Milagre De Ano Novo

15 14 - Não Acredite, Não Sinta, Não Sonhe. (Parte 1)


Notas iniciais
Vou pular a parte de pedir desculpas pq tenho pouco tempo no pc. Sobre o Parte um no titulo, não é que o capitulo foi dividido nem nada,é só que tem outro com esse nome, mas, bem, não importa nesse momento, espero que gostem.

Na manhã daquele domingo, mesmo domingo em que Alfred acabara ficando em Londres, o foguete estava estranhamente quieto. Tudo parecia em câmera lenta. O dia estava tipicamente tedioso. Nem sol nem chuva, nem quente nem frio. Até a neve que cobria o chão parecia ser só uma Ilusão. Era tudo só aquele céu azul acinzentado, sem nuvens, sem brilho. Era o dia conhecido como a famosa calmaria que vinha antes da pior das tempestades.

Só por eu ter começado falando do céu já é possível perceber o quanto tento fugir do que acontece dentro daquela casa. Do que acontecerá, pois ela ainda repousa no silêncio do sono de seus habitantes. Mas como não sou adepta das discussões sobre o céu de Londres ser ou não ser mais bonito que o de Paris e como tenho certeza que o do Rio de Janeiro ultrapassa ambos com folga, o silencio foi quebrado e o foguete acordou.

Arthur e Francis, sem saber, acordaram exatamente ao mesmo tempo. O inglês espreguiçou-se e olhou para o teto, como quem se pergunta por que o sol tinha que aparecer para acorda-lo de seus sonhos. Estava preste a descobrir quem eram os piratas que tinham enganado-lhe e roubado seu barco. Mas mesmo querendo voltar a dormir, resolveu levantar sem reclamar. Talvez fosse um bom dia afinal. Não tinha trabalho, pelo menos.

Já o mais velho dos dois perguntou-se por que o dia tinha que amanhecer para afastar-lhe de suas pequenas ilusões de paz. Perguntou-se por que não tinha se matado no dia anterior ou bebido tanto a ponto de entrar em coma alcoólico e não lembrar nem seu nome. Nunca tinha se sentido tão mal. Era a pior pessoa do universo, não era? Nem abriu os olhos com medo da resposta.

O inglês banhou-se e desceu, esperando encontrar, como sempre, um café da manhã pronto na mesa. Franziu as sobrancelhas, mas não se preocupou. Ainda era cedo e Francis tinha chegado tarde. Ele não deveria ter acordado ainda e talvez fosse melhor deixa-lo dormir um pouco mais. Seu livro já estava pronto, então não fazia mal.

Só para garantir que tudo estava bem subiu para o quarto de Francis, encontrando o outro encolhido contra a parede e enrolado nas cobertas. Franziu as sobrancelhas. Será que ele estava doente? Tentou colocar a mão na testa do francês, mas este estava tão rente a parede e tão protegido pelos cobertores que foi impossível.

- Sapo? Sapo, você ta doente?

Francis, fingindo estar dormindo, encolheu-se mais. Queria desaparecer. Talvez se Arthur pensasse que ele estava doente conseguiria ficar na cama o dia todo e tentar se entender com seus pensamentos. Adiar aquele dia seria bom. Mas no fundo ele sabia que não conseguiria aguentar o peso da culpa. Era uma pessoa muito passional e estava à mercê de todos os sentimentos de uma maneira bem forte.

Sorrindo fraco, Arthur teve uma ideia. Pensando, notou que não era justo só Francis cozinhar naquela casa. Afinal, ele estava morando de favor e ainda só comia, sem ajudar em nada. Bem, ele limpava a casa, mas Francis não era do tipo que costumava a fazer bagunças, então isso não era algo tão difícil assim. Então, hoje seria ele a fazer o café da manhã. Desceu as escadas tentando ficar animado.

Começou a andar pra cozinha quando viu a marca da queimadura em sua mão. Não sentia dor por causa dos remédios, mas não se animou para tentar outra aventura culinária. E também lembrou que teria que comprar as coisas que destruiu ontem para que Francis não desconfiasse de nada. Tentou anotar tudo que teria que comprar, mas não fazia a menor ideia do nome daqueles utensílios que agora pareciam torradas. Colocou todos numa mochila e saiu. O dono da loja que se virasse.

