Million Dollar Man
33 Capítulo 33 - Madness
Notas iniciais
Obrigada patchê e Fê Rodrigues pelas recomendações lindas, amei demais ♥ amei amei amei amei mesmo C':
Bem, o capítulo está aí, não ficou como eu queria e isso porque não quero atrasar mais a atualização. Para vocês que já estão desanimadas com a história, tenho um aviso a fazer: calma que já está acabando, só não me abandonem agora...
Sem mais delongas, espero que gostem C:
Contornei a esquina dirigindo meu carro; receosa, diminuí a velocidade à medida que me aproximava da antiga e recém-reformada casa. Suas antigas paredes recobertas por madeira desbotada foram substituídas por tinta clara realçada pelas madeiras escuras das portas e janelas. As telhas, todas trocadas, agora cintilavam um marrom avermelhado e tendo como detalhe a lareira construída com a obra. A grama do jardim de frente brilhava e exibia seu bom tratamento; as rosas do canteiro pareciam mais lindas que nunca. Por dentro, tudo estava diferente. O chão de assoalho precário fora substituído por uma cobertura de madeira clara nas salas e nos quartos enquanto a cozinha se mantinha diferente com piso de uma pedra clara. Os móveis, todos eles, foram trocados começando, é claro, pelos armários sem vida da cozinha.
Até mesmo uma pequena piscina fora construída nos fundos; poderia ser até um desperdício de dinheiro, mas pelo menos uma das vontades de Maggie havia de ser atendida. O segundo andar era completamente novo, fora para lá que os quartos se mudaram e, junto deles, uma biblioteca para que eu pudesse guardar meus livros. Jeremy praticamente beijara meus pés depois de se deparar com a reforma em seu quarto que agora só utilizava nos fins de semana; decorei parede por parede não só com os seus desenhos, mas também com pôsteres de bandas que ele costumava escutar. O ultimo agrado foi um computador que aguentasse todos os seus jogos esquisitos sem travar ou dar qualquer erro cujo na linguagem dele tinha um nome muito estranho.
A melhor parte disso tudo, era saber que eu era quem bancara a reforma. Eu comprara um carro. Eu era autossuficiente; eu sustentava a mim, minha mãe e meu pai, em parte. Tudo sem deixar ninguém tocar em meu corpo. Pensar naquilo fez com que um largo sorriso se espalhasse por meu rosto. Suspirei, tanto havia mudando em dois meses que chegava estar desorientada. Peguei a bolsa sobre o banco do carona e saí do carro trancando a porta em seguida. Saquei meu celular e deparei-me com uma mensagem de texto de Matt.
Nosso namoro estava melhor do que um dia eu poderia imaginar. Estava começando a me acostumar e retribuir seus sentimentos; ao contrário do que tinha no meu curto histórico de relacionamentos, tudo era calmo demais. Tudo poderia ser resolvido numa simples conversa, ou então, numa troca de mensagens a distância sem grande esforço. Resumindo: tudo que eu queria ou falasse ele assentia. Chegava ser entediante. Até mesmo sexo, céus, ele conseguia fazer com que eu me sentisse ainda mais suja sabendo que eu fora quem tirara sua virgindade. Tudo certo demais, calmo demais... Monótono demais... O nosso único desentendimento diário era o fato de que eu continuava a trabalhar para Damon. Sim, aquilo também me incomodava e somente por isso concordei em pedir ajuda a Kol, advogado do departamento de só Deus sabe o que, para que ele enviasse meu currículo para alguma outra empresa ou escritório.
Ok, não era só o fato de trabalhar para Damon que estava me corroendo. Como já esperava, Katherine e ele pareciam estar mais próximos do que nunca e, mesmo namorando Matt, sentia-me horrível vendo-os juntos. Talvez fosse ciúmes – ou talvez apenas egoísmo, mas não queria vê-lo com outra mulher, era frustrante e no fim das contas se tornava depressivo devido minha mania de pensar “poderia ser eu”. Por sorte, Kol se mostrou interessado em me ajudar, almoçamos juntos algumas vezes buscando lugares procurando por novos funcionários e o fato de ter trabalhado na empresa abriu portas inesperadas. Óbvio que o salário não era tão gordo, e nem mesmo esperava que fosse; ainda sim era mais que satisfatório. Quase um ano trabalhando e já tinha o suficiente para passar um ano de pernas para o ar sem nenhuma preocupação.
