Mil garças
2 Capítulo 2
Notas iniciais
I miss that town (Eu sinto falta daquela cidade)
I miss their faces (Eu sinto falta de seus rostos)
You can't erase (Você não pode apagar)
You can't replace it (Você não pode substituir isso)
I miss it now (Eu sinto falta agora)
I can't believe it (Eu não posso acreditar)
So hard to stay (Tão difícil de ficar)
Too hard to leave it (Muito difícil de ir embora)
~Parte 2 — Narrador~
“Ah, você prometeu que mesmo que não déssemos certo ainda seríamos amigos... Então por que foge tanto, Iwa-chan?”
Suas mãos tremiam enquanto segurava o cachecol que trazia no pescoço, e os ventos gélidos de inverno sopravam os fios de cabelos castanhos contra seu rosto pálido. Os olhos chocolate pareciam frágeis e um tanto sem vida, tal como os galhos secos das árvores congeladas...
Tão frios...
O inverno japonês não chegava a ser tão gelado quanto o francês e, mesmo depois de cinco anos no estrangeiro, tudo ainda lhe parecia bastante familiar... Ah, o cheiro de comida dos restaurantes e as pessoas a caminharem sem pressa... Era esse ar de cidade que sempre esteve acostumado e no fim das contas, ali era o lar para onde desejara regressar. Sentia saudades da comida dali e por mais que sua boca salivasse aos deliciosos aromas, seu coração sangrava por outros motivos.
“Iwa-chan não tem me mandado muitas notícias... Será que aconteceu algo?”
Olhou para o céu alaranjado pelo pôr do sol e viu algumas pipas ao longe — tão longe que demorou a identificar o tipo de objeto que eram, provavelmente empinadas nas cercanias da área inabitada onde não tinham tantos fios elétricos como o resto da cidade. Sendai era um belo local para se estar, mas era estranho que em meio ao frio, crianças estivessem a brincar por ali como se fosse qualquer outra estação. Oikawa voltara ao Japão para fazer sua pós-graduação e, ao mesmo tempo, encontrar Iwaizumi...
Entretanto as coisas não saíram como o planejado e, mesmo estudando ali — tão perto, não tiveram a chance de se encontrar ainda. Teria de fazer uma prova para validar seu diploma dentro de seis meses, então não deveria perder tempo com esses pensamentos, embora estes viessem atormentar e levar sua mente às nuvens praticamente todo o dia. Pegou o celular no bolso quando sentiu a vibração, pondo-se ainda mais ao lado direito daquela rua sem calçadas para evitar o fluxo de carros em seu caminho. Bastava um pequeno “Oi...” para que um sorriso idiota e um tanto retardado se abrisse em seu rosto... As mensagens que Iwaizumi lhe mandava sempre o deixavam eufórico daquela forma. Segurava o celular na palma da mão, deslizando o dedo na tela para desbloquear e clicando nas notificações.
[Line – Iwa-chan (๑ˇεˇ๑) enviou uma nova mensagem. Toque para visualizar]
Sentiu as bochechas corarem e abriu um sorriso estúpido na face, embora um tanto sensual. Encostou-se na parede da casa mais próxima e ficou a ler a mensagem. Era sempre assim com ele...
17:42
Iwa-chan (๑ˇεˇ๑): Hey, onde que você tá, idiota...? Ainda em Sendai? Se tiver perto posso ir até você.
“Iwa-chan está tentando ser adorável? Pft...”
Deu uma risada boba e releu a mensagem pelo menos umas cinco vezes antes de responder. As pessoas que passavam por ali o olhavam como a se perguntarem o que ele tanto fazia parado a rir com um telemóvel em mãos, então achou melhor sair dali, entrando em uma rua aleatória e provavelmente por ali ninguém passaria com a mesma frequência da avenida principal.
17:47
Shittykawa: Cruel, Iwa-chan! (ಥ◡ಥ) Wahahhah Então o Iwa-chan quer me ver? Ok, mas eu não sei :’((( Acho que é qualquer lugar próximo à costa. Vou perguntar a alguém!
17:48
Iwa-chan (๑ˇεˇ๑): Já devia ter feito isso, Babakawa!
Iwaizumi digitava praticamente agredindo o aparelho celular, irritado com a cabeça oca de Oikawa por estar andando para umas bandas que nem ao menos conhecia.
— Iwa-chan...
Choramingou e uma mãe que vinha com sua menininha a afastou do moço “estranho”, como a mesma falou. Oikawa fez um bico emburrado e passou a mão nos cabelos, suspirando. Amanhã começariam as aulas na faculdade e tinha ao menos de encontra-lo nesse começo de semestre, ou depois mal teriam tempo de se falar por telefone. O moreno de olhos castanhos claros poderia ter bufado, fazendo um bico com as respostas grosseiras que recebia, mas a verdade era que algumas dessas eram divertidas. Tooru estava ansioso para encontrar Hajime, então mesmo que não estivessem perto, faria de tudo para que acontecesse.
