Million Dollar Man
15 Capítulo 15 - Confessions
Notas iniciais
A claridade do fim de tarde era projetada através da janela dando aos móveis uma sombra sombria. Estava deitada em minha cama usando a mesma muda de roupa que usara para sair encarando o teto na penumbra. Soltei um longo e alto suspiro assistindo minhas memórias sendo repassadas como filme atrás de minhas pálpebras.
Meus pensamentos estavam envoltos numa densa e estranha névoa de alegria fazendo meu organismo funcionar contrariando o habitual. Desde o momento em que eu passara pela porta de casa o tempo e todo o meio material perderam completamente seu significado e sua importância: só existia eu e minhas fantasias.
Nem mesmo a bronca de Miranda e o ataque nervoso de Caroline conseguiram me trazer de volta a terra. Matt também estava lá – aqui, nem mesmo sua presença e seu sorriso depois de tanto tempo distantes pareciam capazes de anular meu estado de êxtase.
Damon me beijara. Era real – tão real tão recente e tão doce que eu ainda podia sentir o sabor de sua boca na minha. Um arrepio desceu por minha espinha com a vívida lembrança. Abracei o travesseiro fincando minhas unhas na fronha devido minha ansiedade.
Um sorriso brincou em meus lábios involuntariamente. Recusava-me a acreditar no acontecido. Enrolei-me no lençol claro da cama e tentei aquietar meu coração que ainda batia num ritmo assustador. Como se já bastasse os motivos que eu tinha de sobra para afastar meu sono, Damon tinha se auto acrescentado nesta lista.
Pelo menos eu tinha mais algumas horas para adiar os motivos de minha insônia.
A pequena parte racional de meu cérebro que lutava contra meus devaneios alertava-me dizendo que deveria ter cautela e ir com calma; eu queria dar ouvidos. Não me lembrava da ultima em que me sentira daquele jeito – não me lembrava de já ter experimentado ser tão feliz deste modo e ponto final.
Sentei-me na cama e procurei por meu celular em meus bolsos. O relógio indicava que ainda eram cinco e meia da tarde. Procurei em meus contados o nome de April e pensei por um longo instante antes de tomar a iniciativa e ligar.
–Estava pensando em ligar para você – disse ela ao atender no terceiro toque.
–Posso saber por quê? – perguntei franzindo o cenho.
–Porque queria que você viesse dormir aqui – começou a tagarelar – Preciso de sua ajuda para arrumar minha mala. Ah sim, Damon disse que seu passaporte fica pronto quinta, talvez seu visto seja aceito de primeira e nós não precisamos adiar a viagem... – a interrompi meio desanimada.
–Meu visto não vai ser aceito de primeira, nem de segunda... Isso se ele for aceito alguma vez – resmunguei.
–Não seja pessimista!
–Eu tenho ficha na polícia, April, isso é a primeira coisa que eles olham – sussurrei.
–Ah – suspirou.
–Você realmente deveria chamar outra pessoa – incentivei.
–Se você não for, eu não vou – replicou – Se não para Suíça, podemos ir para a casa dos meus pais em Aspen.
Teimosia estava na genética, não era possível.
–Não vou discutir com você – revirei os olhos.
–Engraçado, você não é de me ligar, hm – em minha opinião, ela só havia percebido aquilo naquele momento – o que aconteceu?
–Aconteceu que eu acho a sua idéia de ir dormir aí maravilhosa – talvez por que ela não fosse me deixar dormir.
–Sério?
–Mas você tem aula amanhã – fechei a cara.
–Na verdade não, meu pai já acertou com a escola sobre a viagem e eu vou entregar trabalhos na próxima semana para compensar minhas faltas. – podia vê-la dando de ombros em minha mente.
–Ok, hm, vou arrumar minha bolsa e vou para aí – disse colocando-me de pé.
–Não, eu vou aí te buscar – pausa – Eu tenho dezesseis, quase dezessete, posso dirigir.
