Notas iniciais
Oii Cupcakes ♥! Estou de volta com mais um capítulo. Eu realmente fiquei muito feliz com a reação de vocês. Muito obrigada Kaiala de Jesus, Tori, Lele e Mikaelly Tessaro Lucas por todo o carinho que me deram em seus comentários no capítulo passado. Espero que gostem do primeiro capítulo oficial de MJ. Boa leitura...

ROMANCES MENSAIS

LIVRO VI – MILAGRES DE JUNHO

CAPÍTULO I — ALTERNATIVA

Dias atuais.

O sol já se punha no horizonte quando estaciono o carro de frente a minha residência. Um suspiro cansado deixa meus lábios ao sentir a exaustão de um dia intenso de trabalho recair sobre meu corpo. Encosto minha cabeça no encosto de cabeça do banco e fecho os olhos, respirando fundo algumas vezes para aliviar todo o estresse e desligar a minha mente de todos os problemas que havia enfrentado no hospital.

Um pouco mais relaxada, pego minha bolsa e as pastas com alguns exames que havia trago para revisar em casa e saio do carro. Observo o bonito céu aquarela de Hawkins e sorrio ao sentir uma brisa suave atingir minha pele. O verão havia começado com o calor característico e as chuvas repentinas e intensas. Ansiosa para tomar um banho e comer alguma coisa, sigo em direção a entrada de minha casa.

Assim que abro a porta, coloco minha bolsa, a chave do carro e as pastas que trouxe comigo sobre o aparador da entrada do hall e me ajoelho esperando a recepção calorosa da criança que não demora a aparecer, correndo com seus bracinhos finos e delicados estendidos. O sorriso angelical de meu filho aquece meu coração e o abraço apertado e caloroso traz toda a paz que eu precisava depois de passar horas em cirurgias complexas e desgastantes.

— Mamãe! — A saudação alegre e cheia de vida de Anthony enquanto seus braços delicados rodeiam meu pescoço me enche de luz. — Você chegou!

— Oi meu amor. — Cumprimento a criança, enchendo-a de beijos. Sinto o cheiro suave de morango de seu shampoo e inspiro profundamente, fazendo soltar aquela gargalhada gostosa. Levanto com meu amado menino no colo e observo seus lindos olhos azuis. Não havia nada que eu amasse mais quanto os olhos de Tony. A pureza e o amor presentes neles eram encantadores. — Você se divertiu hoje?

— Sim! A Holly veio nos visitar e a gente brincou o dia todo. A Mal contou histórias incríveis para a gente e nós também dançamos, mesmo eu não gostando muito. A gente também comeu bolo de chocolate, mamãe. E eu fiz um desenho para você. Deixa eu mostrar! — Conta Tony de maneira elétrica, enquanto eu entrava em casa. Sorrio e coloco o garoto no chão, que não demora a subir as escadas com pressa.

— Cuidado, meu amor! Você sabe que não é para correr nas escadas. — Repreendo o garotinho, que sorri sem graça e começa a ir mais devagar.

— Desculpa, mamãe. — Lamenta e eu acabo sorrindo da doçura de meu menino.

— Oi Felicity. Que bom que chegou. Acabei de preparar o jantar. Quer comer um pouco antes de ir tomar banho? — Mal aparece na sala, secando as mãos em um pano de prato. A babá de cabelos roxos na altura dos ombros e olhos esverdeados sorri gentilmente.

Mal Faery entrou na minha vida de maneira inesperada. Ela é filha de minha colega de trabalho, Malévola, e é uma garota maravilhosa. Por algum motivo, Malévola sempre rejeitou a filha e a manteve afastada. Nas poucas vezes que discutimos, o assunto sempre foi o tratamento que ela dava a jovem garota. Malévola sempre dizia que ficar longe da garota é a sua forma de protegê-la. Por causa da falta de afeto de Malévola e a força de vontade de Mal em se tornar uma grande patinadora artística, eu a contratei para ser babá de Tony desde que ele nasceu.

