Million Dollar Man
3 Capítulo 3 - Complications
–Está bom aqui – sussurrei quando Damon entrou na avenida principal mais próxima da esquina de minha casa.
–Está tarde – observou – Não é certo você andar sozinha por aí.
–Olhe com que está falando – disse com certa ironia.
–Você não deixa de ser uma mulher como qualquer outra por isso – ergueu uma sobrancelha.
–É sério, por favor – ele não precisava saber que não estava indo para casa, isso só levantaria mais perguntas indesejáveis. – Está ótimo, eu teria vindo de ônibus e andaria todo esse pedaço à pé.
Depois de soltar um suspiro pesado, ele estacionou o carro rente ao meio fio do lado esquerdo da rua. Se fosse outro cara eu levantaria e iria embora sem ao menos dizer bom noite, no entanto, peguei-me pensando no que dizer antes de sair. Encarei o chão e respirei fundo buscando por um pouco de coragem para abrir a porta do carro.
–Hm, — tive que dá um pigarro. Um nó nostálgico havia se formado em minha garganta devido o lugar onde me encontrava. – Boa noite, Damon. – sussurrei.
–Boa noite – ele abriu um sorriso torto sedutor. – Até breve.
Franzi o cenho. Damon deu uma risada maliciosa.
–Desculpa?
–Eu disse até breve Elena – repetiu e passou a mão por seus cabelos. – Para ser mais preciso, amanhã.
–Amanhã? – eu ri. – Amanhã é um dos dias do ano que eu largo toda essa vida de lado.
–Posso perguntar o motivo? – perguntou sugestivamente.
–Você não se cansa de perguntar? – dei um suspiro pesado.
–Não – cerrou os lábios e sacudiu a cabeça negativamente. Sua expressão deixava claro o quão debochado seu ato era.
–Aniversário da minha irmã mais nova – disse por fim.
–Hm – me pareceu surpreso – Depois de amanhã então.
Revirei os olhos.
–Ok, boa noite – repeti e abri a porta do carro.
As luzes da casa de Matt estavam apagadas – exceto pela de seu quarto. Por minha sorte, o cômodo ficava no primeiro andar e a janela dava para o roll de entrada. Andei na ponta dos pés e olhando por cima do ombro como uma fugitiva. Quando cheguei na escada de madeira, fui ainda mais cuidadosa temendo fazer qualquer barulho. Aproximei-me da janela e apertei os olhos para que conseguisse ver o que se passava dentro do quarto. A cama estava desfeita – como sempre – a TV minúscula estava ligada transmitindo um jogo de futebol americano qualquer e Matt estava sentado com a postura relaxava de frente ao computador.
Dei duas batidas rápidas na janela – ele quase caiu da cadeira. Reprimi uma risada histérica.
–Matt? – sussurrei tentando chamar sua atenção. Ele olhou para o teto.
Revirei os olhos tentando ignorar sua lerdeza e bati na janela de novo. Dessa vez, ele olhou para o lugar certo. Ao me ver, ele saltou da cadeira e veio em direção a janela abrindo-a sem hesitar.
–O que você está fazendo aqui? – disse exasperadamente, mas logo depois um sorriso brotou em seus lábios. Parecendo ler meus pensamentos, ele se afastou dando-me espaço.
Apoiei meu peso em minhas mãos e me esgueirei por sua janela com extrema facilidade. Já em seu quarto, ajeitei meu vestido e prendi meu cabelo num coque. Ali eu não precisava de nada daquilo, poderia se dizer que eram um dos poucos lugares onde eu podia ser a Elena.
–Respondendo sua pergunta – disse enquanto tirava as sandálias libertando meus dedos doloridos. – Eu disse que amanhã eu viria para ver minha mãe. – olhei para o relógio do computador – corrigindo, hoje.
–Então você vai dormir aqui? – arqueou uma sobrancelha.
–Posso? – sussurrei.
–Sempre – deu de ombros.
Abri um sorriso largo.
–Posso abusar do seu banheiro? – franzi o cenho – preciso tomar banho.
