Meu noivo perfeito
19 Pro que der e vier
Notas iniciais
Ganhei arranhões pelo rosto, um feio corte na perna e hematomas horrendos; um em minha clavícula e dois em meu braço esquerdo, cujo pulso havia sido torcido. Foi isso o que minha tia disse assim que abri os olhos e me contemplei uma maca num quarto simples de hospital. Meu coração ficou tão apertado quando vi rastros secos de lágrimas recentes no rosto dela, que mesmo tentando mostrar alívio ainda não conseguia esconder a tremedeira em suas mãos.
– Sakura... – ela respirou fundo, passando o pano molhado em minha bochecha.
– Tudo bem tia. – interrompi-a com a voz falha, e logo pude sentir a dor e o inchaço na minha gengiva.
Um bolo se formou e minha garganta com as lembranças de horas atrás, havia sido mais de um homem, oh! Ofeguei exasperada. Eu nem ao menos... conseguia me lembrar como me livrei deles...
– E-eu... – ela gaguejou. — Estou tão aliviada por aqueles rapazes a terem ajudado...
Recordei-me de ver cinco sombras adentrando o beco. Oh! Nunca imaginei que fossem garotos, só lembro-me da vizinhança toda em frente às suas referidas casas olhando para mim e minha tia em sua busca desesperada por uma carona ao hospital.
– Quem eram? – quis saber.
– Também não sei querida, mas quem sabe os vizinhos sim...
– Tenho que agradecê-los. – sussurrei apoiando em meu braço esquerdo para levantar.
– Não se esforce, querida... – ela falou pondo a mão em minhas costas prontamente. – Como se sente?
Descansei o pescoço no travesseiro molenga e sorri com o lado bom do rosto, levantando a mão direita com o soro e fiz um sinal positivo.
– Acho que bem. – soltei um suspiro cansado.
Tossi três vezes, tentando liberar a irritação na minha garganta.
– Pode pegar um copo d'água pra mim, por favor?
Minha tia assentiu e com passos vagarosos foi saindo do quarto, só então eu notei as roupas que ela usava: chinelos de dedo, um short casual e uma blusinha de mangas com uma mancha na borda. Era a preferida da dela. Com certeza deve ter vindo às pressas comigo aqui, me senti mal por preocupa-la tanto, mesmo não sendo minha culpa. Logo ela já estava ao meu lado outra vez me ajudando a tomar a água.
– Sakura... – ela me chamou quando tirou o copo da minha boca. – Eu liguei para Hinata e disse o que tinha acontecido com você.
Não respondi nada, somente assenti e fechei os olhos.
– Não faz nem dez minutos. – ela completou.
Se eu conheço bem Hinata ela já devia estar a caminho daqui, caso não tivesse nenhum imprevisto, ou até mesmo com.
– Acho que a senhora fez bem, ela não ia ficar nem um pouco feliz se soubesse disso um pouco tarde demais... Sabe como ela é... – nós duas rimos.
Minha cabeça estava tão pesada que eu nem conseguia me manter lúcida por muito tempo com os olhos abertos, o ar parecia mais denso e difícil de respirar à medida que eu sentia os meus machucados, principalmente enquanto eu fitava meu braço com os hematomas azulados e meu pulso engessado.
Minha tia pediu gentilmente à enfermeira que veio medir minha pulsação uma almofada para que eu pudesse descansar meu braço de maneira mais confortável. Nem ao menos tentei relutar diante da sua ideia, era muito mais fácil somente ficar naquela posição meio desconfortável, sentindo o tecido macio do lençol em minhas pernas e a maciez dos travesseiros debaixo de mim.
– Tia. – levantei o braço para segurar a mão dela. – Vá descansar.
Tia Tsunade era assim, enquanto não se satisfizesse com o conforto de alguém ela não conseguia relaxar. E eu sabia o quanto isso era exaustivo, tanto que me sentia mal a cada vez que via olheiras formando-se abaixo de seus olhos, indícios de uma noite em clara e em lágrimas.
– Você... Está se sentindo melhor? – fechei os olhos com o toque tão materno que era seu cafuné em meus cabelos.
