Milagres de Junho
8 Jantar
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO
CAPÍTULO VII — JANTAR
A mansão em que Oliver estacionou o carro era impressionante. Eu tinha ciência da riqueza da família Queen, afinal, eles são donos de um dos maiores hospitais do país, sócios da Universidade de Pesquisas Cientificas e Tecnológicas Avançadas de Hawkins e sócios da IU Health University Hospital, que é a universidade associada da UPCTAH, mas diante de tanto luxo e exuberância, era difícil não me sentir intimidada.
— Chegamos. — Avisa Oliver, desligando o carro. Ele suspira e me encara com um fraco sorriso. — Pronta?
— Acho que sim. — Respondo com sinceridade. Ele ri e fecha os olhos, jogando a cabeça para trás, dando um suspiro cansado. — Algum problema?
— Na verdade, eu não sei o que esperar. Gostaria de dizer que vai ficar tudo bem, mas estamos falando de Richard Queen e Marta Allen Queen. Eles são complexos, intimidadores e controlam a família. Acho que a única pessoa que possui coragem de enfrentá-los sem hesitação é o tio Clint, mas como ele é a pessoa mais insana que eu conheço, acho que não podemos considerá-lo como exemplo.
— Olha, mamãe! Cachorro! — Exclama Tony, animado, enquanto aponta para a estátua de cão que havia na fonte de frente a entrada da mansão.
— Muito legal, filho. — Respondo, correspondendo ao sorriso que a criança me lançava. Suspiro e coloco a mão sobre o ombro de Oliver, que abre os olhos e vira o rosto para me encarar. — Vai ficar tudo bem. Se você foi capaz de enfrentar a sua namorada, acho que pode lidar bem com os seus avós.
— Espero que você esteja certa. — Sussurra, soando cansado. Ele pega em minha mão e eu sinto um pequeno choque em minha pele. Encaro sua mão, antes de voltar a olhar seus bonitos olhos e o sorriso nervoso em seus lábios. — Obrigado, Felicity.
— Não me agradeça ainda. Temos um jantar com sua família incrivelmente rica para enfrentar. Estou começando a questionar minha aparência. Talvez eu devesse ter arranjado um tempo para ir a um salão de beleza e comprar roupas...
— Você está linda e deslumbrante. Não poderia estar melhor. — Responde Oliver com sinceridade e eu acabo sentindo-me envergonhada pela forma como era encarada pelo rapaz. Ele parece se dar conta do que disse e desvia o olhar, parecendo sem jeito. Um clima estranho se faz presente, onde nenhum dos dois parece saber o que dizer.
— Mamãe, eu estou com fome. — Reclama Tony, colocando a mão na barriga. Oliver e eu nos encaramos e acabamos rindo. Respiro fundo, tentando me recompor. Eu precisava manter a calma.
— Já vamos comer, meu amor. Agora, nós vamos conhecer a família do papai. Você se lembra de tudo o que eu disse? Nada de correr ou mexer nas coisas. Você deve ficar comportado e ouvir os mais velhos. Não grite e só aceite as coisas se eu deixar, entendeu? — Digo, encarando meu filho com seriedade. Mesmo sabendo que Tony é bastante comportado, eu não sei o que me espera quando atravessarmos a porta de entrada daquela grandiosa mansão.
— Sim, mamãe. — Responde meu menino, balançando a cabeça de maneira positiva.
Oliver nos encara com curiosidade e parece querer dizer alguma coisa, mas por fim, acaba desistindo. Retiramos nossos cintos de segurança e descemos do carro. Oliver retira Tony do banco de trás e eu pego a mochila que havia trago para Tony. Sinto uma brisa fria atingir meu rosto e ao encarar o céu, eu não tinha dúvidas de que logo cairia uma forte chuva de verão. Eu apenas esperava que isso não fosse um mau presságio.
Com Tony entre nós e segurando nossas mãos, seguimos para a entrada da mansão. Receoso, Oliver toca a campainha e me encara com evidente tensão. Vê-lo assim só me deixava ainda mais insegura. Dr. Robert e Mirela nunca me contaram muitas coisas sobre os pais, além de que eles são muito autoritários e intimidadores. Por causa disso, houveram poucas vezes em que eles foram capazes de ir contra as vontades dos patriarcas da família Moon.