–Eu sei – arqueei uma sobrancelha – não quer dizer que eu confie em você no volante.
–Vou tentar não ver isso como uma ofensa – ela riu. – Vou tomar um banho e sair de casa, não demore. – disse e desligou.
Tomar um banho e sair de casa, rá-rá. Isso queria dizer que eu poderia ler minha coleção completa de Harry Potter, arrumar meu guarda roupa, dormir e tomar um longo banho e ainda sim esperaria pelo menos uma hora até que ela chegasse. E não, não estava sendo exagerada.
Pedi permissão a Miranda, esperei que ela desse alguma desculpa e não me deixasse ir depois do ocorrido, mas sua resposta foi positiva. Assim, arrumei minha bolsa com o essencial e marchei para o banheiro onde tomei um relaxante banho morno.
Já pronta, fui a cozinha fazer um lanche enquanto esperava. Margareth estava empoleirada na cadeira brincando ao invés de comer seu cereal. Fiz com que ela se sentasse em meu colo e lhe distraí até que ela terminasse de comer. Fiz uma enorme trança em seus cabelos dourados e a deixei voltar para sala onde suas bonecas estavam espalhadas pelo chão.
Jeremy não estava. Miranda estava completamente despreocupada com relação a isso e gostaria que eu também estivesse. Não gostava de bancar a irmã ciumenta, mas não achava que era maduro o suficiente para arrumar uma namorada. E claro que ele estava com uma garota, ficar depois da hora para trabalhos e nota extra nunca fora seu forte – mentir também não.
–April chegou – Margareth anunciou com uma voz animada.
Dei um longo abraço em minha mãe e saí – não antes de falar com Maggie. April não saíra do carro, uma coisa que julguei estranho até perceber que ela usava pijamas. Não consegui reprimi uma gargalhada.
–Não ria, eu não tenho roupas descentes – choramingou.
–E as que você comprou hoje? – questionei.
–Já estão na mala – deu de ombros. Revire os olhos.
Não houve um minuto sequer durante todo o trajeto que ela não tivesse ocupado com conversa desnecessária – porém, bem vinda. Por alguns instantes consegui afastar meus pensamentos de Damon, o que era um ótimo começo apesar de planejar conversar sobre ele com April.
Costumava não estar envolvida com esse tipo de situação, e mesmo que estivesse, nunca tive uma melhor amiga para contar. Matt fazia um ótimo trabalho, mas nunca teve que lidar com assuntos românticos. Aliás, só quando era entre eu e ele. Eu ri sozinha com a idéia.
–O que foi? – April quis saber.
–Hm, nada – caminhava pelo caminho trilhado em pedras sobre a grama em direção a gigantesca casa branca.
Assim como o apartamento de Damon, tudo era grande demais. Tentei não parecer impressionada, mas meu espanto estava estampado em meu rosto. April praticamente me arrastou escada a cima conduzindo-me até seu quarto.
As paredes eram num tom de lilás e os móveis em madeira branca. Não pude notar os detalhes porque todas as superfícies planas estavam cobertas de roupas. Sentei-me no tapete e a encarei enquanto dava voltas pelo quarto queixando-se da falta de tempo.
–Quer jantar com meus pais ou prefere uma pizza? – perguntou – Damon provavelmente irá aparecer, Dorothea está de folga.
Estremeci e senti minhas bochechas assumirem um tom rosado.
–O que foi? – franziu o cenho. – Vocês brigaram de novo?
–Não – minha voz soou aguda demais.
–Você está escondendo alguma coisa de mim – sentou de frente para mim e cruzou as pernas.
–Não estou escondendo nada, vim para cá porque tenho a intenção de conversar com você – sussurrei.
–Ok, — respirou fundo – Vamos falar sobre o Damon. Comece.
–Não sei como começar – murmurei.
–Pelo início, talvez – abriu um sorriso malicioso.
