Léo piscou lentamente, os olhos pesados como chumbo. A luz fraca dos abajures, que cintilavam como vaga-lumes em um quarto estranho, o cegaram momentaneamente. Ao tentar se levantar, sentiu uma dor aguda na cabeça, como se mil martelos estivessem martelando suas têmporas. Foi então que notou que não estava em seu quarto. As paredes desconhecidas, os móveis estranhos e o silêncio opressivo o deixavam perplexo. A porta se abriu com um rangido discreto e Shion surgiu no vão, silhueta escura contra a luz do corredor. Em suas mãos, uma bandeja com um bule fumegante e uma delicada xícara de porcelana.

—Acordou? Pensei que você precisaria de um chá para se recuperar. . Temos muito o que conversar. Esperamos por você na sala.

Léo olhou para a xícara fumegante e para Shion , sentindo um frio na espinha. A mulher suspirou._Acho que seria melhor você conversar apenas com Yusuke. disse ela, sua voz suave, mas carregada de uma firmeza inusitada. Shion deixou o quarto, fechando a porta lentamente. Léo ficou sozinho, a xícara esquecida em suas mãos, enquanto a angústia e a incerteza se intensificavam.

A porta se abriu, revelando Yusuke em toda sua esplêndida forma. A regata branca aderia aos músculos definidos, e o short curto deixava à mostra pernas torneadas e tatuadas. Seus seus cachos negros, levemente úmidos, caíam sobre a testa, emoldurado por um rosto de beleza quase irreal. Os olhos cor de mel contrastavam com a palidez da pele, e um leve brilho sobrenatural parecia emanar deles. Leo não conseguiu desviar o olhar. Aquele ser, tão belo e tão diferente, despertava em seu interior uma mistura de fascínio e temor.

Um suspiro profundo escapou dos lábios de Yusuke enquanto ele se sentava na cama.

—Leo, começou, a voz trêmula, _preciso te contar tudo. Sobre mim, sobre o que sou e sobre o mundo que habito.

As palavras ecoaram no quarto, carregadas de um peso que parecia sufocar o ar. Leo, com o coração acelerado, mal conseguia desviar o olhar do rapaz. A mistura de medo e curiosidade o consumia por inteiro, pintando suas bochechas de um vermelho intenso.

—_Meu nome é Yusuke Iekami, tenho vinte anos. Mas há muito mais em mim do que aparento. Sou um hanyō, uma criatura singular, metade nekomata, um quarto humano e um quarto raposa de nove caudas.

"Ele também é uma raposa " pensou Leo que engoliu em seco e arregalou olhos . A revelação o pegou de surpresa, mas a curiosidade o impulsionava a ouvir mais.

Yusuke observando a luta interna do garoto continuou.— Você já viu alguns dos meus poderes. A força, a agilidade... Mas há mais. As garras afiadas que se estendem quando estou em perigo, os olhos que brilham no escuro como os de um gato, a capacidade de lançar bolas de fogo... E, sim, a habilidade de reanimar corpos por um tempo limitado. É um poder um tanto macabro, eu sei.

Leo sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A imagem de Yusuke com garras afiadas e olhos brilhantes era perturbadora, mas ao mesmo tempo fascinante. — E a metamorfose? Você não pode se transformar em um gato?

Yusuke negou com a cabeça. — Infelizmente, esse é um dom que não herdei. O que você está vendo agora é a minha forma original.

Um silêncio tenso se instalou no quarto. A revelação havia criado uma fenda entre os dois , mas também os havia unido de uma forma completamente nova.

—Enquanto a Shion ,Asuka e... Leo sentiu um arrepio ao se lembrar da forma monstruosa de Nanami

— A Shion é uma bakeneko, uma espécie de gato com poderes semelhantes aos meus. A Asuka é uma kejōrō, e seus poderes estão ligados ao seu cabelo. Já a Nanami... bem, você já viu do que ela é capaz. E o esquisito de branco é um hanyō como eu, mas metade Okuri-Inu que é lobo yokai.

Leo se lembrou das pinturas no pub. Aqueles três quadros, agora tomavam um novo significado. — Aquelas pinturas... são suas famílias?

— Sim. o gatão laranja é o meu pai e a raposa branca é a minha avó , a mulher e a menina são minha mãe e minha irmã. explicou Yusuke.

Leo sentiu um turbilhão de emoções. A conexão entre aquelas pinturas e a realidade que Yusuke lhe apresentava era quase surreal. Ele tentava processar tudo, enquanto a mente fervilhava com perguntas.

Antes que Léo pudesse perguntar, a porta se abriu novamente. Shion apareceu, sua expressão séria.— A sua tia está aqui e está furiosa, venha logo!

Léo se levantou abruptamente, o coração disparando no peito. A adrenalina o inundou, e por um instante, esqueceu de tudo, exceto do perigo iminente. Yusuke estendeu a mão, a ponta dos dedos roçando suavemente a bochecha de Léo, transmitindo uma calma . — Léo... você não está mais com medo? perguntou o tatuador.

— Eu não posso mentir pra você, eu estou apavorado — confessou, com a voz embargada.