Não demora muito para que a porta da mansão fosse aberta e uma mulher de olhos e cabelos pretos, que aparentava ter uns cinquenta anos aparecesse. Pelas roupas discretas e o porte educado, presumi que se tratava da governanta da mansão. Ela sorri contida e dá espaço para que entrássemos. Oliver e eu realizamos uma última troca de olhares, tentando encontrar um pouco de calma um no outro, antes de entrarmos.
— Oi. Eu sou o Tony. — Cumprimenta meu menino, dando um sorriso amoroso para a governanta, que parece surpresa, mas logo seu sorriso alarga.
— Oi Tony, eu sou a Agnes. Você é muito adorável. — Elogia a mulher, parecendo encantada com a criança, que não demora a adquirir uma coloração rosada nas bochechas.
— Como se fala, filho? — Digo, rindo.
— Obrigado, Sra. Agnes. — Agradece, timidamente. A empregada sorri e me encara com aquele mesmo olhar maravilhado que recebo de todas as pessoas que se encantam com a doçura de Tony. Sorrio em resposta e acho que Oliver também parecia sentir o mesmo orgulho que eu.
— Gostariam de me dar os casacos? — Pergunta Agnes e logo entregamos as peças de roupa para a mulher, que as estende no armário do hall de entrada. — Sigam-me, por favor. O Sr. e a Sra. Queen os aguarda na sala de estar.
Seguimos a governanta pelo corredor da mansão até chegarmos a uma sala com uma decoração imponente e intimidante. Observo a grandiosa foto em cima da lareira, onde pousavam um homem de cabelos e olhos chocolates ao lado de uma senhora de cabelos loiros e olhos azuis intensos no centro com toda a imponência digna de reis. Dr. Robert estava com a esposa ao lado do homem e Oliver e Thea na frente deles, enquanto Mirela estava com o marido ao lado da mãe com seu filho Austin na frente.
Nesse instante, percebo que somos o centro das atenções. Todos os convidados para o jantar estavam sentados e pareciam desconfortáveis com o clima pesado que os rodeava. Engulo em seco e aperto a mão de Tony, tentando manter a calma. Felizmente, Damon é o primeiro a se levantar e vir em nossa direção, mas me surpreendo ao ver o rosto machucado do rapaz. Ele tinha um curativo na sobrancelha, o olho estava roxo um corte na boca e o nariz parecia inchado.
— Vocês chegaram! — Damon exibe seu sorriso divertido, trazendo um pouco de acolhimento em meio ao ambiente áspero que parecia nos esperar. — Tony! Como você está bonito! Vem cá me dá um abraço.
— Oi tio Damon! — Tony solta a minha mão e a de Oliver e corre até Damon, que se ajoelha para ficar na altura do garoto e o abraça apertado. Eles levantam e Tony toca o rosto do homem com delicadeza, fazendo uma cara de dor. — 'Tá doendo, tio Damon?
— Não! O tio Damon é muito forte. Ele não sente dor. — Afirma Damon, fazendo cócegas na barriga de Tony, que gargalha, animado. O rapaz se aproxima e me observa com um sorriso gentil. — Dra. Felicity! Você está deslumbrante essa noite.
— Obrigada, Damon. Você também está muito bonito. Mas o que houve com você, Damon? Está todo machucado. — Comento assustada e ele ri, dando de ombros.
— Se serve de consolo, os caras que fizeram isso ficaram bem piores. — Responde Damon, dando uma piscadela. Ele então se vira para o amigo. — Está bonitão, irmão. Eu casaria com você.
— Você deveria parar de se envolver em confusão, babaca. — Resmunga Oliver, irritado. Ele dá um tapa na nuca do melhor amigo e o encara com repreensão. — Quantas vezes mais eu terei que ver você todo quebrado até estar satisfeito? Como pôde brigar de novo?
— Você fala como se eu tivesse escolha. — Ironiza Damon, soando um pouco melancólico. Eles trocam olhares por alguns instantes, em uma conversa silenciosa. Damon então é o primeiro e a dar o braço a torcer, suspirando. — De qualquer forma, tenho duas notícias para vocês. Uma má e uma péssima.
— Não deveria ser uma boa e uma má notícia? — Pergunto e ele ri, negando.
— Bem que eu queria. — Comenta o rapaz, suspirando.
