Minha vida com a filha do Diabo
2 Eu preciso achar essa menina
Quando acordei pela manhã seguinte, tinha alguns problemas para resolver, dentre eles os mais relevantes seriam um novo emprego e um novo orientador. Nada disso seria resolvido no final de semana. Era sábado de manhã, então, eu comecei a pensar no problema mais importante de todos: como eu poderia encontrar de novo aquela menina maravilhosa? Sentei na cama e comecei a procurar na rede social. Nome fácil, diferente, talvez tivesse alguma sorte pesquisando. Nada. Tentei Malena com vários L’s, com vários N’s e consegui absolutamente nada. Será que eu havia ouvido errado?
Vamos as informações que eu tinha: nome, estudante da universidade estadual, ponto de ônibus onde saltava nas sextas-feiras era na Lapa, chaveiro de diabo na mochila. E só. Como iniciar uma procura por alguém assim no Rio de Janeiro inteiro? Não tinha muito o que fazer nesse momento. E se eu achasse, o que eu iria falar? Te procurei e agora estou parecendo um perseguidor aqui atrás de você. Seria rejeitado na hora. E se ela tivesse namorado? Ou namorada? Muitas perguntas, poucas respostas. Todas interrompidas pela minha mãe batendo na porta perguntando se eu tinha pegado muita chuva e se estava com sintomas de resfriado. Hora de levantar.
O final de semana passou correndo como sempre e na segunda-feira chegou um e-mail para que na sexta-feira eu comparecesse no meu antigo trabalho para finalizar a papelada da demissão. Só podia ser um sinal. O esquema seria simples: tentar chegar no ponto de ônibus no mesmo horário da sexta passada e forçar esse encontro novamente. Estava sem emprego e ainda sem orientador, mas o importante nesse momento era conseguir chamar essa garota para sair. Não lembrava de ter ficado obcecado por ninguém dessa maneira. Está bem, obcecado ficou bem pesado. Mas realmente queria encontrar com ela novamente. Diferente do final de semana, o meio desta passou de forma vagarosa. Sem estar trabalhando, passei a semana indo para a aula e depois voltando cedo para minha casa, que era louvor a tarde inteira e missa na televisão pela noite. Eu amo minha mãe, mas aquela semana foi insuportável de aturar. Quase me fez sentir saudades de ser escravizado no estágio.
Chegou a sexta-feira e eu não havia arrumado um emprego e nem um orientador. Porém, estava animado e me arrumei todo para simplesmente assinar documentos e pegar minha carteira de trabalho. Roupa ‘de sair’, meu melhor perfume e nem minha mãe entendeu o porquê de eu estar tão feliz. Saí de casa e nada poderia me abalar. Eu tinha a certeza de que naquele dia iria encontrar de novo a mulher dos meus sonhos.
— Você volta hoje pra casa, filho? – gritou a minha mãe, enquanto eu pegava carteira, chave e celular.
— Se Deus quiser, não. – Respondi com um sorriso no rosto, enquanto fechava a porta. Minha mãe não entendeu nada, mas fez o sinal da cruz e falou para que eu fosse com Deus. Seria bom contar com a ajuda dele mesmo.
Com os documentos na minha mochila, entrei no ônibus e fui em direção ao meu antigo trabalho. Lá dentro, absolutamente ninguém falou comigo direito e eu também não fiz questão de cumprimentar ninguém, fui direto para a sala do RH, peguei o que tinha que pegar, assinei o que tinha que assinar e fui embora. O novo funcionário já estava no meu lugar, assim como uma auxiliar de limpeza. Minhas duas funções na empresa já estavam cobertas e eu não iria fazer nenhuma falta naquele lugar. Como foi muito rápido, fiquei conversando e me despedindo apropriadamente do porteiro do prédio. O único que havia me tratado decentemente nos tempos de empresa. Falamos um pouco sobre futebol e quando deu o horário aproximado da última vez, fui andando calmamente para o ponto de ônibus. Dessa vez não havia chuva e eu não queria chegar desarrumado. Era o momento de eu finalmente conseguir falar com Malena sem gaguejar. O discurso já estava ensaiado (incessantemente no espelho) e não tinha como errar de novo.
Novamente, o ponto de ônibus estava vazio e escuro e eu sentei no lugar que estava Malena da última vez que havia pego o ônibus. Por se tratar de um lugar meio perigoso, iria ficar ali por vinte ou trinta minutos até ela aparecer. Se não a visse, não era pra ser. Trinta minutos se passaram e eu resolvi que entraria no próximo ônibus que me servisse e ele logo apareceu na esquina. Estava completamente decepcionado, mas não iria botar minha integridade em risco pelo encontro com a menina. Ao menos, eu havia tentado. Bola pra frente.
Enquanto estava subindo as escadas do ônibus, duas meninas corriam e gritavam para o motorista e então para que elas pudessem entrar no ônibus, resolvi esperar para que elas pudessem entrar. Eram duas meninas que estavam com uma blusa de alguma festa do curso de pedagogia. Ambas também estavam com uma lata de cerveja na mão e ao chegarem perto de mim agradeceram a minha gentileza. Deixei as duas passarem na minha frente e esperando na fila para pagar, uma delas falou para a outra:
— Amiga, eu tenho que ir correndo encontrar meu namorado, chopada na universidade é coisa pra gente solteira. Não posso ficar mais aqui. – E foi subindo as escadas segurando nas barras com muita força para não cair. Um estalo na minha mente. Nem cheguei a entrar no ônibus e voltei para o ponto. Saí da fila e percebi onde deveria procurar Malena: na chopada da universidade estadual.
