Mil garças
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Heart beats fast (Coração bate acelerado)
Colors and promises (Cores e promessas)
How to be brave (Como ser corajoso)
How can I love when I'm afraid to fall (Como posso amar quando tenho medo de me apaixonar)
But watching you stand alone (Mas ao ver você na solidão)
All of my doubt suddenly goes away somehow (Todas as minhas dúvidas se foram de repente de alguma forma)
~Parte 1 — Oikawa’s POV~
Enquanto eu achar que não posso, como será possível o contrário acontecer? Quem mudará meus pensamentos ao ponto de tirá-los da inércia e dá-los um novo sentido? Um bom sentido por sinal... Cada desfile, cada entrevista, cada exposição... tudo isso sempre significou muito para mim, mas ao mesmo tempo nunca foi o bastante para evitar que eu perdesse o prazer em continuar amando a minha carreira de modelo. Sentar-me em um banco macio, enquanto maquiavam-me, acrescentando ao meu rosto dito perfeito o que ainda lhe faltava... O perfeito precisa ser aprimorado? Tornava-se difícil sair de trás das cortinas, à medida em que a música e os flashes das câmeras perdiam o seu sentido. E nas capas das revistas, minhas expressões e poses sensuais por vezes eram forçadas, embora aos outros que as vissem, achariam que continuo tão feliz... Era assim que eu deveria fazer as pessoas se sentirem, mas não era assim que eu me sentia...
Sempre tive muitos amigos, poucos eram verdadeiros... e sei que eles tiveram muito trabalho para suportar esse grande imbecil orgulhoso e pegajoso que eu sou, mas com eles, conseguia me sentir bem mais à vontade e no fundo estava feliz nesse ponto.
“Oikawa-kun!”, “Kyah! Ele é tão lindo...”, “Por favor, aceite meus sentimentos...”.
— Er... não estou interessado... — Era o que respondia à maioria dos casos, e logo deixavam de me seguir, afinal não era a minha pessoa que interessava, mas sim meus status sociais... Confesso que às vezes aceitava os convites dessas meninas na única intenção de transar quando dava na telha. Desde o fundamental que sou modelo... Mas a aspereza nunca deixou de seguir as minhas palavras quando estas vomitavam injúrias em segredo... Ah, ninguém realmente jamais soube desse meu lado feio, ou talvez apenas os mais próximos.
Eu não quero namoradas que não me valorizem por quem eu sou... Quero terminar meus estudos e talvez seguir com uma carreira diferente, como sempre quis. Talvez passarei a residir na França, como meus pais tanto desejam, e lá cursarei a Universidade. Sei que parece estúpido dizer isso, pft... Mas eu quero deixar de ser esse “manequim” sem emoções. Eu quero saber como voltar a expressar o que sinto, e não o que as pessoas querem que eu sinta... É engraçado dizer isso sorrindo de forma tão falsa, hum?
~Capítulo 1~
Não foi tão doloroso quanto pensei que seria, e cá estou eu, na França; deixei minha terra, meus pais para trás, e até mesmo a minha carreira, passando a fazer economia na HEC, universidade em Paris respeitada... Quem diria que estive errado? No final das contas aquele estranho, em um chuvoso dia de inverno, poderia ter as respostas para o dilema que tanto atormentava-me, trazendo consigo um amor que eu aceitei de bom grado... e que levaria comigo até o fim dos meus dias.
Por um acaso voltei ao meu facebook, que há muito não acessava por causa dos dias em que tive de me adaptar à nova rotina de estudos. Minha xícara de café quente acompanhava meus lábios de forma tão viciante como os cliques que dava em aceitação ou rejeição aos pedidos de amizade pendentes. Por sinal haviam muitos... Não poderia ficar de fora dos assuntos de classe, mas chegou uma hora em que nem ao menos lembrava de todas as faces e nomes dos meus novos colegas, quanto mais saberia qual daqueles tantos estranhos faziam parte de meu grupo de estudos... Sem contar que algumas daquelas eram garotas, e por sinal eram lindas.
