e botei minha mochila na cadeira ao lado enquanto o professor se ajeitava e tirava alguns dos muitos livros de cima da mesa. Nenhum deles era sobre direito. Ele, que sempre era direto em comentar sobre os erros e possibilidades de melhoria no meu projeto, pela primeira vez hesitava em iniciar a conversa. Abriu a janela, acendeu um cigarro fedorento, deu uma longa tragada e demorou alguns segundos para falar.
— Bento – iniciou ele – eu tenho duas notícias pra te dar que não vão te agradar muito nesse momento. Ele olhou para o seu relógio de pulso e eu instintivamente olhei para o relógio de parede. Já estava atrasado para o estágio, mas o TCC era tão importante quanto meu emprego nesse momento. Ele continuou:
— Eu estou apaixonado! Finalmente esse velho descobriu o amor!
E enquanto ele sorria feliz com seus dentes amarelados pelo cigarro, olhei para ele sem entender muito o que estava acontecendo.
— É por mim? Se não, eu não sei por que eu não iria gostar, professor – perguntei tentando entender no que aquilo poderia me afetar.
— Eu estou abandonando a faculdade hoje. Já pedi demissão e essa foi minha última aula. Não vou poder mais seguir te orientando com a sua monografia. Vou morar no Sana, com minha futura esposa. – Nesse momento a felicidade dele se contrastava com a minha vontade de matar ele. O homem estava radiante enquanto dava a pior notícia possível para mim.
Enquanto eu estava atônito na cadeira, ele continuava explicando que ia morar com uma jovem de 20 anos chamada Mandala, os dois filhos gêmeos dela, Sol e Lua e que ia morar numa cidade do interior do Rio de Janeiro. Inacreditável. Bem, seria inacreditável se eu não estivesse vivendo aquilo naquele momento. Meu projeto provavelmente seria todo reescrito, voltaria para estaca zero e isso quando eu achasse outro professor disposto a me orientar. Ou com espaço na agenda, visto que, com o professor Arnaldo indo embora, muitos outros também ficariam sem orientação. Caos. Quando meu cérebro voltou a funcionar e eu consegui timidamente parabenizar meu professor, saí da sala e fui tentar respirar. Não sabia se a dificuldade era pelo nervosismo ou pelo cheiro de cigarro. Dentro da minha cabeça eu aplicava uma voadora nos peitos dele fazendo com que ele caísse da janela onde fumava e provavelmente seria expulso da faculdade. Dentro da minha cabeça eu sou valente, fora dela eu sempre penso nas consequências. E uma delas é que aquela conversa havia me deixado bastante atrasado para o estágio.
Corrida para o banheiro para trocar de roupa e depois outra corrida e descida de dez andares pelas escadas para o ponto de ônibus. A sorte da manhã já havia acabado. Ponto de ônibus lotado de gente buscando uma sombra que inexistia, aquele calor abafado que precede a chuva forte e rápida típica do Rio de Janeiro, meu ônibus demorando a chegar e chegando entupido de gente. Para entrar no ônibus foi uma luta por espaço e pra se movimentar dentro dele, pior ainda. Com a chuva ficando um pouco mais forte, trânsito no caminho inteiro. Somado a um acidente de moto dentro do túnel. Cheguei no trabalho com uma hora e meia de atraso e algumas ligações perdidas no meu celular. O meu primeiro atraso desde que iniciei o estágio.
Quando subi o elevador, com a camisa social toda molhada sem saber se pela chuva ou pelo meu suor e de muitos outros passageiros do ônibus, meu chefe solicitou que eu comparecesse à sua sala. Não consegui nem ligar o meu computador. Essa bronca seria inevitável, atrasar naquele ambiente hostil, mesmo sendo pela primeira vez, teria alguma consequência. E essa bronca provavelmente seria um esculacho homérico, mesmo sem ser minha culpa e sim de milhares de fatores. Já preparei a mente para respirar fundo, pensei num discurso para pedir desculpas e depois seguir a vida. Voltar ao meu posto de escravo remunerado. Longo suspiro e abri a porta dando duas batidinhas antes de entrar.
— Você está dispensado! – falou o meu chefe, sem ao menos dar boa tarde, assim que fechei a porta.
Novamente fiquei sem reação alguma, só que dessa vez em pé e completamente perdido. A não ser o atraso que acabara de acontecer, não teria nenhum outro motivo plausível para me dispensar do estágio. Não havia falhado em nenhuma demanda, nenhum atraso anterior, muitas horas-extra sem remuneração, muita dedicação para aprender e muitos cafés entregues para todos os advogados da empresa sem derramar nenhuma gota. Inexplicável.