Francis desceu uma hora depois. Na mesa tinha um bilhete.

“Fui comprar umas coisas, pode deixar a comida por minha conta hoje. Você pareceu bem cansado ontem, descanse mais um pouco. Agora que seu livro já foi lançado você não precisa se preocupar com mais nada, não é? Tire umas férias antes de tentar começar uma historia nova! Antes que morra de exaustão ou de stress. Não que eu me preocupe com você, só não quero sua alma me perseguindo depois...

Tá, talvez eu me preocupe um pouquinho sim. Mas não se acostume comigo cuidando de você!”

Controlou-se para colocar o bilhete exatamente como estava e subir novamente para seu quarto. Lá, com a porta fechada, jogou-se no chão. Não conseguia não chorar. Por que Arthur tinha decidido cuidar dele justo naquele dia? Por que ele não podia simplesmente ser mal humorado e xinga-lo como sempre? O inglês não gostava de falar exatamente o que sentia e para ele um “eu te odeio” poderia significar um “eu te amo”. Ele deve ter ficado mesmo preocupado ontem à noite.

Aquilo doía tanto... Não entendia. Por que estava sentindo tanta dor? Já tinha traído seus namorados ou namoradas antes e nunca tinha se sentindo assim. E, além disso, Arthur não sabia de nada ainda. Poderia muito bem esquecer o ocorrido e não contar nada pra ele. Nunca mais veria aquela mulher e eles seriam felizes para sempre. Seu petit lapin não sofreria.

Levantou-se do chão frio, tentando controlar-se. Pensou um pouco, instintivamente andando para a biblioteca. Como um escritor, livros eram seu refugio, sua segurança. Olhou para a janela. Aquele era um dos lugares preferidos de Arthur na casa. Aproximou-se, reparando em desenhos feitos com canetinha no vidro. Eram fadas. Tão pequenas e delicadas...

Acima tinham pequenas frases ou trechos de livros, algumas com um significado profunda, outras simplesmente divertidas e outras que Francis não fazia ideia de por que estariam ali, mas que possivelmente eram importantes para Arthur. Passou seus dedos por elas, vendo que a tinta borrava levemente e tudo aquilo sumiria em pouco tempo. Leu a primeira coisa que viu. Tinha um comentário de Arthur embaixo.

“ [...]- É uma carta do meu padrinho.

- Padrinho?-engrolou o tio Válter – Você não tem padrinho!

- Tenho sim – respondeu Harry animado. – Era o melhor amigo da minha mãe e do meu pai. É um assassino condenado, mas fugiu da prisão dos bruxos e está foragido. Mas ele gosta de manter contato comigo... saber das minhas notícias... verificar se estou feliz...

E, abrindo um largo sorriso ao ver a cara de horror do tio Válter, Harry rumou para a saída da estação, Edwiges chocalhando á frente, para o que prometia ser um verão muito melhor do que o anterior. “ (Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, J.K.Rowling, últimos parágrafos da ultima pagina)

Será que eu também tenho um padrinho perdido? Não me importo se ele for um assassino condenado e foragido... Muito menos se for um bruxo!

Mas copiei essa parte por que nesse momento concordo com o Harry. O próximo verão, ou melhor, o ano em si, promete ser muito melhor que o anterior.

Francis suspirou e voltou para o seu quarto. Pouco a pouco sua tristeza se transformava em raiva. E a raiva transformava seus objetos em cacos.

-x-

Enquanto Francis culpava-se em casa Arthur andava pela neve com sua mochila e suas fadas. Elas sorriam para ele e cantarolavam. Ele não percebia o dia estranho, só via suas fadas brilharem. Elas pareciam querer fazê-lo a pessoa mais feliz do mundo. Mas Amy e Stary não estavam brincando também.

