Million Dollar Man

14 Capítulo 14 - All About Her


Notas iniciais
Feliz aniversário, Jennifer, sua machorra sem vergonha ♥
Esqueçam a Jenny, eu tenho que agradecer a vocês por todos esses comentários carinhosos e polêmicos, por essas recomendações lindas e eu tenho que admitir: nunca, nunca, nunca achei que alguém fosse ler essa história, e, no entanto, estou hiper feliz por ter chegado aos 130 leitores muito antes da metade da história. Obrigada de verdade, vocês são foda.
Ah! O nome do capítulo seria "Enquanto você dorme" mas... Eu amo essa música (Ensaio sobre Ela), kkkkkkkkk quem quiser ouvir, o nome do cantor é Cícero :3

Damon Salvatore narrando.

“Eu a amo, Damon” a sentença se repetia em minha cabeça como uma reza. Estranho jeito de demonstrar afeto, pensei. Procurei durante todo o caminho de volta à Manhattan um sentido naquilo. Não via como Stefan poderia sentir algo por Elena sendo que a única coisa que ele vazia era machucá-la e expô-la para seus clientes nojentos.

Elena estava encolhida em meu colo. A estranha sensação de alívio parecia duplicar todas as horas não dormidas das ultimas vinte quatro horas. Seus dedos enroscavam-se no tecido de minha camisa e seus cabelos faziam cócegas em meu pescoço. Sua expressão era de uma serenidade contagiante e lhe dava o ar de uma criança indefesa.

Suas bochechas estavam avermelhadas, um lado mais que o outro, e eu não precisava fazer nenhuma pergunta para adivinhar o que havia ocorrido. E mais uma vez os fatos contradiziam os supostos sentimentos de Stefan. Afaguei seus fios num ritmo constante ouvindo sua respiração ir e vir.

A tela de meu celular piscava. Provavelmente outra das milhares de ligações de Caroline. E eu não a culpava, caso estivesse em seu lugar, estaria igualmente nervoso e me sentindo culpado. Confesso que mesmo não estando em seu lugar estava demasiado estressado, nervoso e cansado. Não acrescentaria com fome na lista para não soar exagerado.

O céu clareava aos poucos através da janela. O sol se escondia atrás das nuvens dando a estranha sensação de anoitecer. Pensar que já havia mais de um dia que eu não deitava em minha própria cama parecia tornar o caminho ainda maior. Xinguei a companhia aérea mentalmente por não oferecer melhores acentos. E xinguei ainda mais a mim mesmo por só deixar para fazer manutenção no jato da empresa no dia da viagem.

Soltei um suspiro pesado e repousei meu queixo sobre a cabeça de Elena. O perfume de morango de seu cabelo já me era extremamente familiar e no momento proporcionava-me uma curiosa satisfação. Ainda inconsciente, ela resmungou algo e se remexeu ajeitando-se numa posição de maior conforto.

–Devo guardar o carro ou o senhor pretende usar ele nas primeiras horas da manhã? – perguntou Colin, meu fiel motorista e mordomo.

–Pode deixar na garagem, não vou sair antes do almoço – sussurrei satisfeito por estar finalmente em casa.

Logo que o carro parou tive uma discussão mental e minha decisão foi não acordar Elena. Distribuí seu peso em meus braços e a ergui com facilidade. Colin foi na frente, chamando o elevador e abrindo as portas. Soltei um gemido de desanimo ao lembrar que Katherine havia voltado a ocupar seu quarto no segundo andar.

Não que ela estivesse esperando por mim ou algo do tipo, mas suas coisas estavam lá, e não via a Srta. Eu-Sou-Dona-Do-Meu-Nariz-E-Sei-O-Que-É-Bom-Para-Mim acordando de bom humor com as coisas de sua amada amiga a sua volta. Meu sono teria de esperar.

Assim que passei pela porta de entrada de meu apartamento, acelerei meus passos até estar em meu quarto. Puxei a colcha e a cobri, logo em seguida, providenciei outra colcha e coloquei sobre a mesma para garantir que ela não sentisse frio, uma vez que seus lábios estavam púrpura.

–Damon – Edna caminhou em passos lentos até estar ao meu lado.

–Aconteceu alguma coisa? – franzi o cenho. Não era comum ela estar por ali àquela hora, ainda não eram sete da manhã.