Ela me ajuda a cuidar da casa e de Tony, sem que isso atrapalhasse sua carreira artística ou os estudos. Em troca, eu a ajudava a pagar a treinadora de patinação artística e o aluguel da pista de gelo que ela usa para treinar, além dos equipamentos caros do esporte. Depois de cinco anos tendo a garota todo dia em minha casa, nós já havíamos criado um vínculo familiar. Mal era como uma filha para mim.

— Você é um anjo, Mal. Eu estou morrendo de fome. — Admito, seguindo a adolescente para a sala de jantar. — E como foi o dia?

— Divertido. — Comenta a garota, rindo. Mal estende uma folha para mim. — Holly veio brincar com o Tony, então eles passaram a tarde toda brincando, assistindo filmes e dançando. Ela também fez um desenho e disse que era para entregar para a titia Fefeh.

— A Holly é tão boazinha. — Comento, rindo, ao ver o desenho de uma pessoa loira alta, que imaginei ser eu, um garotinho e uma garotinha loiros e uma garota de cabelos roxos que a melhor amiga de meu filho fez. Eles se conhecem desde o primeiro dia de aula da garota na escola. Por causa dos problemas da fama dos pais, que vivem se envolvendo em escândalos, a garotinha tinha dificuldades de fazer amizade e chorava muito na escola. Com a personalidade doce do meu menino, ele logo conquistou a confiança de Holly Wheeler e se tornaram melhores amigos desde então.

— Sim. — Concorda Mal, colocando a macarronada que havia preparado em um prato. Sento-me na mesa de jantar e ela coloca o prato em minha frente. — E como foi o seu dia?

— Ah, cansativo. — Confesso, suspirando. A garota assente, indo pegar o prato verde de plástico de Tony para colocar a comida para a criança. Como um pouco da deliciosa macarronada e observo Mal. — Precisei realizar três cirurgias complicadas e um dos meus pacientes foi diagnosticado com câncer.

— Pobrezinho. Espero que ele consiga se curar. — Comenta Mal, colocando o prato de Tony na mesa.

— Eu também. — Respondo, sentindo aquele aperto no peito todas as vezes que eu descobria um caso como esse. Sendo pediatra há um pouco mais de seis anos, não era raro os casos em que eu precisava lidar com a descoberta de alguma doença agressiva em meus pacientes, ainda assim, era sempre doloroso ter que informar a família sobre esses casos. Como mãe, eu entendia bem a dor de saber que seu filho está doente.

— Tony! Vem comer! — Mal chama pela criança, pegando a jarra de suco na geladeira e dois copos que estavam no armário. Ela os coloca sobre a mesa e suspira. — O que essa criança está aprontando? Tony!

— Ele disse que foi buscar o desenho que fez para mim. — Comento, pegando mais um pouco da macarronada. — Ele deve estar no quarto.

— Eu vou conferir o que ele está aprontando. — Avisa Mal, dando um sorriso divertido.

Correspondo com o mesmo sorriso e volto a me concentrar na comida, saboreando a refeição sem pressa. No entanto, toda a calmaria do momento desaparece no momento em que eu ouço o grito desesperado de Mal, chamando Tony. Prendo a minha respiração e corro imediatamente em direção ao quarto de meu menino.

— O que aconteceu? — Pergunto, entrando no quarto de Tony. Observo Mal segurando o garotinho inconsciente em seus braços, balançando-o repetidas vezes. — Tony!

— Ele estava caído no chão quando eu cheguei. — Conta a babá, desesperada. Respiro fundo, tentando manter a calma. Levo minha mão a testa de meu filho e vejo que ele não estava febril, ainda assim suava intensamente. Aperto seu pulso e confiro a pulsação dele. Estava fraco.

— Pegue os documentos do Tony. Vou levá-lo ao hospital. — Oriento Mal, pegando-o no colo.

A garota corre imediatamente para o meu quarto, pegando uma pasta em meu armário, onde eu guardava todos os documentos de Tony. Enquanto isso, corro com ele em meus braços, seguindo para o hall da casa, onde pego a minha bolsa e a chave do carro. Coloco Tony em sua cadeirinha, que nunca saída do banco de trás, e no mesmo instante Mal aparece com a pasta.