Arthur ria, mas parou ao ver as mais velhas olhando tristemente. Logo chamou Amy, ignorando os olhares das pessoas na rua que achavam que ele estava falando sozinho. Não se importava com elas, suas amigas eram bem mais importantes.

A fada era, para Arthur, a coisa mais linda que ele já tinha visto. Seus cabelos eram verdes como a mais bela mata, seus olhos dourados como o puro ouro. Seu corpo era como de uma minicriança, encantadora, inocente e fofa, mas seu jeito mostrava que ela também podia ser seria. Sempre usava vestidos feitos de pétalas de flores e sua pele parecia delicada como uma. Seu sorriso era doce e sua risada contagiante como a de um bebê. Mas o que mais impressionava Arthur eram suas asas. Também verdes, brilhavam como orvalho em um dia de sol. Seus padrões pareciam mudar a cada segundo. Arthur podia passar horas só olhando para ela.

- Amy? Por que você está séria assim? Aconteceu algo?

- Arthur... – Um suspiro pesaroso – Não deixe nada estragar sua alegria, tudo bem?

- Como? Não entendi... Agora eu resolvi fazer como o Kiku disse sabe? Parar de me preocupar de mais com as coisas e tentar ser feliz.

A fada sorriu fraco, sentindo-se mal. Sabia de tudo que aconteceria. Mesmo que tudo mudasse a cada segundo, ela sempre sabia o que estava por vir num futuro próximo. E não gostava nada. Eu também não.

- Faça isso Arthur. Seja feliz, não importa o que aconteça.

Antes que o inglês pensasse em perguntar algo, a fadinha já tinha sumido. Arthur estranhou muito aquela atitude, mas logo foi tirado de seus pensamentos pelas outras criaturinhas aladas. Elas riam e o acompanharam até rua onde pretendia comprar tudo que precisava.

- Seja lá o que sejam essas coisas de cozinhar do Francis, se não tiver aqui, não tem em lugar nenhum. Tem umas lojas de comida boas por perto onde posso comprar o café também... Isso é, se eu conseguir andar nessa rua superlotada!

Bem, ele conseguiu. Não de um jeito muito seguro, nem mesmo rápido, mas conseguiu. Logo estava na maior loja que conhecia, onde vendia tudo que qualquer um conseguia pensar. Dando inveja a qualquer Wal-Mart, obviamente também estava lotada.

Mas a sorte de Arthur é que pessoas nãos costumam a comprar coisas de culinária em manhãs de domingo. Sendo assim, ele conseguiu até roubar um vendedor para dizer-lhe o nome daquelas coisas estranhas. Só eu acho que pareciam mais instrumentos de tortura do que algo para cozinhar?

Com alguma sorte e muito tempo Arthur conseguiu achar tudo que precisava e ainda comprar comida, que depois de tanta demora já estava mais para almoço do que para café da manha, mas sabia como o francês era viciado em pão fez questão de levar alguns. Estava cansado de tanto andar e morrendo de fome quando chegou em casa.

Estranhando Francis ainda não ter descido e seu bilhete ainda estar intocado. Não conseguiu deixar de se preocupar, pensando que Francis poderia estar mesmo doente. Inverno, neve, frio europeu... fazia sentido que o francês tivesse pegado uma gripe. Mas Arthur nunca gostou de ficar precipitado as coisas, então resolveu arrumar a mesa com os pães e alguns doces que Francis tinha feito no dia anterior, deixando a comida do almoço guardado na cozinha e depois descobrir o que estava acontecendo.

Quando tudo estava pronto subiu para tirar o mais velho da cama. Estava mesmo estranhando, já era quase meio dia e meia, seu Sapo não costumava a acordar tarde quando tinha companhia para fazer algo. Ao tentar abrir a porta do quarto do outro notou que ela estava trancada. Bateu algumas vezes, sendo aparentemente ignorado.

- Sapo? Hey Sapo, acorda.

Silêncio. Do lado de dentro Francis pensava no que fazer em meio ao seu quarto destruído.

- Francis?

Ainda nada. Arthur franzia as sobrancelhas, tentando entender o que estava acontecendo.

