Million Dollar Man
4 Capítulo 4 - Cry For Help
Notas iniciais
Fracos raios de sol atravessavam minhas pálpebras fazendo com que meu corpo deixasse lentamente a inconsciência. Uma brisa preguiçosa farfalhava o que parecia ser o primeiro sinal da manhã. Soltei um longo e pesado suspiro enquanto fechava os dedos envolta do lençol gélido. Apertei os olhos com força esquivando-me da claridade.
A baixa temperatura fez com que eu seguisse meus instintos e puxasse o edredom que me cobria para mais perto até que só meu rosto estivesse de fora. O perfume delicado de rosas e limpeza invadiu minhas narinas proporcionando-me uma incrível sensação de conforto. Remexi-me e posicionei minha mão sob meu rosto não só querendo esquentá-la, mas também encontrando minha posição favorita para se dormir.
Ao fundo, ouvi uma risada rouca preencher meu sentindo auditivo. Apertei os olhos outra vez tentando, em vão, desprender-me da realidade e voltar para meu sono, que para minha própria surpresa, havia sido tranqüilo e pesado.
Repentinamente, meu cérebro voltou a funcionar fazendo com que as lembranças do fim da noite anterior inundassem minha mente. Abri os olhos assustada e encarei o teto. Não fazia a menor idéia de onde estava. Tudo parecia estar girando e colocado em ângulos apostos ao convencional. Sentei-me na cama ignorando a pontada de dor em minha cabeça e minha tontura analisando a minha volta.
Estava sentada numa enorme cama que se encontrava bem no centro do gigantesco quarto. O chão era coberto por madeira clara combinando com a porta e com os demais móveis luxuosos do aposento. As paredes eram de um tom suave de azul céu que davam certo ar de tranqüilidade ao cômodo.
De frente a cama, havia um enorme quadro de arte contemporânea, a pintura misturava todos os tons de azul e cinza possíveis, o que para mim expressava pura confusão. Espelhos predominavam o que parecia ser a porta de um closet na parede do lado direito, onde também se encontrava uma porta discreta. Do outro lado, havia um sofá branco espaçoso, suas almofadas estavam jogas no chão sobre o tapete dando lugar para uma pessoa sentada de maneira espaçosa.
–Devo dizer bom dia ou boa tarde? – perguntou com a voz presunçosa.
–Como... Por quê... – ainda estava desorientada devido a sonolência. Passei a mão por meus cabelos embaraçados e os enrolei com o dedo tentando clarear meus pensamentos. -O que eu estou fazendo aqui? – minha voz soou aguda demais.
Damon fechou a cara e se colocou de pé. Com passos lentos, ele caminhou em minha direção com uma expressão ilegível.
–Pergunta errada – franziu o cenho. – O que você estava fazendo naquele beco deserto?
–Não é da sua conta – disse. Aquilo já estava se tornando uma repetição quando se tratava das perguntas de Damon. – O que eu estou fazendo aqui? – repeti minha pergunta. Ele era mesmo maluco ou apenas tinha cismado comigo? Pensei em minhas opções. Talvez um pouco das duas.
–Queria que eu te deixasse no chão frio no meio da neve a noite inteira? – arqueou uma sobrancelha. – Seria desumano demais da minha parte.
Pela primeira vez, encarei meu corpo. Por cima de minha blusa de alças curtas, tinha um grosso casaco de moletom que caberia, folgadamente, duas de mim dentro. Senti minhas bochechas se aquecerem instantaneamente.
–E o que você estava fazendo lá? – revidei enquanto organizava minhas memórias.
–Eu fui falar com Stefan – deu de ombros.
–Lá não é caminho – cerrei os lábios. O beco onde eu costumava me esconder para que pudesse sustentar meu vicio era na rua perpendicular a rua do motel. E, até onde eu sabia, era contra mão. Ele estava de carro, sem sombra de dúvidas, e para passar por ali depois, ou antes, de ir falar com Stefan, ele precisaria dar a volta em toda Coney Island.
–Stefan disse que você não tinha aparecido desde a noite em que passamos juntos, estava voltando para casa e te vi – murmurou e sentou-se nos pés da cama. O vermelho em minhas bochechas se intensificou. – Como está sua cabeça?
–Dolorida – admiti e encarei o colchão.
–Vou pegar um Advil.