“Alicia Péricat”, “Jean Ferrier”, “Iwaizumi Hajime”...
Iwaizumi Hajime, ou como encontrei escrito, 岩泉一... Obviamente era um nome japonês e não poderia ser de meus colegas, então era preferível descartá-lo imediatamente, mas a curiosidade, e confesso, falta do que fazer, me fez clicar para “visitar” seu perfil, identificando-o como também aluno de economia, mas da Universidade de Tóquio. Suspirei e pensei em recusar essa solicitação, mas não seria tão mal se depois eu precisasse de alguma informação de curso que me servisse... eram universidades diferentes, mas éramos alunos em busca de uma mesma titulação de bacharelado e seria interessante caso viéssemos a trocar ideias. Dei mais um gole em meu café, sentindo o vapor aquecer meu rosto enquanto acabava com o restante que havia na xícara, a seguir com as solicitações. Lambi meus lábios rosados enquanto limpava os resquícios do líquido escuro e acabei soltando um risinho.
— He, que cara mal encarado... — Pensei alto enquanto clicava nas fotos dos álbuns que ele tinha... Parece até que não sabe sorrir...
“Iwaizumi-san... você não tem cara de que tem namoradas, hehe... mas parece tão familiar...”
22:08
Iwaizumi Hajime: Oikawa?
A mensagem me chegou cerca de cinco minutos após minha aprovação, piscando várias vezes o nome daquele sujeito enquanto atrapalhava a minha visão do que havia atrás no site. Pensei em fechar a pequena caixa de chat, mas suspirei, condenando-me por não ter desativado o bate-papo, já que obrigatoriamente, por educação, teria de respondê-lo. Fiz um biquinho e cliquei. “Visualizado” deve ter aparecido para ele.
22:13
Oikawa Tooru: Eu conheço você? O.o
Mas pelo jeito metade do Japão me conhecia! Revirei os olhos e claro que eu não o conhecia... Ou talvez eu o conheça e não me lembrava? Ahhh, assim não vale mesmo!
22:14
Iwaizumi Hajime: Tiramos umas fotos juntos num evento de vôlei e quis te adicionar, só isso.
“Oh...”
Pensei e acabei lembrando do que ele falava... Um ano antes de vir para cá e dois depois do término dos meus estudos em Seijou tive um ensaio fotográfico com um dos jogadores de vôlei de Miyagi... Iwaizumi Hajime
22:16
Oikawa Tooru: Er... Iwaizumi-san, acho que me lembro! Por que me adicionou? Está interessado ou algo do tipo? Iwai-chan não faz o meu tipo~~
Ri da resposta que dei, sabendo que isso irritava a maioria das pessoas, mas por alguma razão o tal Iwaizumi me atraíra desde o momento em que tiramos aquelas fotos.
22:17
Iwaizumi Hajime: ¬¬ Oikawa idiota! E por que diabos eu estaria interessado?! Só fiquei curioso que um verme como você tenha entrado no mesmo curso que eu!
Ri baixinho, sabendo que ele responderia assim... Ah, os motivos pelas fotos no jogo de vôlei: Eu apenas admirava suas jogadas e quis tirar umas fotos, mas por alguma razão os repórteres viram aquilo como uma chance pra fotos... Hehehe, lembro como o Iwaizumi-san ficou puto. Ops, acabei esquecendo de responder.
22:19
Oikawa Tooru: Eh? Não precisa ser tão cruel, Iwai-chan... eu que deveria me sentir ofendido por estarmos no mesmo curso. Mas bem... ainda tenho as nossas fotos, e não acho que tenham sido um gasto de material. (ɔˆ ³ˆ) ɔ
Estava conversando com aquele cara como se o conhecesse há tempos, e perdi-me em meio as horas, inclusive acabei esquecendo de responder a outros chats que se iniciaram de forma paralela. Apenas me toquei que estes existiam quando percebi que o som de meu notebook estava desligado e suspirei audivelmente. Precisava de mais café.
03:47
Iwaizumi Hajime: Oikawa, vou sair agora, ok?
