Milagres de Junho
3 Paternidade
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VI — MILAGRES DE JUNHO
CAPÍTULO II — PATERNIDADE
— E então você terminou de vez com ela? — Questiona Damon, enquanto jogávamos Mortal Kombat, deitados de maneira preguiçosa no tapete peludo do meu quarto.
— Bem... — Eu não sabia bem como responder a pergunta do meu primo e melhor amigo, depois de ter passado algumas horas reclamando sobre meu relacionamento com Laurel o u como eu á não estava mais suportando o ciúmes e atitudes da garota.
— Você é bem otário mesmo. — Resmunga Damon, revirando os olhos, enquanto o seu personagem, Scorpion, derrota o meu Sub-Zero. Bufo, frustrado, e ele dá um sorriso convencido. — Sinceramente, Oliver, olha para mim. Olha bem aqui nesses lindos olhos perfeitos que Deus fez só para mim.
— Você é convencido demais. — Resmungo, encarando meu melhor amigo. Ele me dá aquele olhar idiota e eu olho em seus olhos como ele havia dito. — O que é?
— Eu te conheço desde que nasci, cara. Nós somos carne e unha, o ar e os seres vivos, Romeu e Julieta, céu e terra, yin e yang. Enfim, eu te conheço melhor do que você mesmo. E posso afirmar com toda certeza do mundo que você não gosta da Laurel. Você só está com ela, porque é conveniente. — Responde Damon, dando aquele olhar canalha dele. — E muito conveniente, por sinal.
— Deixa de ser babaca. — Retruco, revirando os olhos. Ele ri e se estica para pegar o controle da televisão e desligar o jogo. — E não é bem assim.
— Ah, então você está com ela, por que a personalidade dela é maravilhosa? — Ironiza o outro, encarando-me a espera de uma resposta. Suspiro, porque sabia que não podia contradizer isso. — Vamos ser sinceros aqui. Laurel é um porre. Ela é a combinação perfeita da Dolores Umbridge de Harry Potter, da Feiticeira Branca das Crônicas de Nárnia e uma daquelas patricinhas daquele filme Meninas Malvadas. Ninguém suporta os dramas e a forma como ela humilha as pessoas é de tirar qualquer um do sério. A única coisa que ela sabe fazer é reclamar e esnobar. E se eu fosse você, ficava esperto. Eu tenho certeza de que ela está fazendo de tudo para engravidar de você e te fazer casar com ela.
— Vira essa boca para lá. — Digo, estremecendo apenas em pensar nisso. — Eu gosto de crianças e quero ser pai, mas em um futuro bem distante e com alguém que não seja a Laurel.
— Cara, é sério. Quando você vai terminar com ela? Estou falando isso, porque estou preocupado com você. — Responde meu primo, levantando-se. Ele se joga em minha cama e estica o braço para pegar o celular que carregava sobre o rack ao lado da minha cama. Ele retira o celular do carregador e me encara com seriedade. — Você está nesse relacionamento ioiô com a Laurel desde um pouco depois da morte da Sara. Eu achei que esse lance de vocês ia durar apenas alguns meses, mas já fazem dez anos.
Suspiro e deito no tapete, encarando o teto do quarto. Sara Hopper havia o meu primeiro amor e a minha primeira namorada. Aos treze anos, Sara teve uma morte precoce, após enfrentar longos anos uma batalha contra a leucemia. Não havia sido fácil superar sua morte. Para ninguém de nossa família, na verdade. Isso nos mudou bastante. E apesar de tudo, Laurel havia sido um grande apoio para mim na época. Ela me ajudou a seguir em frente e aceitar melhor a morte de Sara e talvez seja por isso que eu nunca conseguia pôr um fim na nossa relação.
— Eu sei. — Suspiro, cansado. Olho para cima e encontro os olhos preocupados do meu amigo. — Eu vou terminar. Eu só preciso... de um tempo.
— Sei. — Resmunga Damon, encarando-me sem acreditar em minhas palavras. Ele suspira e se levanta, espreguiçando-se. De repente o celular dele toca, indicando que ele havia recebido uma mensagem. Ao encarar a tela do aparelho, ele suspira e me encara entediado. — Eu preciso voltar para casa. Meu pai está me enchendo o saco sobre passar muitos dias sem ir em casa.
— Ele ainda não entendeu que não é possível nos separar? — Brinco, levantando também. Estendo minha mão para ele, em uma exagerada encenação digna de um dos dramas de William Shakespeare. Ele ri e logo entra no nosso teatro.