–Não precisa – disse deslizando os pés para fora da cama. Talvez eu estivesse exagerando na grosseria. Ok, mas também não abaixaria a guarda.
–Claro que precisa – revirou os olhos. – Não é a primeira pessoa no mundo a ter ressaca. – pausa – Ou sei lá o nome que dão a isso.
E mais uma vez, ele sabia coisas excessivas de mim. Sobre as drogas ele não precisava perguntar Stefan. Qualquer pessoa poderia sentir o fedor em minhas roupas. Ou poderia simplesmente deduzir isso, vivia cheia de olheiras e com algum tipo de problema respiratório. No final, ainda estava intrigada.
Antes de sair do quarto, ele parou e deu meio passo para que pudesse ficar de frente para mim de novo. Seus olhos analisaram minha expressão e pude ver seu rosto moldar uma máscara de preocupação. Preocupação que estava longe dos meus entendimentos, valia acrescentar. Mordi o lábio abraçando meu corpo e passei a encarar o chão.
–Têm roupas, escova de dentes e toalha limpa no banheiro – franziu o cenho, sua voz era um pouco mais alta que um sussurro – Se quiser tomar um banho antes do café da manhã... – deixou a frase inacabada.
Senti meu queixo cair. Roupas? Café da manhã?
–N-não precisa, de verdade – gaguejei meio atordoada – Obrigada.
–Não precisa agradecer, sinta-se a vontade para fazer o que quiser – deu de ombros e me deixou sozinha no quarto.
Tinha que admitir que precisava urgentemente de um banho. Com passos lentos, caminhei até a porta que julguei ser a do banheiro. O cômodo era revestido por mármore escuro e era bem maior do que parecia. Respirei fundo e fechei a porta atrás de mim. Sobre o vidro da pia, estava uma toalha branca que ao julgar pelo aspecto tinha o mesmo cheiro delicioso do edredom e estava fofa. Ao lado, uma muda de roupa estava dobrava.
Aproximei-me e pude notar a escova de dentes ao lado da toalha. A muda de roupas era nada mais nada menos que uma blusa de mangas compridas na cor bege de alguma grife estrangeira que cobrava muito mais do que eu aceitaria pagar por uma peça de roupa, e uma calça jeans escura.
Em baixo, havia uma jaqueta escura e um conjunto de roupas íntimas da Victoria Secret. Senti como se alguém houvesse invadido ligeiramente minha privacidade assim que notei que quem quer que tenha ido comprar as roupas, havia acertado em cheio no tamanho das mesmas.
Depois de muito relutar, entreguei-me ao sabonete e a água morna. Lavei meus cabelos cuidadosamente e depois os penteei ainda sob a água. Assim que saí, sequei-me rapidamente e vesti as roupas sem pensar duas vezes. Recasei minhas meias voltei para o quarto a procurar de meus tênis.
Damon estava sentado na cama – já arrumada – com uma caixa de remédios nas mãos. Cerrei os lábios e hesitei em dar outro passo. Sobre a mesinha de cabeceira, um copo duplo estava abastecido com água até a boca. Ele se virou para mim meio segundo depois com a expressão vazia. Repentinamente, abriu um meio sorriso e colocou-se de pé vindo em minha direção.
–Stefan sabe que você está aqui – arqueou uma sobrancelha.
Stefan, ah sim, Stefan tinha que saber de mim. No momento, aquilo não me importava. Meu cérebro trabalhava em busca de respostas sobre como eu deveria me comportar diante de Damon.
Não no sentido óbvio. Mas, sentia-me estranha em ver alguém – que não seja Matt – fazendo algo por mim. O tempo que eu passara debaixo d’água servira literalmente para esfriar minha cabeça. Usar grosseria talvez não seja a maneira certa de se agir. Suas perguntas irritavam, isso eu não negaria, mas no momento tentaria relevar e tentar entender seu interesse.
–Ah – foi a única coisa que consegui dizer.
–Aqui – disse colocando um comprimido na palma de minha mão. Em seguida, ele me deu o copo.
Bebi a água junto com o comprimido e o devolvi o copo vazio. Abracei meu corpo e vasculhei o quarto a procura de meus tênis. A temperatura realmente havia caído, logo a friagem do chão estava penetrando minha meia e fazendo com que meus pés congelassem lentamente.
–Estão do outro lado – Damon disse como se pudesse ler meus pensamentos.