- Francis Bonnefoy, o que ta acontecendo? Sapo, sabe, se você tiver se sentindo mal ou qualquer coisa assim não vai adiantar nada se esconder no quarto, sabia? Não seja mais idiota do que de costume! Anda sai logo daí!

O francês conseguiu capturar o tom de preocupação na voz do mais novo, que disfarçava com falsa raiva. Suspirou secando as lagrimas que já escorriam novamente e resolveu responder algo, sem conseguir esconder o tom choroso na voz.

- Já vou Arthur. Pode descer, te encontro lá em baixo.

- Espero que venha junto com um motivo para você estar chorando, sapo... por favor.

A voz de Arthur se mostrava irritada, mas no final seu teatro vacilou. Francis suspirou enquanto secava as lagrimas e levantava. Ouvir o tom de tristeza e de preocupação que Arthur tinha usado naquele “por favor” tinha tocado seu coração. Ia magoar o inglês contando-lhe o que tinha acontecido? Sabia que sim. Seria melhor para o mais novo não saber de nada, eles podiam continuar vivendo bem sem que aquilo fosse revelado. Seriam felizes, não seriam? Sabia que não. Não conseguiria virar com a culpa.

Quando desceu, Arthur estava sentado na mesa olhando para os pães. Ele parecia perdido. Já desconfiava que algo estava errado com “seu sapo”. Quando o francês chegou, seu olhar cheio de duvidas se desviou lentamente em direção as orbes azuis. A troca de olhares durou pouco tempo, mas para eles pareceram anos.

- Desculpe Arthur.

Aquele pedido disse tudo. Dentre daquele "desculpe" estava contido toda a história da noite anterior. Arthur quebrou o contato visual, olhando novamente para os pães. Francis continuou.

- Arthur... Sinto muito mesmo... Eu te amo. Ontem eu tinha bebido demais e ela também...

- Não diga isso. Não diga que me ama e não invente desculpas. Aconteceu, não é?

O inglês sentia-se destruído. Por que doía tanto? Era o Francis, já esperava aquilo dele. Sabia que ele não conseguiria ficar com uma pessoa só. Mesmo assim, lutava para segurar as lagrimas.

- Arthur... Eu juro que não tive a intenção... Só... Não consegui me controlar...

- Só isso, não é?

O sarcasmo sempre estava presente, vem de brinde no sangue inglês. Aos poucos a tristeza ia virando raiva.

- Arthur...

- Pare de ficar repetindo meu nome!

As lagrimas já brilhavam como pequenos diamantes nos olhos de esmeralda do inglês. Ele se segurava para não chorar, ainda tinha seu orgulho. Os ombros, encolhidos e doloridos de tensão, chegavam a tremer de leve. Seus olhos desviaram dos pães, indo para o chão de mármore. A pedra era fria e tal frio parecia espalhar-se por todo seu corpo, arrancando-lhe um calafrio.

-Me perdoa Arthur, eu te amo... Juro que nunca mais vou fazer isso. Perdoa-me... Não queria te magoar. Foi culpa minha, eu não devia ter dormido com ela, mas... Ela estava tão provocante dando em cima de mim, e também tinha o vinho... Ah Arthur, eu me arrependo tanto...

Francis chorava. Suas lagrimas, mesmo que verdadeiras, não pareciam fortes a visão, turva pelas gotas salgadas mal contidas, do inglês.

Arthur queria gritar, queria bater no outro, chorar e xinga-lo de todos os palavrões que sabia. Mas não faria aquilo. Seria humilhante demais, doloroso demais. Ficou em silêncio. Levemente encolhido, as pálpebras pesadas, olhos quase transbordando de tristeza e dor emocional. Mãos nos bolsos, levemente mais pálido que o normal, coração acelerado enquanto mexia os pés como se tentasse se distrair. Mas não conseguiu enganar sua raiva por muito tempo. Logo seus olhos secavam, tinha conseguido convencer a si mesmo que não choraria. A frieza do chão parecia finalmente chegar a seu coração, que só batia mais rápido. Guardou sua tristeza em um baú e fechou a tampa, esquecendo-se de trancar com a chave e deixando sua raiva de fora. Seus olhos agora pareciam queimar naquele fogo verde perigoso. Quando abriu a boca para falar algo, sua campainha tocou.