–Pode – pausa – Vou pegar a bolsa com roupas suas que você deixou aqui.
–Obrigada – disse e sentei-me em sua cama grande demais.
Antes que pudesse refletir sobre as coisas que haviam acontecido ao decorrer da noite, Matt estava de volta com minha mochila cor-de-rosa na mão. Rapidamente a peguei e procurei por minha camisola de meu desenho favorito e uma calcinha limpa.
Praticamente corri até o banheiro e tomei um banho demorado. Depois de vestida, voltei para o quarto e enfiei a roupa suja dentro da mochila. Sequei meu cabelo com a toalha e sentei-me na escrivaninha onde Matt tinha os dois cotovelos apoiados com a atenção voltada a um jogo de RPG no computador.
–Você ainda joga isso? – perguntei incrédula.
–Você ainda usa sua camisola do Phineas e Ferb? – ele me olhou uma expressão debochada. Eu ri alto.
–Menos, vai acordar meus pais – alertou.
–Desculpa – suspirei. – Eles podem saber que estou aqui? Vai ser meio desconfortável dormir no sofá sabendo que não posso ser vista.
–Você não vai dormir no sofá – revirou os olhos – mas também não vai me jogar no chão durante a noite.
–Não controlo meus movimentos enquanto durmo – cerrei os lábios.
–Seus movimentos inconscientes quase me deixaram estéril da ultima vez que dividimos a cama – disse sério. Não pude deixar de rir outra vez.
–Ok, vou ter cuidado – ergui as mãos para o alto como rendição.
–Vou pegar um travesseiro para você. – disse desligando o computador.
Quando voltou, apagou a luz assim que entrou no quarto. Caminhei em direção a cama e peguei seu travesseiro na cara de pau. Pude ouvir ele rindo enquanto puxava a coberta sobre nós dois.
–Boa noite – disse e abracei o travesseiro procurando uma posição confortável para dormir.
–Boa noite – Matt respondeu ainda rindo.
Já se passavam das dez da manhã quando Matt tomou coragem e me acordou. Fui forçada a tomar café junto com ele – traduzindo: fazer o café para que nós pudéssemos comer – e tomei um banho com água fria querendo espantar o sono. Separei a roupa mais apresentável que estava dentro da bolsa e a vesti.
Meia hora depois, estava me despedindo de Matt preparando-me para caminhar até o fim da rua. Meus pensamentos estavam nublados e tomados por uma nostalgia sem fim, havia pelo menos, seis meses desde a última vez em que havia vindo em casa. Uma ansiedade descontrolada começou a crescer dentro de mim, senti meus passos se apressarem acompanhado o ritmo de meu coração.
A casa não havia mudado nada. A grama estava coberta por uma fina camada de orvalho assim como todas as plantas do jardim bem cuidado. A pintura clara continuava descascada nos mesmos pontos e a telha gasta parecia ter sido pintada recentemente. Respirei fundo e segui o caminho de ardósias que levavam até a escada de madeira da varanda que rodeava a casa.
Parei de frente a porta enorme e fechei os olhos contando de 1 à 10 mentalmente. Era possível escutar o barulho da TV ligada. O som de batidas de carro e pneus derrapando indicava que Jeremy estava em casa aproveitando o fim das férias de janeiro. Apurei meus sentidos procurando por outros sinais de pessoas na casa. Uma risada infantil seguida de xingamentos. Depois a TV vez um som agudo. Alguém havia perdido, eu ri sozinha.
Tomei coragem e toquei a campanhinha, não sentia-me mais no direito de entrar sem ser convidada. Pude ouvir a voz de minha mãe gritando para que Jeremy levantasse e abrisse a porta.
Cerca de segundos depois a porta se abriu violentamente. Senti o sangue fugir de meu rosto deixando-me completamente pálida e sem reação. Jeremy estava muito maior do que me lembrava. Seus cabelos escuros estavam bagunçados e sua camisa era justa evidenciando seus músculos, o que significava que andava malhando. Forcei meu cérebro a pensar em algo para dizer, mas nada se procedeu. Cerrei os lábios e abracei meu corpo. Inesperadamente, senti os braços de Jeremy a minha volta quase me sufocando enquanto ele me abraçava.