— O que aconteceu? Meus pais e tios parecem ainda mais deslocados que o normal e meus avós estão incrivelmente sérios e tensos. Até a Thea, Ally, Cait, Barry e Austin parecem preocupados. — Observa Oliver, encarando a família, que mantinha os olhos sobre nós em completo silêncio. A nossa sorte é que estávamos longe demais para eles ouvirem a nossa conversa.
— A má notícia é que eles acabaram de assistir na televisão uma reportagem sobre a família Queen e o casamento de Aaron e Brooke. A mídia continua a perseguir a Ally, revelando informações sobre o seu passado, como quem foram os pais dela e onde ela estuda. Como se não bastasse, eles voltaram a citar a morte do seu tio mais velho e as negligências que ocorreram no hospital a cinquenta anos atrás. Os velhos estão mais furiosos do que naquela vez que fotos suas andando pelado pela sacada daquele prédio, completamente bêbado, depois de ter chegado daquela festa maluca de Madrid com a filha de um duque importante. — Conta Damon e Oliver arfa, ainda mais preocupado.
— Essa era a má notícia? E qual é a péssima? — Questiona Oliver, parecendo cauteloso. A reação dos primos me dá vontade de pegar Tony e correr para longe daquela casa.
— A péssima notícia é que...
— Meu amor, você chegou! — A voz aguda de Laurel ecoa pela sala, surgindo do topo da escada que ligava a sala de estar ao segundo andar da mansão, usando um vestido vermelho curto, que salientava bastante as suas curvas e salto alto preto. O cabelo dela estava preso em uma das laterais e exibia um brinco de pedras deslumbrante. E então ela vem em nossa direção e beija Oliver como se nada tivesse acontecido. — Eu estava com saudades.
— O que está fazendo aqui, Laurel? — Indaga Oliver, encarando a namorada sem reação.
— O que você acha que o demônio faz fora do inferno? É claro que ela veio nos atazanar. — Responde Damon e eu preciso me segurar para não rir. Laurel se vira para o rapaz e lança o dedo do meio para ele.
— Damon, por que você não vai para a...
— Oh! Tem crianças aqui, não está vendo? — Damon interrompe Laurel, encostando a cabeça de Tony na sua e tampa uma das orelha de meu filho.
— Respondendo a sua pergunta, Ollie, a sua mãe me convidou para vir ao jantar oficial para apresentar seu... a criança a seus avós. — Laurel ignora Damon e volta a sua atenção para Oliver. Não deixo de notar que ela ainda parecia não ter aceitado bem a história de Oliver ter um filho que não fosse com ela, já que parecia incapaz de falar a palavra "filho".
— Poxa, tia Moira, eu achei que você fosse esperta o suficiente para não cair nas palavras do capeta. Eu sei que... — O comentário feito em voz alta para que a família ouvisse faz a mãe de Oliver se levantar e o encarar furiosa.
— Damon! — Moira repreende o rapaz, que ri, sem se importar. — Olha a língua, por favor.
— Por quanto tempo vocês pretendem ficar parados na porta da sala? — A voz grave e poderosa do idoso que imaginei ser o avô de Oliver ecoa pela sala, calando todos. — Aproximem-se!
Damon nos encara e coloca Tony, que parecia perdido sobre o que acontecia. O garoto corre para perto de mim e abraça minha perna, parecendo envergonhado. Oliver se afasta de Laurel, que esboça bastante insatisfação, e se aproxima de mim. Trocamos um rápido olhar e pegamos nas mãos de Tony, antes de entrarmos definitivamente na sala de estar. Thea e Mirela sorriem e acenam de leve, dando apoio. Austin acena para Tony, que me encara como se pedisse permissão para ir ao loiro, mas eu nego, balançando a cabeça.
Conforme nos aproximávamos mais surpresos os avós de Oliver pareciam ficar. Os olhos azuis intensos da senhora que imaginei ser Marta Allen Queen sobre nós refletiam sentimentos difíceis de decifrar. Ela parecia emocionada e ao mesmo tempo assustada. O homem ao seu lado também parecia bastante afetado com a nossa presença. Nem mesmo parecia que segundos antes estava furioso.
— Vovô, vovó, eu quero que conheçam meu filho, Anthony Smoak. Tony, cumprimente seus bisavós, Richard Queen e Marta Allen. — Oliver apresenta o garoto, puxando-o para ficar a sua frente. Ao ouvir o nome da criança, vejo Marta arfar, levando uma mão a boca, enquanto a outra foi ao peito. — Diga oi para os seus avós, filho.
