Milagres de Junho
24 Desespero
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO
CAPÍTULO XXIII — DESESPERO
Furiosa. Essa era a palavra que melhor definia meu estado de espirito, enquanto dirigia descontroladamente em direção ao escritório de Laurel. Os carros ao redor buzinavam e era possível ouvir os gritos nada amigáveis dos outros motoristas ao me ver desviar de maneira imprudente de todos os veículos a minha frente. E sinceramente, naquele momento eu não me importava nenhum pouco com seus comentários ofensivos.
E então o prédio espelhado não demora a surgir em meu campo de visão. Acelero ainda mais e assim que alcanço o luxuoso arranha-céu que pertence a família da maldita que ousou machucar o meu bem mais precioso, estaciono o carro de qualquer jeito na entrada e invado o local, ignorando os chamados dos seguranças que vinham logo atrás de mim.
— Senhora, por favor, retire o veículo da entrada do edifício! — Solicita um dos seguranças, aproximando-se de mim.
— Por favor, senhora, identifique-se! — Exige umas das recepcionistas, assim que tento passar pela catraca que impedia o acesso aos elevadores.
— Não toquem em mim! — Vocifero, empurrando os dois homens que tentam segurar meus braços. Eu estava tão possessa que não me importo em usar meus conhecimentos em Krav Magá para derrubar os dois brutamontes e ainda apagá-los. Vejo um homem com fone de ouvidos, mexendo em seu celular completamente alheio ao que ocorria ao seu redor. Noto que ele que tinha um crachá em mãos, usado para liberar a catraca para sair do prédio. Puxo-o pelo o ombro, assim que ele passa pelo dispositivo de segurança, chamando sua atenção. — Me dê o crachá. Agora!
— O quê? — Questiono o engravatado engomadinho, surpreso enquanto tira os fones de ouvido. Lanço o meu pior olhar e ao notar os dois homens inconscientes próximos a mim, ele rapidamente me entrega o crachá.
Mais seguranças se aproximam e eu sabia que não demoraria muito para que a polícia aparecesse. Felizmente, no momento em que alcanço o elevador, as portas se abrem. Diversas pessoas deixam a caixa metálica e em meio a confusão, consigo entrar e empurrar os que ainda estavam dentro para fora. Aperto o botão do último andar e fecho as portas.
Enquanto o elevador sobe, sinto toda a adrenalina percorrer minhas veias. A fúria e o caos me consumiam. Laurel maltratou meu filho e ainda teve a ousadia de sequestrá-lo. Eu só tinha um desejo em mente, enquanto observava os números dos andares que eu passava pela tela do elevador e apertava a arma escondida em minha cintura: ter a cabeça de Laurel Lance em minhas mãos.
As portas se abrem. O desejo por sangue me guia pelo grande corredor do andar até a última porta onde letras douradas indicavam que a sala pertencia a mulher que eu desejava encontrar. Puxo minha arma e a engatilho. Abro a porta e invado a sala, pronta para matar Laurel e resgatar o meu menino. No entanto, surpreendo-me ao ver a criança amarrada no chão, com uma mordaça em sua boca. Ele chorava e se debatia, desesperado. Em seu rosto havia diversos hematomas e ele estava bastante sujo.
— Tony! — Grito, dividida entre o alívio por ver que ele estava bem e o ódio por Laurel ter o deixado naquele estado. Corro para soltá-lo, mas antes que eu o alcançasse, noto uma movimentação mais a frente. Arfo ao ver que Laurel apontava uma arma contra o queixo de Oliver e o pressionava contra a enorme janela de vidro da sala. — Oliver!
— Pro..teja... nosso... filho. — Balbucia com dificuldade. Seus olhos expressavam uma dor quase dilacerante.
— Se você não pode ser meu, não será de mais ninguém! — Grita Laurel com um ar psicótico.
— Não! — Grito, tentando correr em direção a Oliver, mas antes que eu a impedisse, ela atira no queixo do homem que eu amo e o chuta contra a janela de vidro que se parte e o faz cair do trigésimo andar.