–Obrigada – disse calorosamente antes de abrir um sorriso tímido.
Sentei-me na beirada da cama e os calcei rapidamente. Uma enorme sensação de alívio percorreu meu corpo depois de tirar meus pés da geladeira natural. Passei a mão por meus cabelos úmidos e os enrolei para que não molhassem minha blusa sob a jaqueta. Quando coloquei-me de pé, preparei-me mentalmente para arrumar uma desculpa e ir embora.
–Damon? – sussurrei.
–Hm? – virou-se para mim.
–Obrigada mesmo por ter feito isso – as palavras pareciam soar antiquaras – De verdade.
–Já disse que não precisa agradecer – seus olhos prendiam totalmente minha atenção. Abri um meio sorriso.
–Bom, eu preciso ir... – comecei, mas fui interrompida.
–Não antes do café – breve pausa – Tem uma coisa que eu gostaria de conversar com você.
Não via assunto nenhum que poderia ser de seu interesse. Abri a boca para dizer Deus sabe o que e a fechei novamente sem encontrar palavras adequadas. Não sabia exatamente se queria ficar para o café.
Não. Não sabia exatamente se queria conversar qualquer coisa com ele. Seu jeito de olhar deixava-me intimidade e muita das vezes fazia com que uma densa névoa se plantasse em meu cérebro dando adeus a todos os pensamentos com coerência.
–Conversar comigo? – era mais um pensamento em voz alta do que uma frase propriamente dita.
–Sim, — suas pupilas se estreitaram. – Depois, faço questão de te levar até sua casa, lembro que você disse que hoje é aniversário de sua irmã, ou...
A menção em Margareth fez com que um nó se formasse em minha garganta. Não queria imaginar sua reação quando notasse que eu não apareci para vê-la em seu aniversário. Engoli em seco e precisei de um minuto para recompor minha expressão.
–Posso usar o telefone? – perguntei meio insegura.
–Claro – respondeu e seguiu pela porta entreaberta.
A porta dava para um enorme cômodo que eu não sabia ao certo se era uma sala de jantar ou uma sala de estar. Na parede oposta, havia uma TV exageradamente grande cercada de sofás brancos assim como o do quarto. Mais para o centro, uma mesa de jantar com lugar para doze pessoas se acomodava sob um luxuoso lustre que pendia do teto dando um charme à sala.
Encolhi os ombros sentindo-me deslocada. Segui Damon até o lado sul do cômodo onde ele adentrou em outra porta, esta por sua vez estava fechada. O escritório tinha paredes brancas e piso de mármore escuro. Ao fundo, janelas que davam uma vista privilegiada a cidade esparramada de Manhattan.
–Fique à vontade – disse apontando para o aparelho sobre a mesa de madeira clara. – Vou esperar aqui fora.
Rapidamente disquei o número de minha casa e esperei que alguém atendesse. Minha pulsação aumentava seu ritmo a medida que os toques crescentes indicavam que o telefone estava tocando. Depois de um breve período de tempo, alguém atendeu o telefone.
–Alô? – reconheci a Jer imediatamente. Soltei um suspiro de alívio.
–Jer, sou eu – murmurei.
–Elena? Onde você está? – podia sentir um sorriso através de sua voz.
–Estou – o que diria? – na casa de um amigo. – parecia convincente.
–Matt?
–Não – mordi o lábio. – Mamãe está ai?
–Sim – pausa – Quer que eu a chame?
–Aham – respondi e comecei a tamborilar meus dedos na madeira.
Ouvi o barulho distante de vozes e passos e no instante seguinte, Miranda já estava segurando o telefone.
–Oi – disse calorosamente.
–Mãe, me diz que vocês não brigaram depois que eu saí – ela sabia do que eu estava falando. A ouvi suspirar.
–Não digo – pausa. – Sugiro que você não demore muito, seu pai está em casa.
–Ah – respirei fundo. – Como está Maggie?
–Ainda está dormindo, estou pensando no que vou dizer para ela sobre você. Importa-se em vir aqui semana que vem para ficar com ela?
–Não – claro que eu não me importava. Só me preocupava com o depois.
–Talvez seja melhor você a levar para um parque, uma praça, um lugar que seu pai não te veja...
Ela me deixaria sair com Margareth. Abri um sorriso tímido e relaxei um pouco meus músculos.
–Vejo o que posso fazer – suspirei.