— Você quer que eu vá com você? — Pergunta a adolescente, preocupada, enquanto põe a pasta de documentos de Tony no banco do passageiro na frente.

— Não precisa. Pode ir para casa. Eu aviso você quando souber o que aconteceu. — Respondo, entrando no carro. Coloco minha bolsa no banco ao lado do motorista e ligo o carro, abaixando a janela ao meu lado para encarar a garota de cabelos roxos.

— Eu vou esperar vocês aqui. — Afirma Mal, encarando-me apreensiva. Ela se apoiava na porta do carro e passa a encarar Tony, quase em um pedido mudo para que ele ficasse bem. — Por favor, me mantenha informada.

— Tudo bem. — Concordo, prendendo o cinto de segurança. Mal se afasta do carro e eu saio as pressas em direção ao hospital onde trabalho.

Durante o trajeto, observo meu menino inconsciente pelo retrovisor do carro. Meu coração estava apertado e o medo me assombrava. Tony sempre teve a saúde frágil. Dias após o nascimento, meu menino foi diagnosticado com Atresia de Vias Biliares. Um doença que causa um estreitamento progressivo seguido pelo bloqueio dos dutos biliares, com início logo após o nascimento. Assim, a bile não consegue chegar ao intestino. Ela acaba se acumulando no fígado e então escapa para o sangue, o que causa uma coloração amarelada da pele. Caso a doença não seja tratada até os dois meses de vida do bebê, ela acaba desenvolvendo cirrose na criança.

Assim, com apenas seis dias de vida, Tony precisou realizar uma cirurgia complicada e perigosa para criar um caminho para que a bile possa ser drenada do fígado. O caminho foi criado ao costurar uma alça do intestino no fígado, no local de saída do duto biliar. Felizmente, a cirurgia foi um sucesso, no entanto, meu pequeno filho acabou com o corpo mais frágil que os das outras criança. O seu crescimento foi comprometido e mesmo com cinco anos, ele ainda aparenta ter apenas três anos.

Por causa disso, eu sempre tive muito cuidado com a segurança e saúde de Tony, ao ponto de muitas vezes ser chamada de superprotetora pelos meus amigos. No entanto, nenhum deles entendia o quanto a minha vida dependia da vida de Tony. Ele é tudo o que eu tenho. A minha única família. Ele é a minha vida, o meu pequeno e valioso milagre. Como eu poderia não ser cautelosa com sua preciosa vida?

E é com as lágrimas descendo intensamente pelo seu rosto e temendo pela vida de meu amado menino, que acelero e ultrapasso os carros de maneira perigosa, ouvindo buzinadas no processo. Ignoro a todos. A única coisa que eu conseguia pensar era em chegar ao hospital. Assim, não demoro mais do que dez minutos para chegar ao IU Health Methodist Hospital.

Sem me importar com a forma como estacionei o carro de frente a emergência, desço do veículo, pego a criança no colo, minha bolsa e a pasta de documentos de Tony. Corro para dentro do hospital e Daphne, uma das recepcionistas do período da noite, não demora a me reconhecer. Ela fala alguma coisa para a colega que estava ao seu lado e corre em minha direção.

— Dra. Felicity! O que aconteceu? — Pergunta a recepcionista, observando Tony.

— Meu filho desmaiou. A pulsação dele está fraca. — Respondo, tentando conter o meu desespero. — O Dr. Robert está?

— Sim. Ele acabou de entrar para iniciar o plantão. Devo pedir que ele vá para o seu consultório? — Questiona Daphne, assim que alcançamos os elevadores. Aperto os botões freneticamente.

— Por favor. — Respondo, equilibrando Tony, minha bolsa e sua pasta da melhor maneira que conseguia. A recepcionista assente e corre para o seu post. As portas do elevador se abrem e eu finalmente consigo entrar. De maneira atrapalhada, tento apertar o botão do quinto andar, mas a quantidade de coisas em minhas mãos e o medo de derrubar Tony me atrapalha. Nesse instante, alguém entra no elevador e aperta o botão para mim. — Obrigada.