Caio de joelhos no chão. As lágrimas descem pelo meu rosto e o ar se ausenta de meus pulmões. Eu não conseguia dizer nada. Meu coração doía como nunca. Tento me mover, mas meu corpo parecia pesar uma tonelada. Um nó em minha garganta me sufoca. Como eu poderia viver em um mundo sem Oliver quando eu havia me tornado tão dependente dele?
— E agora chegou a sua vez, pestinha. — A voz de Laurel ecoa pela sala soando absurdamente perigosa. Viro-me para trás e meu desespero se torna ainda maior ao ver que ela estava próxima de Tony, com a arma apontando para ele.
— Não! Por favor, não! — Imploro, tentando me aproximar. Nesse instante, Laurel se vira para mim e sorri com um brilho diabólico em seus olhos.
— Diga adeus ao seu precioso filho. — Responde Laurel, levando a arma contra a cabeça de Tony, que se debate, atormentado.
— Laurel, por favor... — E antes que eu completasse a minha sentença, Laurel atira sem piedade alguma contra o meu menino.
Grito mais uma vez, sentindo aquela dor dilacerante se triplicar. Laurel ri ao notar o meu estado. Tento me aproximar, mas não consigo me mover. A angústia me consome e me destrói. As gargalhadas de Laurel continua a ecoar pela sala como uma maldição.
...
— Não! — Acordo, gritando e sentindo as lágrimas descendo pelo meu rosto. Meu coração batia descontrolado. Eu respirava com dificuldade e demoro um tempo para separar o sonho da realidade. Olho para o lado e vejo meu filho dormindo tranquilamente. — Graças a Deus.
Acaricio o rosto adormecido e angelical de Tony. Como fazia quando ele era recém-nascido, passo a mão por debaixo de seu nariz e respiro aliviada ao sentir sua respiração ritmada. Ele estava vivo e isso era o bastante para me fazer chorar ainda mais, enquanto as cenas do pesadelo continuam a revirar minha mente.
Abraço meus joelhos e mordo meus lábios, deixando que as lágrimas que desciam pelo meu rosto levassem todos aqueles sentimentos negativos que comprimiam meu coração com tanta intensidade. Respiro fundo algumas vezes, tentando me acalmar. Sussurro para mim mesma que tudo não havia passado de um sonho.
Levanto-me da cama e com o corpo tremendo, sigo para a sala onde Oliver dormia. Eu também sentia aquela necessidade absurda de conferir que ele estava bem e vivo. Abro a porta de correr que separava o quarto da sala com o sofá cama em que meu noivo dormia e, depois de fechá-la para não correr o risco de acordar Tony, ando com cuidado até o sofá cama.
Hesitante, paro próxima a ele e o observo dormir despreocupadamente. Não faço ideia de quanto tempo permaneço parada, apenas o encarando. Por fim, suspiro um pouco mais calma e vou atrás de um copo de água. Seco meu rosto e tento colocar meus pensamentos no lugar e voltar a ser a Felicity racional. Tudo foi apenas um sonho. Depois de saber o que ela tinha feito e passar pelo cansaço de dormir em uma barraca durante uma tempestade, eu provavelmente havia ficado muito impressionada e acabei sonhando com tantas tragédias.
Aproximo-me da mesa onde havia uma jarra de água. Encho um dos copos de vidro que havia ao lado dela. Respiro fundo algumas vezes e bebo um pouco de água para me acalmar.
— Não consegue dormir? — Ouço a voz de Oliver de repente. Surpresa pela aparição repentina de meu noivo, acabo me engasgando e deixando o copo cair. Ele se parte em vários pedaços pelo chão e molha o carpete do quarto.
— Droga. — Resmungo, abaixando-me para recolher os cacos de vidro, enquanto ainda me recupero do engasgo.
— Você está bem? Desculpa. Eu não queria te assustar. — Lamenta Oliver, aproximando-se, preocupado. Não respondo nada, continuando a recolher os casco de vidro espalhados pelo carpete. Minha mente ainda estava muito abalada tanto pelo pesadelo quanto pelo susto que levei de Oliver. — Cuidado. Você pode acabar se cortan...