– Sim. – respondi sorrindo. – Vá. – insisti.
Ela deu de ombros e assentiu, como se um peso tivesse sido tirado de cima de si. Esperei calmamente seus passos passarem da porta para tirar o lençol de cima das minhas pernas desnudas, devido à veste de hospital que eu usava. Na minha perna esquerda um curativo de tamanho bem considerável estava preso e firme. Nem me atrevi a tentar retirá-lo, eu não estava a fim de ver o estrago e sua dimensão, pelo menos não agora.
Eu ainda nem conseguia acreditar como uma coisa destas foi acontecer comigo. Uma lágrima solitária escorreu pelo meu rosto quando em um movimento brusco e impensado bati minhas duas mãos no colchão, causando uma dor aguda terrível no meu braço.
(...)
Sasuke batucava a caneta na mesa com movimentos ritmados e leves, sua postura compenetrada causava certo desconforto nos dois homens sentados nas cadeiras mais próximas de sua mesa. O clima dentro do grande recinto além de tenso estava se tornando muito intimidador para os dois sócios de roupas impecáveis.
O que parecia mais novo estendeu uma papelada bem elaborada em sua mesa.
– Já providenciamos as confirmações e certificados de todos os contratados, senhor.
– E temos mais uma cópia aqui conosco, para indesejadas ocorrências. – o outro também se manifestou, indicando sua bolsa de couro que trazia junto a si.
Sasuke apenas assentiu, ainda com uma mão em frente à boca.
– Ótimo. – foi tudo o que respondeu, pegou os papéis, aproximando-os de si e acrescentou: — Como estão os preparativos para a reunião de amanhã?
– Estão indo conforme o senhor desejava, já entramos em contato com todos os coordenadores e eles disseram que o aguardam ansiosos.
– Todos confirmaram presença?
– Sim. – respondeu o mais velho de prontidão. – Bom, o que já era de se esperar.
A próxima fala de Sasuke foi adiada quando um pequeno infortúnio interrompeu o silêncio da sala. Sua secretária estava enviando-lhe uma chamada. Atendeu-a com hesitação, até porque para Temari atrever-se a liga-lo quando o mesmo pede para não ser interrompido significava ser um assunto pra lá de significativo.
– Senhor, desculpe interrompê-lo, mas o senhor acaba de receber uma visita inesperada de seus dois primos, Sr. Obito e Sr. Shisui e eles insistem em falar-lhe agora. – era notável o nervosismo pequenino presente na voz dela.
Sasuke ao ouvir os nomes de seus dois primos soltou um sorriso de canto. Olhou para os presentes e com gentileza dispensou-os.
– Podem retirar-se, por favor, não se esqueçam de manter-me informado sobre qualquer nova mudança nos planos.
Com agilidade e destreza ambos assentiram com a cabeça e retiraram-se do ambiente a passos moderados. Logo após a retirada dos sócios a porta foi aberta e dois homens altos e esbeltos entraram com agilidade, ambos acompanhados de suas respectivas esposas: duas belas mulheres que mantinham sorrisos gentis.
– Sasuke! – o com o corpo mais forte e de madeixas negras e rebeldes cumprimentou-o com uma animada saudação. Sasuke ajeitava o colarinho conforme ia em direção aos presentes, sem esconder o sorriso aberto que carregava em sua bela face.
– Que surpresa. – respondeu em português enquanto abraçavam-se como velhos camaradas. – Obito. – ele sabia que seu primo não era o maior fã do inglês.
– Como vai, irmão? – falou o outro homem, tão atraente quanto os outros dois e de roupas mais informais, porém igualmente elegante.
– Shisui. A que me devem a honra de suas presenças na minha simplória empresa? – Sasuke perguntou adotando um semblante desconfiado após desfazer-se do outro abraço.
– Humilde como sempre, Sasuke, humilde como sempre... – respondeu Obito divertindo-se com seu próprio sarcasmo. — Bem, lembra-se de Tsume? – falou animado indicando sua esposa que até agora havia se mantido quieta observando o reencontro familiar, assim como a outra.