— Pois é. Eu disse para ele que você prometeu me amar para sempre, mas ele é contra o nosso amor. Só porque eu estou há duas semanas dormindo na sua casa, ele acha que eu estou tempo demais longe dele. — Ele pega em minha mão e compartilhamos daquele olhar cúmplice. No mesmo instante, Jenna aparece na porta do meu quarto e nos encara um pouco confusa. Notando a cara da nova empregada da casa, Damon me lança aquele sorriso que eu sabia bem o que significava. Ele toca em meu rosto e fala: — O nosso amor será eterno. Não importa o quanto as pessoas tentem nos separar.
— Ficaremos juntos para sempre. — Brinco e vejo Jenna arregalar os olhos e ficar com o rosto extremamente corado. — Ah, oi Jenna.
— Oi... eu... eu não queria atrapalhar, senhor. Eu juro. Eu só... bem... eu... — A jovem garota de cabelos cacheados e olhos negros intensos se embaralha toda, tentando se explicar. Troco olhares com meu primo e não demora muito para que a gente começasse a ri. As reações das pessoas com nossas brincadeiras eram sempre hilárias.
— Calma, Jenna. Estamos só brincando. — Tranquilizo a garota e ela nos encara ainda mais confusa.
— Essa é só uma piada interna nossa. Você não atrapalhou em nada. Não se preocupe. — Afirma Damon, limpando as lágrimas dos cantos dos olhos depois de tanto rir.
— Certo. — Responde Jenna, parecendo envergonhada.
— E então? Aconteceu alguma coisa? — Questiono, observando Damon recolher algumas coisas suas que estavam em meu armário. Passávamos tanto tempo um na casa do outro, que para facilitar a nossa vida, deixávamos roupas e outros pertences divididos entre as casas. Damon era praticamente meu irmão.
— Ah, sim. Você tem visita, Sr. Queen. — Avisa Jenna se recompondo.
— Visita? De quem? — Pergunto, estranhando. As únicas visitas que eu recebo, geralmente tem intimidade suficiente para entrar na minha casa e ir direto para o meu quarto. E essas pessoas se resumiam aos meus primos, Tommy e Laurel.
— Ela se identificou como Felicity Smoak. — Responde Jenna, pensativa. — Ela disse que era urgente. Está acompanhada de um menino também.
— A Dra. Felicity Smoak quer falar comigo? — Questiono, estranhando.
— A protegida do seu pai que é bonita e que parece viver fugindo de você? — Pergunta Damon, colocando sua mochila nas costas. Assinto, lentamente. — O que você fez com ela?
— Eu? Nada. — Respondo com sinceridade, encarando o meu primo. — Eu realmente não sei o que ela poderia querer comigo. Meu pai está no hospital e a última vez que eu a vi foi a uma semana atrás. O filho dela não parecia muito bem e meu pai até mesmo disse que ela estava afastada do trabalho para ficar cuidando dele no hospital. Parece que o menino tem uma saúde muito frágil.
— Bom, você não vai descobrir nada ficando aqui. De qualquer forma, é bom que eu passo pela sala admirando a beleza dela. — Comenta Damon, dando um sorriso malicioso.
— Você não vale nada. — Afirmo, rindo. Viro-me para Jenna, que ainda nos encarava. — Obrigada, Jenna.
— Com licença. — Jenna faz uma leve reverência e provavelmente vai cuidar de um dos seus afazeres.
— Mas sério. Ela é bem bonita e inteligente. Seu pai vive elogiando-a. Deveria aproveitar o apoio da família para ficar com alguém mais semelhante a um ser humano do que a Laurel. — Comenta Damon, enquanto seguimos para a sala de estar da casa.
— Você só fala merda. – Retruco, revirando os olhos. Ele ri e dá de ombros. – Ela tem um filho.
— E qual o problema? Você gosta de crianças mesmo. É um combo. Você fica com a mãe bonita e aproveita para realizar o seu sonho de ser pai. Eu só vejo vantagens. – Brinca o outro e eu acabo dando um empurrão em seu ombro, fazendo ele quase cair da escada. Damon ri e eu acabo o acompanhando.
Assim que chegamos na sala de estar, encontro Felicity de pé com seu filho no colo, virada de costas para nós. Ela murmurava uma canção, enquanto acariciava a cabeça da garota que a abraçava e encostava a cabeça em seu ombro, brincando com uma mecha do cabelo loiro da mãe. Observo a cena por alguns instantes, tentando entender o que estava acontecendo. Damon então me dá uma cotovelada e faz sinal para que eu me aproximasse.