— Mas Doutor... – tentei puxar um contra-argumento, mas falhei miseravelmente. Fiquei parado olhando, esperando uma justificativa que embasasse aquela decisão, mas não veio.
Após alguns constrangedores segundos olhando para meu chefe que fingia atender uma ligação, me virei para a porta para pegar minhas coisas e ir embora. Quando estava saindo, ele me chamou.
— Bento, estamos cheios de coisas para fazer hoje, te pago 400 na sua mão para ficar até o fim do expediente e ajudar a gente. – Ele me olhava como se estivesse perguntando a coisa mais natural do mundo. Como era canalha aquele sujeito.
Era muita humilhação aceitar? Com certeza. Aquele valor era ¼ do meu salário? Com certeza também. Só pedi para ir ao banheiro e iniciaria o meu último dia de trabalho naquele hospício inóspito. Entrei no banheiro e me olhei no espelho. Meus olhos seguravam o choro da humilhação e impotência perto daquele dia que estava vivendo. Todo molhado e amassado, a mochila encharcada apoiada em um dos ombros com a marmita provavelmente já estragada pela chuva e nesse momento desempregado e sem orientador do TCC. Até o dia anterior estava tudo tranquilo, minha preocupação era finalizar o projeto e não enlouquecer com os louvores da minha mãe no rádio.
Com esse nervosismo, deu vontade de ir ao banheiro. A última cagada remunerada nesse inferno. Peguei a mochila e sentei no vaso. Olhei para o telefone e vi que não tinha nenhuma mensagem nova para mim. A previsão era de chuva forte para mais tarde e quando fui olhar mais informações sobre isso no aplicativo do telefone, duas pessoas entraram no banheiro.
— Meu sobrinho vai entrar aqui, vai ser o novo estagiário da empresa. Vou botar o moleque pra aprender tudo com a gente. – disse a voz que parecia ser de um dos sócios, o do sobrenome judeu.
— Na verdade, vai aprender nada, né? Mas ao menos vai ganhar um dinheiro fácil e experiência pro currículo, está no primeiro período da faculdade ainda. – Essa voz era do meu chefe, o sócio com sobrenome alemão.
“Filhos da puta” pensei enquanto cagava. Eles gargalhando com o nepotismo e já pensando em qual puteiro levariam o moleque na hora do almoço. Nunca haviam pagado nem um almoço pra mim.
— Só fala pra Tatiana do RH contratar alguém pra faxina e cozinha porque a tua irmã jamais iria aceitar a gente botando ele pra fazer as coisas que o outro garoto fazia. E acredita que ele ainda aceitou ajudar por hoje? – disse meu chefe, sem pudor. Era um cretino e gostava de ser. Riram juntos e saíram do banheiro.
– Agora vamos ter que gastar com mais um. Mas é só não pagar muito que tá tudo certo. – Completou o outro sócio, enquanto saía do banheiro.
Meu chefe era um grandíssimo desgraçado. E porcos porque mijaram e saíram sem nem lavar a mão. Saí do banheiro e cumpri o resto do dia sem avacalhar e fazendo tudo que me foi solicitado. Dona Maria Aparecida me ensinou a ser homem honrado e não um moleque como esses sócios malditos. Meu ex-chefe me pagou os quatrocentos reais na hora e disse que o RH me chamaria para a finalização de documentos e todos os outros trâmites. Deixei meu crachá, chaveiro e adereços em cima de uma mesa. Infelizmente, ainda teria que ver a cara desses porcos mais uma vez. Peguei minhas coisas na minha mesa, xinguei todo mundo que vi mentalmente enquanto fingia um sorriso falso e dava tchau. Desci pelo elevador e quando botei a cara na porta de saída do prédio vi que a previsão de chuva não estava para brincadeira: chuva torrencial no Rio de Janeiro.
Teria que usar o guarda-chuva porque dessa vez nem uma corridinha até o ponto de ônibus me salvaria de ficar ensopado. Abri a minha mochila e ele não estava lá. Olhei para cima e perguntei para Ele porque hoje estava testando a minha paciência. Não obtive resposta, logicamente. O ponto de ônibus ficava a uns 7 minutos de distância andando, trajeto esse que eu fiz em aproximadamente quatro minutos correndo sem enxergar absolutamente nada na minha frente. No ponto deserto e escuro, apenas eu completamente ensopado e uma pessoa com o capuz escondendo o rosto, fone de ouvido escapando pelo moletom preto completamente encolhida no banco.