–Liguei para cá e Dorothea disse que você não veio direto para casa – pausa – eu que devo perguntar, aconteceu alguma coisa? – seus olhos não estavam mais em mim.

Sentei-me na beira da cama e puxei o travesseiro de Elena para o meu colo, ela sequer se moveu. Sorri e voltei a brincar com seus cabelos.

–Elena – revirei os olhos fingindo desdém.

–O que ela fez? Ou o que ela não fez?

–Uma amiga dela a ligou pela manhã de ontem pedindo ajuda porque o Stefan tinha a colocado na rua e ela não tinha para onde ir – fechei a cara – E claro que invés de me ligar ela foi até lá ajudar.

–Mas nesse caso não poderia ajudar e ela acabaria lá sozinha de um jeito ou de outro – traguei saliva e molhei os lábios – Para variar, ela deixou o celular com a tal amiga e disse que se alguém ligasse dissesse onde ela estava. Devo admitir que burra nenhum das duas são, porque a primeira ligação de Caroline foi as sete e vinte da manhã, eu estava no vôo para Seattle com o celular desligado.

Como Edna não se pronunciou, continuei.

–Assim que cheguei lá, fui direto para uma reunião e não cheguei a ligar o celular. Só fui fazer isso depois que saí do jantar com os diretores gerais, e isso já era mais de nove da noite. – suspirei – Acho que perdi uma pela briga.

–Vocês vivem brigando – comentou.

–Não é todo dia que se encontra que tenha argumentos para manter uma discussão por mais de uma hora – eu ri sem nenhum humor. – Ela é muito cabeça dura e teimosa. – franzi o cenho.

–Mas ela está bem? – Edna fugiu do assunto.

–Não sei – admiti – Mas acho que não. No mínimo ela vai acordar com uma puta dor de cabeça e com uma gripe terrível.

–Ela parece estar congelando – observou – Tem alguma manta por aqui?

–Segunda gaveta do lado esquerdo da cômoda – murmurei.

Assim que ela se afastou, puxei ainda mais a coberta e tirei meus sapatos sendo seduzido pela cama. Acomodei-me enquanto me apoiava no encosto da cama e desabotoei os primeiros botões de minha camisa. Soltei um suspiro pesado e peguei o outro travesseiro para apoiar minha cabeça.

Edna jogou a manta sobre Elena e se sentou fazendo com que o colchão vacilasse. Seus olhos fitavam-me curiosamente, sua expressão moldava uma desconhecida mascara de curiosidade misturada com malicia.

–Posso saber o que ela fez com você? – Edna perguntou divertida.

Eu ri sem saber o que responder ao certo.

–Damon? – o tom de sua voz agora era diferente.

–Diz para mim que isso não é por causa da Melanie. – Edna cerrou os lábios.

–Não – e realmente não era – Elas são completamente diferentes. Mesmo que elas tenham passados por momentos parecidos e tenham alguma semelhança física, há um abismo entre as duas.

–Eu sei que você a amava e sente muita falta dela, mas – suspirou – não quero que você se iluda achando que a Elena vai ser ou é igual a ela.

–Eu não quero que a Elena seja igual a minha mãe – repliquei – Aliás, você é minha mãe. – soltei um longo suspiro e respirei fundo antes de continuar – Gosto dela por ela ser ela e não por ela me lembrar a Melanie, até porque nesse ponto não tem nada a ver.

–Charlotte a odeia – Edna disse como se aquilo fosse alguma novidade.

Ergui uma sobrancelha, minha expressão era de pura ironia.

–Elena tem tudo o que ela sempre quis ter, — dei de ombros deixando a mensagem implícita.

–Hm – ela riu. – Não farei mais perguntas.

–Preciso comer alguma coisa – disse mudando radicalmente de assunto.

–Vou pedir Dorothea para fazer algo para o café. – Edna se colocou de pé – Eu acho que você deveria acordá-la. – cerrou os lábios – Mesmo que depois ela volte a dormir, ela precisa comer alguma coisa e tomar um banho.

–Não tenho coragem – fechei a cara.

Ela revirou os olhos.

–Elena? – Edna disse com doçura aproximando-se da cama novamente.

Elena continuava a dormir feito pedra. Eu ri.

