Meu amor veste Dior.
25 Um Dia Após o Outro
Notas iniciais
Se tinha algo que Jane nunca gostara, desde criança, era de hospitais; a melancolia que o local trazia deixava a mulher sufocada. Ali se encontrava realidade duras para alguns — ou para a grande maioria — e as expectativas de sair daquele local com vida, para muitos, ainda era grande. O branco das paredes não lhe remetia à paz, mas sim a agonia de espírito, ali não era um ambiente onde você dava risadas e brincava com a sorte, ali era o local crucial da vida: ou você permanecia ali vivo e saia pelas portas da frente com vida, ou você entrava ali quase vivo, e pela infelicidade da vida, saia morto e quem sofria eram os que ficavam, e as expectativas deles eram frustrantes, e a pergunta que todos fazem quando às expectativas se esvaem: "Por quê?"
Maura havia acabado de sair do quarto da morena, ela tinha sorte de trabalhar no mesmo hospital aonde Jane estava, e por isso, escolheu trabalhar. Seu turno começaria em algumas horas, e assim ela despediu-se da morena, prometendo que logo voltaria para vê-la. Jane não queria ficar dentro daquele quarto todo branco lhe sufocando a alma, ela estava bem, somente as dores musculares que a incomoda, mas nada que ela pudesse suportar. Parece que a vida está fazendo um teste de sobrevivência comigo — pensava enquanto dirigia-se ao corredor. Andava arrastando o soro consigo, não sabia para onde ir, aquele local além de sufocante era imenso, mas mesmo assim continuou andando, passou por várias alas, até chegar na ala pediátrica. Sorriu e lembrou do seu sobrinho TJ, estava com saudades do menino que já estava bem grande. Aproximou-se do vidro e ficou olhando os bebês que estavam na encubadora, era a área dos recém nascidos, não podia entrar ali, mas ficou admirando cada bebê ali. Indefesos — pensara. Sentiu algo dentro de si que nunca pensou que podia sentir; não que ela não gostasse de crianças, ela gostava só preferia não te muito contato com elas. Estava tão centrada nas crianças a sua frente que só despertou quando sentiu algo trombando em si e caindo no chão em seguida.
— MATHEW!
— Ai! Desculpa dona, eu não tinha visto você aí. — disse o menino de cabelos pretos bagunçados, ele sorriu para Jane, que o encarava, ele não tinha o dentinho da frente pois havia caído.
— Hey, garotão, você está bem? — Jane segurou o menino e levantou-o. — Por que estava correndo?
— Senhorita Rizzoli, perdoe-me. Mathew fugiu da vacina. Meu nome é Mila, sou a assistente social — estendeu a mão para cumprimentar a morena, que prontamente respondeu ao gesto.
— Eles querem me furar dona, você já viu o tamanho daquele negocio? É enorme. E dói. Não quero ir.
— Eu também fugia das vacinas, Mathew — riu — e pode me chamar de Jane. Você tem quantos anos, garotão? — Ele mostrou os dedinhos dizendo ter seis anos. — Qual é a vacina que ele tem que tomar, Mila?
— Hum, pelo que eu sei é contra o sarampo e a catapora. Estamos tendo surtos de catapora e sarampo, e todas as crianças dessa faixa etária tem que tomar. Seus amiguinhos já tomaram a deles e ganharam um doce, Math, por que você não vem?
— Porque dói. Eu não quero tomar.
— E se eu for com você, Mathew? — o menino olhou para a morena — prometo que lhe darei um presente se você tomar a vacina e mostrar pra mim que é muito forte e corajoso.
— Mas...
— Vamos, Math... A senhorita Rizzoli pode ir com você.
— Mesmo, tia?
— Sim, senhor.
Então o menino segurou na mão de Jane e ela os seguiram até a sala da vacina. Jane sentiu o menino hesitar por uns segundos, mas segurou mais forte em sua mão para confortar-lhe. Abaixou-se à altura dele
— Prometo que não sairei do seu lado enquanto não terminar a vacina, nós vamos conversar de tudo o que você quiser, ok?
— Ok.
A enfermeira pegou o algodão, e baixou um pouco a calça que o menino usava para poder limpar com o álcool. Jane perguntou para o rapazinho se ele gostava de desenhos animados ou de desenhos de heróis como o Super-Homem.
— Eu gosto, mas eu prefiro a Mulher Maravilha e a Super Girl. Você já assistiu a Super Girl, Jane? Ela é muito gata. Assisto toda semana na tv la no orfanato. Meus amigos e eu gostamos demais.
— Você gosta da Super Girl? Eu nunca assisti, será que um dia você pode assistir comigo?
— Claro, Jane. Vou te mostrar os melhores seriados pra você assistir. Eu não gosto muito dos outros personagem como o Capitão América, é muito chato, mas a Super Girl é demais. Eu quero assistir a Mulher Maravilha no cinema, mas a tia disse que não vai poder nos levar porque somos em muitos — Fez uma cara de triste, que esmagou o coração de Jane.
— Prontinho, Mathew!
— Já? Uau. Que rápido. Viu, Jane? Nem doeu.
— E você nem chorou. Estou orgulhosa de você, garotão. Olha só, eu não posso sair desse hospital hoje...
— Por que?