Atravessei a rua, andei alguns metros e subi as escadas rumo ao salão de festas. Cruzei o portão principal e o vigia apenas acenou pra mim. Aquela portaria já estava lotada de gente bebendo, assim como no hall dos elevadores, várias rodinhas cheias de bêbados conversando sobre qualquer assunto. Nenhum deles era a menina que eu procurava. Fui seguindo a festa pelo som alto que tocava de funk e me achei facilmente. O chão da universidade com algumas latas jogadas, apesar de algumas lixeiras e sacos pendurados para evitar isso.
Encontrei o local da festa, que estava abarrotada de gente. Fui me esgueirando pelo meio das pessoas, passando pelo chão molhado de cerveja, gelo derretido ou qualquer coisa que fosse aquilo. Enquanto eu andava, muita gente esbarrava em mim e havia a sensação de que eu era a única pessoa sóbria no evento naquele momento. E não eram nem dez horas da noite. Depois de rodar por alguns minutos procurando algo ou alguém que fosse familiar, parei para comprar uma cerveja. Afinal, também sou filho de Deus. A fila estava enorme e avançava a passos lentos. Depois de muitos minutos, cerveja comprada e eu poderia voltar a procurar pela menina.
Passei o resto do evento observando, olhando para todos os lados e procurando por Malena incessantemente. Comprei algumas fichas de cerveja e na medida que ficava mais “altinho” mais difícil era enxergar alguma coisa naquela festa. Que parecia ficar mais lotada a cada minuto. Quando peguei meu celular para ver o horário, vi que haviam passado duas horas e eu já tinha procurado por todos os lugares possíveis do evento. Não havia mais o que fazer naquele momento. Realmente, não era para acontecer o nosso encontro. A música estava insuportavelmente alta, então resolvi me afastar para um canto do evento, onde havia um bosque com alguns bancos, quase sem ninguém por perto. O cheiro forte de maconha, porém, me indicava que não era exatamente deserto.
“Que merda!” pensei enquanto dava mais um gole na cerveja. Pensei que nesse canto escuro seria o momento ideal dela aparecer, me reconhecer e eu finalmente poder falar com ela de novo. Alguns bancos de pedra eram cobertos por algumas árvores e a música tocava um pouco menos alto naquele canto do evento. Pensei em terminar aquela última latinha de cerveja e ir embora. Observava as pessoas que passavam, mas a visão já turva pela bebida e o canto escuro onde eu estava dificultavam bastante minha busca pela menina. Último gole. Apoiei as mãos no banco e dei aquela levantada de bêbado para medir o quanto estava complicada a minha situação. Deveria ter bebido um pouco menos. Enquanto conferia meus bolsos para ver se tudo estava comigo, um milagre. Uma voz masculina gritando:
— Malena, volta aqui garota! Para de palhaçada! – E enquanto eu levantava a cabeça, o mesmo moletom preto, a mesma mochila e o mesmo chaveiro passavam na minha frente, muito rápido.
Atrás dela, o dono da voz corria, passava por mim e a puxava pelo braço. Os dois pararam a alguns metros de distância quando o homem conseguiu a alcançar e puxou seu braço de forma desengonçada. Aparentava estar impaciente, mas parou para ouvir o que ele tinha para falar. Seu semblante era o mesmo, emburrado, como quando a havia feito pegar chuva antes de entrar no ônibus. O homem, visivelmente bêbado, tentava fazer com que Malena continuasse e o ouvisse. Sentei no banco novamente para acompanhar a cena, pronto para torcer contra ele caso tentasse qualquer investida.
— Foi uma brincadeira, cara. Eu sempre achei que você era a fim de mim. Vai dizer que você não queria me beijar? – perguntou o bêbado. Estava com uma calça jeans, uma blusa básica e uma caneca pendurada no peito, com uma faixa segurando.
“Cacete! O cara já beijou ela” foi minha primeira reação sentado no banco. Dei uma leve incomodada com aquela situação e me peguei tendo ciúme de uma pessoa que eu nem conhecia. Será que a disputa já estava perdida antes mesmo de eu tentar jogar? No entanto, a reação dela ao beijo não foi das melhores. Talvez eu ainda tivesse chance.
— Pedro, você é meu amigo. Não tem nada a ver. Você está bêbado! Não viaja! – respondeu Malena, agora visivelmente chateada com o beijo que havia sido roubado alguns momentos antes. Ela andava de um lado para o outro e tentava ser o mais compreensiva possível com o “amigo” bêbado.
“Ainda tenho chance. Enquanto tem bambu tem flecha.” Comemorei discretamente como se fosse um gol do meu time. Inclinei ligeiramente o corpo na direção deles, disfarçando o movimento, como quem apenas ajusta a postura, mas tentando captar melhor o que diziam, mas parei de conseguir ouvir o que falavam porque alguém começou a falar alguma coisa no microfone no palco da festa e a menina falava insuportavelmente alto. A discussão começou a ficar mais ríspida e Malena gesticulava e argumentava com o dedo em riste e ele tentava acalmar a menina, pegar em seu braço, mas ela se desvencilhava de todas as tentativas de aproximação do tal amigo. Só voltei a ouvir alguma coisa da discussão quando novamente o tal Pedro se curvou para frente e tentou beijá-la novamente. Malena gritou um “Sai, Pedro!” bem alto, e eu me levantei do banco para protegê-la. Mas como explicar a chegada do “herói” naquele instante? Acabaria parecendo tão inconveniente quanto o homem parado à sua frente.