Pensei por um instante na possível reação de Damon. Algo me dizia que ele não aprovaria a ideia – no fundo, nem eu aprovava. Contudo, aquela era a única forma de mantermos algum contato. Uma vez que eu deixasse o cargo, não haveria desculpas para procurá-lo, ou telefonar... Ou sequer dar bom dia. A decisão ainda não havia sido tomada, mas já sentia a saudade se derramar em minhas veias trazendo uma dor chata de cabeça. Sacudi a cabeça livrando-me das ideias e abri a porta da frente.
-Maggie! – exclamei ao ver os cachos dourados da pequena se sacudirem enquanto ela corria em direção aos meus braços. Céus, como eu senti falta de tê-la por perto.
-Lena! – disse com sua voz infantil e doce abrindo um sorriso sapeca finalmente abraçando-me fortemente.
-Hey, meu anjo – abri um sorriso involuntário e a abracei de volta. – Como você cresceu! – observei afagando seus cabelos antes de depositar um demorado beijo em sua bochecha. Margareth corou e enrolou os cabelos nos dedos depois de meu elogio. Ainda me perguntava como ela conseguia fica cada vez mais linda.
-Elena! – Miranda apareceu no fim do corredor próximo a escada com um breve sorriso no rosto. Gesticulou para que eu terminasse de entrar e veio ao meu encontro com os braços estendidos abraçando nos duas de uma só vez. – Achei que tivesse esquecido o caminho de casa.
-Confesso que andei meio ocupada nessas ultimas semanas – suspirei e beijei sua testa ternamente.
-Diga-me, você já almoçou? Quando tu disseste que vinha, decidi fazer aquela macarronada que você tanto gosta – disse sugestivamente.
-Não e nem pretendia porque tenho uma reunião com Damon daqui a pouco – mordi o lábio – Mais sinto falta de sua comida, principalmente desse macarrão que só de pensar em comer já engordei dez quilos.
-Imaginei – ela riu – Como você está? E Matt? Não veio junto de ti por quê? – quis saber.
-Estou ótima, cansada, mas ótima – suspirei – Matt está trabalhando e acabou de me mandar uma mensagem dizendo que vai direto para a faculdade, sendo assim não há necessidade de que eu vá a seu apartamento. – dei de ombros. – Mas ele pediu que eu lhe abraçasse por ele – revirei os olhos.
-Está tudo bem entre vocês? – ergueu uma sobrancelha.
-Bem até demais – disse com ironia — Talvez esse seja o problema, não estou acostumada com namoros assim. Mas, não interessa! Tenho algumas novidades para você – adiantei.
-Lena, quero ver o tio Damon – Maggie pediu interrompendo nossa conversa.
-Oh, anjo, não acho que vá dar tempo – cerrei os lábios. Na verdade, não acho que ele arrumaria tempo para vê-la. – Não hoje, quem sabe outro dia? – propus.
-Mas... – choramingou – Já tem tanto tempo que ele não vem aqui. – eu definitivamente não merecia aquilo.
-Vou falar com ele hoje e marcamos um dia para nós três sairmos juntos, ok? – menti.
-Posso ir com você? – Miranda cruzou os braços e desviou o olhar com uma das sobrancelhas erguidas. – Não vou fazer bagunça, por favor, depois eu vou dormir na sua casa e...
-Amanhã você tem escola – usei como desculpa.
-Amanhã é sábado! – exclamou. Puta merda, nunca odiei uma sexta-feira antes.
-Tudo bem, mas será muito rápido e não prometo nada – disse mal humorada a colocando no chão. Maggie abriu um sorriso vitorioso e correu para as escadas, provavelmente, em direção a seu quarto.