— Não tem de que. — Responde a voz grossa e ao levantar meus olhos, surpreendo-me ao ver Oliver Queen. Prendo minha respiração sem acreditar na coincidência. Ele me observa por alguns instantes, parecendo tentar me reconhecer. — Dra. Felicity Smoak?

— Sim. — Digo, apertando mais Tony contra mim.

— Está tudo bem? Quer ajuda para segurar a criança? — Pergunta o jovem e, instintivamente, eu me afasto. Ele me encara confuso.

— Não. Não precisa. Obrigada. — Respondo de maneira nervosa. Tony parece resmungar, parecendo sentir dor. Acaricio seu cabelo, tetando transmitir algum conforto a ele. — Calma, filho. A mamãe está aqui. Ela vai cuidar de você.

— O que aconteceu com ele? — Questiona Oliver, parecendo preocupado.

— É isso que eu vou descobrir. — Digo e felizmente, as portas do elevador finalmente se abrem. Sem nem mesmo me preocupar em me despedir, saio do elevador em direção ao meu consultório.

Há anos tenho evitado contato e qualquer tipo de interação com o filho de meu mentor e chefe, temendo que ele descobrisse sobre a paternidade de Tony. Infelizmente, a visita dele ao hospital tem se tornado bastante frequente por causa da residência que ele tem feito no IU Health Methodist Hospital. Ainda que eu soubesse que as chances de Oliver descobrir sobre Tony fosse mínima, eu não conseguia evitar o medo que sentia dele querer tomá-lo de mim falava muito mais alto.

Respiro fundo, tentando me concentrar e assim que entro em meu consultório, passo a examinar meu filho. Ele continuava a gemer de dor, incapaz de dizer qualquer coisa. Ao verificar seu abdome, arfo ao encontrar as marcas de suas veias na região. A barriga inchada e a reação de Tony ao se tocado na barriga não me geram dúvidas que o problema em seu fígado havia retornado para o meu desespero. Há quanto tempo ele tem sofrido com as dores agudas sem dizer nada? Como foi que eu não notei o inchaço em seu abdome?

— Felicity? — Desvio o olhar do corpo frágil de meu filho para encontrar os olhos preocupados do Dr. Robert Queen. — O que aconteceu?

— Suspeito que a Atresia Biliar tenha retornado. — Sussurro aos prantos e o médico se aproxima para realizar os exames físicos mais uma vez.

Ele examina o abdome de Tony, afere a pressão e os batimentos cardíacos. Por fim, ele me encara com a expressão que eu conhecia bem. Aquilo não era um bom sinal.

— Vamos realizar os exames de sangue, uma ultrassonografia do abdômen e a cintilografia hepatobiliar. Dependendo dos resultados, teremos que realizar o exame do fígado e dos dutos biliares e a biópsia do fígado. Eu vou solicitar que a Dra. Hannah Van Tiem e o Dr. Dean Hoover participem da...

— Eu também vou. — Respondo decidida.

— Você não está em condições para isso, Felicity. Conhece as regras. — O Dr. Robert usa aquele tom suave e levemente repreendedor. — Ele é o seu filho. É completamente compreensível que esteja abalada e que queira participar da cirurgia, mas precisa confiar em mim e em seus colegas de trabalho. Seu envolvimento sanguíneo e emocional com ele vai te impedir de agir de maneira profissional.

— Mas...

— Eu prometo que farei de tudo para salvar a vida dele. — Interrompe o médico, sem nem mesmo saber que ele estava falando de salvar a vida do próprio neto. Engulo em seco e encarando o rosto contorcido de dor de meu filho, acabo concordando.

No mesmo instante, uma enfermeira entra no quarto com uma cadeira de rodas infantil. O Dr. Robert coloca Tony com cuidado na cadeira e os dois saem do quarto em direção ao laboratório para realizar os exames de sangue. Enquanto a enfermeira prepara meu menino, o médico usa o seu page para solicitar a presença dos pediatras de sua equipe. Observo a tudo, completamente apreensiva. Sentindo-me completamente inútil.