Mas antes que eu me movesse ou dissesse alguma coisa, o garoto levanta a cabeça e me encara por alguns instantes. Ele aparentava ter uns três anos e era realmente adorável. Talvez uma das crianças mais bonitas que já vi. Seus olhos eram de um azul intenso e intrigante. Os cabelos loiros lisos estavam arrumados em um topete engraçado. Ele então sorri. Aqueles tipos de sorriso que chegam aos olhos de tão sinceros que eram e eu acabo sorrindo de volta. Ele era incrivelmente fofo.
— Já conquistou o filho. Só falta a mãe. – Sussurra Damon em tom malicioso, chamando minha atenção. Dou um tapa em sua nuca, fazendo a criança dar uma gargalhada de criança contagiante. Damon e eu acabamos rindo junto, porque era impossível não reagir àquele ser tão pequeno e encantador, de sorriso angelical e olhos brilhantes como estrelas.
Nesse instante, Felicity se vira e seus olhos se encontram com os meus. A intensidade com a qual ela me observava era intimidante e ao mesmo tempo hipnotizante. Eu sentia toda a tensão e a determinação da mulher, quase como se dissesse estivesse em uma luta interna. Algo dentro de mim se contorce, mas sou incapaz de desviar o olhar. De repente, sinto como se o mundo tivesse parado. Essa era a primeira vez que Felicity sustentava o olhar por mais do que dois segundos. E agora, era como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo. Era assustador, envolvente e excitante, sensações conflitantes demais para que eu conseguisse entender.
— Bom, eu vou embora. Vocês parecem ter muito o que conversar. — Avisa Damon, fazendo com que eu despertasse de meus pensamentos. Encaro meu primo por alguns instantes e ele me dá um sorriso cheio de segundas intenções, antes de se virar para Felicity com uma expressão inocente. Ele é realmente um cara de pau. — Até mais, Dra. Felicity e garotinho de sorriso bonito.
— Até mais, Damon. Como se fala, filho? — Pergunta Felicity, quando a criança se esconde na curvatura de seu pescoço, parecendo sentir vergonha. — Ele te elogiou.
— Obrigado. — Sussurra timidamente. Damon ri e acena para o garoto, que acena de volta, dando um sorriso mais contido, com as bochechas coradas.
Damon segue para a saída da casa e, aproveitando que Felicity não o observava, ele passa os braços em volta de si mesmo e simula beijos. Lanço o meu olhar repreendedor, temendo que a médica acabasse vendo aquela cena. Ele ri e acena, finalmente indo embora. Eu tinha que me lembrar de espancar o idiota na próxima vez que a gente se encontrasse. Suspiro e volto minha atenção para Felicity e seu filho, que me encarava com curiosidade. Sorrio e me aproximo de criança e da médica.
— Olá, Dra. Felicity. É uma surpresa te encontrar aqui. Parece que seu filho está bem melhor desde a última vez que nos vimos. — Comento, parando de frente para o garoto, sorrindo para ele, que logo corresponde ao sorriso. — Oi garotão! Qual o seu nome?
— Anthony Smoak, mas pode me chamar de Tony. E o seu? — Pergunta, encarando-me com curiosidade.
— Eu me chamo Oliver. — Respondo, rindo. — Você é muito esperto, Tony. Quantos anos você tem?
— Eu tenho cinco anos. — Fala, mostrando os dedos em resposta. Acabo me surpreendendo. O corpo delicado e miúdo de Tony junto aos olhos inocentes lhe davam a aparência de ter recém completado uns três anos. — E você, tio Oliver? Quantos anos você tem?
— Eu tenho vinte e quatro anos. — Respondo e ele arregala os olhos e sorri divertido.
— Você é tão velho quanto a mamãe. — Comenta Tony, rindo. Ele então olha em volta, parecendo admirado com o lugar. — Essa casa gigante é sua?
— Sim. Eu moro aqui. — Afirmo, divertindo-me com as caras e bocas do garoto.
— Você mora sozinho nessa casa enorme, tio Oliver? — Questiona, curioso.
— Filho, já chega de perguntas. — Felicity repreende o filho levemente e ele a encara e se encolhe.
— Desculpa, mamãe. — Lamenta a criança com os olhos expressando arrependimento. Por algum motivo, ver aquela expressão me deixou entristecido.
— Não tem problema. Eu não me importo com perguntas. E não, Tony. Eu moro com o meu pai, a minha mãe e a minha irmã mais nova. — Apresso-me em tentar animar a criança, sorrindo. Tony encara a mãe, que apenas corresponde com algum significado. O garoto permanece quieto, apenas me encarando. — Pode me perguntar o que quiser, Tony. Ficarei feliz em te responder.