-Se não quiser ir, eu seguro as pontas com ela – Miranda disse assim que a pequena não estava mais em nosso campo de visão.
-Não, está tudo bem – murmurei – Não vai demorar e ela sempre se comporta bem, então...
-Você é quem sabe – gesticulou – Qual é a sua novidade? – perguntou voltando a caminhar até a cozinha – Diga enquanto termino de aprontar o almoço.
-Lembra que eu comentei sobre minha vontade de deixar a empresa para trabalhar em... – ela me interrompeu.
-Elena – parou repentinamente e cruzou os braços.
-Recebi uma proposta para trabalhar como secretária em um escritório de advocacia – continuei como se ela não houvesse me interrompido – Um amigo – gay, não disse em voz alta – me ajudou com o currículo e tudo mais. E, ao que parece, ter trabalhado todo esse tempo na empresa meu uma credibilidade maior do que eu poderia imaginar. O salário não é tão alto, mas ainda sim, é ótimo, na segunda mesmo vou marcar a entrevista.
-Você tem tudo que precisa minha filha, para que isso agora? – questionou soltando um suspiro de frustração.
-Porque sinto como se só estivesse ali por um dia ter namorado ele, o que, sem dúvidas, é verdade. E outra, vejo tantas pessoas se matando para conseguir um emprego lá... Não acho justo ter essa oportunidade sem ao menos ter uma formação no ensino superior – não quis mencionar a questão sentimental; era completamente desnecessária.
-E, por acaso, isso é motivo para você se demitir, Elena? Muito pelo contrário! Deixe esse orgulho de lado e agradeça muito essa oportunidade, como você mesmo disse, muitos querem estar lá dentro e não há motivos para você sair.
-Mãe, não estou pedindo sua opinião ou permissão, estou apenas contando que possivelmente, até o fim da próxima semana, estarei trabalhando em outro lugar – desse seca. E o mau humor que me assombrara nas ultimas horas estava de volta trazendo consigo a falta de paciência.
-Não sei para que está me falando então, mas tudo bem, não quero brigar, acho que sabe o que está fazendo – pausa – Só não venha reclamar comigo depois, e nem pense em dizer que eu não lhe avisei porque não vou dar ouvidos – voltou a andar para a cozinha. Revirei os olhos e fechei a cara.
-Quer saber? Perdi a fome – bufei – Tenho uma hora para voltar para escritório e o trânsito está horrível. Dê uma desculpa qualquer a Margareth; não estou nem um pouco a fim de passar a tarde inteira com Damon, e não acho que ele tenha tempo para bajulá-la. Obrigada pelo almoço, mas não vou ficar. – disse apressadamente fugindo de uma discussão – Amanhã eu volto para dar uma volta com Jer e levar Margareth ao shopping, ok?
Antes que ela construísse uma resposta plausível, me virei e fiz o caminho de volta até o carro.
(...)
Mais tarde, naquele mesmo dia, dirigi até a casa de April atendendo seu convite para o jantar com sua família. Assim que cheguei, deparei-me com Edna me esperando com os braços abertos esperando por um abraço que lhe dei de bom grado. Robert também levantara do confortável sofá para envolver-me em seus braços ternamente. Depois de uma breve conversa com os dois, subi escada acima e dei três batidas animadas na porta do quarto de April.
-Hey – praticamente pulou em cima de mim ao abrir a porta. Eu ri e a abracei carinhosamente. Sem muitas delongas, entrei em seu quarto e me joguei em sua cama esperando que ela começasse a falar, afinal, ela não teria me chamado em vão. E não demorou muito para que ela o fizesse.
-Então... – sentou-se ao meu lado – Fiz uma coisa que talvez você não vá gostar – cerrou os lábios. Franzi o cenho e cruzei os braços olhando-a com a expressão séria. Continuou: — Não fique chateada antes de saber meus motivos, ok? – assenti. – Suspirou. – Estou do seu lado e sempre estive desde que você e Damon terminaram, mas entenda uma coisa, ele é meu irmão – começou.