Quando voltei da cozinha, encontrei essa mensagem — Enviada há 14 minutos — e não soube se clicava e respondia algo ou se fechava a aba do chat e inventava alguma desculpa amanhã, afinal ele não estava mais online... Era apenas um estranho virtual.
“Iwaizumi Hajime...”
~Capítulo 1~
“Hahahahaha!”
Eu perdi as contas de quantas vezes me peguei sorrindo, irritado ou até mesmo chorando enquanto conversávamos. Via pela janela do meu quarto, na república estudantil, que o outono viera com tudo, fazendo com que as folhas das árvores caíssem como a neve aqui enquanto inverno.
19:32
Oikawa Tooru: Iwai-chan... você é tão idiota, kkkk.
19:33
Iwaizumi Hajime: Oe, babakawa, pare de rir, seu estúpido!
Era engraçado como sempre estávamos dizendo o que sentíamos ao outro com apenas alguns emoticons ou expressões estranhas, mas tocar o mouse não era como tocar sua mão... Assim como beijar as fotos dele no computador não era o mesmo. Pensei e ri, pondo a língua para fora da boca como fazia quando vacilava. Ah, mas depois de tantos meses ele sabia que eu era um pervertido.
19:35
Oikawa Tooru: Ehh? Mas foi você que quis me contar a história... não tenho culpa se foi tão estúpida...
Referia-me ao suéter que a mãe dele tinha comprado para ele, e que por acaso era tão longo que me perguntava se não pertencia ao Slender Man. Não era como se Iwa-chan fosse engraçado para me fazer rir, longe disso... Parecia um cara realmente muito sério e por vezes rigoroso, mesmo assim era gentil e isso tornava nossas conversas agradáveis. Ah, claro quando ele não era grosso... Por mais que lamente a distância, sinto que não seriam apenas carinhos a ser trocados pelas mãos dele.
Quase nove meses tinham se passado desde nosso primeiro contato, de inverno a outono, e mesmo assim meu interesse apenas continuava a crescer e comecei a me lamentar por ter um amigo tão distante.
19:36
Iwaizumi Hajime: Trouxa... Hey, Oikawa... eu andei pensando em uma coisa. Talvez algum dia a gente possa se encontrar de novo... Não que eu queira, mas eu vou entender se não quiser.
Engoli em seco e meus lábios tremeram... Minhas mãos mantiveram-se sobre o teclado por longos minutos até que resolvi digitar algo que nunca pensei. Estava tremendo de antecipação e ansioso por sua resposta.
19:41
Oikawa Tooru: Ne, Iwa-chan, tem Skype?
Eu não sabia se seria o certo a perguntar, ainda assim o fiz. Não era como se eu não tivesse feito outras perguntas embaraçosas, mas essa foi praticamente um “Poderia me mostrar a sua cara feia, Iwa-chan?”. Ri da minha constatação, mas não entendia a demora dele a responder.
19:53
Oikawa Tooru: Iwa-chan?
20:54
Iwaizumi Hajime: Gomen, Oikawa... Eu tinha esquecido da minha conta do Skype.
20:55
Oikawa Tooru: Não tem problema, a gente continua conversando por aqui mesmo. (✌゚∀゚)
Eu nunca sentia saudades de usar emoticons nas conversas, mas me sentia idiota fazendo isso quando ele praticamente não fazia, ou o máximo que usava eram os “^^”, “:)” ou “¬¬”. Pft, ele sempre foi enrolado com esse tipo de coisa, mas nunca suspeitei que fosse esquecido, ou talvez...
20:56
Iwaizumi Hajime: Não precisa dizer isso, Oikawa, eu já abri o Skype. Assim a gente pode se falar sem precisar digitar.