– Claro, como vai Tsume? – perguntou estendendo a mão, seu primo havia feito uma ótima escolha com aquele ser de belos olhos castanhos esverdeados.
– Bem, muito obrigada, e você? – sua voz era animada e contente, uma mulher que demonstrava o quanto se encaixava muito bem com seu primo. Ela era uma ótima pessoa, pelo pouco que já a conhecia, até porque em raros eventos familiares sempre pôde notar o orgulho dos primos em relação à suas parceiras.
– Vou ótimo. – sorriu de canto. Varreu os olhos pelos presentes e contemplou a outra mulher ao lado do primo Shisui. – Oh, Srta. Helena, tudo bem?
– Oh, sim, haha, obrigada. – respondeu-o sorrindo. Sasuke logo se relembrou do quanto a esposa do primo era diferente do mesmo, conversando e socializando muito mais sempre que podia.
– Deixem-me adivinhar, vocês vieram para o meu aniversário. – abaixou a cabeça e negou, já se divertindo com os planos que ele se preparava para ouvir. Aqueles dois cabeças-ocas eram os cérebros por debaixo de todas as festas familiares. — O que estão planejando? – Sasuke perguntou levantando o queixo e fitando seus primos com os olhos estreitos.
– Argh. – suspirou Obito passando a mão pelos cabelos. – Sempre soube que ter um primo gênio seria problemático... Poxa, não era pra você sacar assim ainda de primeira, ainda falta duas semanas, e já tínhamos até o que falar como desculpa.
Ao lado do esposo, Tsume soltou um suspiro e passou a mão pelo rosto, numa clara expressão de decepção. Olhou apaticamente para o marido e respondeu:
– Você estragou tudo, Obito. – rosnou. — Ainda teria dado tempo de inverter as coisas, mas não... Você resolveu falar tudo logo. – o marido deu um riso amarelo e pôs as mãos nos bolsos, desconcertado pela falha.
Todos os outros três presentes gargalharam.
Em menos de dez minutos todos já estavam confortáveis nos sofás na outra dimensão da sala e mantinham uma conversa agradável.
– Então, quando chegaram aqui? – Sasuke soltou servindo-se de Martini e oferecendo aos outros também.
– Ontem mesmo. – Shisui respondeu após dar um gole na bebida. – E você sabe como Obito é... Implicou que viríamos te ver hoje e sem demoras.
– Sim.
– Ah, Sasuke, esperamos não estar atrapalhando-o, sabe... – começou a desculpar-se Helena. – Caso você tenha outros compromissos marcados. – Ao lado dela, Tsume também anuiu com a cabeça.
– Não se preocupem, não estou perdendo nada. – Sasuke falou verificando seu relógio de pulso.
– Ah, melhor.
Obito de repente ficou mais animado e inclinou o corpo na direção do primo, que se sentava em uma poltrona mais afastada.
– Ah, eu tinha esquecido, antes de virmos aqui passamos na casa da tia Mikoto, ela pediu para que o querido filho dela fosse visita-la o quanto antes. – Obito referia-se à mãe de Sasuke.
– Ugh, haha, quem dera fosse tão simples, ainda não arranjei tempo o suficiente e há um problema, porque estou de viajem para fora do país hoje mesmo.
Os primos ficaram obviamente surpresos com a informação, pois se remexeram desconfortáveis no sofá.
– E tem previsão de voltar quando?
– Daqui doze dias.
– Ah, ufa, ainda dá tempo de comemorarmos seu aniversário da maneira como se deve, hehe... Se é que me entende. – falou sacana Obito apoiando o cotovelo no encosto do sofá.
– Cuidado, primo... – sussurrou olhando Tsuma de braços cruzados e o rosto desafiador.
– Heh, calma amor... – descaradamente pôs os braços pelos ombros de sua esposa. – Sasuke é quem vai curtir ao máximo, nós seremos apenas seus reles guarda-costas. – concluiu batendo no próprio peito.
– Ahh, vai devagar Obito... – Shisui falou com um sorriso de canto. – Precisamos primeiro acertar alguns detalhes antes disso, como: quem é a Srta. Haruno?