-Eu sei, e desde o inicio disse para ti que não precisava concordar comigo, apenas me apoiar, também tenho irmãos – ergui uma sobrancelha já na defensiva.
-Eu sei, eu sei. Só que as coisas estão diferentes sabe, amanhã é aniversário dele e ninguém aqui em casa está falando com ele direito, me sinto culpada, fui eu que contei a história toda – encolheu os ombros – Uma hora ou outra eles acabariam descobrindo o motivo de vocês terminarem, mas... Hoje cedo telefonei para saber como estavam as coisas, acredite, eram dez da manhã e senti o cheiro de cachaça daqui – sem dar atenção a minha careta, April prosseguiu – Não estou pedindo para que você volte atrás, Elena, entenda uma coisa, ele está sim muito errado, mas cansei de ignorar sua existência. Damon é meu tudo, meu irmão, meu amigo, muita das vezes meu pai... Não aguento mais ficar sem falar com ele e não aguento mais vê-lo desse jeito.
-Então a coisa que você fez que possivelmente me deixaria chateada foi voltar a falar com ele? – perguntei aliviada. Ela negou com a cabeça. Ah, não...
-Para começar, fui para lá e colocamos a conversa em dia – seu olhar me pareceu distante – Marquei um almoço amanhã aqui em casa para comemorarmos seu aniversário, por incrível que pareça, até meu pai concordou. O que acho que vai te deixar chateada, foi que eu disse que o ajudaria a fazer as pazes contigo – mordeu o lábio.
-Não precisa se preocupar, nós estamos bem. Em aspas. Bem, conversamos quando é preciso, saímos para tomar café muito raramente, nossa amizade sobreviveu a isso tudo, não é algo que você precise esquentar a cabeça – abri um fraco sorriso.
-Disso eu sei. O que eu quis dizer com fazer as pazes, quis dizer fazer com que vocês voltassem. Ele não sabe que você está namorando Matt, e sei que você não está lá muito satisfeita com esse relacionamento. Não me xingue, não me bata, mas por favor... Elena, eu disse que tentaria te trazer aqui amanhã, me diz que você vem – pediu cheia de manha.
-Mas é claro que não – respondi rapidamente – Essa conversa toda explica o humor dele hoje na reunião – observei – Mas, não, amanhã vou almoçar com Miranda e depois vou levar Maggie no shopping. Além do mais, não quero vir – mordi meu lábio – Sério, não me peça uma coisa dessas, você não tem ideia de como tem sido difícil vê-lo todo felizinho com Katherine, sei que não devo me importar, mas... Não dá. Matt morreria de ciúmes, Caroline me enforcaria, ai, definitivamente não!
-Por favor, por favor – implorou – Ele tem uma coisa muito importante para te contar – adiantou – Acho que isso muda as coisas, por favor, fica nem que seja por vinte minutos, traz a Maggie, tenho certeza de que ele está com saudades! – continuou sua ladainha. Comecei a sacudir minhas pernas e revirei os olhos mais uma vez.
-Ok, vou pensar – acabaria arrumando uma desculpa depois, o importante era ela calar a boca.
-É por isso que eu te amo – sorriu. – Mudando o assunto para acalmar seus ânimos... Como anda Caroline e seu namorado com sotaque sexy? – perguntou April sugestivamente.
-Ela mal para em casa, anda para cima e para baixo com ele e, se não reparou ainda, quando ela estiver por perto observe: os dois transam tanto que ela anda de perna aberta de tão assada que está – disse num tom de brincadeira. April contorceu-se de rir na cama. – Estou falando sério, acredita que aquela puta teve a audácia de atender ao meu telefone no meio do ato? De primeira achei que tinha discado errado, mas...
-Coitada Elena – April a defendeu em meio a risadas.
-Coitada de mim! Ela não me paga para que eu escute e veja essas coisas – quase gritei. Cruzei os braços fingindo irritação.
-Espera, você também viu? – riu ainda mais alto.
-Na cama de Matt ainda, porra, considerava aquilo como território sagrado, agora parece mais um território de guerra, me sinto até mal de sentar ali – sacudi a cabeça livrando-me da ideia.