Ficaram dentro em silencio por alguns segundos até o som ser ouvido de novo, impaciente como quem exige atenção. O inglês, suspirando pesadamente, foi abrir a porta, tentando parecer bem. Aceitável, pelo menos. Quase controlado.

Do outro lado do batente estava Alfred com o "menino aranha" no colo. Percebeu que mesmo com a ridiculamente pobre habilidade de ler a atmosfera do garoto, ele tinha percebido que algo estava errado.

– Alfred, não é uma boa hora.

– Me ajuda...

A vontade do inglês era fechar a porta com força naquele nariz estadunidense, mas não o fez. Não podia descontar sua raiva nele. Entrou, deixando a porta aberta para que o mais novo viesse atrás.

Francis não tirou os olhos do chão enquanto ouvia os passos inseguros de Alfred. Ouviu “seu coelho”(agora aparentemente “ex seu”) dizer um “sobe” mal humorado para o outro e logo novos passos. Era o estadunidense subindo as escadas e o inglês vindo à sua direção.

- Não chore Francis.

A voz de Arthur era fria e magoada, levemente alterada pela mistura de ódio e depressão que sentia naquele momento. Ele já estava na base da escada quando sentiu as mãos do francês tocando seu ombro. Francis segurava-o com delicadeza, mas ao mesmo tempo com força o suficiente para mantê-lo no lugar.

- Me solta...

Francis não disse nada. As mãos que estavam nos ombros do outro desceram até a cintura, envolvendo-o em um abraço apertado. Em seu silencio culpado, beijou a nuca do amado e acariciou-lhe de leve os fios bagunçados. As lagrimas ainda desciam livres e seus olhos fecharam-se devagar.

Arthur não se mexeu. Sentiu as lagrimas de Francis molharem seu pescoço e os pelos do queixo dele fazerem-lhe um carinho desajeitado. Sentiu um arrepio passar pela sua coluna e teve vontade de virar para abraça-lo de volta e chorar em seus braços. Mas nunca faria isso. Ao contrario, só fechou seus olhos.

Ficaram ali pelo que pareceu durar eternamente. Ambos de olhos fechados, perdidos em seus próprios sentimentos, em suas próprias ideias e culpas.

Francis sentia todo seu corpo tenso e machucado pela noite mal dormida e pela raiva descontada nos objetos de seu quarto. Os nós de seus dedos estavam arroxeados e arranhados pelos socos desferidos nas paredes do quarto.

Arthur estava com uma necessidade gigante de sentar. O chão abaixo de seus pés parecia feito de gelatina que ficou pouco tempo na geladeira, mole e prestes a abrir um buraco que o sugaria até os confins do mundo. Em sua cabeça, uma pontada forte acertava-o pouco a cima do olho direto, ficando a cada segundo mais forte.

Durou exatos dez segundos aquele abraço. Ai, Arthur deu um passo a frente. O contato foi perdido e logo Francis também se afastou, indo para trás. Ficaram parados ali por mais alguns segundos. O inglês olhava para o primeiro degrau da escada enquanto tinha suas costas observadas pelos olhos azuis franceses.

Eram 12 degraus até o topo da escada, e 12 passos até o sofá. Quando o pé esquerdo, já dolorido e machucado de tanto andar em busca das coisas que tinham queimado em seu ultimo acidente culinário, tocou a primeira parte da escada, Francis virou suas costas.

A cada passo da subida Arthur sentia-se vacilar. Nos cinco primeiros , sua vontade maior era de chorar. Só sentar naquele lugar e chorar. Sua cabeça doía cada segundo mais e logo não conseguiu deixar de levar a mão até o lugar e massagear as têmporas. Do jeito que conhecia seu emocional afetado pela convivência com a família, sabia que logo estaria quente. Desde criança tinha febres emocionais e, ao contrario do que as outras pessoas diziam, aquilo não melhorou com a idade.