Sasuke que somente escutava tudo calado, sorriu ao escutar o nome da namorada, gesto que não passou despercebido pelos demais. Já previa o que aqueles dois falariam após saberem a verdadeira relação que mantinha com Sakura.
Até mesmo as esposas pareceram animadas com a menção do nome feminino que já conheciam bem pelas revistas. Porém, antes que Sasuke pudesse dizer algo sentiu o celular vibrar dentro do bolso.
Somente após ver quem ligava ele referiu-se aos familiares:
– Um minuto. – falou atendendo a chamada de Hinata e levando o celular ao ouvido. Sua irmã não era a maior fã de ligações via celular, então aquele movimento inesperado o deixou curioso. – Hinata?
– Oh, Sasuke. – No mesmo instante seu cenho franziu ao notar a voz evidentemente abalada da irmã.
– Hinata, o que houve? – ele foi bem direto. Sua voz saiu mais grave do que esperava após ouvir o gemido sôfrego e irritado da voz feminina. As pessoas a sua frente fizeram silencio ao notar que a situação festava ficando tensa.
– Sasuke, é a Sakura, ela... – seu corpo ficou tenso ao mesmo tempo em que a irmã parecia respirar fundo. – Ela foi vítima de uma tentativa de estupro Sasuke...
Sua garganta fechou-se ao mesmo tempo em que a mão esquerda apertava com todas as forças o copo de Martini, fazendo seus dedos esbranquiçarem.
Tudo parecia tão distante naquele momento, sentiu-se perdendo o chão abaixo de si. Nem mesmo ouviu a outra fala de Hinata. E tudo isso só de pensar na sua delicada Sakura, sua... Oh, ele nem conseguia terminar a frase, imagine sequer pensar nela sendo...
– O que você disse? – ele mesmo nunca havia escutado sua voz tão dura quanto naquele momento. Fechou os olhos por um momento, respirando fundo, quando os abriu outra vez estavam felinos, nublados pela emoção de fúria e preocupação.
– S-Sasuke, eu estou indo vê-la, não se preocupe... – Hinata tinha a voz embargada, evitando chorar e tentando passar força ao seu irmão. – Tia Tsunade já me disse onde elas estão...
Nem se deu ao trabalho de espera-la terminar de falar e abordou-a já se levantando da poltrona, indo em direção à sua mesa.
– Onde elas estão? – fechou o notebook com rapidez e puxou a chave do carro.
– No hospital mais próximo do bairro delas, eu nem mesmo lembro o nome do hospital, fica ao leste da avenida principal. – ela falava com pressa. – Eu estou chegando...
– Me aguarde. – foi tudo o que respondeu antes de encerrar o telefonema.
– Hey, primo. – chamou Shisui, aproximando-se com os demais. – Tudo bem?
Sasuke abaixou a cabeça e passou a mão por seus cabelos com brusquidão.
– Não, eu vou sair, por favor, não me esperem. – aquilo havia sido mais do que um pedido, e seu tom foi o suficiente para passar a mensagem.
Dirigiu um olhar ao primo e abriu a porta da sala, passando pelo ambiente de trabalho de Temari e dirigiu-lhe um olhar para que ficasse fora do caminho. Foi andando a passos largos e pesados pelo corredor até virar-se e entrara no elevador de emergência pelo qual mais costumava usar para entrara e sair da empresa, ele estava ali exatamente para isso, não precisava ter de ficar suportando os olhares das milhares de pessoas daquele lugar todos os dias. Era demais até para si. E aquilo não o agradava.
Amaldiçoou pela primeira vez ter feito um prédio com tantos andares e por seu elevador não poder ser mais rápido, apesar de realmente ser mais beneficiado que os outros, contando com a velocidade. Aproveitou os minutos de descida para ligar falar com o seu secretário de investigação e pediu todas as informações do lugar onde Sakura e a tia estavam, além de, claro, exigir que seus seguranças especializados descobrissem com mais a finco o que havia acontecido de fato com Sakura.