-Falando em Matt, como andam as coisas entre vocês? – cruzou as pernas e puxou o travesseiro mais próximo para abraçá-lo.
-Estamos bem, eu acho – mordi o lábio inferior e encolhi os ombros antes de continuar. April olhou-me de esguelha com uma expressão confusa – Não, não estamos bem, mas também não brigamos. Talvez a resposta certa seja que eu não estou bem com isso; o problema é exclusivamente meu – respirei fundo – Está tudo dando certo demais, sabe, o que eu acho é o certo não preciso nem discutir... Essa facilidade e monotonia cansam. – desabafei – Fora que não é esse tipo de relacionamento que eu queria para mim; Matt pode ser a pessoa mais maravilhosa do mundo, mas... Gosto de opiniões diferentes; gosto de mais assunto e menos melação; até mesmo aquela sensação de ser protegida... Quero dizer, prefiro morenos a loiros – abaixei a cabeça – Ou talvez só esteja arrumando um jeito menos patético de dizer que estou com saudades...
-Ah, Elena – seus braços me envolveram num abraço carinhoso – Você não está sendo patética, acredite, eu te entendo. Não me leve a mal, mas toda essa sua pose de confiança não me convenceu, sabia que no fundo você não havia desistido – suspirou.
-Estou querendo que esse namoro com Matt seja igual ao que eu tive com Damon, mas isso nunca vai acontecer. Ele não sabe me tratar da mesma forma e no fundo, nem eu mesmo quero que ele faça, pois se ele conseguisse todas aquelas sensações deixariam de ser tão únicas. – sussurrei – Eu sou idiota demais, sabia? Não consigo entender, eu prometi a Caroline que não derramaria uma lágrima sequer depois do que havia acontecido e até agora consegui cumprir com essa promessa, mas... April eu queria tanto poder voltar atrás e dizer que perdoava ele. – disse de uma só vez – No fundo, a minha raiva nunca teve seu foco na traição e sim no fato de que Katherine estava dando algo a ele que eu não posso dar.
-Eu sei, eu me lembro da nossa conversa – suspirou – Não sei se tenho o direito de me meter, mas, porque vocês não conversam? – perguntou – Damon está tão feliz por ter esse mínimo de contato contigo; você não é uma idiota, ele sim é. Posso não ter falado com ele estes meses, mas Dorothea é uma fiel informante, ele só reclama, só lamenta, e até mesmo Katherine disse que ele devia te procurar... O que te impede de fazer o mesmo? Amo vocês demais para vê-los tristes desse jeito, até porque, esses sorrisinhos não me compram Gilbert!
-Não estou na fossa também, não precisa exagerar – a repreendi – No primeiro mês eu estava com muita raiva, admito – pausa – Mas depois... Comecei a perceber o quanto ele estava me fazendo falta, principalmente depois do acontecimento com Elijah, ele me ajudou, escutou meu drama momentâneo e deixou que eu passasse a noite com ele; ok, talvez esse seja o motivo para minha raiva se dissipar, mas meu orgulho não me deixou ver isso. Aliás, não me conformo com isso até hoje. – deitei na cama e passei a encarar o teto.
-O que você está tentando dizer é que ainda sente alguma coisa e que se arrepende por não ter falado com ele antes? – o colchão afundou com seu movimento – ou...
-Eu continuo sentindo a mesma coisa, continuo amando da mesma maneira egoísta e infantil sem nenhum vestígio de raiva ou sei lá o que – sussurrei – E você não tem ideia de como é bom dizer isso.
-Porque está falando para mim invés de contar isso para ele? – questionou April.
-Porque sou orgulhosa. Porque o tempo dele é valioso demais. Porque certamente ele não quer saber disso – virei para encará-la – Satisfeita?
-Nem um pouco. – bufou.
(...)