–Ridícula – fechei a cara.
–Charlotte te odeia – começou ela, invés de me deixar falar.
–Por quê? – não era tão óbvio quanto parecia.
–Você acha que ele saia com ela? – ergueu uma sobrancelha. – Ele sempre foi fechado, acho que a base do casamento deles era sexo porque nunca o vi demonstrar absolutamente nada por ela.
–Damon gosta de privacidade, talvez seja algo que ele fizesse longe dos olhares curiosos – dei de ombros.
–Não é disso que estou falando, — ela diminuiu seu tom de voz – sinceramente? Não me dê uma surra, mas eu queria muito que vocês ficassem juntos.
Abaixei a cabeça sentindo o sangue ferver em minhas veias. Mexi em meu cabelo e soltei um longo suspiro.
–Não vou te dar uma surra – resmunguei. Eu também quero isso, não verbalizei meu pensamento.
–Ele é tão protetor e carinhoso quando se trata de você de um jeito que eu nunca vi, e – ela se arrastou para sentar-se ao meu lado. – não sei como você consegue aturar ele.
Eu ri alto tentando aliviar minha tensão.
–Damon já fez muita coisa por mim – sussurrei.
–Eu sei – suspirou. – mais um motivo.
–Não é bem assim – cerrei os lábios. Queria que fosse tão fácil como ela colocara.
–Minha mãe chegou falando sobre você ser a única mulher que consegue convencer ele a fazer o que você quer – ela riu.
–Ah sim, porque ele faz exatamente o que eu quero que ele faça e não ao contrário – disse com ironia.
–Estava querendo dizer que ela acha que ele sente alguma coisa por você, idiota – revirou os olhos.
Não respondi. Não podia criar mais esperanças em vão.
–Não faz essa cara, só você não viu que ele olha para você de um jeito diferente – pausa – Ou já viu e está se fazendo de sonsa.
Lancei-lhe um olhar nada amigável.
–Vocês estavam abraçados quando eu cheguei hoje, fiquei quase meia hora do lado de fora do restaurante esperando ele te largar para não ser chamada e empata foda e você me diz que não percebeu nada ainda? – cruzou os braços.
–Seu irmão é um mulherengo, eu que o conheço a um mês e meio, devo lembrar isso a você, que o conhece a vida toda? – disse com azedume.
–Não, ele não é mulherengo, ele é um filho da puta – abriu um meio sorriso – Gosta de se aproveitar das mulheres que dão mole para ele, e vamos admitir, qualquer homem faria isso.
–Está sugerindo que eu estou dando mole para ele ou... – deixei a frase inacabada.
–Não! – gesticulou jogando as mãos para o alto – É exatamente o contrário.
–Ah sim.
–Estou esperando você me contar o que você veio contar, você era para estar falando e não eu. – lembrou-me.
–Não se deve interromper os outros, — disse fazendo-me de sínica.
–O que aconteceu, Elena? – começou a bater os pés – Eu sei que você fica vermelha à toa, mas não vi você hoje na sua cor normal.
–Não como dizer isso – admiti.
–Não confia em mim? – sua expressão desmoronou.
–Claro que confio, mas – suspirei – não sei bem como é contar isso para uma amiga. Nunca tive uma melhor amiga mulher e nunca estive em uma situação assim.
–Quer dar dicas para que eu descubra sozinha?
–Não, você é criativa demais – disse de imediato a fazendo rir.
–Quer que eu faça perguntas? – perguntou entre risadas.
–Por que você acha que ele sente alguma coisa por mim? – perguntei num sussurro.
–Quer que eu refaça todo meu discurso ou quer uma resposta direta?
–Uma resposta direta, por favor.
–Porque eu não sou cega – murmurou.
–April – resmunguei. – É sério.
–E por você dizer que é sério, eu realmente imagino o que seja – a voz de April soou estrangulada.