Ele confiava demais em seus funcionários, os seguranças então, quem o diga. Sabia que eles fariam um trabalho melhor que o de qualquer delegacia ali perto, e também não gostaria de envolver aquilo em público mais do que já devia estar rolando. Também contatou sua guarda pessoal sobre onde estava indo, já que pegaria seu próprio carro dessa vez.
A imagem de Sakura com seu melhor sorriso veio-lhe a cabeça, tão pura, lembrou-se da conversa que tiveram na noite passada, ela estava guardando-se para o cara certo e... Então, quando pensou em mãos tocando-a sem displicência e o rosto horrorizado dela, seu sangue ferveu, sua fúria atingiu o limite e socou sem dó o vidro que dava de vista para a paisagem da cidade.
Quando o elevador em fim chegou ao terraço, quase correu para a Ferrari estacionada em uma das vagas ocupadas por outros carros, também pertencentes a ele. Coisa que sua irmã e sua mãe geralmente costumavam reclamar bastante.
Saiu do estacionamento às pressas, obrigando a quem estivesse próximo ouvir o lindo ronco do motor da Ferrari, levantaram o portão quando ele já estava próximo o suficiente. Pronto para partir, ele avistou o carro do segurança, sem se conter acelerou da maneira que tanto gostava e passou a mover-se com um pouco de brusquidão nas ruas movimentadas, sem se importar realmente se sua equipe conseguia acompanha-lo, claro que conseguiam, não estavam ali à toa.
Por um momento, teve um vislumbre da mulher que estava naquele banco ao lado na noite anterior. Tão linda, e tão ingênua até mesmo nas ações, principalmente enquanto cruzou aquelas belas pernas. Ele havia ficado desconcertado por um momento com a imagem, e agora só conseguia imaginar algum filho da puta passando as mãos asquerosas por aquela parte maravilhosa da namorada, sua namorada, sua parte maravilhosa.
Trincou o maxilar quando viu a faixada um pouco desgastada do Hospital. Finalmente havia chegado, nem conseguia controlar seu coração acelerado, somente de imaginá-la ferida e chorosa fazia seu estômago revirar e a fúria só aumentar junto à preocupação.
Pôs seus óculos escuros e saiu do carro, sabia que chamaria atenção, mas nem para isso ligou muito, olhou para o carro que vinha atrás e sinalizou para os dois homens que desciam também. Foi andando entre as pessoas que pareciam fazer questão de abrir-lhe passagem, algumas por conseguirem reconhece-lo e outras somente pela sua presença imponente. Quase sempre era assim e público, esperou com a maior calma que pôde uma mulher descer com uma cadeira de rodas pela passagem de entrada livre do Hospital.
Assim que localizou o balcão, preferiu ignorar a maioria aquelas pessoas sentadas nas cadeiras de espera que de repente haviam fixados toda a atenção nele. Dirigiu-se com maestria até em fim parar em frente a recepcionista de corpo avantajado.
– Pois não, senhor...?
– Uchiha. – ela olhou-o com o cenho franzido. – Sasuke Uchiha. – repetiu, estava sem paciência para enfrentar o semblante agora pálido da mulher e foi direto. – Pode me informar o quarto em que Sakura Haruno está, por favor?
Em menos de meio minuto a mulher já lhe informava com precisão o andar e o número do quarto de Sakura.
– Obrigado. – agradeceu antes de retirar-se a caminho das escadas.
Foi sábio ao ignorar os olhares dos pacientes e dos funcionários do local em todo o percurso que fez, pois assim que chegou ao segundo andar viu que sentada em uma das banquetas estavam Hinata e Tsunade. Ambas conversavam baixinho e tomavam café expresso. Chegando mais perto notou como os semblantes das duas estavam cansados e abatidos.
– Hinata. – falou quando parou em frente a elas.
Sua irmã olhou para cima e abriu um sorriso fraco e aquilo de alguma forma o aliviou, acalmando seus medos que só pioravam conforme pensava na namorada. Olhou para o lado e percebeu que Tsunade tinha a mesma expressão, só que algumas olheiras abaixo dos olhos.
– Sasuke. – cumprimentou-o com a voz calma.
– Tsunade. – ele acenou. Era tão estranho observá-la sem aquela áurea contente ao redor de si.