Nos primeiros cinco, quis gritar. Bater naquele francês com toda sua força, xinga-lo, mas acima de tudo, gritar. Gritar até não ter mais voz, gritar até sua garganta sangrar e implorar por um alívio.

Forçou-se a subir os dois últimos degraus, mas parou no meio do corredor. Precisava pensar em algo para se distrair ou acabaria descontando toda sua raiva em Alfred e no menino.

No andar de baixo Francis também lutava com seus 12 passos. Arrastava-se pela sala, amaldiçoando-se por ser tão fraco. Lembrava-se de quando Arthur foi morar com ele, aproximadamente um mês antes. Lembrava-se, mais exatamente, do inglês brigando com o irmão para defendê-lo e depois sorrindo para si, todo machucado, com uma mochila cheia de livros nas costas e um coelho no colo, disposto a começar uma vida melhor.

Ao contrario de Arthur, Francis não terminou seus 12 passos. Chegou até a metade e viu algumas almofadas no chão. Elas tinham voado para ali enquanto tinha sua seção de filme de terror com Antonio. Jogou-se sobre elas sem pensar duas vezes, logo se escondendo ali.

“Quando Rei Arthur descobriu a traição das duas pessoas que mais amava e confiava, toda a sua fé e confiança foram perdidas. Seu mundo pareceu quebrar e essa foi a ruína de Camelot.”

-Podia ser bem pior — Arthur murmurou ao lembrar-se daquela parte de seu conto preferido de quando era criança. — Ele podia ter ficado com alguém importante para mim... e eu poderia ser um rei e perder meu reino.

A historia do Rei Arthur também era uma das favoritas de sua mãe, e no livro tinham varias anotações sobre fatos que seriam comprovadamente reais e sobre os sonhos dela. Pela letra Arthur podia notar que aquele livro tinha acompanhado-a por toda sua vida.

Os comentários mudavam desde ideias de criança, passavam por sonhos de adolescente e acabavam com os ideais de uma mulher madura, forte e corajosa. Podia diferenciar aquelas três fazes pelo tipo de letra e pela data que era colocada organizadamente do lado de cada frase. Algumas coisas se repetiam varias vezes e uma delas fazia Arthur sentir-se a melhor pessoa do mundo. Tentou focar-se naquilo para concentrar-se e manter-se controlado.

Andava pelo corredor até seu quarto, conseguindo acalmar-se um pouco ao lembrar de sua mãe. Concentrava-se em suas duas anotações preferidas. Uma que repetia-se varias vezes e outra que era a ultima vez que sua mãe tinha escrito algo naquele livro, dois dias antes dele nascer.

“Um dia, vou ter um filho chamado Arthur.”

“21/04/89 – Meu sonho está chegando. Arthur Hamm Kirkland. Ele deve nascer essa semana. Pena que nunca vai poder usar o sobrenome do pai em paz. Arthur Kirkland. Meu pequeno rei.”

Quando chegou à porta de seu quarto já conseguia falar com alguém sem gritar ou ter um ataque. Mas ainda podia assustar um com o brilho raivoso em seus olhos. Pode ver isso claramente estampado no rosto do garotinho que estava no colo de Alfred.

- O que quer?

- Arthur, você... – a voz de Alfred dizia claramente que ele perguntaria se ele estava bem. Tudo o que não queria naquele momento era aquela pergunta.

- O que você quer Alfred?! – quase gritou, tentando manter o estadunidense focado em seus próprios problemas.

- Você sabe fazer curativo, não sabe? O Sean ta machucado...

O inglês saiu suspirando sem responder. Por que aquele idiota não tinha levado o menino logo para um hospital? Era publicitário, não medico. Pegou alguns remédios da bolsa de primeiro socorros, uma vasilha com água e um pano para limpar os machucados do garoto, logo voltando para o quarto e sentando na cama.

- Senta aqui.

Quase conseguiu sorrir ao ver o garotinho se encolher, assustado. Sempre adorou crianças, mesmo que muitas vezes não soubesse como lidar com algumas.