E ao invés de simplesmente dizer um tímido oi, como geralmente acontece quando Tony conhece alguma pessoa nova, meu menino se afasta do pai e corre até a bisavó, abraçando-a. Todos encaram a cena surpresos. Nesse instante, lágrimas se formam nos olhos da senhora loira de olhos cerúleos.
— Oi vovó. Eu sou o Tony e tenho cinco anos. — Fala Tony, encarando a mulher com inocência. Ela sorri e permite finalmente que as lágrimas descessem pelo bonito rosto. Marta então o puxa para um forte abraço, escondendo o rosto no ombro da criança. Tony corresponde ao abraço, parecendo querer chorar também. Ele nunca gostou de ver ninguém chorado e, na maioria das vezes, acabava chorando junto. — Não chora, vovó.
— Oh, Deus! É o Anthony! — Sussurra Marta, apertando ainda mais Tony contra si, chorando intensamente.
— Querida, você vai machucá-lo. — Alerta Richard, também demonstrando estar emocionado. A esposa se afasta da criança e ele acaricia o rosto de Tony.
— Oi vovô. — Cumprimenta Tony, abraçando o homem, que arregala os olhos e parece se segurar para não chorar. Ele corresponde ao abraço e fecho os olhos, como se estivesse tentando aproveitar aquele momento.
— Filho... — Chamo, preocupada, mas minha voz sai mais baixa do que deveria.
Desvio o olhar para Oliver, tentando entender o que estava acontecendo e ele parecia mais surpreso do que eu. Procuro por respostas nas outras pessoas presentes e tudo o que vejo é Mirela chorando e rostos igualmente confusos e emocionados. Oliver se aproxima cautelosamente, chamando a atenção dos avós, que se afastam de Tony, ainda em prantos.
— Por... que estão chorando? — Pergunta Oliver com a voz falhando.
— Papai! Mamãe! Os vovós estão chorando. — Comenta Tony, enquanto as lágrimas começam a descer pelo rosto angelical de meu menino. — Eu não quero que eles chorem.
Eu não fazia ideia do que estava acontecendo, mas quando o choro de Tony se intensifica, compadecido pelo estado dos bisavós, corro até o garoto, pegando-o no colo. Ele esconde o rosto na curvatura do meu pescoço e, enquanto eu tentava acalmá-lo, o choro de Marta se intensificava. Ela me encarava com tanta dor que eu também sentia vontade de chorar. Era estranha e confusa a reação daqueles senhores, que aparentemente são tão temidos pela família. Eu não sabia o que pensar.
— Está tudo bem, querido. Pronto. Pronto. — Sussurro contra o ouvido de Tony, mantendo meu olhar fixo nos Queen. — Os senhores estão bem? Meu filho fez algo de errado...
— Não! De forma alguma. — Responde Marta, tentando se recompor. Ela ri e limpa o rosto. — Eu que sou patética. Sinto muito por assustá-lo.
— Não se preocupe com isso. — Afirmo e tento fazer Tony encarar a senhora. Ele havia parado de chorar, mas continuava com o rosto escondido em meu ombro. — Meu amor, olha. A vovó já parou de chorar. Ela vai ficar muito triste se você continuar assim.
— Anthony... — Sussurra Marta com carinho e ele a olha timidamente, mas ainda permanece encolhido contra mim. Encaro-a, tentando me desculpar, mas ela nega e respira fundo, antes de se levantar e colocar a mão no ombro do garoto. Richard também se levanta e parece mais calmo. — Tony, querido, eu sinto muito por termos assustado você. É que você me lembrou alguém que eu amava muito e que foi embora sem se despedir.
— Por que ele foi embora, vovó? — Pergunta Tony, finalmente a encarando. Marta parece ter dificuldade para se manter firme diante da pergunta.
— Ele teve que se tornar um anjo e ficamos muito tristes dele ter ido sem que tivéssemos a chance de brincar mais com ele. — Responde Richard, colocado a mão no cabelo de Tony, que surpreendentemente, não reclama. Talvez estivesse envolvido demais com a história dos bisavós para se importar que desmanchassem seu penteado. — Você poderia nos dar mais um abraço, Tony?
— Tudo bem, vovô. — Concorda Tony, jogando-se na direção de Richard, que o pega no colo e o abraça apertado. Dessa vez havia um sorriso em seus lábios.