Após uma longa discussão com Matt ao telefone – ao que parecia, ele não estava satisfeito com minha visita a casa dos pais de Damon; ele apenas estava se esquecendo de que minha melhor amiga era também a irmã de meu ex, dirigi rápido demais até a casa de meu pai onde já encontrei tudo apagado e ele em sua cama num profundo sono que me causou inveja. Tomei um longo banho e deitei na cama esperando ser vencida pelo sono ou pelo cansaço.
Nenhum dos dois me ocorreu. Minha cabeça estava a mil. Em poucas horas, estaria frente a frente com Damon e minha confissão parecia trazer de volta aquela ansiedade familiar do inicio de nosso namoro. Pelo menos Maggie ficaria feliz com o programa do dia, disse ironicamente. Óbvio que também ficaria feliz em estar em sua presença, mas quando se tratava de nós era algo mais instável e imprevisível; parte de mim temia que o dia não terminasse como os planos fantasiosos de April.
A luz matinal serpenteou janela adentro antes que eu pudesse cochilar. Feito um zumbi, tomei um banho morno e aprontei-me para buscar Maggie cogitando parar para tomar café no caminho. John havia saído para visitar Grayson, caso não fosse o bilhete na geladeira, não saberia – não que fizesse questão. Dei de ombros e gastei mais tempo na frente do espelho do que necessário para um almoço informal.
-
-Promete que vai se comportar? – perguntei pela milésima vez antes de estacionar o carro diante da grande mansão branca. Maggie sacudiu a cabeça positivamente com sorriso sapeca estampado no rosto. Soltei um suspiro pesado e desci do carro para abrir a porta traseira e libertá-la da cadeirinha infantil.
Ela estava vestida como uma boneca; seus longos cabelos estavam soltos emoldurando seu rosto gracioso tendo apenas um arco como acessório. Maggie um vestido lilás simples que cobria suas pernas até a altura de seus joelhos e para completar, por cima, usava um leve casaco branco. Abri um largo sorriso e ajeitei seus trajes antes de finalmente entrarmos.
-April! – a pequena exclamou ao ver minha amiga. Deixei que ela corresse em sua direção e continuei a cruzar o jardim em passos lentos apreciando a já conhecida paisagem.
-Posso pedir para que você não me mate pela segunda vez? – April perguntou à meia voz.
-O que foi dessa vez? – quis saber.
-Damon ligou. Katherine também está vindo – disse baixo o suficiente para que só eu escutasse.
-Como é que é?! – quase berrei – Um aviso prévio seria bom.
-E você arrumaria uma desculpa para não vir; não faça essa cara, aposto que se ele soubesse que você viria, ele não teria a convidado, ainda mais sabendo que meus pais não a suportam.
-Mesmo assim – trinquei os dentes. –Acho que vou embora; acha que dá conta de cuidar da Maggie para mim? Eu prometi a ela um dia com o tio Damon – imitei sua voz infantil.
-Não me lembro de ter dito que você teria a opção de ir embora – sorriu ironicamente.
O almoço em si, fora tranquilo. Talvez tranquilo não fosse a palavra certa; Maggie parecia ter encontrado seu paraíso particular, todos ali sentados davam completa atenção ao que a pequena falava. Edna e Robert, ao contrário do que April dissera, não se comportavam como quem estava irritado com o filho; durante todo o período que estive presente, eles os deram total atenção e carinho que se podia imaginar, afinal, a saudade falou mais alto. Não pude deixar de aderir àquela atmosfera deliciosa de comemoração, minhas bochechas chegavam a estar ligeiramente doloridas de tanto sorrir e dar risada. Perguntei-me mentalmente qual fora a ultima vez que tivera um dia tão bom...
Nem mesmo a presença de Katherine conseguiu amenizar os afeitos positivos daquele almoço – até mesmo porque ela manteve uma segura distância, não só de mim, mas dos pais de Damon, e sequer abriu a boca para que alguém a notasse. No fim das contas, já havia aceitado os fatos; o fato de que Damon olhava para mim e não para ela acariciou meu ego ferido e desviou o foco de minha atenção de meus ciúmes desesperados.