— Eh... Sumimasen, poderia me dizer que bairro é esse, obaa-san?
A velha senhora que vinha carregando algumas compras apenas o olhou e passou por si, ignorando sua pergunta; mas como ela era a única alma viva além de Oikawa na rua naquele momento, a acompanhou, tentando insistir.
— Se vai sair me seguindo assim, poderia me ajudar com as compras... — Ofereceu uma sacola para que o jovem carregasse. Este deu um sorriso simpático, embora uma veia de irritação pulsasse em sua testa, e a pegou. Estava um pouco pesada, então não deveria se lamentar por estar fazendo uma boa ação. Andaram mais alguns metros e então a velhinha voltou a falar com um sorriso, o que acabou assustando um pouco o rapaz pela mudança súbita de humor. — Taihaku-ku, mais especificamente... Distrito Shiromaru, Showakita. Agora pode avisar a sua namorada...
— E-Eh... Namorada? — Riu sem graça e pôs a língua para fora da boca, não sabendo se dizia ou não. Era desnecessário de qualquer forma.
— Sim... ou seja lá quem for com quem estava conversando e rindo como um bobinho.
A anciã riu baixinho, com a voz arrastada e agradeceu a Oikawa, que fez uma reverência antes que a velhinha adentrasse sua residência. Por um momento ele sentiu algo estranho... aquele lugar... As árvores na rua estreita e o frio tornavam o lugar charmoso, embora gélido. Sentiu as bochechas corarem e sorriu novamente, esquecendo-se dos pensamentos anteriores quando lembrou de Hajime. “Namorado... não é uma namorada, é um namorado”, pensou. Então pegou o celular novamente e escreveu o endereço que lhe foi dito, esperando uma resposta positiva do outro. Ficou ali parado por belos quarenta minutos sem uma única resposta, já sentado no meio fio sem muitas esperanças de ver o namorado...
— Iwa-chan... que cruel. Acabou me esquecendo aqui. — Fez um bico e quando menos esperou, algo o acertou na parte de trás da cabeça, arrancando de si um gemido de dor.
— Vai ficar ai sentado a noite toda, baka...? Francamente, não deveria sair andando por ai se vai se perder.
Iwaizumi revirou os olhos, mas não parecia irritado como o seu tom de voz pareceu mostrar. Suspirou, aproximando-se enquanto via o outro paralisado ao notar sua presença. As mãos de Oikawa pressionavam com força o tecido grosso de sua calça enquanto seus olhos vagavam por todo o corpo de Iwaizumi, em pé à sua frente, lembrando exatamente de cada parte que tão pouco vira; seu coração parecia bater como se quisesse saltar pela boca e a falta de palavras formava um bolo em sua garganta; não sabia se chorava, ria ou pulava nos braços do outro... Sendo Oikawa, por que não fazer os três ao mesmo tempo?
— Iwa-chan! — Finalmente falou, ou melhor, gritou; jogando-se nos braços do companheiro que há muito não falava tanto quanto gostaria.
Por pouco não tirou o equilíbrio do menor — sim, Iwaizumi era menor que Oikawa, exatamente como este imaginara — quando pulou em seus braços e pendurou-se com as pernas ao redor de sua cintura. O outro homem apenas resmungou e empurrou a cara daquele grande escandaloso, tentando afastar o grudento de si.
— Sai de cima, idiota! — E quando conseguiu afastá-lo, deu-lhe um cascudo, indignado pela falta de compostura de Tooru em seu primeiro encontro válido, por assim dizer... A vez em que se viram e tiraram as fotos não passou de um shoot fotográfico entre estranhos.
— Eh... cruel! Eu fiquei aqui um tempão te esperando, Iwa-chan. — Resmungou enquanto punha a mão na cabeça para alisar a região golpeada.
— Apanha isso ai no chão... comprei pra você. E para de reclamar, tá me enchendo, idiota. — As bochechas de Iwaizumi tingiram-se em um leve e quase imperceptível tom róseo ao apontar para o pequeno pacotinho que tinha arremessado em Oikawa há alguns minutos; o outro formou um “o” com a boca, pegando o objeto com um sorriso de orelha a orelha. — Abre logo! Como tava perdido, pensei que poderia ter fome.
Resmungou o olhando de esgueira enquanto o imbecil apenas parecia mais contente com toda a situação embaraçante em que se encontravam, fazendo aquela cara que Iwaizumi desgostava... Ah, a cara de imbecil!
“Ele é tão pateta, que a boca forma um “v” quando ele vem sorrir pra mim... babaca.”