- Não precisa ficar com medo dele Sean. O Arthur é legal.

- Sim Menino Aranha, eu não vou machucar você. Só estou de mau humor hoje, mas não é nada com você, tá bom? É culpa daquele sapo lá de baixo, vem senta aqui.

Ao ver o menino afastando-se lentamente de Alfred e sentar, ainda inseguro, ao seu lado, Arthur ajoelhou-se no chão, sentindo uma leve pontada de dor por não estar totalmente recuperado da briga feia com o irmão.

Enquanto cuidava do menino sentia seu sangue esfriar. A raiva de Francis foi voltando a ser só tristeza. Varias perguntas começaram a povoar sua cabeça. Pra onde iria? Podia ter dinheiro para comprar algum apartamento pequeno perto do trabalho, mas não conseguiria aquilo de imediato. E também não conseguiria ficar mais nenhum dia na casa de Francis. Pra onde iria?

Logo suas mãos não eram as únicas molhadas e as lagrimas escorriam pelo seu rosto. Discretamente afogava-se em suas duvidas. Acabou demorando mais do que devia para terminar de cuidar do garoto, pois mal desviava os olhos do chão. Levantou-se ainda sem mover a cabeça, colocando as mãos nos bolsos.

- Vou arrumar uma roupa pra você, Menino Aranha. Não tem como você usar essa fantasia rasgada.

Reparou que Alfred olhava para si muito preocupado. Queria abraça-lo e chorar em seu ombro, mas só saiu do quarto, descendo em direção ao porão do foguete. No meio daquele bando de poeira estavam varias lembranças de quando os dois eram pequenos. Encostou sua cabeça em um urso de pelúcia gigante que era de Madeleine e logo deixou os baixos soluços saírem de sua boca. Abraçou aquele bicho como se ele fosse uma espécie de tabua de salvação, ignorando que seu nariz coçava muito por causa da poeira.

Demorou-se ali uns dez minutos e depois lembrou que tinha coisas mais importantes a fazer. Lembrou-se que era um homem adulto, forte e que não podia se abalar com nada. Pegou as roupas menos empoeiradas do local, secou as lagrimas e subiu novamente.

Arrumou o menino vendo, que as roupas ficavam largas nele, e levou-os para baixo. Fazia questão de não olhar nos olhos de Alfred, ou não aguentaria e voltaria a chorar. O estadunidense estava mesmo preocupado.

Ficou alguns segundos olhando para a porta fechada antes de voltar-se para o francês, que ainda encontrava-se jogado entre as almofadas.

- Você ainda pretende falar mais alguma coisa ou eu já posso arrumar minhas coisas?

Sua voz saiu mais fria do que ele esperava, mesmo o tom de raiva ainda estando presente, quase não podia notar-se a tristeza profunda em que ele se encontrava. Estava se controlando bem afinal.

- Arthur, não vai! Por favor. Pra onde você iria? Olha, você pode ficar aqui em casa, eu vou para um hotel, ou para a casa da Mad.

- Não.

Subiu as escadas, fechando-se no quarto antes que Francis pudesse segui-lo até lá. Sentou em sua cama novamente, chamando o coelho que brincava tranquilamente no seu cantinho. Aquela casa era o lugar perfeito para seu coelhinho. Ia doer tira-lo de lá.

- Toffee, vem cá.

Saltitando foi o bichinho inocente para o colo do dono.

- Meu pequeno, vamos ter que ir embora novamente. Nossa vida não dá certo, não é? Coelhinho... no final, você vai ser sempre meu tudo, não é? Como eu fui idiota...

As lagrimas já corriam soltas novamente.

- Como eu fui idiota de acreditar que seria feliz. Por que minha vida tem que ser assim Toffee... Acho que eu não nasci para ser feliz mesmo, sabe? Nunca deveria ter acreditado que seria diferente... Sabe pequeno, eu realmente cheguei a acreditar no que ele falava. Acreditei que íamos viajar em janeiro. Acreditei que ele me amava mesmo e acabei amando ele também... Sou a pessoa mais idiota do mundo.