Puxei-a gentilmente para que ela se sentasse e a chamei. Ela resmungou algo e abriu os olhos preguiçosamente. Suas feições minúsculas lhe davam um ar infantil maior do que o de costume devido sua sonolência.

–Hm – ela resmungou outra vez, dessa vez parecendo extremamente confusa.

–Está tudo bem? – perguntei analisando seu rosto.

–Acho que não – disse com sua voz rouca deixando transparecer sua manha. Se tanta coisa não tivesse acontecido eu poderia rir.

–Toma um banho – disse com autoridade – Depois que comer você pode voltar a dormir.

–Minha cabeça está doendo – choramingou. – Meu estômago também e sinto como se eu fosse vomitar.

–É normal, Anjo – tentei tranqüilizá-la. – Depois que você comer passa.

Ela assentiu e esfregou os olhos parecendo querer afugentar o sono.

–Vou pegar uma das roupas de April para você vestir – Edna disse nos deixando a sós no quarto.

–Agora já é depois? – ela perguntou num sussurro.

–Por que você não esperou que sua mãe chegasse para sair? – perguntei como resposta. – Por que não pediu para que Matt fosse com você? Por que você não me ligou, Elena?

–Desculpa – murmurou – Caroline estava chorando e não consegui raciocinar direito. – ela suspirou – Eu disse que não voltaria lá e eu realmente não queria isso, mas me desculpa.

–Vou deixar passar porque eu não estava na cidade – tentei não me mostrar afetado. – Stefan fez alguma coisa com você?

–Sim e não – sua expressão mudou bruscamente – Primeiro ele disse que não ia me deixar sair de lá e que eu teria que fazer tudo que ele mandasse, mas depois... – eu a interrompi.

–Ele te bateu – não foi uma pergunta.

–Só porque eu bati nele – replicou.

Dei uma gargalhada.

–Esse tipo de coisa você deveria esperar para fazer na minha frente – dei uma pausa – continue.

–Tive que fazer tudo aquilo de novo – Elena encolheu-se – e ele disse que seria o ultimo. Ele também usou a desculpa de que eu estava no lugar de Caroline para que eu deixasse que aqueles homens me beijassem – sua voz falhou. Enrijeci – Stefan praticamente implorou para que eu o beijasse de volta e depois saiu falando que eu podia descansar. – fingi não saber o motivo.

Elena piscava com mais freqüência do que o necessário. Conhecendo-a bem, podia jurar que ela estava travando uma enorme luta contra as lágrimas que umedeciam seus olhos chocolates vibrantes.

–O que foi? – perguntei percebendo sua respiração acelerada.

–Foi horrível – sua voz era quase inaudível. – Não como das outras vezes, eu nunca fui tão xingada e... Dói. – estremeceu – sinto nojo de mim – ela fungou encarando suas mãos sobre seu colo.

Uma pontada de raiva surpreendeu-me. Importar-se com alguém não era tão bom quanto eu pensava. Respirei fundo e fiz uma contagem regressiva em minha mente tentando desacelerar o ritmo de meus pensamentos.

Procurei algo que lhe servisse de conforto para dizer, mas os significados e a coesão pareciam fugir de mim à medida que meu cérebro torturava-me com imagens das cenas descritas por Elena. Franzi o cenho observando-a persistir em sua luta interior.

Esperei que ela dissesse alguma coisa, mas o silêncio predominava o quarto. Elena deixou que seus cabelos formassem uma cortina escondendo seu rosto de mim. Odiava aquilo. Odiava as barreiras que ela criava envolta de si para esconder seus sentimentos.

Inesperadamente, ela deitou sua cabeça em meu ombro e escondeu seu rosto mantendo seu silencio enlouquecedor. Sua mão direita fora posta sobre a minha propositalmente. Abri um sorriso malicioso e a entrelacei na minha parecendo a pegar de surpresa.

Com a ponta dos dedos, fiz desenhos abstratos nas costas de sua mão. Sua respiração se alterava uma vez ou outra e podia sentir os tremores de seu corpo. Ouvi o som da porta de se abrindo e logo em seguida se fechando, mas continuei a encarar o chão de madeira lisa.

–Acho que a única coisa que serve em você – Edna parecia evitar fazer um contato visual conosco. Reprimi uma risada – é esse pijama de moletom.

–Depois peço Colin para comprar algumas roupas para ela – esperei ouvir uma reclamação, mas Elena continuou em silêncio.