E, analisando bem a situação, percebi que ela não precisava nem um pouco da minha ajuda. O empurrão que deu foi tão forte que Pedro quase caiu para trás, provavelmente auxiliado pelo efeito da bebida. Antes que ele esboçasse qualquer reação, ela o encarou e estalou os dedos. Foi então que testemunhei uma das cenas mais bizarras que já vi: o sujeito começou a vomitar, e não parava. Não era o típico vômito de bêbado – era como uma cena de “O Exorcista”. A garota do filme teria inveja da quantidade que Pedro despejava sobre os próprios sapatos e o chão da festa. Grotesca a cena que parecia ter sido causada pela própria menina.
Malena segurou as alças da mochila e saiu correndo entre as pessoas da festa, deixando Pedro lá, vomitando. Eu, ainda tentando entender o que acabara de acontecer, fui atrás tentando acompanhar. Pedro estava fora de cena, mas eu não. No meio da multidão, consegui localizar Malena pelo chaveiro que brilhava no escuro pendurado na mochila. Ela seguia em direção à saída da festa, e eu a acompanhei, mantendo uma distância segura. Ela caminhou até o ponto de ônibus, apressando o passo, e sentou-se exatamente no mesmo lugar onde a havia visto pela primeira vez, tentando segurar o choro. Eu, fazendo o possível para não parecer bêbado, me aproximei devagar. Havia poucas pessoas no ponto de ônibus, mas ela não havia me notado.
Apoiado no banner do ponto de ônibus, meu cérebro bêbado ensaiava mil vezes o que falar. O ônibus não demorou mais de cinco minutos dessa vez e eu deixei todos que iriam pegar a mesma linha entrarem na minha frente. Fui o último da fila. Malena se apressou e foi a primeira a entrar pela porta da frente do veículo. Após algum tempo, a fila inteira entrou no ônibus e só a minha coragem ficou do lado de fora. Hesitei em passar da catraca e o motorista perguntou se eu iria passar ou não. Criei coragem, paguei a passagem e fui cambaleando lentamente pelo corredor do ônibus. Avistei Malena sentada, com o braço apoiado na janela, olhando distraída para a paisagem. Ela nem percebeu quando me sentei na fileira ao lado, novamente do outro lado das cadeiras.
Malena passou a viagem olhando para a paisagem da janela e eu olhando para ela. No meio do caminho, a menina começou a chorar timidamente e secar as lágrimas com a manga do moletom.
Quem carrega um paninho na mochila? O filho de dona Maria Aparecida, claro. Revirei o menor compartimento e tirei o pano que minha mãe, sempre prevenida, havia colocado ali. Segurei-o na mão, tentando juntar coragem para fazer alguma coisa com ele. À medida que o ônibus se aproximava do centro da cidade, o movimento foi diminuindo, e, pouco a pouco, quase todos os passageiros desceram. Mais uma vez, estávamos apenas eu e Malena, no silêncio pesado daquele ônibus vazio.
“É só um pano” pensei enquanto esticava o braço e cutucava o braço esquerdo dela. Eu estava bêbado. Coragem líquida correndo por todo o meu sangue.
— Você me deve cinco reais — disse ela, olhando para mim enquanto pegava o pano e enxugava os olhos. Depois, abriu um sorriso tímido e agradeceu baixinho.
Ela ter se lembrado de mim me fez sorrir também, mas me fiz de desentendido e perguntei se havia acontecido algo para ela estar chorando daquela maneira.
— A vida. As pessoas. As coisas que a gente não pode controlar e nem escapar. – Não olhava para mim enquanto respondia à pergunta. Mas quando me olhou para devolver o paninho entendi porque estava correndo atrás como um idiota dessa garota.
Malena tinha um sorriso perfeito, com os dentes bem alinhados e um sorriso perfeito. Sua cor parda de sua pele radiante era perfeita. Seus cabelos negros e volumosos balançavam suavemente com o vento que entrava pela janela do ônibus, destacando ainda mais seu rosto delicado e seus olhos expressivos. Os olhos cor de mel transmitiam uma mistura de doçura e força. A beleza dela, tão natural, se refletia em cada traço do rosto, revelando uma autenticidade que era impossível não notar. Ela tinha uma graça única, uma presença que atraía atenção sem esforço, e, de alguma forma, parecia que podia conquistar o mundo com um simples sorriso. Exagerei um pouco? Talvez, mas é que eu nunca tinha visto ninguém chorar e ainda assim parecer tão bonita. A bebida talvez tenha falado mais alto.
Enquanto eu a observava, acabei esquecendo de puxar assunto ou dizer qualquer coisa por alguns segundos. Ela riu, como se percebesse a minha distração, e começou a se preparar para descer do ônibus. Deu um tchau tímido com as mãos e esboçou um sorriso de canto de boca. Eu não podia deixar essa oportunidade escapar novamente. Era o momento de agir, de tentar algo. Sem pensar demais, para não hesitar. Sem dizer muito, para não gaguejar. Três, dois, um.