— Merda! — Arfo ao deixar um caco maior escorregar, que corta a palma da minha mão. — Era só o que faltava mesmo.
— Deixa eu...
— Eu vou lavar esse corte no banheiro e fazer um curativo. – Aviso, sem olhar em seu rosto. Quando em levanto e me viro para ir ao banheiro, um leve puxar em minha blusa. Paro de me mover e olho de soslaio para trás. Oliver segurava minha camiseta de cabeça baixa.
— Até quando vai me ignorar? – Sussurra Oliver com o tom de voz quase inaudível.
— Eu... — Suspiro, pressionando o corte. Fecho os olhos em uma tentativa falha de organizar meus pensamentos. Na verdade, tudo o que eu menos queria naquele momento era conversar. — Eu preciso lavar esse corte antes que eu acabe manchando ainda mais o carpete do quarto.
Continuo a caminhar em direção a porta do banheiro, mas paro novamente ao sentir os braços de Oliver envolverem meu corpo. Seu rosto se apoia na curvatura de meu pescoço. Arfo e começo a relaxar meu corpo ao sentir o aroma envolvente de Oliver que me traz tanto conforto e o aconchego que eu precisava naquele momento. Ele nem mesmo imaginava o que se passava em minha mente, mas seu abraço era tudo o que eu mais queria e necessitava.
— Me perdoa, por favor. – Sussurra Oliver, quase como uma oração. Engulo em seco e tento me soltar de seu abraço, mas isso só faz com que ele intensificasse ainda mais o seu aperto. – Eu sinto muito por ter agido como um covarde e escondido de você o Laurel fez contra Tony.
Permaneço em silêncio por mais alguns instantes, tentando reorganizar meus pensamentos. Eu estava tão atordoado, que nem mesmo era capaz de decidir o que fazer. As imagens do sonho, onde o vejo morrer na minha frente invadem a minha mente e aquela dor angustiante em meu coração retorna com força total. Viro-me para Oliver e o abraço com toda a minha força, sentindo as lágrimas voltarem a cair com intensidade.
— Feli...city? Você está chorando? — Questiona Oliver, tentando me afastar para encarar meu rosto, mas eu o aperto ainda mais e escondo meu rosto em seu peito. Aperto sua camisa, sem nem mesmo me importar mais com o meu corte na mão. — O que aconteceu? Felicity, o que houve? Por que está chorando?
— Nada. — Engasgo em um sussurro, demonstrando toda a minha fragilidade.
Oliver suspira preocupado e me aperta mais contra si, acariciando minha cabeça em um carinho aconchegante. Inspiro seu perfume característico, perdendo-me na paz e no conforto que ele me trazia. Quando finalmente consigo parar de chorar e sinto um pouco daquele pavor evaporar, Oliver tenta me afastar mais uma vez.
— Vai me explicar agora o que aconteceu? — Questiona o rapaz, suavemente. Ele limpa meu rosto com delicadeza e me encara com preocupação.
— Eu... eu tive um pesadelo. — Conto com a voz fraca. Respiro fundo para me recompor e finalmente o encaro. — Nele, você... você... você e Tony foram mortos pela... Laurel. Eu assisti a tudo sem conseguir me mover. Foi tudo tão... real.
— Ei, calma. Não vai acontecer nada com a gente. Eu prometo. — Afirma Oliver, voltando a me abraçar. Ele deixa um beijo demorado em minha testa. — Foi só um pesadelo. Nós estamos bem e vamos continuar assim.
— Eu sei... mas é que eu... — Suspiro e me afasto de Oliver, ficando de costas para ele. Abraço meu próprio corpo em busca de um consolo. — Eu sinto que Laurel não vai poupar esforços para me atingir. Talvez esse sonho tenha sido um aviso para o que ela é capaz de fazer e me alertar que eu preciso tomar uma atitude antes que...