–Jeremy? – a voz de Miranda se aproximava – Quem é?
Borboletas assaltaram meu estômago. Afastei-me de Jeremy um pouco insegura. Um sorriso iluminava seu rosto. Dei-lhe um soco no ombro e retribuí o sorriso lembrando-me de como brigávamos todos os dias pela manhã. Quando voltei a olhar para frente, Miranda estava na porta, sua expressão ilegível. Talvez uma mistura de surpresa e... Algo que eu não saberia dizer.
–Mãe – sussurrei – eu sei que eu não posso vir aqui – franzi o cenho e abaixei a cabeça – mas... Matt disse que eu poderia vir, e... – não terminei de dizer. Seus olhos estavam ligeiramente marejados.
Depois daquilo, sabia que não seria agredida verbalmente.
Avancei em passos lentos acabando com o espaço entre nós duas. Sem pensar duas vezes a abracei fortemente. Ao contrário das ultimas vezes, ela me abraçou de volta. Suspirei controlando a súbita vontade de chorar que crescia dentro de mim. Deitei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos sentindo suas mãos acariciarem meus cabelos.
–Não achei que você viesse – sussurrou.
–Não achei que você quisesse me ver – admiti.
–Eu sinto sua falta, Elena – disse se afastando. Ela acariciou meu rosto e soltou um suspiro pesado. – Seu pai que não deixa você vir aqui.
–Mesmo quando ele não está, você não age como se sentisse minha falta – murmurei.
–Não quero discutir isso – cerrei os lábios e sacudi a cabeça positivamente. Não queria brigar com ela. – Margareth? – ela chamou.
–Elena! – a pequena gritou e se atirou em meus braços. Não pude evitar que outro sorriso brotasse em meus lábios. A ergui com facilidade e a aninhei em meu colo. Margareth passou as pernas em volta de minha cintura pendurando-se em mim.
–Oi meu anjo – sussurrei com a pequena no colo.
–Achei que você não viria me ver no meu aniversário – disse os olhos azuis brilhantes.
–Se estou bem lembrada – fiz uma careta brincalhona – é amanhã.
–Mas você veio hoje, então pode ficar até amanhã – abriu um sorriso sapeca.
Troquei um rápido olhar com minha mãe. Sua expressão era serena, se fosse outra pessoa poderia entender como um convite, mas até onde eu sabia meu pai não se agradaria de saber que eu estive aqui fora das datas permitidas. Pior: ele nunca me deixaria passar a noite em casa, mesmo sendo véspera do aniversário de Margareth.
Sem muitas delongas, adentrei a casa depois de me livrar de minha sandália. Por mais que as coisas haviam sido trocadas de lugar, tudo parecia o mesmo. Senti uma onda de nostalgia invadir meus pensamentos. Fechei os olhos e respirei fundo ao chegar ao fim do corredor que dava ao cômodo da sala. Os controles do videogame de Jeremy estavam espalhados pelo chão e as bonecas de Maggie estavam jogadas sobre o sofá totalmente descabeladas.
Dei um passo a frente e sentei-me no meio dos brinquedos, sendo seguida de Jer. Miranda parou no meio do caminho e nos encarou com um meio sorriso no rosto. Margareth se atirou no sofá e deitou-se no meu colo.
–Vou fazer macarrão com molho branco para o almoço – disse sugestivamente – quer ficar?
–Posso? – ela sabia que era minha comida preferida.
Sem me dar uma resposta, ela virou-se e foi em direção a cozinha. Passei o resto da manhã relembrando os velhos tempos jogando e brigando com Jeremy a troco de nada. Depois de almoçar, regredi mais um pouco e sentei-me no chão e brinquei de casinha com Margareth. Duas horas depois, ela já havia dormido.
Ainda me restavam uma hora e meia até que meu pai chegasse. Fui até o quarto e deitei-me na minha antiga cama e deixei-me levar por pensamentos nostálgicos que pareciam dominar minha cabeça desde o momento que eu havia passado pela porta.