— Eu sei que estou te devendo, mas posso te pagar agora se você beber algo comigo — tentei dizer, embora as palavras saíssem um pouco emboladas. Mas, pelo jeito, ela entendeu o que eu quis dizer. Ou ao menos supôs. Segurando na barra entre as cadeiras do ônibus, Malena olhou para trás e, com um sorriso discreto, disse: "Desce comigo." O salto que dei da cadeira, cheio de pressa e talvez até um pouco desajeitado, deixaria chocado até os atletas olímpicos.
O boêmio bairro da Lapa. Nunca tinha parado lá, muito por conta das histórias que minha mãe contava – dizia que todo mundo acabava sendo assaltado, que só tinha mendigos morando nas ruas, travestis dando facadas em quem passava, prostitutas espancando os outros, encostos e espíritos ruins vagando por ali, e uma série de outras histórias que entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Mesmo assim, essas histórias me impediam de conhecer o lugar de verdade, apesar de morar a menos de dez minutos dali. Na prática, eu sabia tão pouco sobre a Lapa quanto alguém que morava em outra cidade.
Malena desceu do ônibus e atravessou a rua na direção dos arcos da Lapa. Como sempre, o trânsito estava parado naquela região, então passávamos pelos carros e eu apenas seguia a menina com sua mochila apoiada em um dos ombros e seu moletom preto. Finalmente, pude reparar que ela estava usando uma calça jeans escura, que realçava ainda mais sua beleza. E, além de linda, tinha um corpo impressionante, com curvas que não passavam despercebidas. Não tem jeito, o olho vai direto para o que interessa. Atravessamos a rua e entramos em uma rua estreita de paralelepípedos onde um funk começou a tocar mais alto saindo de um casarão. Mas também tocava rock vindo de outro bar sujo e também o que parecia ser um ponto de umbanda. Tudo misturado. Finalmente a alcancei e subimos lado a lado uma ladeira pequena. A estátua era de Zé Pilintra, o típico espírito boêmio e astuto, com sua postura descontraída e sorriso maroto. Estava vestido com um terno branco, com a calça levemente dobrada e a camisa vermelha aberta no peito, como um símbolo de elegância casual. A estátua, apesar de imponente, estava um pouco desgastada pelo tempo. As cores do terno e do chapéu haviam perdido parte da vivacidade, e alguns detalhes da escultura estavam ligeiramente apagados, provável ação do vento e da chuva. Muitos moradores de rua estavam sentados em frente a ela comendo ou tomando cachaça. Não vou negar que estava claramente assustado com aquela movimentação.
Entramos em uma rua sem saída onde uma multidão de jovens estava parada em frente a um casarão antigo, de paredes brancas com detalhes azuis que, embora já bastante desbotados. A fachada estava marcada por várias pichações, mas o casarão parecia imenso por dentro, com janelas altas e portas de madeira que sugeriam um espaço vasto e misterioso. Na rua, o movimento era constante, com gente de todos os tipos passando ao meu lado, enquanto uma fila gigantesca se formava em frente à porta, quase cruzando para o outro lado da rua. Eu não sabia para onde estava sendo levado, mas sentia que Malena tinha um destino claro em mente. Caminhamos até o final da fila, e ela perguntou aos últimos em fila se ali era a fila para a bebida. Os dois gringos, com um português arrastado e engraçado, confirmaram, e ela se posicionou atrás deles. Foi então que, finalmente, depois de todo o trajeto pela Lapa, ela olhou para minha cara de novo.
Nesse momento, eu olhava ao redor, assustado com o que se passava naquele lugar. Moradores de rua, gringos, bêbados, trabalhadores acabando o expediente, crianças correndo e jogando futebol no meio da rua, ambulantes com suas barracas improvisadas. Uma mistura de caos que, de alguma forma, parecia funcionar à sua maneira. Ela sorriu e me disse para ficar tranquilo. "Aqui, todo mundo se conhece." Bem, eu não conhecia ninguém. Nem ela, na verdade, eu conhecia direito, mas havia alguma coisa naquela menina que me parecia familiar, como se, de algum jeito, já a tivesse conhecido antes. Paixão ou bebida falando mais alto.
Enquanto a fila andava num ritmo rápido, ela me explicou que eu iria pagar a dívida com uma caipirinha de cinco reais e incríveis 700 ml. E que eu teria que experimentar também com ela. Enquanto ela sorria me contando empolgada a história da dona do lugar e de como o estabelecimento estava ficando cada vez mais famoso, não dava mais para negar o pedido. Ainda mais estando bêbado das cervejas da choppada. Diferente da menina mal encarada do ônibus, Malena era extremamente falante e ia engatando uma história na outra. Eu apenas acenava com a cabeça enquanto ela emendava histórias sobre a Lapa, sobre os arcos, sobre o bonde de Santa Teresa e me fez sentir numa excursão turística no meio de uma sexta-feira à noite. E eu nem havia experimentado a caipirinha ainda.
Quando chegou nossa vez, eu pedi uma tradicional de limão e ela pediu sua favorita, a de maracujá. Fui obrigado a experimentar e a dela era horrível. Não falei nada para não causar má impressão. Paguei as duas caipirinhas e enquanto ela tomava os primeiros goles e andávamos em direção a alguma escada com nome engraçado que não consegui entender, tentei saber mais sobre ela.