– Ela está lá dentro. – Hinata falou olhando para a porta ao seu lado. – Descansando. Se quiser vê-la. – o incentivo dela foi um sorriso.
Ele assentiu, olhando para a porta fechada, abriu-a silenciosamente e nem parou muito tempo observando o quarto simples e singular, seus olhos percorreram na direção do leito de Sakura e a pegou em um sono sereno.
Fechou a porta atrás de si e começou a caminhar até o banco perto da maca, engoliu em seco quando pôde em fim notar os machucados no rosto dela, o lado esquerdo da boca estava inchado e com um ponto roxo, sinal claro de um murro, havia marcas vermelhas ao redor das duas bochechas, e com cuidado passou a mão nelas, sentindo a pele quente macia abaixo de seus dedos, apertou o banco com força, indignado com a situação do seu belo e delicado rosto.
Desceu o olhar aos poucos pelo pescoço exposto e notou uma mancha esverdeada próxima à clavícula, tomou a liberdade de puxar mais o tecido da gola e descobriu que o hematoma era maior do que parecia. Descendo mais o olhar, finalmente pôde contemplar os horrendos hematomas que ela carregava em seu braço direito e o gesso em sua mão que ia até metade de seu baço.
Ele nunca pensou que ela pudesse parecer tão vulnerável e tão frágil quanto naquele momento. E isso fez um grande instinto protetor se apossar dele assim que pensou no quão triste ela ficaria se acordasse e não o visse ali.
– Sasuke... – ele olhou para trás e viu Hinata perto de si, mas olhando para Sakura.
Sasuke voltou-se para a namorada e perguntou:
– O que aconteceu? – referia-se a Sakura.
Pôde ouvir a irmã suspirar ao seu lado.
– Foi ontem à noite.
Foi como se um balde de água gelada caísse sobre Sasuke, ele até tinha cogitado a possibilidade, mas ainda torcia para que não. Tinha certeza que foi quando a deixou ir sozinha para casa. Apoiou a cabeça entre as mãos.
– Dois h-homens encurralaram-na próximo ao bairro dela, eles... Machucaram-na, mas por sorte não chegaram a realmente fazer nada... Pior. O médico disse que ela não tinha sequelas de abuso.
Apesar de ser a melhor notícia que ele já havia ouvido naquele dia, ainda sim não foi o suficiente para acalmá-lo. Seus ombros relaxaram mais do que ele até pensou ser possível.
– Um grupo de cinco garotos que passava na hora ouviram os gritos dela e foram eles que a ajudaram a se livrar dos estupradores.
– Sabe quem são?
Hinata reconhecia o tom gélido que Sasuke usou, estava acostumada a ouvi-lo somente em situações que inquietavam de verdade do irmão.
– Ainda não.
Após alguns segundos em silêncio Sasuke levantou a mão até o cotovelo de Sakura, tomando cuidado para não tocar nos hematomas e ficou passando os dedos em um carinho cuidadoso.
– Sasuke, os estupradores... – ela não terminou a fala.
– Cuidarei disso agora. – falou levantando-se do banco. Ele não gostava nem mesmo do de ouvir o nome.
– Certo. – Hinata conhecia bem o irmão e sabia que ele realmente cuidaria do assunto, nunca teve contato direto com as pessoas que trabalhavam para ele nesses tipos de situações detalhadas, mas sabia que estavam além das exigências de Sasuke para pessoas qualificadas.
– Ei, você não tinha uma viagem hoje? – questionou-o com o cenho franzido.
Ele parou com a mão na maçaneta e olhou para a cama.
– Vou adiar.
– Tem certeza?
– Sakura iria comigo, não posso simplesmente abandoná-la agora aqui e nessas condições. Só iremos quando ela estiver recuperada.
Hinata piscou olhando para porta, agora fechada. Seu irmão era um homem que prezava antes de tudo o comprometimento e suas obrigações. Vê-lo abdicar dessas funções para cuidar da sua amiga era simplesmente maravilhoso. Será que ele já descobrira seus verdadeiros sentimentos para com Sakura? Caso contrário ela o faria abrir os olhos, por bem ou por mal.