Encarei o teto e abri um breve sorriso. Era bom estar ali, tinha que admitir. Abracei meu travesseiro e soltei um suspiro pesado. Quando deixei que meus olhos vagassem pelos detalhes já esquecidos do quarto, percebi que estava sendo observada.
Miranda estava encostada na parede ao lado da porta com seus longos cabelos negros presos num rabo de cavalo. Senti minhas bochechas ficarem ligeiramente coradas vendo-a andar em minha direção e sentar-se nos pés da cama.
–Seu pai ligou – disse casualmente, mas sua expressão já não era boa. – Ele já está vindo para casa.
–Ah – sentei-me na cama e passei a mão por meus cabelos. – É melhor eu ir.
–Elena – ela passou a mão por meu rosto e por meu cabelo. Encarei minhas mãos sentindo-me estranha. Já havia me desacostumado com seus carinhos. – Não quero que você suma de novo.
–Eu não sumi, não tenho permissão de vir aqui, é muito diferente – murmurei.
–Você pode vir, é só saber o horário certo. – cerrou os lábios.
–Sendo assim – mordi o lábio reprimindo um sorriso que brincava em meus lábios.
A abracei outra vez. Suas mãos brincavam com meus cabelos enquanto eu acariciava suas costas levemente. Gentilmente, deitei em seu colo e descansei a cabeça na base de seu pescoço como costumava fazer antes de dormir quando tinha apenas dez anos.
–Sua irmã sente muito a sua falta – sussurrou. – Jeremy também.
–Também sinto falta de estar aqui – minha voz falhou. Funguei percebendo que estava me deixando levar pelo lado emocional.
–Não chora – essa frase é o do tipo que serve como a gota d’água, Senti meu rosto se umedecer.
–Mãe – apertei meus braços a sua volta e enterrei minha cabeça em seu pescoço onde ela não podia me ver chorar. – Eu não quero ir.
–Quer que eu converse com seu pai? – senti seus lábios depositarem um beijo na minha testa.
–Não – funguei – vocês vão acabar brigando de novo.
–Talvez eu consiga o fazer entender meu anjo – não deixei que ela terminasse.
–Mas não é certo – me encolhi.
–Eu sei – ela suspirou. – Por que você continua fazendo isso Elena? – e lá estava eu mergulhando de cabeça no assunto que eu mais odiava no mundo. – Ano passado você já sofreu conseqüências o suficiente, chega, volta para casa.
Conseqüências que eu escondia dentro de mim e negava a mim mesma não querendo acreditar que tinha tomado a decisão errada. A menção do assunto fez com que um nó se formasse em minha garganta. A reação de meu pai, as palavras de minha mãe e o apoio de Matt, a primeira surra que Stefan me dera, tudo se passou por minha cabeça como um filme mal assombrado.
–Não posso – finalmente consegui.
–Por quê?
–Não me pergunte isso – implorei – acho que um dia você vai entender o motivo – disse e sequei minhas lágrimas.
Nenhuma de nós abriu a boca para dizer mais nada por um longo período de tempo. Apenas me deixei matar a saudade de estar ao lado de minha mãe – de estar do lado dela sem milhares de brigas, corrigindo.
–Sabia que você estava aqui – senti meu corpo inteiro gelar.
–Grayson... – Miranda começou e me abraçou com mais força.
–O que ela está fazendo aqui? – perguntou com a voz fria. – Veio plantar seus más hábitos na vida de Jeremy e de Margareth?
–Já estou indo embora – desvencilhei-me do abraço de Miranda e coloquei-me de pé preparando-me para sair.
–Você a chamou aqui? – ele não se dirigia a mim. E mais uma vez eu seria um motivo de briga deles.
–Eu vim porque eu quis – disse antes que ela respondesse.
–Ah sim – ele riu sem nenhum vestígio de humor. – Fazer o que?
Não respondi, o nó em minha garganta não me permitia.
–Não começa – Miranda disse com azedume.
–Já que você veio hoje, não tem porque vir amanhã, não é mesmo?
–Mas... – senti minha expressão desmoronar.