— Você mora por aqui na Lapa mesmo? E estuda na estadual? Nos vimos no mesmo ponto de ônibus duas vezes. – Despretensioso. Não parecia perseguidor. Perguntas básicas e assunto garantido.
— Já quer saber onde eu moro? Não acha que tá indo rápido demais? Lembrando que eu ainda nem sei seu nome, paninho cheiroso. – disse ela, gargalhando com o apelido recém dado para mim.
— Bento. – Nossa, que vacilo absurdo. Eu não havia me apresentado. Dei mais um gole grande depois de perceber esse erro básico. – Eu moro na Glória com minha mãe, tenho 22 anos, trabalho, aliás, trabalhava ali perto da estadual e agora estou tomando caipirinha de procedência duvidosa num bairro completamente duvidoso, com uma garota que eu só sei o nome. E é completamente duvidosa. – Sorri simpaticamente sinalizando a piada.
Ela deu um gole e pensou no que eu havia falado. A resposta foi rápida, ácida e cirúrgica.
— Então, você mora com a mãe, não se apresenta para pessoas que conhece, não tem emprego, vai na festa da faculdade das pessoas e não fala com elas... – Ela enumerava os meus “vacilos” e quando falou da faculdade parou e olhou para mim com um sorriso no rosto – Ou você acha que eu não te vi lá sentado com olhar perdido bebendo cerveja?
“Como ela tinha me visto?” eu pensava enquanto tentava formular uma resposta. Enquanto eu dava mais dois goles grandes na minha bebida ela me apontou a escada colorida que estava lotada de gente. Decidi que a estratégia seria a verdade e que não iria mentir, nem inventar desculpas.
— Eu fui atrás de uma pessoa na festa, mas quando cheguei ela já estava com outro cara. Aí me questionei se ela estava namorando ou não... – falei quando sentamos na escadaria depois de subir uns degraus e nos afastarmos um pouco dos turistas e do pessoal fumando maconha. Ela me olhou com um semblante que não consegui decifrar, talvez preocupada por eu ter saber onde ela estudava e ter ido atrás.
— Antes que você pense coisa ruim de mim, eu tenho uma explicação plausível. — falei pra tentar consertar a situação.
Malena disse que estava apenas com amigos da faculdade e que não tinha namorado e nem estava ficando com ninguém. Aproveitei para esclarecer e contar tudo o que havia acontecido nos últimos dias, finalizando com a minha tentativa frustrada de encontrá-la na festa, até o momento da confusão com o seu amigo. Ela me explicou com mais detalhes a situação com Pedro e a bagunça que ele havia feito com aquele beijo forçado. Perguntei mais uma vez se havia algum interesse dela por ele, mas Malena negou de imediato e reforçou que não tinha nada a ver com aquilo. Rimos e demos um gole simultâneo em nossas bebidas.
— Quer dizer que, além de tudo de ruim que já falei, você também é um stalker, Bento? — ela perguntou, terminando sua bebida. Percebi que a minha ainda estava pela metade, mas minha cabeça já começava a girar. — Realmente, eu tenho um péssimo gosto para garotos — ela completou, com um sorriso irônico, enquanto se recostava na escadaria.
— Isso aqui é um encontro? — perguntei, tentando brincar com a situação, mas sentindo uma tensão no ar.
Ela me encarou nos olhos, sem hesitar, e respondeu séria:
— Se você se comportar bem, talvez.
Ali, o jogo já estava perdido para mim. Eu estava completamente envolvido por aquela garota misteriosa. Conversamos sobre a vida, música, filmes, séries, até sobre novela e futebol. Não tínhamos absolutamente nada em comum, nenhum gosto semelhante. Mas a conversa fluía com tanta naturalidade que mal percebemos o tempo passar. Minha caipirinha terminou sem que eu notasse, e, quando vi, eu estava me abrindo completamente para aquela estranha, contando fatos constrangedores e a minha vida inteira. A cada risada mais alta dela, eu sentia um toque leve no meu braço esquerdo. A cada implicância ou piada, um tapa brincalhão que sempre vinha acompanhado de um sorriso aberto e uma gargalhada contagiante.
Naquela noite descobri que Malena não fumava nada e odiava fumaça, que só bebia a bendita caipirinha de maracujá daquela casinha, mas que não gostava de ficar bêbada. Descobri que na verdade ela morava em Santa Teresa e não na Lapa, que amava cinema francês e que não gostava de churros e nem de açaí. Que nunca havia namorado e que gostava de ver o nascer e o pôr do sol na praia do Arpoador. Odiava refrigerante e amava andar de bicicleta. Por mais que tivesse demorado para aprender porque pegou trauma quando caiu várias vezes seguidas. Que fazia faculdade de filosofia e que adorava estudar sobre a história da igreja católica. Odiava rede social. E a informação mais importante de todas: estava solteira e gostava de homens. Meninas? Ela não gostou da experiência na faculdade, ou será que gostou? Essa parte a caipirinha havia apagado da minha memória.
— E esse diabinho pendurado na mochila? Qual é dessa história? – perguntei em dado momento da conversa.