–Está certo – disse e se retirou.

Elena se endireitou e colocou-se de pé. Dói. Não havia parado para pensar no quanto aquilo poderia ter sido dolorido. Há certo tempo ela fazia porque queria, mas ela tinha prometido. Nenhum homem do tipo que paga uma mulher para sentir prazer seria homem o suficiente para tratá-la como deveria.

–Não tranque a porta – sussurrei.

–Não vou tomar banho de porta aberta – retorquiu.

–Não disse para você não fechar a porta, disse para você não trancar – ergui uma sobrancelha – Você não está em condições de discutir, faça o que eu disse.

–Aham, vou – revirou os olhos. Trinquei os dentes sentindo emoções primitivas dominarem meu corpo. Sua sorte é a distância, pensei cerrando os dentes.

Ouvi-a girando a tranca da porta nem meio segundo depois de fechá-la. Revirei os olhos e suspirei. Aproveitei para pegar uma muda de roupas e ir para o outro banheiro. Abri o chuveiro quente e deixei que a água caísse em minhas costas aliviando a tensão de meus músculos. Invés de mais desperto, o banho deixou-me completamente relaxado. O sofá de meu quarto nunca me pareceu tão confortável.

Assim que saí do banheiro, avistei Edna e Elena tendo uma conversa descontraída enquanto sentadas no sofá da sala. O pijama de April ficara curto para Elena, mas ao mesmo tempo largo. A cor lilás e os cabelos molhados quase até sua cintura davam-lhe a imagem de uma menina de doze anos.

–April ligou – Edna disse assim que me aproximei.

–Em sua posição de mãe, tomaria o celular dela uma vez que era para ela estar na escola – disse. Elena revirou os olhos com desdém.

–Existe uma coisa chamada intervalo, Damon – ela lembrou-me antes de continuar. – Ela quer que você vá almoçar com ela.

Assenti.

–Você vai comigo – apontei para Elena – Depois te deixo em casa. – dei uma pausa – Inclusive acho que você deve ligar para sua mãe.

–Já liguei – disse abraçando uma das almofadas.

Pensei em perguntar o resultado da conversa, mas ao julgar por sua expressão não era tão bom quanto eu esperava. Dorothea serviu o café da manhã e gesticulou para fossemos comer. Por um milagre divino, não precisei insistir para que Elena comesse mais que uma fatia de bolo e fiquei secretamente satisfeito por isso.

–Como está sua cabeça? – perguntei assim que terminamos a refeição.

–Melhor – disse com uma careta.

–Mentirosa – acusei.

–Quem está sentindo sou eu – rebateu.

–Vou pegar o remédio – não dei uma brecha para que ela continuasse a discussão.

Junto com o analgésico, lhe dei um comprimido contra gripe. Acompanhei-a de volta ao quarto e esperei que ela se deitasse. Ri ao perceber que seu tamanho era pequeno demais às proporções da cama.

–Damon? – detectei o sinal de manha em sua voz. Ergui uma sobrancelha e a fitei esperando que continuasse.

–Hm?

–Você pode, hm, me emprestar um par de meias? – suas bochechas assumiram um tom róseo.

Abri a primeira gaveta de meu guarda roupas e lhe joguei um par de meias brancas grossas. Ela as calçou e puxou a colcha até altura de seu pescoço. Cansado demais para esperar que ela dormisse para poder fazer o mesmo, arrastei-me até o armário e peguei edredom antes de pegar o travesseiro sobrando da cama.

–Você não vai dormir no sofá – começou ela.

Você não vai dormir no sofá – dei ênfase no você.

–Não é justo – replicou.

–A vida não é justa, nunca lhe disseram isso? – murmurei.

–Não é hora para filosofias – soltou um suspiro pesado.

–Exato. Agora cale sua boquinha e vá dormir – abri um largo sorriso.

–Não – ela riu – Ninguém me manda calar a boca – pausa. – Vou para o sofá.

–Você vai ficar bem onde você está se não quiser me estressar – alertei.

–Não tenho medo de te estressar – disse arrastando-se para fora da cama.

–Se não for para dormir na cama, você não vai dormir no sofá – provoquei – Não se preocupe o chão é limpo.

–Para mim, tudo bem – deu de ombros.

Trinquei os dentes.

–Vou esperar você acordar – esperar ela dormir era a única opção.