–Mas nada – elevou seu tom de voz – quando você escolheu essa vida eu deixei bem claro de que não a queria aqui, se quer fazer isso por minhas costas, boa sorte. Agora some daqui.
–Não falar assim com ela – Miranda gritou. Antes que a situação piorasse deixei o quarto encarando o chão. Era por esses motivos que não gostava de ir em casa, mesmo quando me era permitido. Sempre acabava em briga.
Já estava na sala quando ouvi os passo de minha mãe me seguindo, olhei para trás por cima do ombro e depois parei já em frente a porta.
–Você não tem que ir. – ela estava tremula. – Essa casa também é minha e eu também decido as coisas. Se quiser ficar e dormir aqui como a Maggie pediu, você pode.
–Se ela ficar eu saio – Grayson murmurou juntando-se a nossa conversa.
–Ela ainda é sua filha – minha mãe rebateu com a voz calma.
–Até onde eu sei, ela nunca foi, corrija-me se estiver errado – meus olhos arderam. Não lhe daria o gosto de me ver chorando – John sempre disse que você era igual a ela, agora eu vejo porque ele te deixou aqui. – riu – Faz todo sentido.
–Ela não é igual a Isobel – Miranda disse séria.
–Drogada, prostituta, vive na rua, vive alcoolizada – pausa – me diga uma diferença então. Ah sim, ela não precisava que seus pais pagassem a fiança quando ficava presa por comprar drogas.
–Talvez porque ela não tivesse alguém com quem ela se importava – trinquei os dentes – talvez por que ela não desse todo o dinheiro que ganhava para outra pessoa.
–Agora você sustenta algum miserável? Nossa quanta bondade sua – o deboche era transparente em sua voz.
Aquilo foi a gota d’água. Estava cansada de discutir aquilo – e no final chegarmos no mesmo ponto. Engano meu achar que um dia eles iriam acabar vendo o motivo pelo qual eu fazia aquilo. Apenas virei as costas e saí da casa reprimindo a vonta imensa de chorara.
Não passei na casa de Matt como deveria. Peguei um ônibus para Coney Island e passei todo o trajeto entorpecida. Meus pensamentos estavam nublados e ecoavam as palavras de meu pai várias vezes. Xinguei-me mentalmente por ter perdido meu dia achando que dessa vez acabaria diferente.
Quando desci do ônibus, o céu já estava escuro e o tempo começava a esfriar. Desde a virada do ano que não nevava, e as nuvens negras que se arrastavam sob a cidade indicavam que isso estava prestes a mudar. Uma parte de meu cérebro me lembrava de que eu tinha que ir dar satisfação ao Stefan, dizer onde estava e afins.
Só que o lado de minha mágoa falou mais alto. Perguntei-me mentalmente porque ainda me humilhava tanto fazendo aquilo a troco de nada. Caminhei em direção ao beco onde costumava me esconder quando queria paz e sentei-me na penumbra com os ossos tremendo devido ao frio.
Deixei que as lágrimas lavassem meu rosto. Abracei minhas pernas esquivando-me do frio e da dor imensa que crescia em meu peito. Por um lado não via motivos para continuar fazendo aquilo. Pelo outro, via que mesmo diante de tudo, continuava a amá-los querendo vê-los bem.
Olhei a minha volta certificando-me que não estava sendo observada. Em seguida, arrastei até o cimento oco da parede, Dei duas batidas e tirei uma fina camada de concreto, ali estavam guardados os meus piores vícios. Desde comprimidos, cigarros e pedras a seringas e estiletes afiados.
Respirei fundo e peguei vários comprimidos. Em seguida, os amassei no chão com o próprio pé até que virassem pó. Inalei a droga esperando que a mesma causasse algum alívio imediato da dor emocional que sentia.
Nada satisfeita, peguei mais comprimidos e engoli a seco. Minha cabeça rodava e minha vista começava a ficar turva, mas aquilo não parecia ser suficiente. Deitei no chão gélido depois de por a placa de concreto no lugar e encarei o céu esperando que a droga me deixasse inconsciente.
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