— Ah, é uma piada interna com o meu pai. – Foi a primeira vez que mencionou a família na nossa conversa inteira. E a primeira vez que o assunto morreu porque ela não deu prosseguimento. – Ela desviou o olhar e ajeitou o cabelo e mesmo bêbado, percebi que não seria um tópico para explorar. Mudei o assunto para falar mal de alguém que passava e provocar alguma risada.
Falando em família, eu não havia avisado para minha mãe onde eu estava ou dado algum sinal de vida. A consequência foram 13 ligações perdidas no meu celular que estava no modo silencioso. Já eram quatro e vinte da manhã. Mandei uma mensagem para minha mãe e torci para que ela lesse a tempo e não morresse do coração. Voltei para o degrau da escadaria onde estava Malena e falei que horas eram. Até ela se surpreendeu com o horário e o quanto havíamos ficado conversando. “Hora de ir embora” me falou enquanto se ajeitava. Quando estava pegando sua bolsa entreaberta, uma bíblia caiu no chão da escadaria.
“Quem carrega uma bíblia na bolsa da faculdade?” me perguntei. Mesmo sabendo do tema de pesquisa dela, a curiosidade me fez perguntar, em tom jocoso, o que estava na minha mente. Algo no meu cérebro me disse para soltar aquela pergunta, sem pensar muito.
— Ah, quem não se interessaria num livro onde tem a história da sua família? – respondeu ela enquanto descia apressada e me puxava para acompanhá-la.
“Como assim família?” pensei enquanto corríamos para tentar pegar o último ônibus. Malena me puxava pela mão e eu me senti na novela de época das seis horas onde a mocinha pega o mocinho pela mão e eles ficam todos arrepiados com a sensação. Ou seria o simples medo de vomitar por estar correndo a toda velocidade, entre os carros na Lapa, tentando alcançar o ônibus? Depois de uns cinco minutos correndo, que pareceram trinta para o meu corpo sedentário e alcoolizado, finalmente chegamos ao ponto que subia para Santa Teresa. Era a hora da verdade.
Todos os estabelecimentos da rua estavam fechados, exceto um bar do outro lado da rua em frente ao ponto de ônibus. O motorista bocejava enquanto conversava com o fiscal que esperava sentado, anotando alguma coisa em sua prancheta.. Uma senhora já estava dentro do ônibus com o braço para fora e um papelão enorme ao seu lado. Dois garotos e uma menina com aparência cansada e alcoolizada também esperavam o horário de partida sentados no banco. O ponto ficava em frente a uma loja fechada, onde Malena e eu tentávamos recuperar o fôlego depois da correria. Quando finalmente conseguimos respirar sem tanta dificuldade, ficamos de frente um para o outro, prestes a nos despedir. Eu não queria ir, e, ao olhar para ela, percebi que ela também parecia relutante. Nos encaramos por um momento, até que ela quebrou o silêncio.
— Gostei muito dessa noite, Bento — disse Malena, com um sorriso no rosto.
— Então posso considerar isso um encontro? — respondi, tentando reunir coragem para pegar sua cintura. Minhas mãos iam e voltavam, hesitantes.
— Pode sim. Uma pena ter que acabar agora... mas tô indo! — Ela olhou para o motorista, que já estava indo para dentro do ônibus para dar partida, e começou a caminhar em direção à porta.
Num impulso, puxei sua mão e perguntei, com um sorriso tímido:
— Não seria bom terminar um encontro perfeito com um beijo?
Orgulhoso de mim mesmo, finalmente tomei coragem aos 45 do segundo tempo. Malena virou-se para mim e, com um olhar sério, respondeu:
— Bem, o dia começou com um beijo que eu não queria... — Um toque de derrota. — Mas acho que pode terminar com um que eu quero muito.
Ela deu dois passos à frente e, para minha surpresa, me beijou. Foi o beijo mais esperado e, ao mesmo tempo, o mais espontâneo. Vitória. Eu já estava completamente apaixonado por aquela menina. Ferrou. O beijo foi rápido, ela precisava entrar no ônibus. Soltei sua mão, e ela deu uma corridinha até a porta. Pagou a passagem com o cartão e, ao se aproximar da janela, me olhou. Eu fiquei parado, ainda com o gosto do beijo nos lábios, e então me dei conta do mais importante. "O telefone! Eu tenho que pegar o telefone dela!"
Falei um pouco mais alto do que pretendia:
— Me passa teu telefone!
Ela sorriu, pegou o celular e me passou o número. Tirei o telefone do bolso da minha calça e comecei a registrar vagarosamente o número dela nos meus contatos. Salvei com seu nome e sorri quando terminei, segurando o celular com uma cara de bobo. Sinal verde e fim do papo do motorista com o fiscal. O ônibus começou a andar bem devagar e enquanto eu segurava o celular distraído, passou um moleque correndo muito rápido e o levou na velocidade da luz. Não podia ser. Aquilo não iria acontecer
Reagi até que rápido para um bêbado e comecei a correr atrás do meliante. Ela, com a cabeça para fora do ônibus, ficou em pé, tentando entender o que estava acontecendo, e eu olhei para ela. Novamente, tive a impressão de ver Malena olhando fixamente para o garoto e estalando os dedos. Eu tinha certeza de que a vi fazendo o movimento. Olhei para frente, e, de repente, o garoto caiu estatelado no chão, na esquina da rua, enquanto eu corria atrás dele. Quando cheguei perto, ele estava gritando de dor, com a perna quebrada, e eu consegui recuperar meu celular, que estava caído no chão. Algumas pessoas estavam tentando ajudar e chamar o SAMU. O ônibus subia a rua em direção a Santa Teresa, e eu não sabia se aquilo era fruto da minha imaginação ou se realmente havia acontecido. Fiquei olhando para a propaganda de cerveja na parte de trás do ônibus até ele fazer a curva e desaparecer de vista. Botei a culpa na caipirinha e nas cervejas por tudo o que eu achava que tinha visto. A sensação de confusão e a mistura de álcool na cabeça me deixavam com a impressão de que talvez eu estivesse exagerando. Fui andando em direção ao ponto de táxi.