— Felicity, foi apenas um pesadelo. Você ficou pensando demais em uma forma de se vingar de Laurel. Isso pode ter mexido com você, por isso, o pesadelo tão intenso. Mas eu prometo que eu vou impedir que Laurel volte a nos incomodar novamente. — Afirma Oliver, pegando em meus ombros para me virar para ele. — Eu já cometi o erro de subestimar a maldade de Laurel, mas isso não vai mais acontecer. Eu prometo que farei o que for preciso para garantir que ela vá parar atrás das grades para pagar por todos os crimes que ela cometeu. Então, poderia me dar mais um voto de confiança?
— Eu... — Começo a falar, mas me interrompo, incerta sobre o que deveria dizer. Eu confio em Oliver. Sei que ele está sendo sincero. Ainda assim, meu coração me alertava que se eu realmente quero me livrar de Laurel, terei que fazer isso eu mesma.
— Por favor. — Implora Oliver com seus lindos olhos sobre os meus, brilhando intensamente, em busca de uma resposta positiva de minha parte.
— Tudo bem. — Concordo, suspirando. — Mas se isso não for suficiente, eu cuidarei de Laurel com as minhas próprias mãos.
— Então você me perdoou? — Questiona Oliver com aquele olhar de cachorro que caiu da mudança. Bufo diante da semelhança de meu noivo e nosso filho. Ele permanece a espera de minha resposta.
— Sim. Eu perdoei você. — Respondo por fim, sem conseguir resistir a forma como ele me olhava.
Ele sorri e me beija. Intenso, selvagem e repleto de saudade. Aqueles sentimentos que ocasionavam em diversos arrepios em meu corpo. E o que deveria ser apenas um beijo de comemoração por termos nos reconciliado, se torna algo muito mais intenso quando os lábios de Oliver abandonam minha boca e passava a maltratar a pele sensível de meu pescoço.
Arfo e mordo meu lábio inferior, tentando controlar o gemido que queria escapar. As mãos de Oliver percorrem um caminho perigoso por minhas costas até minha bunda, puxando-me para ainda mais perto de si. Eu já não tinha mais o controle de minhas ações. Ele então passa a andar comigo pela sala até que minhas costas colidem contra a parede mais próxima. Oliver então impulsiona meu corpo para que eu me aproximasse ainda mais.
Contorno seu quadril com minhas pernas e suspiro ao sentir suas mãos fortes apertarem minhas pernas com uma força que fazia meu corpo inteiro ficar em chamas. Ele leva uma de suas mãos a minha nuca, puxando meus fios de cabelo sem piedade alguma. Solto seus lábios e jogo a cabeça para trás, sentindo sua barba arranhar a minha pele, enquanto ele voltava a distribuir beijos pelo meu pescoço.
— Oliver... — Sussurro, sentindo meu corpo implorar por mais contato de nossas peles. Por mais de seus beijos, de suas mãos deslizando pelas minhas curvas.
Ele me aperta contra si e me conduz com agilidade até o sofá cama onde ele dormia instantes antes. Eu já não me importava mais com os cacos de vidro espalhados pelo carpete ou com o corte em minha mão que continuava a me incomodar. Eu apenas queria experimentar todo o prazer que Oliver pode me proporcionar.
Ansiando por satisfazer nossos desejos, Oliver me joga contra o sofá cama e passa a beijar meus ombros, enquanto desliza com delicadeza a alça fina de minha camisola de seda rosa. Ele sorri ao ver o quanto meu corpo reagia a esse mísero estímulo. Era quase uma tortura. Seus olhos estavam escuro, tomados pela luxúria. Ainda assim, havia um brilho de carinho em meio a todo aquele desespero para saciar nossas vontades.
— Se... você quiser parar. A hora é essa. Depois disso... — Antes que ele continuasse, levo minhas mãos ao pescoço de Oliver e o puxo para mim. Nossos lábios se chocam em um beijo afoito.
— Me faça sua. — Sussurro contra seus lábios, fazendo questão de olhar em seus olhos para mostrar que eu tinha certeza de minha decisão.
— Com todo prazer. — Responde Oliver, voltado a me beijar. E naquele momento eu soube. Aquela noite seria inesquecível.
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