— Me desculpa, Oliver, mas nós podemos conversar? — Pergunta a pediatra, parecendo um pouco desconfortável. Ela ajeita o filho no colo e me encara com seriedade.
— Claro. Vamos nos sentar. — Digo, apontando para o sofá. — Eu confesso que não acreditei quando Jenna me disse que a visita que me aguardava era você. Imaginei que você queria na verdade conversar com o meu pai. Ele está no hospital no momento, mas...
— Eu sei. Tony acabou de receber alta. Eu vim direto do hospital para cá. — Felicity me interrompe, colocando o filho sentado no sofá. Ela se senta ao lado dele e me encara, parecendo nervosa. — O que eu tenho para tratar é com você mesmo.
— Certo. — Respondo, sem saber como reagir a toda tensão presente no ar. Felicity e Tony me encaravam intensamente, cada um transmitindo emoções diferentes e que igualmente me deixavam um pouco deslocado. A médica exibia uma expressão dura, quase como se estivesse usando uma armadura impenetrável. Ela segurava a mão do filho com firmeza e mantinha a cabeça erguida. Tony agora estava quieto e me observava como se estivesse me analisando. Toda a situação era bastante estranha. Engulo em seco e dou acabo tossindo para tentar manter minha voz regular. Eu não sabia o porquê, mas estava começando a ficar nervoso. — Bom, no que eu posso ajudar?
— Você pode salvar a vida do meu filho. — Responde a mulher, fazendo com que eu ficasse ainda mais confuso. — Na verdade, você é o único que pode salvar a vida de Tony.
— Desculpa, Dra. Felicity, mas eu não entendi. — Confesso, atordoado. Ela morde o lábio inferior e ajeita os óculos de grau que usava. Felicity se remexe no sofá e respira fundo, apertando mais a mãozinha de Tony. — O que você quer dizer com ser o único a salvar a vida de Tony?
— Eu... — Ela suspira, parecendo procurar as palavras certas para começar a explicar, mas continuava temerosa. — Eu sei que tudo isso vai parecer loucura, mas... bem. Acho melhor começar a explicar primeiro o que Tony tem.
— Tudo bem. — Concordo, observando a mulher respirar fundo algumas vezes, parecendo tentar se acalmar. Tony encara a mãe preocupado e coloca a mão na coxa dela, como se tentasse dizer que estava tudo bem. Por algum motivo, acabo sorrindo por toda a doçura do garoto. Felicity também parece ficar mais calma com o apoio do filho e acaricia o rosto delicado da criança.
— Eu não sei se seu pai te contou, mas Tony tem uma doença grave chamada Atresia de Vias Biliares ou simplesmente Atresia Biliar. Ela é uma doença onde a criança tem uma inflamação e, consequentemente, uma obstrução nos ductos biliares. A bile fica retida no fígado, provocando rapidamente dano hepático, que pode evoluir para cirrose e óbito, caso não seja tratada precocemente. A atresia das vias biliares é uma condição rara que ocorre em um a cada trinta mil nascimentos. As crianças que nascem com essa doença geralmente passam por uma cirurgia chamada de portoenterostomia de Kasai, que tem como objetivo fazer uma ligação do intestino delgado ao local de maior acumulação de bile no fígado. Este procedimento permite otimizar a drenagem dos ductos biliares intra-hepáticos diretamente para o intestino delgado. — Explica calmamente e eu assinto, curioso. Essa era a primeira vez que eu ouvia falar da doença. — Na maior parte das vezes, isso é o suficiente para fazer a criança levar uma vida normal. No entanto, mesmo os casos tratados necessitam, em sua maioria, do transplante hepático.
— Entendo. Então era por isso que ele ficou todos esses dias internado. — Comento e ela balança a cabeça, concordando. — Mas eu não entendo como posso ajudar. Transplantes de fígado geralmente não ocorre quando um doador teve morte encefálica? E se eu não estiver enganado, em alguns casos, é possível receber uma parte do fígado de alguém ainda vivo, mas esse tipo de doação não é tido como primeira opção para o paciente, porque é um procedimento mais complexo para o paciente e põe em risco uma segunda pessoa. Depois da cirurgia, os principais riscos para os doadores é apresentar sangramento, embolia pulmonar e complicações relacionadas ao corte cirúrgico. Por isso, a situação mais comum é o pai doar uma parte do órgão para o filho.
— Sim. — Concorda Felicity, observando-me como se esperasse alguma coisa de mim.
— Então você não deveria ser a provável doadora de Tony? — Pergunto, ainda confuso com a situação. Como eu poderia ser o único que poderia salvar a vida da criança?