Oikawa apressou-se a abrir o pacote e não entendia porque Iwaizumi o tinha embalado tão cuidadosamente, vendo que neste haviam dois pãezinhos daqueles que mais gostava, feitos com leite. Olhou curioso para a comida e depois para Hajime.
— Então você lembrou?
— ...
— Iwa-ch...
— Anda logo idiota... Guarda isso e sobe na moto... Vou te levar pra casa antes que a noite fique ainda mais fria! — Resmungou e deu as costas antes que Oikawa tivesse mais um ataque idiota.
O moreno de cabelos claros pensou em falar alguma bobagem para zoar com a cara do menor, mas então olhou para trás e viu mais pipas subindo no céu ao longe. Permaneceu parado, tal como se estivesse preso no tempo, e percebeu que Hajime também mantinha-se em silêncio.
— Por que há tantas pipas no céu? É quase noite. — Constatou e notou que Hajime sorria de forma estranha enquanto olhava para o crepúsculo, encostado na moto com as mãos nos bolsos da calça.
— Até um tempo atrás não haviam muitos locais próximos da cidade para se empinar pipa... acho que apenas estão aproveitando.
“Aproveitando... Lugares...?”
— Iwa-chan... aconteceu algo? — Sua voz, ao contrário do que fora há alguns instantes, soou séria. Oikawa era um idiota sentimental e debochado, mas também tinha seu lado maduro... — Desde que viu as pipas parece estranho...
Arqueou as sobrancelhas em dúvida, notando que o outro mudara de expressões rapidamente, tirando a mão esquerda do bolso para olhar as horas em seu relógio de pulso digital. Suspirou e fez sinal para que Tooru o acompanhasse à moto, pôs o capacete e sentou-se na dianteira, revirando os olhos quando Oikawa demorou para segui-lo. Este sacudiu a cabeça como a esquecer o momento tenso que passara, subindo na parte de trás da moto, bem atrás de Iwaizumi.
— Se segura nos ferrinhos e põe o capacete... não quero que caia e quebre essa cara feia enquanto eu dirijo.
— Eh?! Iwa-chan, você é que tem a cara feia! Deveria agradecer a alguém como eu ainda querer namorar com você!
Resmungou e levou uma cotovelada na barriga, mas depois fez um bico e escutou o barulho da moto a ser ligada, pondo o capacete. Olhou para os ferrinhos onde o outro disse que deveria se segurar, mas não o fez...
Lambeu os lábios e sorriu, pondo a língua para fora por saber que o que faria era errado, mas fechou os olhos e o abraçou por trás, aproveitando-se da diferença de altura para apoiar facilmente sua cabeça sobre o ombro de Iwaizumi, mas antes que esse pudesse se queixar, resumiu-se a apenas a segurá-lo.
Oikawa estava completamente consciente de onde suas mãos estavam. Podia sentir clara e firmemente como os músculos do abdômen de Hajime se moviam a cada movimento respiratório que o mesmo fazia, trazendo para si calafrios, mas estes não eram culpa da temperatura noturna, pois sentia-se mais quente e vivo do que há segundos atrás.
Iwaizumi suava frio, mas aquele contato não era nada demais no final das contas e, finalmente, decidiu dar a partida na moto. Oikawa apenas colou ainda mais os corpos de ambos e, por um momento, sentiu que o seu lugar sempre fora ali — para sempre.
O abraço lhe era tão familiar que doía... tão familiar e tão distante ao mesmo tempo... Vivera em Sendai desde criança e, por mais que quisesse lembrar de tudo, haviam lapsos que não conseguia reparar. Certas coisas não voltavam e viraram um passado escuro o qual jamais conseguiu alcançar. Não entendia muito, mas sabia: sua cabeça era uma bagunça de dúvidas e sentimentos. Estava confuso e ao mesmo tempo feliz, pois aquela era a primeira vez que tinham saído juntos.
“Mas eu sinto como se o conhecesse desde sempre.”
Sorriu como um bobo em meio aos pensamentos, sentindo o vento gélido tocar sua pele à medida que a moto corria pelas ruas. Observava as casas, pessoas e veículos passando e, no final das contas, pararam frente à sua casa em questão de minutos. Aquele dia não fora tirado para um mero passeio aleatório na cidade... Aquela tarde não fora por um simples encontro. E a noite não era para uma simples despedida.
Retirou o capacete, saltando da moto e apoiando-se, animado, sobre as pernas fortes que tinha, mas parou os passos quando a realidade bateu à sua porta. Iwaizumi desceu também, mas parecia sério. Este retirou o capacete e fitou o outro em dúvida. Havia algo de errado naquele olhar...
— Oikawa, o que foi? — Suas sobrancelhas uniram-se a formar uma expressão de aturdimento, olhando para a bela casa de sobrado onde Tooru morava com seus pais.
— Iwa-chan... como sabe que minha casa fica aqui?
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