–Elena, desculpa.
–Por que está se desculpando?
–Pelo que seu pai fez, eu devia ter conversado com ele, talvez ele fosse mais amigável e...
–Não se culpe, deixa isso quieto.
–Não deixo não, já passou da hora de seu pai saber que o dinheiro que ele ganha não é o suficiente para pagar a escola de Jeremy.
–Não acho que isso vai mudar alguma coisa – eu continuava sendo errada.
–Não importa, eu vou tentar. – pausa – Seu pai está saindo do banho.
–Ah, diga para Maggie que nós vamos ao cinema semana que vem – pensei rápido.
–Ok, se cuida. – disse e ouvi o telefone ficar mudo.
Coloquei o telefone no ganho e fui em direção da porta. Damon estava sentado no maior sofá com um livro nas mãos. Ao me ver, ele fechou o mesmo e ficou de pé gesticulando para que eu o seguisse.
–Pedi que fizessem bolo para o café – abriu um sorriso sedutor – espero que goste.
–Hm – limitei-me a dizer.
Acomodei-me em uma das cadeiras e observei em quanto sua emprega servia a mesa com diversas guloseimas. Damon sentou-se na cadeira da ponta e começou a se servir sem dizer uma palavra sequer. Quando a mulher com cabelos cinzentos e profundos olhos castanhos voltou com uma jarra de suco, abri um sorriso simpático.
–Obrigada Dorothea. – Damon disse com cordialidade, depois se dirigiu a mim: — Coma o que quiser.
–Estou sem fome – mentira.
–Sei que minhas perguntas e observações te irritam – uma coisa que eu ficava feliz que ele soubesse sobre mim – Mas... Você não come direito. Isso faz mal.
–Não é a primeira pessoa a me dizer isso – dei de ombros.
–Coma Elena – disse com autoridade.
–Realmente estou sem fome – murmurei.
–Uma pena, não vou deixar você sair até você comer – deu de ombros.
Fechei a cara. Estava começando a repensar minha gratidão.
Peguei uma fatia do bolo de chocolate e enchi meu copo com o leite morno. Com o garfo, parti um pequeno pedaço e pus na boca. Realmente estava uma delicia. Coloquei outro pedaço minúsculo e dei um pequeno gole no leite.
–Desculpa – Damon disse repentinamente.
–Hm? – perguntei confusa.
–Não queria que aquilo tivesse acontecido – cerro o punho.
–O que exatamente? – não era a pessoa mais rápida do mundo, intelectualmente falando, pela manhã.
–Minha intenção era apenas jantar e conversar com você. – disse calmamente – Desculpa também por ter dito que você era minha namorada, não tinha esse direito.
Que bom que você sabe – disse mentalmente com petulância.
–Ah – corei. – Não tem problema, até onde eu sei, é para isso que eu sirvo – disse a meia voz.
Damon arqueou uma sobrancelha e deixou seu café da manhã de lado voltando sua atenção completamente para mim.
–É exatamente sobre isso que eu quero conversar com você – disse tragando saliva.
Enrijeci minha postura e deixei o garfo de sobremesa ao lado do prato sendo presa por seu olhar.
–Quero ajudar você.
–E para que eu preciso de ajuda? – tentei não parecer grossa, até porque no momento não era minha intenção.
–Talvez para ver que você serve sim para muitas outras coisas – sua voz se suavizou.
Não sabia como argumentar sobre aquilo.
–Sei que você deve estar puta por eu estar me metendo na sua vida – ele riu. Abri um sorriso duro demonstrando que concordava – Mas... Eu realmente quero te ajudar.
–Por quê? – a curiosidade me venceu.
–Porque você me lembra muito uma pessoa – e de repente ele ficou distante, como se apenas seu corpo estivesse ali, sua mente vagava por pensamentos nostálgicos. – E eu não queria que você terminasse como ela.
–Ela quem?
Ele sorriu.
–Alguém que não te interessa no momento – disse cinicamente.
Alguém havia aprendido a dar respostas comigo. Ótimo.
–Logo talvez sua ajuda não me interesse no momento – dei de ombros e dei outra garfada no bolo.
Damon fechou a cara.
–Elena, por favor – voltei a encará-lo evitando contado direito com seus olhos.
–O que?