–Eu disse que tenho medo da sua criatividade – suspirei.
–Então fala de uma vez cacete! – rosnou entre dentes.
–Eu gosto dele, ok? Não sou insensível, ninguém nunca fez metade do que ele fez por mim – despejei as palavras de uma só vez. – E acontece que não quero me iludir e não quero criar esperanças porque talvez eu conheça seu irmão melhor que você – fechei a cara. – Sim, eu gosto dele, não sobreviveria se ele não estivesse aqui, meu sorriso depende do dele e ele nunca vai saber disso. Satisfeita? Era isso que você queria ouvir? – minha voz falhou.
Eu merecia uma tapa na cara de mim mesma por dizer tudo aquilo em voz alta.
–Acho que eu vou chorar – ela pulou da cama.
–Acho que vou vomitar – fiz uma careta.
–Por que ele nunca vai saber? – perguntou jogando seus braços a minha volta envolvendo-me num abraço apertado.
–Porque não. É uma péssima idéia – disse a abraçando de volta meio sem jeito.
–Eu não acho que seja uma péssima idéia, talvez ele... – a interrompi.
–April – sussurrei.
–Eu não vou falar nada, não tenho esse direito – não estava vendo, mas podia jurar que ela estava revirando os olhos. – estou dizendo que talvez ele vá gostar de saber isso de você.
–Você realmente acha que eu vou dizer isso?
–Não – suspirou e deu uma pausa – Você tem noção do quanto estou feliz por saber isso?
Eu ri e afastei-me para encará-la.
–Mas não é só isso – ela me olhou de esguelha.
Sacudi a cabeça negativamente.
–Mas falar significa você criar mais expectativas – cruzei os braços novamente.
–Não vou criar expectativas, prometo.
–Sim, com certeza vai – sacudi a cabeça positivamente.
–Fala, por favor – implorou.
–Ele, hm – respirei fundo – ele me beijou.
–E minha mão vai voar na sua cara se você não o deixar saber do que você sente – gritou.
–Menos, April! – exclamei jogando uma das peças de roupa que estavam próximas de mim.
–Ah sim, desculpa, mas a ameaça é séria, logo, tome cuidado. – disse com um meio sorriso no rosto.
–Sabe que eu não vou dizer nada, não sabe? – ergui uma sobrancelha.
–Eu disse o deixar saber, e não dizer, preste atenção. Você só tem que demonstrar.
–Hm, está bem – queria dar um ponto final no assunto.
–Não quero ser chata nem te pressionar, mas sendo sua amiga eu quero que você seja feliz e sendo irmã dele eu quero que ele seja feliz com alguém que goste dele, entende? – perguntou num sussurro.
–Claro que entendo – suavizei minha voz.
–Diante aos fatos – ela abriu um sorriso malicioso – não existe uma opção para escapar do jantar.
–Eu não pretendia fugir, antes que pergunte – admiti.
–Melhor ainda – pausa – em menos de meia hora ele chega, se é que ele vem.
–No único dia que Dorothea teve folga na semana que eu fiquei lá fui arrastada até um restaurante na hora do almoço e alugada como cozinheira no jantar, não me admiraria se ele já estivesse vindo – tentei parecer indiferente.
–Então vamos descer para jantar – anunciou.
–April?
–Não vou fazer nada, eu prometo, estava só brincando, Elena – ela riu. – A parte de querer vocês juntos é verdade, mas não vou me meter.
–Obrigada – disse aliviada.
–April? – Edna bateu na porta e a entreabriu.
–Oi, mãe – ela respondeu com serenidade.
–Damon está vindo para jantar – April olhou para mim com uma expressão vitoriosa – você e Elena vão jantar conosco ou pretendem sair?
–Elena? – ela olhou para mim.
–Nós vamos ficar? – soou como uma pergunta.
–Então está tudo certo, daqui a pouco venho chamar vocês – ela fechou a porta com um sorriso no rosto.
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