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Para não parecer muito emocionado, decidi que só mandaria mensagem no dia seguinte. Meu cérebro tentava ignorar o beijo, mas ao chegar em casa, depois de pegar um táxi, minha mente foi tomada por um sonho bizarro: Malena, com uma expressão decidida, distribuía tiros aleatórios para o alto enquanto descia a tal Escadaria Selarón. Malena também havia feito questão de me contar a história da escadaria colorida. Minha mãe já estava dormindo e a bronca também ficaria para o dia seguinte. Quando acordei, ou na verdade, fui acordado por minha mãe batendo na porta do meu quarto, percebi que havia dormido com a roupa do corpo. E que ainda eram 9 da manhã de sábado. Foram aproximadamente cinquenta minutos de falatório dos quais eu não prestei atenção em nada, exceto quando ela mencionou que eu precisaria ir à igreja para limpar o corpo que havia andado pela Lapa e por aquelas áreas sujas, cheias de "coisa ruim". Como estava no erro, assenti com a cabeça e continuei deitado, sem dizer uma palavra. Finalmente, ela saiu, me deixando sozinho e com espaço para refletir sobre o que realmente importava.
Se você acha que esse parágrafo vai começar falando sobre o fato de ela ter estalado os dedos duas vezes numa mesma noite e, a partir disso, algo estranho ter acontecido, você está completamente enganado. Eu só conseguia pensar em como e quando eu poderia beijá-la novamente. Segurei o máximo possível de ansiedade e só após o almoço enviei a mensagem de texto para que ela soubesse que estou vivo e salvasse meu número no telefone dela. Para não dizer que não havia pensado sobre o fato estranho do estalo dos dedos, eu pensei nisso ao ver que meu celular agora tinha uma leve rachadura na tela por causa do tombo que ele tomou quando o ladrão quebrou a perna e deixou cair ele no chão. Eu tinha tomado muitas cervejas e caipirinha. Provavelmente aquilo havia sido impressão minha.
A resposta de Malena não demorou tanto. “Número salvo. Sonhou comigo essa noite? Bj”. Fiquei olhando a mensagem por muito tempo com um sorriso gigante no rosto. Até minha mãe perguntou o que tinha de tão engraçado no telefone. Fui para o quarto e começamos a conversar por mensagem. Ela não demorava para responder e o papo fluía naturalmente. Quando um assunto encerrava outro completamente diferente surgia. Fui para a igreja com minha mãe e lá não poderia ficar de papo. Mandei como última mensagem antes de colocar o telefone no modo silencioso “E quando eu vou te encontrar novamente sem o motorista atrapalhar nosso beijo?”
Duas horas depois, olhei para o telefone em busca da resposta de Malena, mas ainda não havia nenhuma notificação. Saí para jantar com minha mãe, e, finalmente, aproveitamos a oportunidade para conversar sobre os problemas que eu estava enfrentando. Sempre muito compreensiva, ela me deu conselhos, citou passagens da bíblia e me garantiu que estaria ali para me apoiar em tudo o que eu precisasse. Comentei que, enquanto não resolvesse nada na minha área, tentaria voltar para a loja de sapatos e que procuraria na faculdade inteira um novo orientador. Não mencionei nada sobre a saída do dia anterior e nem sobre Malena e após aquela sexta agitada, mais um final de semana passou num piscar de olhos. E sem resposta no meu telefone.
Passei aquele final de semana inteiro pensando que havia feito besteira e forçado demais a situação. O papo estava correndo bem, era só continuar falando que uma hora chegaria no assunto de sair de novo. Havia me precipitado. Mas não iria mandar outra mensagem para puxar assunto. Também tinha meu orgulho. Porém, estava morrendo de vontade de mandar outra mensagem. Na segunda-feira, eu já tinha emprego novamente. Meu ex-chefe da loja de sapatos havia me recontratado. Estavam precisando de gente e ele sabia que poderia confiar em mim. Na terça-feira um novo orientador. O professor Arnaldo deixara uma carta de recomendação em meu nome para que outro professor assumisse o projeto. Ao contar para sua futura esposa, Mandala, ela pediu para que ele não deixasse nenhum laço aberto com sua vida de professor e que conseguisse repassar todos os seus orientandos para outros professores. Essa havia sido a explicação que ele havia passado para a secretária que trabalhava na faculdade. Ao menos a jovem mística não era completamente desmiolada como parecia. Peguei a carta na secretaria da faculdade e rezei a Deus para que mandasse todas as bênçãos do mundo para essa família maravilhosa. As coisas voltavam gradativamente para seu lugar, mas eu ainda não tinha nenhuma resposta de Malena. Havia sido completamente ignorado.