20:57
Oikawa Tooru: Hahaha, que fofo... O Iwa-chan não sabe mexer no Skype. Não tem problema, eu ensino! *o*
20:58
Iwaizumi Hajime: Vai se ferrar, bostakawa... ¬¬
Revirei os olhos, mas lambi os lábios como se eles estivessem mais secos que o normal, entretanto não considerava este o caso. Em seguida ele me mandou os dados para que eu o adicionasse. Não sabia se minha proposta de usar o Skype o tinha incomodado, fosse o que fosse, ele tinha concordado e já o tinha aberto... Ah, sabia de tantas coisas que incomodavam o Iwa-chan...
21:03
Oikawa Tooru: Vou desconectar do face.
E fechei o chat, sentindo as palmas das mãos suarem quando resolvi enfim clicar em conectar em minha conta do Skype. Não a usava para muita coisa, apenas quando precisava falar com meus pais, e isso só acontecia aos finais de semana. Bem, hoje era sexta, então isso significava que seria amanhã.
Engoli em seco e o adicionei, respirando fundo quando recebi uma primeira mensagem. Estava nervoso porque ele tinha falado “Assim a gente pode se falar sem precisar digitar.”. Obviamente eu estava ansioso, mas também porque sentia que não seria uma boa ideia... Conversamos e fizemos por aquele chat tantas coisas embaraçosas que não consigo pensar em como vou poder encará-lo agora sem corar... Mas no fundo queria mostrá-lo com imagens como ele me deixa enquanto conversamos. Aceitei a chamada de vídeo e demorou um pouco para que a imagem aparecesse, mas enfim eu o vi.
“Eh...”
Fiquei olhando para a tela por quase cinco minutos até que consegui falar algo, mas aquele idiota não ajudava muito me olhando de volta como se quisesse me analisar.
— Nee, Iwa-chan... o que foi? — Fiz um biquinho enquanto aguardava ele começar algo.
— Ah, sumanai... é que eu não lembrava que você fosse era... idiota, Oikawa.
— Cruel...
“Porque não assume que ia dizer bonito, ou talvez gostoso?”
Pelas expressões que ele fazia, não parecia tão preocupado, mas ainda assim não me deixava fazer sentir mais confortável, e provavelmente ele percebeu isso e acabou desviando o olhar. Sentia o meu coração bater tão rápido, que pensava que poderia colapsar a qualquer momento. A sensação de vê-lo pela webcam era muito mais vívida que enquanto digitávamos.
— Iwa-chan, se estiver desconfortável, podemos desligar a câmera... Eu posso manter a minha ligada se quiser...
— H-hu?
Arregalei os olhos com o que falei, mas no final meu rosto tinha apenas um sorriso safado, e então vi quando ele enrubesceu.
— Eh... Iwa-chan pensando sujo? Que indecência. — Ah, começaria com os joguinhos assim tão cedo? Provavelmente não deveria, mas não pude resistir em provoca-lo.
— Tampouco pensei nisso, baka! Mas acho que não teriam problemas... não é como se não tivesse acontecido algo assim antes... Você sempre se comportou como um puto, babakawa...
Ele resmungou e eu apenas suspirei, pois logo soube que ele estava se referindo ao que fazíamos... claro que eram apenas palavras que digitávamos, mas agora poderíamos ver um ao outro e a experiência poderia ser diferente. Mas o que diabos! Antes do Iwa-chan, eu nunca pensei que cogitaria em fazer algo como isso em frente à webcam, afinal se ele gravasse eu estaria ferrado... mas eu não acreditava que Iwaizumi fosse capaz de algo como isso. Ele pareceu desconfortável com o que disse, obviamente...
— Sumanai...
— Não precisa se desculpar por isso, você não está totalmente errado. Mas podemos deixar pra fazer isso pelo chat ao invés do Skype. Por enquanto prefiro que a gente converse por aqui de coisas banais.
— Também prefiro que seja assim.
“Tudo o que eu queria era ter visto você... No final das contas seria eu e a câmera... Quero fazer isso com você pessoalmente, Iwa-chan...”
Era estranho chamá-lo e ser chamado de namorado quando nem ao menos nos beijamos, mesmo assim eu não me sinto tão sozinho... e isso não quer dizer que um dia não vai acontecer... Eu amo o Iwa-chan e o quero comigo.
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