— Eles... se lembraram do tio Anthony... — Sussurra Oliver, extasiado. Encaro-o, confusa. — O irmão mais velho do meu pai que morreu quando ainda era criança. Ele também se chamava Anthony.
— Ah... — Sussurro, sem saber como responder.
Tony continuou sendo abraçado e recebendo a atenção dos bisavós o jantar inteiro. De repente, o clima da casa mudou, que antes era pesado e sufocante deu lugar a um ambiente doce com uma pitada de melancolia. Conforme conversavam com a criança, eles riam e pareciam realmente interessados em saber mais sobre ele. Robert e Moira também faziam questão de interagir com o neto, deixando Laurel emburrada o restante da noite, para a felicidade de Damon e Thea, que ficavam cochichando com Austin e Barry.
Depois de comermos e Laurel ter ido embora, irritada por ter sido ignorada por Oliver e todos os outros integrantes da família, decido ir pegar um pouco de ar fresco. Eu estava aliviada por todos gostarem tanto de Tony, mas também estava cansada e sobrecarregada de emoções. A imagem dos olhos de Marta exibindo tanta dor continuava a invadir a minha mente.
Com a orientação de Damon e aproveitando que todos estavam entretidos em suas conversas ou nas respostas de Tony as inúmeras perguntas dos avós, sigo para o bonito jardim da mansão e me sento em um banco que havia no lugar. Respiro fundo e solto o ar lentamente, tentando acalmar e organizar meus pensamentos.
— Então quer dizer que você escondeu que Tony era filho de Oliver de todos nós nos últimos seis anos? — A voz suave de Mirela Moon me pega de surpresa, fazendo com que ela risse da minha reação. — Desculpa, Fefeh. Não queria te assustar.
— Não tem problema. — Respondo, observando-a se sentar ao meu lado para observar o céu nublado. Suspiro e isso chama a atenção dela. — Sinto muito por ter escondido isso de você. Mimi, eu apenas...
— Não precisa se explicar. — Afirma a loira, dando um sorriso fraco. — Eu te conheço e sou sua amiga há quase dez anos, Fefeh. Mesmo que não diga nada, ainda consigo ver em seus olhos os motivos que te levaram a esconder a verdade de todos. A princípio você apenas não queria perder a sua última tentativa de engravidar, mas depois de conviver tanto com a minha família, você passou a ter medo de perder a guarda de Tony, que ele se tornasse alvo da mídia, que fosse odiada pelo meu irmão por ter engravidado de meu sobrinho, mesmo sabendo da verdade desde o início.
— Eu não consigo esconder nada de você, não é mesmo? — Comento e ela rir, concordando.
— Não é à toa que mesmo tendo idade para ser a sua mãe, nós somos grandes amigas. — Responde Mirela, dando de ombros.
— Eu adoraria ter uma mãe como você. — Afirmo, encostando minha cabeça na dela. Ela sorri e acaricia minha cabeça, em um afagar acolhedor. Permanecemos em silêncio por alguns minutos, apenas aproveitando a calmaria daquele jardim e a brisa suave da noite. Suspiro e me levanto, encarando-a com curiosidade. — Eu não sabia que você e o Dr. Robert tinham um irmão mais velho e menos ainda que ele se chamava Anthony.
— Ah, esse sempre foi um assunto proibido na nossa família. Minha mãe estava grávida de Robert quando Anthony foi sequestrado no hospital. Só sabemos que ele estava brincando pelos corredores do hospital, quando alguma coisa chamou a atenção dele e ele foi atrás. Eu não sei muito sobre Anthony, mas diziam que ele era uma criança muito doce, carinhosa, curiosa e inocente. Então era muito fácil fazer amizade com ele. A polícia passou dias procurando pelo meu irmão, mas somente depois de seis meses foi que encontraram o corpo dele enterrado em um matagal. Segunda a polícia, ele foi espancado até a morte. A cinquenta anos atrás, não havia a tecnologia que se tem hoje, então nunca descobriram quem foi a pessoa que teve coragem de fazer uma coisa dessa com ele. Por ser um assunto muito doloroso, meus pais nunca permitiram que falássemos sobre nosso irmão, por isso, tudo o que a família sabe é que os Queen tinham um herdeiro que se chamava Anthony e, assim como Tony, ele tinha cinco anos quando isso aconteceu. E bom, pelas características que me contaram e pela reação dos meus pais, acho que os dois eram extremamente parecidos.
— Mimi, eu... — Sinto um calafrio ao pensar nessa coincidência e de repente começo a entender a reação dos pais do Dr. Robert e de Mirela. Não importa quantos anos passe, a dor de perder um filho deve ser esmagadora. Não consigo imaginar o que eu faria se meu menino morresse de forma tão brutal e cinquenta anos depois aparecesse uma criança tão parecida com ele e que supostamente é o meu bisneto. — Eu sinto muito.
— Obrigada. — Agradece Mirela, dando um sorriso gentil. — Na verdade, eu estou feliz de verdade por ser tia avó do Tony. Eu sempre tive um carinho muito especial por você e por ele. Quer dizer, eu fiz a sua fertilização in vitro, o seu pré-natal e ainda fiz o parto dele. Eu sabia que ele seria especial desde que você me disse que ele se chamaria Anthony.
— Foi por isso que você e o Dr. Robert pareciam emocionados quando eu contei o nome do bebê e me disseram que era um nome muito bom. — Afirmo, relembrado da reação dos dois médicos quando eu revelei o nome do meu menino.
— Sim. Ficamos surpresos com a escolha. — Responde com um olhar nostálgico.
— Na verdade, foi uma sugestão do Clint assim que contei que estava grávida. — Conto e ela parece surpresa. — Ele me disse que se eu tivesse um menino, deveria chamá-lo de Anthony, porque assim como seu significado, ele seria valioso, de valor inestimável. Eu gostei do significado e como ele tinha acertado o sexo, acabei escolhendo Anthony.
— E mais uma vez, eu não faço ideia do que se passa na mente de Clint. — Sussurra Mimi, pensativa. Ela sorri e suspira. — De qualquer forma, eu acho que agora que Oliver descobriu que é pai, está na hora e vocês ficarem juntos.
— Você também não, por favor. — Imploro, cansada. Mirela ri e me lança um olhar malicioso. — Estou falado sério. Já basta o Dr. Robert, a Peggy e o Damon insinuando isso sempre que tem uma oportunidade.
— Mas vocês formariam um casal tão bonito. — Comenta a obstetra, sorrindo animada.
— Mimi, Oliver e eu não temos nada em comum além de termos um filho. Ele é mais novo do que eu, ainda é imaturo e tem namorada. Vamos ser realistas. Ele não faz o meu tipo. — Argumento e ela me encara como se não acreditasse em minha resposta.
— Deixa de ser boba. Oliver já é um homem lindo, extremamente inteligente e é uma pessoa maravilhosa. Pelo que vi essa noite, ele está se tornando um ótimo pai e está até mesmo amadurecendo. Ele está se esforçando para ser um exemplo para Tony. Robert me disse que ele até mesmo parou de ir as festas e tudo o que tem feito é pensar em formas de te ajudar na criação dele. Eu realmente acho que ele é um excelente partido para você. — Afirma Mimi e eu acabo rindo. Era como se ela estivesse me vendendo Oliver.
— É sério, Mimi. São sete anos mais novo. Não mais velho. — Retruco e vejo a loira revirar os olhos, como se estivesse entediada.
— Pelo amor de Deus, Fefeh. Você vai mesmo se apegar a números? Se ele fosse menor de idade, eu até entenderia, mas ele já é adulto. E você fala de sete anos como se fossem setenta anos. Você só tem trinta e um anos. Ainda está na flor da idade. Aproveite a oportunidade que a vida te deu de ter um homem lindo e que ama crianças, assim como você sempre me disse que queria. — Mimi me abraça e sorri sugestiva.
— Não adianta insistir, Mimi. Não vai acontecer nada entre nós. Além disso, ele tem namorada. Alguém com quem ele está há dez anos. Então tira isso da sua cabeça. — Resmungo e ela bufa, inconformada com a minha resposta. — Então vamos esquecer esse assunto, por favor?
— Você que sabe. Mas quando você estiver por ai, toda apaixonada pelo meu sobrinho, eu vou fazer questão de falar um lindo e audível "eu te avisei". Não se esqueça disso. — Responde, dando de ombros. Fecho os olhos e balanço a cabeça, negando.
— Isso não vai acontecer. — Afirmo e ela ri, encarando-me com aquele olhar de quem sabe mais do que eu imaginava.
— É o que veremos.
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