Algumas horas depois, assim como previsto pelo Dr. Robert, Tony precisou realizar uma biópsia hepática percutânea. Felizmente, o homem permitiu que eu participasse do procedimento. Com o coração querendo sair pela boca, assisto o Dr. Robert usar o ultrassom para localizar o fígado e anestesiar a pele. Ele perfura o abdômen de Tony e insere a agulha no fígado da criança. Ao puxar a agulha oca é possível ver um pequeno fragmento de tecido do fígado dentro dela.

Ao fim do procedimento, Tony é internado para ficar de observação e é ministrado um remédio para a dor. Passo a noite ao seu lado, sem conseguir pregar os olhos. Segurando a mão de meu menino, concentro todo a agustia em meu peito em uma oração desesperada, implorando por um novo milagre. Observo o rosto angelical do garoto que dormia sob efeito de medicamento. O choro preso em minha garganta era torturante, enquanto o medo continuava crescente em minha peito. Eu só queria que ele ficasse bem e saudável.

Batidas na porta ecoam pelo quarto. Desvio o olhar do rosto pálido de Tony para encarar o Dr. Robert entrando no quarto. Ele dá espaço para uma enfermeira entrar com uma bandeja com suco, fruta e pão. A mulher deixa a bandeja na mesa que havia dentro do quarto e após uma breve reverência, ela sai. O médico fecha a porta e se aproxima com uma prancheta e alguns exames. Ele me observa por alguns instantes e suspira.

— Eu tenho os resultados dos exames. — Avisa meu mentor, suspirando. Ele se aproxima dos pés da maca onde Tony estava deitado e encara a criança com um sorriso gentil.

— E então? — Pergunto, apreensiva. — O que descobriu, Dr. Robert?

— Assim como você suspeitava, a Atresia de Vias Biliares voltou. Como você sabe, mesmo quando a operação é bem‑sucedida, cerca de metade dos bebês continuam a ter uma piora na doença e acabam precisando de um transplante de fígado. Geralmente isso ocorre aos dois ou três anos, mas Anthony foi um caso raro em que o corpo dele resistiu até agora. — Conta o médico e uma dor aguda atinge meu peito. Mesmo sabendo da possibilidade, ouvir aquelas palavras de meu mentor é como um tiro em meu coração. As lágrimas descem pelo meu rosto em silêncio, enquanto eu aperto a mão pequena e delicada de Tony, apoiando minha testa nela. — Eu sinto muito, Felicity. Agora precisamos correr contra o tempo. Você precisará fazer o exame de compatibilidade com ele e...

— Eu não posso doar. — Respondo, fechando os olhos com força. Soluço, sentindo a dor se intensificar em meu peito. Encaro o médico, que me analisava com atenção. — Nossos sangues são diferentes. Ele é O negativo. O meu é A negativo.

— Pensei que tivesse escolhido um doador que tivesse o mesmo tipo sanguíneo que você. — Comenta o homem, confuso.

Permaneço em silêncio sem saber o que responder. De fato, a primeira seleção do doador é feita com base no tipo sanguíneo da mãe. E se fosse para escolher uma pessoa com um tipo sanguíneo diferente do meu, eu definitivamente não escolheria o mais raro, justamente para o caso de precisar de transfusão de sangue ou algo assim.

— Nesse caso, a chance de se conseguir um doador compatível cai drasticamente. E por ter um sangue mais raro, isso se torna ainda mais difícil. — O médico suspira e parece não saber o que fazer. — Eu o colocarei na lista de espera de um doador. Mas isso pode...

— Demorar. Eu sei. — Sussurro, fechando os olhos. Respiro fundo, tentando manter a calma. — E nós não temos muito tempo.

— Não. Não temos. — Concorda o Dr. Robert. — Bom, o caso de Anthony é grave. Por isso, ao invés de esperar pelo doador com morte encefálica, partimos para a segunda opção, que é o transplante intervivos pediátrico. Geralmente, 1/3 do fígado do doador, usualmente pai ou mãe, é transplantado na criança, mas como o seu tipo sanguíneo não é compatível com Anthony e a identidade do pai é desconhecida, nós teremos que usar a terceira opção. Realizaremos um split, que é quando um órgão de doador com morte encefálica é dividido entre dois receptores, normalmente, entre um adulto e uma criança. O problema realmente o tipo sanguíneo de Anthony.