Olhou para a amiga adormecida e sussurrou divertida:
– Você conseguiu.
(...)
– Ah, oi Hina... – cumprimentei sonolenta minha amiga assim que abri meus olhos e a peguei mexendo em meus cabelos soltos.
– Oi! – respondeu com entusiasmo, nem parecia a mulher que entrou aqui há algumas horas atrás com o semblante desesperado. – Como se sente?
Tanto meu rosto e os outros lugares do meu corpo continuavam tão doloridos se não mais do que antes, mas ela não precisava saber disso.
– Acho que melhor.
– Que bom.
– Por quanto tempo eu dormi? – perguntei levantando meu braço bom e coçando os olhos.
– Hum... Acho que quatro horas e meia. – me espantei.
– E você ficou aqui esse tempo todo? – ela confirmou. – Não precisa fazer isso, Hinata...
– Oras, deixe de besteira, até porque eu só estou preocupada, e só porque sua tia e meu irmão estão aqui não quer dizer que eu posso ir relaxar em casa...
– Mas... – parei de falar olhando-a e com hesitação continuei. – Sasuke está aqui...?
– Sim, lá fora junto com sua tia e nossos primos.
Meu coração acelerou como quase sempre acontecia com a menção do nome dele. Boba apaixonada.
– Espera, primos? Como assim?
Ela me ajudou a sentar e amaciou as almofadas às minhas costas.
– Ah, é que eles vieram nos visitar em surpresa sabe? Mal posso esperar para que você conheça as esposas deles. Elas são incríveis, vão adorar você. Ah, e adivinha só, todos são brasileiros, conterrâneos seus.
Ergui as sobrancelhas, realmente mais surpresa e sorri, já começando a me animar.
– Bom, vou indo, qualquer coisa estou ali fora. – apontou na direção da porta e sorriu.
Acenei e relaxei a cabeça no travesseiro, surpreendida com a quantidade de pessoas que de uma hora pra outra surgiram interessadas na minha situação.
– Oi. – abri os olhos instantaneamente ao daquela voz dos meus melhores sonhos.
– Sasuke... – sussurrei sentindo uma pontada na gengiva logo após.
Eu não queria nem ver a situação do meu rosto. E Sasuke vindo para o meu lado com todo aquele charme irradiando me fez querer afundar a cara em um travesseiro.
– Tudo bem? – ele perguntou parando ao meu lado, puxou uma baqueta próxima e sentou-se, buscando minha mão livre para segurar. A sensação da pele quente dele foi mais do que o suficiente para me transmitir todo o apoio que eu estava almejando até agora.
– A-acho que sim... – sussurrei. Sem convicção para mim mesma gemi. – Não, e-eu...
Meus olhos encheram-se de lágrimas conforme lembranças do que passei ontem à noite vinha à minha cabeça como uma avalanche.
– E-eu... Oh, Sasuke. – me agarrei a sua camisa assim que ele veio sentar-se na cama ao meu lado e puxou-me para debaixo de seus braços.
– Ei... – ele sussurrou no meu ouvido. – Está tudo bem.
Ele repetiu mais uma vez quando ouviu meu soluço. Eu afundei meu rosto no seu peitoral nem mesmo conseguindo controlar meu tremor.
– Não vou deixar mais nada te acontecer, prometo, não tenha medo...
Respirei mais fundo quando seus baços me apertaram mais.
– Foi tudo t-tão... – solucei olhando para cima.
– Shii, não quero que pense mais nisso, okay? – falou limpando gentilmente minhas lágrimas que escorriam pelo meu rosto dolorido.
Ficamos uns cinco minutos assim em um completo silêncio, com meu corpo parando de tremer aos poucos. Quando em um relance avistei a janela percebi que o céu já estava escuro.
– Sasuke... – chamei-o. – Sua viajem...
Ele negou com a cabeça sorrindo.
– Cancelei.
– O que..? Por-
– Sakura. – interrompeu-me, tirando minha franja de cima de meus olhos. – Estamos juntos nessa, certo?
Funguei e assenti, sentindo meu interior remoer-se em alegria.
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