Sentei no banco e a sensação era de que nada podia piorar. Coisas ruins vem sempre em três: sem orientação, sem emprego e uma chuva absurda. Mas o que eu ainda não havia pensado é que a chuva não veio só para mim, veio pra todo mundo que estava fora de casa no Rio de Janeiro. Logo, provavelmente ainda haveria espaço para mais uma desgraça naquele dia. Cansaço, frustração, vergonha e mais alguns sentimentos ruins passando pela minha cabeça enquanto eu esperava o ônibus. Todo mundo passava correndo e os postes não iluminavam como deveriam. Só as lanternas dos carros passando.
“Será que eu vou dormir nesse ponto de ônibus com essa figura estranha e misteriosa aqui do meu lado? Será que a chuva vai subir a ponto de alagar a gente esperando o ônibus? Ou será que dá tempo de ser assaltado e perder esse dinheiro que ganhei no último dia de trabalho?” Minha mãe me ensinou a não pensar o pior porque isso atrai coisas ruins.
Enquanto eu descumpria a orientação dela e pensava em tudo de pior que poderia acontecer, o ônibus virou a esquina e eu levantei ao mesmo tempo que a pessoa ao meu lado. Dei uns passos para frente para poder entrar primeiro e talvez conseguir ir sentado nessa volta para casa. Minhas pernas e meu cérebro precisavam desse descanso. Ledo engano. Ônibus tão cheio que tinha gente parada antes mesmo da roleta. Botei a mão no meu bolso para pegar o cartão de transporte e aí veio a terceira desgraça: meu cartão ficava junto com o meu crachá da empresa, que eu havia devolvido no RH. Para quem anda de transporte público, perder o cartão é similar a perder um ente querido. Mas poderia ser pior, eu poderia estar sem dinheiro. Lembrei do pagamento da diária no meu bolso. Finalmente aquele lixo de chefe ia servir para alguma coisa.
A dificuldade para entrar era tão grande que eu e a pessoa atrás de mim ainda estávamos fora do ônibus. E a chuva não dava trégua. O cobrador era o próprio motorista e por isso, uma demora absurda para que entrássemos no ônibus. Não tinha nem como entrar no ônibus para parar de tomar chuva na cabeça. Finalmente percebi que a pessoa atrás de mim na verdade era uma menina e murmurava reclamações e palavrões. Isso me fez dar uma leve risada. Quando eu finalmente estava subindo as escadas do ônibus, falei:
— Boa noite, amigo. Você tem troco para 100 reais? – com toda educação e ternura na voz que aquele dia me permitia ter. Meu chefe havia me dado quatro notas de cem reais e era o único dinheiro que eu tinha comigo naquele momento. Eu nunca andava com dinheiro em papel, apesar das constantes broncas da minha mãe por causa disso.
— Tu tá maluco, meu amigo? Tenho troco nem pra cinquenta, quanto mais pra cem, cadê teu cartão, doidão? – respondeu prontamente o motorista. Atrás dele, uma bandeira do Vasco gigante. Provavelmente não estava de bom humor com a derrota por goleada no dia anterior.
— Não tenho mais cartão, meu amigo E só tenho essa nota de 100. Filho único. Poderia liberar lá por trás, só hoje? – fiz uma última tentativa.
— Impossível. Agora tá tudo com câmera, se eu deixar você passar eu que pago. E eu não tenho nem pra mim, quanto mais pros outros. Foi mal, meu consagrado. – respondeu o motorista.
A menina atrás de mim se enfezou por ainda estar pegando chuva e sobrou para mim. Com certa razão.
— Cara, eu pago o caralho da sua passagem, só entra nessa merda desse ônibus e me tira dessa chuva. – A voz era feminina, mas a grosseria era do nível Sylvester Stallone. Subi rapidamente a escada enquanto ela passava por mim e encostou o cartão dela na máquina para liberar seu acesso. Ao mesmo tempo, deu cinco reais para o motorista com a outra mão e esse liberou a minha passagem pela catraca. A menina nem quis saber do troco.
— Salvo pelo gongo! – disse ele enquanto apertava o botão para que eu passasse na roleta. Peguei o troco e fui me esgueirando até chegar ao fim do ônibus onde a menina conseguiu um lugar para se sentar. O ônibus voltou a andar e até tinha espaço para ficar na parte de trás. Enquanto eu forçava a passagem entre os passageiros em pé, olhei para frente. Nesse momento, a menina abaixava o capuz e o seu cabelo encaracolado se enrolava no fone de ouvido enquanto ela segurava na alça. A menina era absurdamente linda. Cara fechada de quem estava no pior humor possível no final do dia, moletom preto completamente encharcado (em parte por minha culpa) e ainda assim uma visão inebriante.