— Porque eu tenho que ficar aqui, os médicos mandaram, mas se eu ficar boa igual a você, eu prometo que eu vou aonde você mora e te levarei um presente, você confia em mim?
— Sim, mas...
— Mas...?
— Eu tenho os meus amigos, eles também irão querer ganhar presentes, fica muito chato se eu ganhar e eles não, eu não quero que seja assim..
Mila e a enfermeira olhava admirada para o entrosamento dos dois, e eles haviam se conhecido em poucas horas.
— Tudo bem, eu vou levar presentes para todos os seus amigos.
— Mesmo? Você não tá brincando né, Jane?
Ela riu — Claro que não, amigão. Eu vou levar presentes para os seus amigos, e para as suas amigas também, o que você acha?
— Eu acho que é o certo. Te espero lá, não demora. Virou-se para Mila — Viu, tia, como a Jane é legal? Muita sorte eu ter esbarrado nela.
— Obrigada, Jane. Aqui está o nosso cartão, estamos esperando ansiosamente por você, obrigada de novo — Deu um abraço na morena e esperou que Math fizesse o mesmo. O menino tratou-se de pendurar no pescoço da morena, e lhe deu um beijo no rosto.
— Eu gostei de você, Jane. Tchau, te espero lá, de novo, não demora.
O menino pegou a mão de Mila, e logo saíram em direção à saída.
***
Jane foi mais uma vez para a ala dos recém nascidos e dessa vez havia uma médica e uma enfermeira. Ela queria olhar de perto os bebês, sentir aquela energia boa que eles sempre traziam, alheios ao mal do mundo, alheios a tudo o que é ruim. Não percebeu quando a doutora ficou lado a lado, só quando a mulher começou a falar.
— Lindos, não? Uma pena que nem todos têm um lar para ir...
— Sinto muito..
— O bom é que os pais não os colocaram em uma lata de lixo, deixaram aqui no hospital.
— Por que?
— Nem todos querem ter filhos, ou nem todos estão dispostos a criá-los. Se eles os deixaram aqui, foi para que eles tivessem a melhor chance da vida deles. Quem entrar?
— Oh, não doutora....?
— Elliot.
— Doutora Elliot. Eu prefiro ficar por aqui, outro dia eu venho, vou ficar nesse hospital por alguns dias, e não quero aproximar-me deles, pois essas roupas não é muito convencional — sorriu. — preciso voltar, já estou há muito tempo fora do quarto, vão achar que eu fugi. Até mais doutora Elliot. Prazer conhecê-la.
***
Jane sentia-se estranhamente bem, o pequeno Mathew não lhe saía da mente. Garoto espontâneo, inteligente e altruísta. Mais do que nunca Jane queria sair daquele hospital e cumprir a promessa que fizera ao pequeno, mas tudo dependia dos médicos.
— Grande bosta!
— Falando sozinha, Jane?
— Doutor... Me tira daqui, eu já estou melhor.
— Vamos fazer os últimos exames, pelo que da perceber, você caminhou o hospital todo hoje e as dores?
— As dores incomodam, mas nada que me impeça de viver fora daqui, sabe?
— O que vai fazer quando sair daqui?
— Com certeza comer comida de verdade.
***
Já era noite quando o médico apareceu novamente no quarto de Jane, dizendo que ela teria no dia seguinte, ao menos uma notícia agradável — pensou. Estava deitada em sua cama, olhando algum canal de esporte na TV, quando Maura entrou.
— Oi, amor. — Jane olhou para ela e seu sorriso foi enorme, sentiu o coração aquecer, estava com saudades daquela mulher, queria contar para ela o que havia feito naquele dia, e que graças a Deus não precisaria ficar mais nenhum dia naquele local.
— Hey, doutora, deite aqui.
— Por que essa alegria toda, Jane? — Maura deitou-se ao seu lado, de frente para a morena, esta passou o braço ao redor da cintura da loira, deixando seus corpos muito próximos, dando um ar de romance às duas.
— Conheci alguém aqui no hospital.
— Hum, quem?
— Eu estava andando pelos corredores, até que me deparei na ala infantil, eu estava olhando os bebês, através da janela, quando eu senti alguém esbarrando em mim e caindo, até então, eu vi uma mulher, chamada Mila, se apresentou como assistente social, e depois eu o vi. Ele é lindo, sabe? Tem seis anos, o nome dele é Mathew...
— Por que uma criança esbarrou em você na ala infantil, Jane?
— Porque ele tava fugindo, não queria tomar injeção. Vacina. Então eu conversei com ele e o levei para la, juntamente com Mila. Conversei com ele, e ele é inteligente, carismático e altruísta. Eu disse que levaria um presente pra ele assim que saísse daqui...
— Que graça — Maura sorriu — Quero conhecê-lo também.
— E vamos, mas antes teremos que comprar muitos presentes...
— Por que?
— Porque ele disse que os amiguinhos dele iam ficar chateados se ele ganhasse presente e os demais não, e disse que não queria que fosse assim, queria que todos ganhassem presentes, então eu disse que levaria presentes para todos.
Maura sorriu mais ainda, a empolgação na voz de Jane era evidente, a médica mais do que tudo queria ir com a sua mulher para este evento solidário. Queria conhecer as crianças do orfanato e conhecer Mathew, a criança que havia encantado sua noiva.
— Eu te amo, Jane.
— Eu te amo, Maur.
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