***

—Você pode me explicar de novo como saiu da escola sem permissão, Leo? Tia Mandy insistiu, seus olhos fixos no sobrinho.
O garoto engoliu em seco. O que poderia dizer? "Foi uma bakeneko com poderes de persuasão, que convenceu a diretora a me liberar sem perguntar o porquê" era tentador, mas obviamente não era uma opção.
—Já te falei, tia, estava com dor de estômago e a diretora me liberou porque já sou maior de idade, mentiu, mas a mentira pesava em sua língua.
—Ter dezoito anos não te dá carta branca para fazer o que quiser, Leonardo, principalmente dormir na casa de um estranho, a tia retrucou, sua voz firme.
Bryana e Cody, assistiam à discussão com um sorriso irônico nos lábios. Leo sentiu a raiva borbulhando dentro de si. Eles nunca o defenderam.
— Ele só me ajudou, tia. A Shion fez um chá para minha dor de estômago e eu acabei adormecendo,explicou, tentando soar sincero. Mas a tia não parecia convencida.
—Foi aquele cara que quebrou o pulso do Daryl Markle?, provocou Bryana, Como ele poderia explicar os yokais para sua família?

Léo inspirou profundamente, o ar entrando em seus pulmões como um folego. Tentou manter a calma, mas a raiva borbulhava dentro dele. Olhou para a tia, seus olhos fixos nos dele, e em seguida para os primos, que observavam a cena com curiosidade mal disfarçada

— Não foi assim, tia. Daryl foi um babaca... _ Sua voz hesitou, buscando as palavras certas para não deixar espaço para mais perguntas.

—Você vai ficar de castigo! Sem celular, sem laptop, e nunca mais falar com aquele rapaz de novo', a tia decretou, sua voz firme e inabalável. A Adaline disse que ele quase incendiou o prédio.'

léo não conseguia acreditar no que estava ouvindo. _A senhora vai me punir e vai acreditar na Adaline? Naquela vizinha intrometida que todo mundo odeia? Vocês duas estavam brigando esses dias!

—E melhor você ir para o seu quarto agora!, gritou Mandy, com um tom de voz superior. Léo cerrou os punhos, a raiva pulsando em suas veias. Ele sabia que não adiantava discutir, então se virou e saiu, batendo a porta com força.

***

Leo, exausto, afundava-se nas cobertas, os olhos fixos no teto. Refletindo sobre a loucura que esta sua a vida, num dia era apenas um jovem comum e no outro lidando com um mundo sobrenatural

Nesse instante, a tranquilidade da noite foi interrompida por um estrondo. Yusuke, surgiu pela janela, pairando sobre a lua crescente.

— Mas que diabos você está fazendo aqui? – exclamou Leo, com um toque de irritação. – Minha tia pode entrar a qualquer momento!

Yusuke pousou no chão, a expressão serena. – Eu que deveria te perguntar por que ainda mantém a janela aberta depois de tudo o que aconteceu? Um ataque de rokurokubi não te ensinou a ser mais cauteloso?

—Eu não sei, Yusuke. Minha memória foi apagada e só ontem comecei a lembrar de tudo. É como se eu estivesse vivendo um pesadelo eterno.

Yusuke o observou por um momento, como se estivesse tentando decifrar seus pensamentos. Em seguida, retirou uma mochila das costas e a jogou na cama.

— Eu trouxe alguns amuletos e armas para sua proteção? disse o tatuador enquanto jogada os objetos na cama de Leo.

— Trouxe algumas coisas que podem te ajudar. – Disse, enquanto retirava diversos objetos: uma vela preta , um pequeno sino de bronze e um punhal com uma pedra incrustada. – São para te proteger.

Léo olhou para os objetos, cada um carregando um mistério e uma promessa de proteção. Ele se sentia como um personagem de um filme de fantasia, mas a realidade era ainda mais estranha e perigosa.

—E agora, o que eu faço com tudo isso? — perguntou, a insegurança transparecendo em sua vo

Yusuke se aproximou da cama, pegando a vela preta e acendendo-a com um movimento ágil. A chama tremulante iluminou o quarto, projetando sombras nas paredes.

—Primeiro, a vela. Ela criará um campo de proteção, deixe-a sempre acessa.O sino detecta presença de yokais. O som dele é capaz de repelir os mais fracos.E o punhal... — ele fez uma pausa, a expressão ficando séria — você deve usá-lo apenas em última instância. Ele é para defesa, e sua lâmina é feita de um metal que pode ferir seres sobrenaturais.

Leo assentiu, tentando absorver tudo. Sua mente ainda estava confusa com as revelações sobre seu papel nesse mundo desconhecido. Ele pensou em suas recentes interações com Yusuke e seus amigos, a sensação de estar cada vez mais preso em um destino que ele não entendia.

Yusuke se inclinou, sua voz rouca e suave como um sussurro. _Não se preocupe, estou aqui para te guiar em cada passo. Leo, hipnotizado pelos olhos intensos do tatuador, sentiu um calor escaldante subir pelo corpo. Os dedos de Yusuke traçaram um caminho lento e sensual por seu rosto, a pele arrepiando a cada toque. Inconscientemente, Leo se aproximou, buscando a proximidade daquele corpo quente. A respiração entrecortada de Yusuke acariciava seu rosto, e em um movimento irresistível, os lábios se encontraram em um beijo profundo e intenso. O mundo se resumia naquele momento, no sabor da pele de Yusuke e na explosão de sensações que o invadia.