–Não, você vai esperar eu fechar os olhos para deitar no sofá – cerrou os lábios.

Irritante. Teimosa. Chata. Manhosa. Pretensiosa. Implicante. Cabeça dura.

A lista era grande demais.

–Vai ficar acordada para saber o que pretendo fazer? – ergui uma sobrancelha.

–Vou – cruzou os braços.

–Fique à vontade. – dei de ombros e deitei-me na cama. – Chega para lá – a empurrei quase a derrubando na intenção de irritá-la, o que consegui com sucesso – não babe no meu travesseiro e não se mexa.

Esperei por xingamentos, mas fui golpeado meia dúzia de vezes por seu/meu travesseiro. Meu corpo inteiro se estremeceu devido minha risada. Elena fechou a cara e deitou-se de costas para mim. Fiz o mesmo e fechei os olhos esperando que o sono finalmente me encontrasse.


Já se passavam do meio dia quando finalmente consegui sair da cama. Elena continuava em sono profundo. Dei ordens a Colin para que ele comprasse um agasalho para Elena, uma vez que sairíamos para almoçar com April. Tomei outro banho, dessa vez economizando tempo, e vesti-me sem muita pressa.



De volta ao quarto, tentei acordar Elena de todas as maneiras gentis possíveis. Entendia perfeitamente que ela estava cansada e que precisava dormir, mas sua mãe provavelmente estaria enfartando com sua demora. Inclinei-me e depositei um beijo em sua bochecha. Ela se remexeu e resmungou algo antes de abrir os olhos.


–Levanta – disse arrancando seu travesseiro.



–Ai!



–É meu – a lembrei.



Ela fechou a cara se sentou na cama enquanto bocejava. Eu ri se sua expressão preguiçosa e puxei a coberta.



–Saí daqui – ela resmungou.


–Estou no meu quarto, saí você – provoquei.

–Com prazer – ela disse e seguiu para o banheiro.

–Sair do meu quarto para ir para o meu banheiro, que inteligente – eu ri.

–Mamãe não te ensinou? – ela parou no meio do caminho – Não se pode ser egoísta, é feio.

–April saí em vinte minutos, que isso sirva de aviso – disse e saí do quarto dando-lhe privacidade.

Quinze minutos marcados no relógio e ela estava pronta. Vestia uma calça jeans escura com uma blusa de mangas compridas na cor preta e por cima uma jaqueta clara. Seus cabelos estavam ondulados e sua face livre de qualquer resquício de maquiagem.

–Mais alguma coisa? – perguntei olhando no relógio.

–Não.

O trajeto até o restaurante vegetariano favorito de April era curto e tranqüilo, conseguimos chegar antes dela, o que pensei ser impossível. O vento soprava violentamente congelando minhas mãos e jogando os cabelos de Elena para trás. Sem muita cerimônia, seguimos até uma das mesas mais reservadas e sentamos a sua espera.

–Quer beber alguma coisa enquanto esperamos? – sussurrei arrastando a cadeira para que ficasse mais próximo dela.

–Não – sacudiu a cabeça – Na verdade, acho que quero um chá.

Pedi um chá, não só para ela, mas também para mim. Elena encarava suas mãos enquanto mordia os lábios. Eu ri de sua expressão nervosa contendo-me para não beijá-la e fazer o mesmo.

Passei meu braço por sua cintura e puxei para perto de mim. Ela soltou um suspiro pesado e aconchegou-se apoiando sua cabeça em meu braço. Acariciei sua mão em seu colo lhe arrancando um sorriso tímido.

–Damon – ela sussurrou em meio a uma risada.

–Quer que eu pare? – ergui uma sobrancelha.

Não houve uma resposta, continuei a acariciar sua mão. Seu perfume, já grudado em minhas roupas, enchia o ar e tornava meus pensamentos ligeiramente nublados e fora de foco. Seu corpo tremia irregularmente, preparei-me para tirar minha jaqueta, mas ocorreu-me que talvez não fosse frio. Abri um sorriso malicioso.

–Er... Oi – April aproximou-se desviando o olhar.

–Oi – disse lançando-lhe nada amigável. Elena tentou se afastar, mas não permiti que ela o fizesse.