— Nossos tipos de sangue são diferentes. Eu sou A negativo e Tony O negativo. — Responde a mulher, parecendo mais cautelosa. — Assim como o seu.
— Como sabe que o meu sangue é O negativo? — Questiono, surpreso. Mas logo penso que meu pai poderia ter contado algo a ela. Felicity é aprendiz do meu pai há uns sete anos e ele tinha muita consideração por ela. Não seria tão estranho assim se ele tivesse dito sobre a coincidência. — De qualquer forma, eu...
— Eu também sei que você tem uma marca única de nascença nas costas. — Continua Felicity e eu a observo cada vez mais sem entender aonde ela queria. Ela então se levanta e pega Tony no colo. Ela suspende a camisa do garoto e o vira para mim. — Assim como essa.
Arfo ao ver a marca em forma de coração que havia na lombar de Tony, assim como a que eu tenho. Encaro Felicity surpreso. Como isso era possível? A única pessoa além de mim que tem essa mesma marca é o meu pai. Ele até mesmo brincava que era uma marca de nascença passada de geração em geração.
— O quê...? Como isso... como isso é possível? — Balbucio, atordoado. — Por acaso você está insinuando que eu sou o...
— O pai de Tony? Sim. É exatamente isso que eu estou tentando dizer. — Responde Felicity, voltando a sentar a criança no sofá, que me encara confuso.
— Ele é o meu papai? — Pergunta a criança com os olhos arregalados.
— O quê? Não. Isso não é possível. Quer dizer, eu e você nunca nem nos falamos direito. E... e... eu me... me lembraria se tivéssemos... bom... enfim, isso é impossível. Eu não posso... — Gaguejo, nervoso. Isso não fazia sentido algum. Ainda assim, Felicity continuava a me encarar séria. E ainda havia a marca de nascença do garoto.
— No dia primeiro de junho, a seis anos atrás, você doou sêmen após perder uma aposta com seus amigos no trote da faculdade. Algo sobre quem bebia mais. Aparentemente, você sempre foi fraco para bebida. De qualquer forma, nesse dia, você fez a doação, que deveria ser descartada, porque seu pai jamais permitiria algo assim. Acontece que nesse mesmo dia eu passei pelo procedimento de coleta de óvulos para realizar a minha terceira e última tentativa de fertilização in vitro. Por causa de uma falha no laboratório, o material que deveria ter sido usado para fecundar meu óvulo foi descartado e o seu foi usado no lugar. Tentaram corrigir o erro, mas era tarde demais. A pessoa que descobriu esse erro me informou sobre o erro antes de realizarem a transferência embrionária. Eu podia ter cancelado a operação, mas decidi continuar. Essa era a minha última vez, depois de tentar três vezes o procedimento. Eu não tinha mais tempo, dinheiro e nem emocional para passar por uma quarta vez. Além disso, eu não tinha intenção alguma de revelar a identidade do pai de Tony. Porque teoricamente, eu não deveria saber e o seu material deveria ter sido descartado. E esse segredo teria ido ao túmulo comigo se...
— Se Tony não tivesse precisando de um transplante e eu fosse a pessoa com a maior probabilidade de ser compatível com ele. — Completo, embasbacado. Ela assente e se senta ao lado de Tony, que parecia não entender muito bem o que estava acontecendo. Eu não o culpava. Nem eu conseguia entender como tudo isso foi acontecer. Passo a mão pelo rosto, tentando organizar meus pensamentos. — Eu...
— Olha, eu não estou aqui para te exigir a paternidade. Eu me mantive longe de você, mesmo seu pai sendo meu mentor durante todos esses anos na esperança de você e mais ninguém descobrir sobre isso, mas eu estou desesperada. Estamos falando da vida do meu filho. Eu daria minha vida se fosse preciso para mantê-lo vivo. Acontece que ironicamente, eu estou pagando caro pelas minhas escolhas. Eu decidi ser mãe solteira. Eu estava pronta para encarar qualquer desafio que aparecesse na minha frente. Mas agora... agora isso não é suficiente. Se... se eu não fizer nada, em no máximo três meses, eu talvez... não seja capaz... de vê-lo novamente. — As lágrimas grossas descem pelo rosto bonito de Felicity. Eu via a dor e o desespero presentes em seus olhos. Ela então se ajoelha diante de mim e pega em minhas mãos, apertando-as com todas as suas forças. Eu não conseguia ter reação alguma, além de encará-la atônito. — Eu estou te implorando, Oliver. Como mãe, eu te imploro. Salve a vida do meu filho.
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