— Quanto tempo ele ainda tem? — Pergunto com receio. Ele desvia o olhar e encara os exames de Tony, antes de me entregar. Observo os resultados e, pela primeira vez na vida, eu odiei ser médica. Odiei saber o que cada uma daquelas palavras que seriam complicadas para um leigo significava. — Dois meses, três meses se tivermos muita sorte.

Eu estava desolada. O que eu faria? A média de tempo de espera para conseguir um órgão na enorme fila de transplante é em média seis meses. Para casos com restrições maiores como o de Tony, a situação se tornava ainda mais complicada. A compatibilidade é sempre a parte mais complicada quando se fala de transplante de órgãos.

— Eu sinto muito, Felicity. — Lamenta o homem, que depois de tantos anos sendo o meu mentor, havia se tornado uma espécie de figura paterna. Ele se aproxima de mim e coloca a mão sobre o meu ombro. — Eu vou tentar encontrar uma solução. Farei o meu melhor para salvar a vida do seu filho. Então não perca a fé.

— Obrigada, Dr. Robert. — Agradeço, permitindo que as lágrimas descessem pelo meu rosto. Ele sorri compadecido e deixa o quarto.

Choro, externando toda a dor que eu sentia. Observo o rosto angelical de Tony e relembro do quanto foi difícil conseguir tê-lo em meus braços. Lembrei de tudo o que passei, todo o sofrimento da fertilização in vitro, da gestação complicada e a tristeza ao saber de seu frágil estado de saúde. Tony era o meu milagre. Como eu poderia viver sem o meu menino no mundo? Ele é tudo o que eu tenho no mundo.

— Mamãe...? — O sussurro fraco da voz infantil chama a minha atenção.

— Oi meu amor. A mamãe está aqui. — Respondo apressada, aproximando-me da criança, que me encara preocupada.

— Não chora, mamãe. — Pede Tony, acariciando meu rosto com delicadeza. Isso só me faz chorar ainda mais. — Não chora.

— Desculpa, meu amor. — Digo, tentando me recompor. Beijo sua mãozinha e ele dá um fraco sorriso.

— Mamãe, eu estou no hospital? — Pergunta a criança, olhando com curiosidade a sua volta. Ele estava fraco demais para conseguir fazer movimentos bruscos e aquilo parte meu coração.

— Sim, querido. Você desmaiou e deixou a mamãe e a Mal muito preocupadas. — Conto e ele volta a me encarar.

— Você chorou por que está triste comigo? — Questiona, inocente. Seus lindos olhos azuis me encaram com tanta preocupação. Ele nem mesmo imaginava o que estava acontecendo com ele. — Desculpa, mamãe.

— Eu não estou triste com você, meu amor. — Afirmo, dando um beijo em sua testa. Ele parece um pouco mais calmo. Percebo então que ele lutava contra o sono. Sorrio e acaricio seus lisos cabelos loiros. — Por que não volta a dormir?

— Conta uma história para mim, mamãe? — Pede baixinho, encarando-me com esperança.

Sorrio e passo a contar uma de suas histórias favoritas. Não demora muito para que ele voltasse a dormir. Velo seu sono, acariciando seu cabelo. Suspiro e me afasto, voltando a observar os resultados dos exames. Não havia dúvidas. Ele precisaria de um transplante urgente. Respiro fundo e repasso as opções em minha cabeça. Transplante intervivos pediátrico ou split. O último caso poderia demorar mais do que poderíamos esperar. Restando apenas o primeiro. A compatibilidade parental. Tony pode não ter compatibilidade comigo, mas eu tenho certeza de que existe uma pessoa que pode salvar a vida dele. E mesmo indo contra todos os meus desejos, eu farei qualquer coisa para salvar a vida do meu filho.

Notas finais
Família Cupcake 2.0: https://chat.whatsapp.com/BbOG6KJnuHy2dQIs1sC9Ss Cupcakes da Lara: https://www.facebook.com/groups/677328449023646 Mentiras de Maio - Livro V: https://fanfiction.com.br/historia/789983/Mentiras_de_Maio/