–Você tem dezessete anos, e não preciso dizer que você está acabando com a sua vida porque tenho certeza que você sabe disso – antes que eu protestasse, ele continuou – Não digo isso sobre o que você faz, mas sobre seus meios de remediar sua situação emocional.
–O que você sabe sobre o meu emocional? – perguntei com uma pontada de irritação na voz.
–Dizer vai te convencer que estou certo sobre alguma coisa?
–Não – admiti.
–Eu quero entender o que você sente – ele mesmo não parecia entender seus motivos – quero ser um amigo que esteja perto quando você precisa.
Borboletas assaltaram meu estômago deixando-me desconfortável. Meu cérebro girava em confusão com suas palavras.
–Por quê? – perguntei novamente entorpecida.
–Quando você perde alguém para as drogas não quer que ninguém passe pela mesma coisa que você – sussurrou.
No mesmo instante lembrei-me de Isobel. Entrelacei meus dedos e encarei o nada diante da mesa. Eu tinha consciência do que estava fazendo, mas não tinha força de vontade para parar com aquilo antes que acabasse sendo vencida pelo vício.
–Não sei o que dizer – murmurei. Não fazia idéia de minha expressão, mas torcia para que não tivesse demonstrando o que estava sentido.
Damon suspirou.
–Vai me deixar ajudar você?
Não respondi. Encarei o chão e sacudi a cabeça positivamente.
–Obrigada – sua voz ardeu em verdade.
–Eu que deveria agradecer, não? – murmurei com as bochechas vermelhas.
–Nesse caso, não precisa – abriu um sorriso largo.
Encarei o prato já sem vontade nenhuma de comer. Bebi um pouco do leite o copo e encolhi-me na cadeira sem saber o que fazer.
–Termine de comer – ele me olhou de esguelha.
–Já estou satisfeita.
–Desperdício é pecado – fechou a cara – Existem milhares de pessoas passando fome.
–Falar isso não fará com que meu apetite volte, muito pelo contrário, só vai me fazer sentir culpada por comer – comentei.
Ele semicerrou os olhos.
–Coma – ordenou.
–Mas...
–Coma Elena.
–Não estou com fome.
–Quando foi a ultima vez que você comeu? – perguntou como se já soubesse a resposta.
–Ontem, no almoço.
–E passou o resto do dia sem comer nada?
–Qual o problema disso? – perguntei começando a me estressar com seu tom autoritário.
–Isso chama-se anorexia, já ouviu falar?
Vasculhei meu cérebro em busca de um tutorial que me ensinasse a ter paciência depois de ser acusada de anorexia.
–Não sou anoréxica, não sinto fome – dei de ombros.
–Não sente fome porque tem medo que Stefan te bata – murmurou.
–N-não – gaguejei surpresa.
–Não precisa mentir, ele é meu amigo, sei muito bem como funcionam as coisas por ali – não identifiquei o que estava por trás de sua voz.
Depois de meio minuto de silêncio, ele voltou a falar.
–Pode comer, não vou deixar Stefan encostar em você – abriu um sorriso torto.
Ao julgar pela cor de minhas bochechas, elas estavam prestes a explodir. Desenrolei meus cabelos e deixei que eles caíssem como uma cortina escondendo meu rosto corado. Após hesitar, voltei a comer a fatia de bolo sem culpa.
Assim que terminei, bebi o leite e comi alguns morangos que estavam servidos a mesa estando ciente que Damon estava me observando. Quando Damon se colocou de pé, automaticamente me levantei preparando-me para ir embora. Já havia abusado demais dormindo em sua casa e aceitado ficar para o café.
–Quer mesmo ir embora? – ergueu uma sobrancelha.
–Não quero incomodar mais – disse as pressas.
–Não está incomodando, e – a empregada, Dorothea, estava de volta – está nevando demais para que eu dirija até Coney Island.
–Tudo bem, posso ir de ônibus. – dei de ombros. Pedir canora era extrapolar o limite de abuso.
–Quando eu disse que estava nevando demais para dirigir quis dizer que não deixaria você sair com o tempo assim – deu um sorriso duro – não pretendo deixar você ir de ônibus.
Arrependi-me de não ter feito a listinha durante nosso jantar com os lembretes de que além de mudar de assunto repentinamente, ele sofria de bipolaridade.
–Já abusei demais de você e de sua casa – arqueei uma sobrancelha – Não prendo aceitar sua carona. Tenho duas pernas e dinheiro para passagem.