–Ok, eu perdi horas ontem arrumando minhas coisas para viagem – começou – Vamos na sexta e voltamos na quarta, vai estar muito frio, aliás, lá é muito frio – April começou a falar rápido demais – e na outra sexta é a festa, eu não sei o que vou vestir ainda e não quero convidar ninguém da escola, não sei o que devo – eu a interrompi.

–Respira – eu ri.

–Para onde vamos, afinal? – Elena perguntou franzindo o cenho.

–Genebra, Suíça – April abriu um sorriso largo.

–Ah – ela suspirou – Só tem um probleminha. Eu não tenho passaporte.

–Eu não tinha pensado nisso antes – disse para mim mesmo.

–Eu devia ter perguntado antes, desculpa – Elena deu de ombros. – E eu não tenho agasalhos que suportem o frio da Suíça, April deveria chamar outra pessoa.

–Nada que não possa ser resolvido – April fechou a cara. – Damon é o empresário mais influente dos Estados Unidos, ele tem que conseguir seu passaporte até sexta.

–Passaporte é muito fácil – disse – visto é outra história.

–Então nos adiamos a viagem – April cruzou os braços.

–Você ficou maluca? – Elena objetivou. – Faça isso e eu não vou.

–Você não está querendo ir de jeito nenhum mesmo – dei de ombros concordando com April.

–Eu devia ter te falado para onde nós íamos, logo eu me responsabilizo – pausa – talvez eu consiga re-agendar a viagem para depois da festa.

–Primeiro eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para embarcarmos na sexta, se não der certo, aí tudo bem você adiar a viagem – disse calmamente.

–Está bem – Elena revirou os olhos.

–Ok – respirei fundo – o que vamos comer?

–Ah não sei, estou ansiosa demais para sentir fome – April estava quase pulando na cadeira.

–Estou começando a achar que Elena não é uma boa influência para você – dei um sorriso duro – Você vai comer. Eu não acordei à toa.

Ambas riram.

O almoço foi um evento repleto de conversas femininas – mesmas que eu tentei ignorar em sua maior parte. Era complexo demais para tentar entender. April e Elena fizeram planos para a viagem e não pararam de rir um segundo se quer. Quando terminamos, assumi o posto de babá ao levá-las para comprar roupas. E não precisava acrescentar de quem era a idéia.

Ser o único homem dentro de uma loja de roupa feminina podia ser comparado a entrar num banheiro feminino por acidente, não existia uma mulher sequer que não me encarasse com o desdém estampado em sua testa. Pior ainda era ter de opinar em suas escolhas.

“Está ótimo” ou “Gostei” não pareciam ser suficientes. Sinceramente ainda não via um fundamento em pedir a opinião se elas não fossem aceitar no fim das contas. Elena por exemplo, pediu opinião sobre uma blusa de mangas compridas e gola V na cor preta – transparente, devo adicionar – eu respondi que não gostei com uma careta e foi a primeira peça de roupa que ela quis levar.

Quando a tortura finalmente cessou, dirigi até uma cafeteria. Tinha lados positivos de estar sendo excluído da conversa – um deles era poder criar uma bolha e pensar. Meu cérebro estava ocupado demais refletindo sobre minha situação. Primeiro, Katherine estava furiosa por descobrir que Elena dormia em minha cama e vestia minhas roupas. Eu, no entanto, ficaria furioso se Katherine fizesse o mesmo. Ela era minha submissa, não tinha que ter intimidade comigo.

Uma questão que de fato teria de mudar. As coisas começavam a ficar mais complicadas dia após dia. Segundo, Charlotte aparecia em meu escritório quase todos os dias com a desculpa de ter um assunto inacabado, mas sabia que seu intuito era saber se eu ainda estava namorando Elena – ela não fazia idéia da história por trás de minha mentira – e como era esse relacionamento.

Mulher sempre será um sinônimo de problema. Sempre serão complicadas e complexas demais. Mas no final todo homem têm que admitir que não conseguiria viver sem uma – nem que seja a mãe.

Terceiro, Elena sabia sobre Melanie e eu podia jurar que ela achava que Mel fora alguma namorada minha. Talvez ela ache que esse seja o motivo para eu dizer que não sinto nada por ninguém. Fazia sentido, mas não era verdade. Só nunca havia tido uma experiência que me fizesse acreditar que amor – não maternal – realmente podia acontecer.