Voltei à rotina de faculdade e trabalho, mas aquela garota não saía dos meus pensamentos. Numa quinta-feira, após o expediente, peguei meu ônibus de volta para casa. Quando passei pela Lapa, coloquei a cabeça para fora da janela e fiquei relembrando os lugares que havíamos passado no nosso encontro, tentando entender porque havia sido ignorado por Malena.
Nesse momento, meu celular vibrou no meu bolso. Era uma mensagem de texto de Malena. “Desce do ônibus no próximo ponto agora!” Não podia ser verdade. Olhei em volta, ainda incrédulo, e peguei minha mochila que estava ocupando o banco ao lado. Puxei a cordinha para fazer sinal para o motorista, e quando o ônibus parou, desci. Sentei no ponto de ônibus, ainda atordoado, tentando processar a mensagem. Foi então que, ao olhar para trás, vi Malena correndo em minha direção, com a mochila apoiada no ombro e um sorriso no rosto, como se o tempo desde aquele sábado nunca tivesse existido. Ela não parecia ter me ignorado, e, de repente, tudo se encaixava de uma forma que eu não esperava.
— Você sabia que pode ficar sem cabeça se ficar botando ela pra fora do ônibus? – perguntou ela enquanto sentava do meu lado no ponto de ônibus, ofegante.
— Você sabia que é possível responder as pessoas por mensagem? – respondi ela imitando o tom de voz de sua pergunta.
Malena disse que não gostava de marcar esses encontros e que deixava o destino agir, como havia atuado. Se tivéssemos que nos ver de novo iria simplesmente acontecer. Achei um papo de idiota total. Mas quem seria eu para falar alguma coisa naquele momento. Estava feliz com a “atuação do destino” naquela hora. Ela se levantou e me chamou para comer num “lugar muito barato” e fomos andando. Na caminhada, ela novamente contava empolgada a história de onde estávamos indo, como se estivesse explicando sobre uma passagem da história do Brasil. Enquanto ela falava, mandei uma mensagem avisando que não iria jantar para a minha mãe. Não iria cometer o mesmo erro duas vezes com minha velha.
— É aqui! – e me apontou o local mais insalubre possível. Um rapaz com seus aproximados vinte e cinco anos e com os olhos muito vermelhos nos esperava escolher um dos salgados disponíveis. Alguns bancos de madeira ficavam em frente ao estabelecimento junto com mesas de plástico completamente bambas. Realmente os salgados eram muito baratos, mas não pareciam ser muito bons. Ela puxou uma nota de dez reais da carteira e falou que metade dos salgados eu poderia escolher. A fome que eu estava poderia ter ajudado no meu veredicto, mas acabou que os salgados eram bem saborosos. Ou talvez fosse a simples presença de Malena no lugar que fazia tudo ficar melhor.
Contei que estava trabalhando novamente e todo o resto que havia acontecido nos últimos dias. “Menos um problema pra lista” disse ela rindo enquanto devorava o salgado. A menina parecia estar interessada nos tópicos que conversávamos e sempre perguntava e buscava saber mais da situação que lhe era contada. E o papo dela era muito bom, sempre com uma referência inteligente, com alguma informação diferente ou alguma coisa completamente aleatória que faziam o assunto ficar divertido ou arrancavam um sorriso.
Terminamos de comer e continuamos conversando por mais um tempo, sentados naquela cadeira desconfortável. Eu teria que trabalhar no dia seguinte, então não poderia ficar até a madrugada como da última vez. A vontade de ir para casa era quase nula, mas sabia que não podia vacilar com o trabalho. Ela pegou o telefone e começou a digitar alguma coisa, e foi aí que eu, sem pensar muito, disse:
— Eu quero te beijar de novo. Agora.
Malena levantou os olhos do celular e me olhou, talvez surpresa pela minha coragem inesperada. Ela guardou o telefone e, sem dizer mais nada, disse:
— Vem comigo.
Então, me puxou pela mão e me levou para uma das ruas escuras ao lado da lanchonete.
Esse não é um conto erótico, mas saibam que só paramos de nos beijar quando não havia mais como continuar. Malena, ofegante, respirou fundo e disse: "Para agora, porque senão a gente não vai conseguir parar." E eu parei. Não queria, mas parei. Nos ajeitamos, fechamos os zíperes que precisavam ser fechados e, ao virar a esquina, voltamos a andar normalmente, lado a lado. Nem parecia que minutos antes estávamos fazendo o que fizemos. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, ela pareceu tímida, sorrindo para mim enquanto caminhávamos em silêncio para o ponto de ônibus, onde ela pegaria a condução para Santa Teresa. Incrivelmente, ela ficou em silêncio durante todo o caminho até lá. Nos despedimos com um selinho e ela entrou no ônibus, que já a esperava parado, dessa vez com mais gente que das outras vezes. Ainda assim, ela conseguiu um lugar na janela para dar mais um sorriso para mim antes de ir junto com um tchauzinho com as mãos. Fui embora quando o ônibus virou a curva novamente.
Algo definitivamente mudou para Malena naquele dia, porque começamos a marcar encontros pelo telefone e nos vimos novamente no dia seguinte. No domingo, fomos ao cinema. Acho que, a partir desse momento, havia sido promovido a seu "ficante".
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