Dinheiro que eu não sabia onde estava, não que eu fosse mencionar isso.
–Não vejo nada disso como abuso, eu disse que ajudaria você e isso faz parte.
–Não – protestei – Disse que me ajudaria e que seria meu amigo, não que me teria como uma parasita.
–Elena – revirou os olhos – Assista TV, leia um livro, durma, faça nada, ou o que quiser, depois eu te levo até sua irmã.
–Não vou para casa – passei a mão por meu cabelo.
–Não é aniversário de sua irmã? – franziu o cenho.
–É, mas... – não tinha que explicar aquilo para ele. – não vou.
–Aconteceu alguma coisa?
–Não – menti.
–Pode contar – Damon disse sentando-se no sofá. Continuei de pé pensando se tinha motivos para lhe contar alguma coisa.
–Não aconteceu nada – enfiei minhas mãos nos bolsos da jaqueta.
–Elena.
–Fui ver minha mãe ontem – suspirei sentindo-me derrotada- passei o dia com meus irmãos matando a saudade de estar em casa.
–Logo não está com saudade deles para ir vê-lo de novo hoje – deduziu.
Fechei a cara.
–Não, meu pai não me deixa ir em casa. Ele me viu ontem e me proibiu de ir ver minha irmã hoje. – por essa ele não esperava.
–Ah.
–Não me conhece o tanto que você imaginava – sentei-me na beira do sofá.
–Isso é questão de tempo.
Não respondi. Vi-me perdida em pensamentos. Talvez eu realmente precisasse de ajuda. Talvez eu realmente precisasse de alguém que entendesse a situação para me ajudar. Matt sempre me dera apoio mesmo em situações que fugiam muito de sua realidade, mas aquilo não significava que ele as entendia.
Talvez alguém que já passara por alguma coisa semelhante, ou que conhecesse alguém que passara por isso, como é o caso, pudesse colocar pontos de vistas diferentes em minha cabeça.
O fato de Damon dizer que quer ser um amigo não o fará meu amigo da noite para o dia, tinha noção de que era uma pessoa difícil, mas estava disposta a abaixar a guarda e deixar que ele soubesse de minha vida com suas perguntas irritantes. E confiança era algo que demorava para ser construída. Não deixaria minha vida em um livro aperto para qualquer pessoa.
Teria de me acostumar com o fato de ter alguém cuidando e se importando comigo. Para se sincera, não sabia como lidar com isso. Principalmente sabendo que ele era amigo de Stefan. Matt ficaria radiante em saber que alguém – além dele mesmo – tentava arrancar de mim todos os maus vícios.
–Elena? – Damon interrompeu meus devaneios.
–Oi – respondi num sussurro.
–Certeza de que não vai em casa hoje?
–Não – traguei saliva e umedeci meus lábios.
–Hm – relaxou sua postura.
–O que?
–Com Stefan eu me viro – começou – Com você é mais difícil.
O encarei confusa com suas palavras.
–Você ficaria para o jantar?
Mas o que? Ele pretendia me deixar trancada em sua casa durante todo o dia?
Não que eu estivesse realmente trancada, mas era o que dava a entender.
–Depois deixo você onde quiser.
–Vou ter que ficar aqui?
–Não quer ficar?
–Não disse isso – me defendi.
–Mas deu a impressão.
–Hm, não querendo ser chata... – comecei.
–Seja criativa na sua desculpa, por favor – disse meio brincalhão.
Não pude evitar, comecei a rir.
–Não sei, não uso minha criatividade para muita coisa, estou enferrujada – admiti.
–É só um jantar, não vou te morder – não era isso que parecia.
–Ok, tudo bem – suspirei. Não iria me matar afinal de contas.
–Adiantando, o que vai querer para o almoço? Dorothea é uma ótima cozinheira, devo acrescentar.
–Como posso pensar em comer se acabei de tomar café?
Ele riu descaradamente.
–Tem algo contra massa?
–Não, muito pelo contrário, tenho muitos pontos a favor – peguei a almofada e abracei esquentando meu corpo.
–Bom saber, — pausa – devo anotar isso na minha lista de coisas sobre você?
Não me admiraria se ele realmente tivesse uma lista.
–Achei que já tivesse decorado tudo – revirei os olhos.
Ele riu e se colocou de pé deixando-me sozinha na enorme sala.
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