Katherine despediu-se e deixou a casa antes das três; logo em seguida April viera com a história brilhante de sair com Maggie para assistir à um filme no cinema. Mesmo que ela não fizesse uso de palavras, seu olhar sugestivo fora capaz de dizer tudo. Concordei sem me ver com muitas opções e instruí Margareth antes que elas saíssem para um programa exclusivamente delas. Fugindo da crescente tensão presente na sala, fiz questão de ajudar os empregados e Edna a arrumarem a cozinha. Uma fez que o trabalho estava feito, Edna abriu um tímido sorriso para mim e pediu para eu fosse ao antigo quarto de Damon, pois ele – de fato – tinha algo para conversar comigo.
-Sua mãe disse que você queria conversar comigo – disse timidamente entrando em seu quarto de criança quando finalmente reuni coragem. Foi inevitável não olhar a minha volta. As paredes brancas estavam cobertas de desenhos de carros e estradas feitos a mão, a cama onde ele sentava parecia pequena demais para seu atual tamanho. A cômoda ao lado da porta possuía uma ordem crescente de fotos que começavam com um lindo bebê de olhos azuis a sua formatura no ensino fundamental.
-Se você não quiser... – começou. Sacudi a cabeça negativamente e sorri.
-Está tudo bem – assegurei – Mas se você quiser deixar para outra hora... – comecei – Ao julgar por sua expressão ele não estava nos seus melhores dias – Quer que eu vá embora?
-Não, não é contigo – olhou a sua volta – esse lugar é meio nostálgico. – sorriu fraco e gesticulou para que eu me sentasse ao seu lado. Assim que o fim, cruzei as pernas e encarei minhas mãos tremulas sobre meu colo. – Primeiro quero dizer que não quero que fique com raiva de mim, ou que isso termine numa briga, se você se chatear, nem termino – assenti e ele continuou:
-Não me leve a mal, mas cansei de fazer isso do seu jeito – cerrou os lábios – Respeitei seu pedido de não te procurar e não tocar no assunto porque, segundo você, não havia mais nada a ser dito, mas não é bem assim – um tremor de ansiedade percorreu minha espinha; corei ao perceber que Damon havia notado – Tem alguma coisa que eu possa fazer para que... Que você me dê uma segunda chance? – abri a boca para falar, mas ele não me deu brecha – Por favor, morena, eu sei o que eu fiz e tive tempo o suficiente para pensar nisso...
-Tudo bem, não quero ficar voltando nesse assunto – sussurrei – Afinal de contas, discutir não vai mudar o que já passou – respirei fundo e encarei o chão; o que mais eu deveria dizer? – Não sei responder sua pergunta, Damon. Não posso dizer que não há um jeito, que estou magoada e com raiva de ti porque isso seria mentira, acho eu que também devo lhe pedir desculpas por ter agido daquele jeito, meu maior problema não estava na traição e... Bem, acabei levando para outro lado muito pessoal – disse por fim. — Parece confuso, mas é o máximo que eu consigo pensar e dizer agora – admiti escondendo o rosto com meus cabelos.
-Odeio quando você esconde seu rosto – comentou despreocupadamente. Corei – Não precisa explicar seus motivos, não tenho créditos para isso – riu com ironia – Se te conforta, estava me remoendo de vontade para falar contigo, mas também não faço ideia do que dizer – admitiu – Sendo direto... – desviou seus olhos; pude jurar que sua pele clara ganhara certo rubor – Você nos permitiria ter um novo começo?
Sim. Respondi mentalmente de imediato. Não. Céus, como eu poderia esquecer que estava comprometida? Não que isso fosse um empecilho... Sacudi a cabeça negativamente. Damon suspirou ao meu lado e só então percebi que havia transmitido a ideia errada. Pousei a mão em sua perna esquerda e tentei formular uma explicação o mais rápido possível.
-Damon, eu estou namorando – sua expressão vacilou – Não quero dizer não para sua pergunta por quê... – não terminei – Não estou me sentindo bem com esse relacionamento, eu... Um passo de cada vez, ok? Tudo que eu não preciso agora é complicações – usei de toda minha sinceridade – Acho que... Sim, nós podemos começar de novo, mas não agora, entende?