Quando consegui sair da confusão e chegar na parte de trás do ônibus, cutuquei seu ombro e agradeci o dinheiro da passagem. Sua reação foi olhar para cima e simplesmente acenar com a cabeça. Não tive tempo nem de falar sobre o troco. Talvez ela ainda estivesse com raiva de mim. Antes de sair, tentaria de novo pedir desculpas com mais educação e agradecer novamente. Por sorte, consegui sentar algumas paradas depois e na cadeira ao lado dela, separados apenas pelo corredor. Era impossível não olhar para ela ajeitando o cabelo ou mexendo no telefone. Me policiava apenas para não ficar encarando muito e não parecer algum tarado.
Ao passar pelo centro da cidade, muita gente desceu na Central e o ônibus ficou com apenas ela, eu e um velho bêbado conversando com o motorista enquanto ele tentava dirigir. Era muita coincidência aquele momento. Seria esse um sinal divino para tentar puxar assunto com aquela menina? Ela estava com fone de ouvido. Provavelmente não queria papo. Logo desisti da abordagem. Não estava nem com cabeça pra pensar em paquera, apesar da beleza da menina. Logo voltei a minha atenção para a janela do ônibus. Não dava para ver muita coisa na rua e o trânsito andava lentamente.
Quando olhei novamente para ela, estava tirando os fones de ouvido com uma cara de insatisfeita. A bateria do telefone parecia ter acabado. Outro palavrão. E na minha mente, outro sinal. Dessa vez eu tinha certeza. Virei pra janela e comecei a pensar no que falar. Tentar ser engraçado e quebrar o gelo? Pedir desculpas e ser o mais educado possível? Elogiar e tentar pegar o telefone dela? O ônibus voltou a andar e quando pensei em algo e virei para chamá-la, ela falou:
— Qual a cantada que você tá pensando me dar porque a gente tá sozinho no ônibus? Eu salto no próximo ponto. – Deu uma pausada e lembrou — E ah, você está me devendo cinco reais. Nem o troco você devolveu. – Ela me olhou no fundo dos olhos e eu tremi.
Gaguejei e tentei falar alguma coisa, mas só saiu desculpas e vou te pagar. Travei como há tempos não acontecia. Percebi que só sabia conversar com mulheres quando bêbado. Ela sorriu pela primeira vez e o sorriso a deixava ainda mais linda do que com aquela cara fechada. Achei que isso seria impossível. Botou a mochila nas costas, se levantou e foi em direção a porta de trás. Eu com cara de besta olhando a oportunidade indo embora. Na mochila um chaveiro de diabo. “Quem usa a porra de um chaveiro com um diabinho fofinho?” pensei. Ela apertou o botão para sinalizar que iria descer do ônibus na próxima parada e o meu cérebro voltou a funcionar.
— Nem o nome da minha ‘sugar mommy’ eu consigo saber? – perguntei quando ela já estava pisando no primeiro degrau debaixo. Arranquei uma gargalhada dela dessa vez.
— Mesmo sem você merecer eu vou te falar: meu nome é Malena. – falou ela um pouco mais alto. A porta fechou. Ela nem olhou para trás e me deixou embasbacado dentro do ônibus. Depois de perder a menina de vista, voltei a olhar para frente e o trânsito voltou a ficar parado no bairro da Lapa. Fiquei pensando em como o dia estava uma merda e do nada ficou excelente. Eu tinha que ver essa menina novamente. Estava fantasiando o meu futuro com ela até o velho bêbado me gritar pedindo dinheiro para comprar cachaça. O motorista ao me ver respondeu que eu não tinha dinheiro nem pra passagem e isso me arrancou uma grande gargalhada. Meu ânimo estava renovado após meu encontro com aquela menina. Quando desci do ônibus perto de casa, a chuva já havia diminuído. Fui sorrindo no caminho de volta pensando em Malena.
— Graças a Deus que você chegou, meu filho. Tava rezando bastante pra você chegar são e salvo. – disse minha mãe assim que abri a porta de casa.
— Reza um pouco mais porque hoje foi complicado – respondi bem baixinho, sem deixar ela ouvir para evitar um sermão a essa hora da noite. – Tem janta? – foi a real resposta para ela. Obviamente estava na panela minha janta pronta e deliciosa. Só a dona Maria Aparecida jamais falhou comigo. Comi e dormi rapidamente, não queria ter que explicar tudo que aconteceu para a minha mãe naquele dia. Sonhei com Malena, o sorriso, o chaveiro e o moletom preto. Não tinha como ser diferente.
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