Levantou contendo as lagrimas.

- Não vou poder te levar comigo agora coelhinho. Não tenho pra onde ir, vou te deixar com o Frog até ter uma casa decente. Vou comprar uma logo, não vai dar tempo nem de você sentir falta de mim! Você não pode sair andando por ai na neve, ficaria doente. Tenho certeza que ele vai cuidar de você muito bem até que eu possa te levar.

Arthur pegou sua mochila, novamente colocando os livros que eram importantes para si. Alguns que eram de sua mãe, como Rei Arthur, Alice no Pais das Maravilhas e A Christmas Carol. Outros eram os que considerava importante para si, Harry Potter e vários clássicos ingleses com as paginas surradas de tantas vezes que foram lidos. Também tinham livretos de bandas de rock que costumava a idolatrar quando vivia em sua época Punk. E os livros de Francis.

Pensou seriamente em deixa-los ali. Colocou poucas roupas, não pretendia ficar muito tempo “sem-teto” e os livros ocupavam muito espaço. Mas não conseguiu, ao chegar na porta e olhar para trás. Os livros de Francis estavam sobre sua cama, assim como Toffee que o olhava confuso. Ajoelhou-se na frente da cama, acariciando o bichinho enquanto guardava os livros na bolsa com a outra mão. Não podia negar, não podia abandonar aquilo daquele jeito.

- Desculpa coelhinho. Volto pra te pegar logo. Se o Francis não cuidar de você me avisa que eu espanco ele até a morte!

Não há exagero quando se trata de proteger bichinhos de estimação.

Arthur colocou a mochila, agora bem mais pesada que antes, nas costas novamente e começou a descer as escadas, levemente encurvado para frente. Francis olhava para ele triste, mas não tentou segurá-lo. Sabia que não ajudaria em nada.

- Não vou poder levar o Toffee agora, cuide dele para mim por enquanto. Se acontecer algo com ele eu te mato Francis.

- Pode deixar. Não vou deixar que nada aconteça com seu coelho. Arthur... Fica...

- Não. É a sua casa.

Arthur andou até a porta, mas ali parou olhando pra trás.

- Por que Francis?

- Arthur...

- Eu fiz algo errado?

- Claro que não! Nunca!

Arthur não conseguiu mais se controlar. Acertou um tapa no rosto do outro, com força o suficiente para deixar a marca de seus dedos.

- Então por quê? Por que você me iludiu desse jeito?! – ele se acalmou um pouco, suspirando e passando a mão pelos cabelos — Eu acreditei, sabe? Quando você disse que gostava de mim, quando eu sai da casa do meu irmão, quando você me pediu em namoro. Mas pra que? Pra depois de um mês você cansar de mim e ir para os braços de outra...

- Eu não cansei de você Arthur!

O inglês já tinha virado de costas e abria a porta para sair. Logo andava pela rua, cabisbaixo, deixando um francês arrasado para trás.

Dentro de casa, Francis pensava como podia ter magoado e brincado com os sentimentos de Arthur daquele jeito. Era a pior pessoa do universo, tinha se convencido disso.

Arthur passou horas andando pela rua, até não aguentar mais o peso da mochila. Sabia para onde ir. Não era o lugar mais apropriado, mas era o melhor lugar.

- Rodrigo? Pequeno, posso ficar com você hoje?

E ali, no ombro do amigo “morto”, afogou todas as suas magoas. Rodrigo era um ótimo ouvinte e fazia de tudo para anima-lo.

Naquela noite, os dois dormiram mal, num agitado sono mergulhado na escuridão.

Notas finais
Bem, eu achei que esse cap ficou horrivel, mas considerando que a parte mais importante dele foi escrita pelo celular no meio das aulas de manhã (meu cerebro já não funciona, imagina de manhã!) ele poderia estar bem pior.
Agora meu momento apelão: hoje (ou ontem, pq já passou de meia noite) é meu aniversario, alguem quer me dar Reviews de presente? e desculpar pela demora(de novo) ?