Ele apenas assentiu. O silêncio implantou-se entre nós tornando o ar do quarto pesado; encarei o chão e pensei cuidadosamente no que poderia ser dito para reverter o clima estranho. Sem hesitar, passo a mão por seus braços e apoio meu queixo em seu ombro sem demonstrar grandes preocupações. Seu corpo estremeceu com meu toque.
-Como você está lidando com a ideia de ser pai? – perguntei sem disfarçar tamanha curiosidade. Damon olhou-me de esguelha.
-Não precisa falar sobre isso – passou a mão por seus cabelos desgrenhados. Sorri sem ao menos perceber lembrando o quanto ele gostava de quando eu fazia aquilo.
-Mas eu quero saber – continuei – Já sabe o sexo? – sussurrei.
-Ainda não me acostumei com a ideia de ser pai exatamente – ergueu uma sobrancelha – Sinceramente acho que não sei ser cuidadoso e delicado como essa função exige – confessou – Mas, respondendo sua outra pergunta, acho que quando eu descobrir o sexo vou me adaptar melhor com a situação... Ou não. Quero ser pai, mas não sei como, é confuso demais ou você consegue entender?
-Entendo – eu ri – Mas, não acho que você deva se preocupar. Você já demonstrou que sabe muito bem ser pai quando cuidou de Maggie quando ela precisou ficar conosco – dei uma pausa. Não devia ter dito aquilo. Abaixei a cabeça e afastei-me lentamente – Tem alguma suspeita ou preferência?
-Suspeito que seja um menino, mas queria uma menina – fez uma careta – Ou talvez eu suspeite que seja uma menina e queria uma menina – riu.
-Quando você descobrir, vai perceber que é exatamente o que você queria, sendo ou não o que você esperava – sussurrei – Isso eu garanto. Sabe quando vai ficar sabendo, ou ainda é muito cedo? – não tinha a intenção de saber quando, exatamente, o ato havia acontecido; aquilo estava além do meu limite.
-Estava marcado para ontem, mas acordei não muito bem. Acabou que ficou para segunda. – deu de ombros.
-Têm alguma ideia para os nomes ou vocês não pensaram nisso ainda? – quis saber.
-Não tem nós, Elena – disse calmamente – A criança sequer vai ter o sobrenome dela, o máximo é o registro. Nome, sobrenome, guarda... Tudo é por minha conta. Não pensei em nada porque não consigo imaginar como ela ou ele seria ainda, espero que depois de segunda...
-Com certeza – afirmei rindo brevemente. Num gesto involuntário, Damon passou o braço ao redor de meu pescoço. O cheiro de sua pele invadiu minhas narinas acendendo as sensações adormecidas há meses em meu interior, controle-se, Elena, respirei fundo e evitei o contato direito de seus olhos focados em meu rosto.
-April te forçou a falar comigo? – perguntou afagando lentamente meu ombro. Esquivei-me gentilmente, eu ainda não podia fazer aquilo.
-Porque a pergunta? – franzi o cenho.
-Por que isso é cara dela – deu de ombros rindo – E também por que...
-Você quem quis falar comigo, logo April não tem culpa no cartório – pisquei cúmplice arrancando-lhe um sorriso tímido. Antes que eu começasse a me sentir culpada, coloquei-me de pé fugindo do contato direito de sua pele. – Se não se importa, vou embora – sussurrei – Prometi Caroline que passaria na casa dela hoje e... – menti – acho que você a conhece bem.
-Tudo bem – sorriu fraco – Até segunda – também sorri abertamente.
Não sabia se aquela felicidade duraria depois que eu pedisse minha demissão – melhor, não sabia se aquela felicidade duraria depois que ele soubesse quem era meu namorado, ou pior: depois que ele soubesse dos planos de Katherine para com o bebê, pelo menos ela não estava sendo tão desonesta, pensei comigo mesma, dizer de cara que não queria participar em nada na criação do próprio filho era uma grande coragem.
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