–Damon eu preciso ir para casa, minha mãe já ligou duas vezes – Elena murmurou rompendo a linha de meus pensamentos.

–Ah sim – sussurrei. – Vou deixar April em casa no caminho.

Ela apenas assentiu.

O curto trajeto até a casa de meus pais foi um evento silencioso, exceto pela música que tocava ao fundo. April despediu-se e pulou para fora do banco traseiro assim que parei em frente a familiar e grandiosa casa no subúrbio de Manhattan.

Uma vez a sós, pude sentir a esfera de nervoso nos envolvendo. Elena olhava para todos os cantos menos para mim. Sua respiração era ruidosa e suas unhas eram roídas vorazmente. Dirigi lentamente contornando as esquinas mais movimentadas que nos levavam até a ponte que ligava a ilha ao resto de Nova York.

–O que foi? – perguntei quando já estamos próximos a sua casa.

–Nada – ela ainda evitava olhar para mim.

Estacionei o carro de frente a sua casa. Travei as portas e deixei o motor ligado. Ouvi o som das fivelas do cinto se abrirem e senti seu olhar em meu rosto. Finalmente, disse mentalmente.

–Não vou entrar – sussurrei – Diga para sua mãe que disse “oi” – acrescentei.

–Ok – ela suspirou.

Livrei-me do sinto para que pudesse inclinar-me e depositar um beijo demorado em sua bochecha. Elena corou e cerrou os lábios antes de abrir um sorriso tímido. Seus olhos tinham um brilho desconhecido e suas pupilas estavam ligeiramente dilatadas.

–Amanhã eu venho aqui para conversar com sua mãe sobre a viagem, ok?

–Aham – sussurrou.

Com a ponta dos dedos, contornei a linha de seu queixo até sua têmpora. Afaguei seus cabelos e coloquei uma mecha que cobria parcialmente seu rosto em seu lugar, atrás de sua orelha. Aquilo não parecia ser o suficiente. Sabia muito bem o conceito que ela tinha sobre o que eu estava prestes a fazer, e a essa altura, admitia que o meu conceito era o mesmo.

Sem hesitar, aproximei-me e rocei meus lábios contra os dela lentamente mantendo minha mão em sua bochecha rosada. Dei um leve beijo em seu lábio inferior e em seguida fiz o mesmo com o lábio superior. Seus olhos que antes olhavam diretamente nos meus, tinham sua atenção em meus lábios.

Fechei os olhos e seilei meus lábios nos dela dando inicio a um beijo calmo e doce. Suas mãos antes presas como pedra ao lado de seu corpo, agora massageavam meus cabelos e acariciavam minha nuca. Senti o gosto de sua boca se espalhar por minha língua fazendo com que um espasmo de prazer corresse por minhas veias.

Sua respiração era irregular assim como a minha quando lhe permiti se afastar. Desci minhas mãos por seu corpo até encontrar sua cintura e lhe beijei outra vez deixando a calma de lado e sendo guiado pelo desejo de meu corpo.

Meu sangue fervia em minhas veias enquanto sua língua explorava a minha vorazmente. Seus dentes mordiscaram meu lábio de leve fazendo com que um gemido escapasse por minha garganta contra minha vontade Puxei-a para o mais perto que o espaço do carro permitia.

Voltei minhas mãos para seu rosto e em seguida tracei o caminho até encontrar sua nuca. Assim como ela havia feito, enrolei meus dedos em seus cabelos macios de sedosos e desfrutei do momento do mesmo jeito que ela parecia desfrutar.

Ela quebrou o beijo quando o ar lhe foi necessário e me encarou. Seus olhos estavam em chamas – suas bochechas também, ao julgar pela cor. Um sorriso brincou em seus lábios e ela desviou o olhar afastando-se rapidamente.

–Boa noite, Elena – abri um largo sorriso satisfeito e inclinei-me para dar um breve selinho em seus lábios.

Destravei a porta do carro e deixei que ela saísse.

Elena andou em passos largos até chegar na pequena varanda de madeira. Antes se esgueirar porta a dentro, ela lançou-me um olhar carinho e acenou. Uma sensação estranha inundou meus sentidos como uma avalanche. Respirei fundo mais de uma vez para recuperar meu estado mental e dei a partida no carro com um sorriso torto estampado no rosto.

Notas finais
Não deixem de comentar - e espero, de verdade, que tenham gostado (: