Milagres de Junho
6 Incômodo
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO
CAPÍTULO V — INCÔMODO
O clima da sala do Dr. Robert estava pesado e o ar se tornava quase rarefeito diante de toda a tensão que nos rodeava. Sentado entre a namorada e eu, Oliver encarava o pai com as pernas balançando em ansiedade e nervosismo. O médico e atual presidente do hospital suspira e apoia os cotovelos na elegante mesa de madeira escura e o queixo sobre as mãos, alternando seu olhar em cada um de nós.
Observo a estante de livros atrás do Dr. Robert, exibindo diversos livros com títulos relacionados a medicina. Sendo um renomado pediatra, eu tinha uma enorme admiração pelo meu mentor. Mas, mais do que isso, eu o tinha como a figura paterna que eu nunca tive. Desde que passei a fazer minha residência no IU Health Methodist Hospital, o Dr. Robert Queen sempre se mostrou disposto a sanar minhas dúvidas e prestar todo o apoio quando eu não conseguia lidar com a perda de um paciente ou quando cometia algum erro.
Apesar da aparência séria, personalidade discreta e exigente exibida aos estudantes que recebiam suas orientações e aos médicos liderados por ele, depois de oito anos trabalhando ao seu lado, eu sabia que tudo não passava de uma fachada imposta para se manter como a figura de um confiável líder do hospital herdado pelo pai. Mesmo sendo uma das pessoas em quem ele mais pegava no pé, no fundo, ele apenas esperava que eu me tornasse uma médica tão boa quanto ele. E hoje em dia, eu era grata a ele por toda as vezes em que ele me fez repetir uma simulação cirúrgica ou exigiu que eu refizesse um trabalho, mesmo quando para todos os outros professores ele estivesse perfeito.
— O que veio fazer aqui, Laurel? — Questiona o médico, encarando a nora com um olhar nada agradável.
Sendo uma das poucas pessoas com quem o Dr. Robert fala a respeito da família, eu sabia de seu desagrado do namoro do filho mais velho com a advogada. Aparentemente, mesmo que a esposa continuasse a gostar dela, o médico sentia que ela não era a pessoa certa para Oliver. Agora, depois de conhecer a jovem de personalidade mimada e arrogante, eu começava a entender a antipatia do Dr. Robert pela nora.
— Eu vim convidar Oliver para almoçar comigo. — Resmunga, irritada. Ela então aponta para mim, com os olhos exibindo toda a sua fúria. — E então eu ouvi aquela conversa absurda de Oliver com essa...essa... mulher, deixando claro que ele me traiu.
— Eu já disse que eu não trai você! — Repete Oliver pelo que deveria ser a décima vez desde que a namorada dele havia chegado. — Foi uma inseminação artificial.
Suspiro incomodada e recebo o olhar de alerta de meu chefe. Dr. Robert me conhece muito bem para saber que eu não sou a pessoa mais paciente do mundo. Ouvir a voz estridente da patricinha que continuava a me acusar de ser a amante de seu namorada já estava começando a me fazer perder a compostura.
— E você quer mesmo que eu acredite nisso? — Questiona Laurel, com o tom de voz alterado. Ela dá um tapa no ombro de Oliver e urra, irritada. — Eu não nasci ontem, Oliver! Eu vi a forma como vocês estavam trocando aqueles olhares e ainda estavam de mãos dadas. E por que você faria uma doação de sêmen para o hospital?
— No primeiro fim de semana da faculdade, Tommy, Damon e eu fomos em uma festa onde teve o trote da faculdade. Naquele mesmo dia, nós havíamos brigado, porque você não queria ir comigo e nem queria que eu fosse. Como eu estava com raiva e com vontade de beber, eu acabei indo. Em algum momento da festa, já alterado pelas bebidas, Tommy contou sobre uma reportagem que viu que falava de doadores de sêmen e relembramos que tia Mimi realizava inseminação artificial. Foi então que Damon deu a ideia de fazermos uma aposta e a punição do perdedor era pedir a tia Mimi para se tornar um doador de sêmen com o discurso mais ridículo que conseguisse...
— Tinha que ser o babaca do Damon. — Resmunga Laurel, revirando os olhos. Ela vira o rosto e vejo Oliver respirar fundo, parecendo ainda mais irritado pelo comportamento da namorada.
— Eu achei que aquilo ainda era muito pouco e convenci os dois de que o perdedor tinha que além disso, doar o sêmen para o banco de doadores. — Continuou o rapaz, ignorando o comentário da advogada. Laurel o encara com repreensão e o Dr. Robert suspira, massageando as têmporas. — Damon então resolveu que deveríamos apostar sobre quem bebia mais. Eu concordei e depois de muito insistir, Tommy também topou. Decidimos então participar de uma competição que estava tendo de quem bebia mais doses de tequila. Eu nunca fui muito bom para beber, então eu pedi facilmente para os dois. E foi assim que eu acabei me tornando um doador de sêmen.
— Na mesma época, eu estava passando pelo processo de fertilização in vitro. Apesar dele ter feito a doação, o material colhido ia ser descartado, mas devido uma falha de comunicação, a equipe de embriologistas fertilizaram o meu óvulo com o sêmen de Oliver ao invés do doador que eu havia escolhido. — Conto, tentando terminar de uma vez por todas com toda aquela confusão. Eu já estava ficando exausta de toda a gritaria e os insultos de Laurel. Com fome e sem conseguir pregar os olhos a noite, eu realmente não estava com paciência para continuar lidando com a namorada de Oliver. — Mesmo sabendo de sua identidade, eu prossegui com o procedimento e pretendia manter a identidade do pai do meu filho em sigilo, mas ele precisa de um transplante e o único que pode salvá-lo é o Oliver. Eu jamais teria o procurado se eu realmente não precisasse da ajuda dele.
— É claro. Você esperou a chance de aparecer para se aproveitar do dinheiro da família dele. — Insinua Laurel, quase como o sibilar de uma víbora.
— Laurel! — Oliver a repreende, furioso.
— Eu não vou permitir que continue a ofender a Dra. Felicity dessa forma, Laurel. — Avisa o Dr. Robert, parecendo bastante irritado.
— O quê? É muito conveniente ela ter continuado com a fertilização, mesmo sabendo que o doador era você. Vocês não veem que ela está apenas tentando entrar para a família? Como podem fechar os olhos para algo assim? Como podem ser tão cegos quanto as intenções dela? Será possível que eu sou a única que enxerga a verdade aqui? Vocês não veem o que está acontecendo? Ela é só uma golpista, que está usando essa criança para se aproveitar de você. Quem me garante que esse moleque é mesmo seu filho? — Questiona Laurel, encarando-me enojada.
— Escuta aqui, sua... — Eu estava possessa. Como uma pessoa podia ser tão intragável quanto Laurel Lance? Levanto-me, sentindo meu sangue fever.
— Já chega. — Antes que eu resolvesse partir para a agressão, Dr. Robert bate com força em sua mesa e se levanta tão furioso quanto eu. Laurel o encara com os olhos arregalados. — Eu tenho certeza de que Anthony é o meu neto. E eu não vou aceitar que use esse tom de voz para se referir a ele ou a Dra. Felicity, que é uma pessoa que tenho muita consideração e conheço sua índole o suficiente para saber que ela jamais faria algo assim.
— Tony precisa de um transplante urgente de fígado e eu serei o seu doador. Isso é o que está acontecendo aqui, Laurel. — Responde Oliver, cruzando os braços e a encarando friamente. — Se pretende continuar ofendendo Felicity ou meu filho, eu prefiro que você vá embora.
— Por que estão me tratando como se eu fosse a vilã da história? — Questiona a advogada, rindo incrédula. — Fui eu quem foi enganada aqui. Sou eu quem está tendo que lidar com essa história absurda. Vocês esperam que eu aja como se isso não fosse nada demais, mas isso não é normal! Você e eu namoramos a dez anos e de repente você aparece com um filho com outra mulher e espera que eu aceite isso assim?
— Eu entendo que esteja com raiva por ter descoberto isso da forma como descobriu, mas isso não te dá o direito de ofender Felicity ou Tony, que é apenas uma criança, que nesse momento depende de um fígado para sobreviver. — Responde Oliver, levantando-se. Ele encara a namorada com intensidade e determinação. — Se você não quiser continuar comigo, tudo bem, mas eu irei assumir a paternidade de Tony, você querendo ou não.
— Como é que é? — Grita Laurel e o som da sua cadeira caindo ao se levantar ecoa pela sala do Dr. Robert, que suspira, visivelmente incomodado. — Você não vai fazer isso!
— Isso não é uma escolha sua, Laurel. Eu já me decidi. — Retruca Oliver, sem se abalar pelo escândalo da namorada, que estava tão vermelha quanto um tomate. Seus olhos estavam arregalados e sua respiração estava se tornando cada vez mais alta e pesada. Ela parecia prestes a ter um ataque de fúria.
— Você só pode estar brincando comigo! O que as pessoas vão pensar quando descobrirem que você teve um filho sem ser comigo? — Questiona Laurel, agarrando o jaleco que Oliver usava em desespero.
— Eu não ligo para o que as pessoas pensam, Laurel! — Exclama Oliver, revoltado.
— Mas eu ligo! Como vai ficar a minha imagem? As pessoas vão achar que você me traiu! Que teve um filho fora do nosso noivado. — Continua a argumentar Laurel como se isso fosse o fim do mundo. — Não pode fazer isso comigo!
— Nós somos apenas namorados! Quando você vai entender isso? Além disso, o que você quer que eu faça, Laurel? — Pergunta Oliver, afastando a garota. Troco olhares com o Dr. Robert, que assistia a tudo com uma expressão incomodada. Mesmo parecendo não querer interferir na discussão, ouvir aquelas bobagens de Laurel era realmente um martírio. — Você ouviu o que meu pai disse. Tony precisa de um fígado. Eu não posso negar isso ao meu filho.
— Doe o fígado e pronto. Você não precisa dizer para as pessoas que ele é o seu filho. — Responde Laurel, sorrindo como se tivesse acabado de descobrir a cura para o câncer. — É isso! Faça a sua "obrigação" de pai e esqueça que a criança existe. A mãe dele mesmo disse que jamais teria contado a identidade do pai dele se não precisasse.
— Você é inacreditável. — Resmunga Oliver, encarando-a com indignação. — Quem você pensa que eu sou? Acha mesmo que eu seria capaz de fazer algo tão cruel quanto fingir que eu não conheço o meu filho?
— Oliver! — Grita Laurel, furiosa.
— Vai embora, Laurel! Esfrie sua cabeça e pense nos absurdos que você está falando. — Responde o rapaz, apontando para a porta do escritório do pai. — Quando você tiver colocado sua cabeça no lugar, nós conversamos.
— O quê? Você não pode...
— Você o ouviu, Laurel. Saia. — Dr. Robert interrompe a advogada, usando um tom de voz firme e intimidante. A garota alterna seu olhar entre o namorado, o sogro e eu, pega a bolsa que tinha caído no chão e segue para a saída, batendo os saltos finos com brutalidade no chão.
— Isso não vai ficar assim. — Ouço Laurel sussurrar, antes de abrir a porta e sair, batendo a porta com toda a sua força.
— Insuportável. — Sussurro, sentindo um alívio ao ver que ela finalmente havia saído. Volto a sentar e suspiro, cansada.
— Você está bem? — Pergunta o Dr. Robert, encarando-me com preocupação.
— Sim. — Respondo, dando um fraco sorriso. — De certa forma, eu a entendo. Ninguém ficaria feliz em saber que o namorado ou noivo apareceu de repente com um filho de outra mulher. Lamento pelos problemas, Oliver.
— Não. Está tudo bem. Laurel é realmente difícil de lidar. — Oliver suspira e sorri, cansado. Ele então se vira para o pai. — Eu irei fazer os exames.
— Tudo bem. Até o fim do dia receberemos os resultados. — Afirma o pai do rapaz, encarando-o com compreensão. Oliver assente e acena em despedida para mim, antes de seguir para a saída da sala. — Filho.
— Sim? — Responde, parando de andar para encarar o pai.
— Eu estou orgulhoso de você. — Declara Robert, sorrindo para o filho com sinceridade. Oliver o encara surpreso. — Você está lutando por aquilo que acredita e dando o seu melhor para ser uma boa figura paterna. Eu tenho certeza de que será um bom pai.
— Obrigado, pai. — Oliver agradece, parecendo emocionado com a fala do homem, que o observava com os olhos brilhando de maneira amorosa. Acabo sorrindo para o rapaz, quando ele me encara. — Até mais, Felicity.
— Tchau, Oliver. Bons exames. — Despeço-me dele, observando-o deixar a sala com um sorriso grandioso em seus lábios. Viro-me para o meu mentor e ele se senta, dando um suspiro cansado. — Ele parecia feliz.
— Apesar de ser bastante imaturo, ele é uma boa pessoa. — Comenta o homem, soando nostálgico. — Os filhos crescem mais rápido do que podemos acompanhar, Felicity. Aproveite enquanto Anthony é apenas uma criança. Quando você menos esperar, ele será um rapaz, trazendo uma namorada inconveniente no almoço de família.
— Eu prefiro não pensar nisso. Eu tenho esperanças que meu menino só vai namorar depois dos trinta anos. — Resmungo, sentindo um arrepio subindo minha espinha. O médico me encara e começa a rir, balançando a cabeça de maneira negativa. Acabo rindo também, mas eu não estava mentindo. Só de pensar em Tony namorando ou amando uma outra mulher que não seja eu, sinto meu coração se apertar. — Estou falando sério.
— Ele carrega o sangue dos Oliver. Não conte muito com isso. Você mesma disse que ele já faz sucesso na escola. — Comenta Dr. Robert, bem-humorado. Mordo o lábio inferior e suspiro, sofrida. Ele ri ainda mais. — Ele é realmente meu neto.
— Não ficou chateado por eu ter escondido isso por tanto tempo? — Pergunto, observando o sorriso orgulhoso nos lábios do médico. Ele desvia o olhar do teto para me encarar, deixando seu corpo descansar no encosto da confortável cadeira.
— Sinceramente? Não. — Responde Robert, suspirando. — Quer dizer, acho que a felicidade de saber que eu tenho um neto tão adorável quanto ele foi muito maior do que a minha decepção por ter escondido algo assim de mim.
— Eu sinto muito, Dr. Robert. — Lamento, ajeitando meus óculos. Eu não sabia bem como reagir a essa situação. — Você sabe que eu tenho muito carinho e respeito por você. Mas não era justo e eu não queria que Oliver tivesse que assumir uma criança que ele nunca pediu. Eu fiz a escolha de ser mãe e sou muito grata a ele por ter me dado a chance de ser mãe de uma criança tão forte, inteligente e amorosa. Tony é a minha vida, o meu bem mais precioso. Eu o amo tanto, Dr. Robert.
"Eu sempre ouvi das pessoas sobre o quão poderoso é o amor materno, mas eu só pude compreender quando eu o vi e ouvi seu coração bater pela primeira vez. É algo divino. Eu o amo independente do que aconteça, sem esperar nada em troca. É um compromisso eterno de dar mais do que as minhas forças deveriam permitir, um esforço que transcende a capacidade humana. É dedicar um tempo maior para ele do que para cuidar de mim mesma e, apesar disso, eu não me sinto triste por isso. Pelo contrário, eu me sinto feliz por ser capaz de cuidar de um ser tão pequeno e dependente de mim. O amor de mãe não se ensina em livros, mas você sente uma ligação instintiva única". — Sorrio para o homem, que me ouvia com atenção. — Eu sou grata por tê-lo, Dr. Robert, e acho que as palavras nunca serão capazes de descrever a bênção que sinto por tê-lo em meus braços, por vê-lo sorrir. Graças a ele, eu não estou mais sozinha. Tony é o meu tudo. A única coisa que desejo em minha vida é que ele cresça saudável, que se torne um bom homem e seja feliz.
— Eu vi uma vez uma frase da escritora Agatha Christie, que dizia que o amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho. — Comenta o médico, dando um sorriso discreto. — Eu não julgo as suas escolhas, Felicity. Eu apenas lamento ter perdido tanto tempo da vida de Anthony. Mas eu estou feliz. Você é como uma filha para mim e desejava intimamente que você namorasse meu filho e não a mulher escandalosa e superficial que insiste em dizer que eles estão noivos. Acho que os céus ouviram minhas preces e me enviaram Anthony.
— Dr. Robert... — Suspiro, sem saber o que dizer.
— Desculpa. Acho que estou sendo inconveniente. — Lamenta o homem, sorrindo envergonhado.
— Não é isso. — Respondo, tentando tranquilizá-lo. — Eu apenas não quero que alimente expectativas de algo que não vai acontecer. É com o coração na mão que estou aceitando que Oliver assuma a paternidade de Tony, mas não haverá nada entre nós.
— É uma pena. — Confessa, suspirando. Ele então encara o teto com seriedade. — Eu sempre me senti tocado por Anthony e agora, meu desejo de salvá-lo se tornou ainda maior. Eu prometo, Felicity. Como médico e avô, não pouparei esforços para garantir que Anthony sobreviva.
— Isso é tudo o que eu peço. — Digo, sorrindo agradecida. Respiro aliviada e o presidente do hospital dá um sorriso paternal, quase como em um consolo. — Obrigada, Dr. Robert.
— Obrigado a você, Felicity, por me dar a oportunidade de realizar o meu sonho de ser avô. — Afirma o homem, sorrindo com sinceridade. Seus olhos azuis brilhavam como estrelas e dessa vez consigo enxergar as semelhanças de meu menino com seu avô paterno. Sorrio, feliz. Meu amado filho não poderia ter um avô melhor.
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