Meu Livro Preferido é o Pequeno Príncipe
2 Capítulo 2
– O que estamos fazendo aqui? – Laura perguntou, enquanto mexia distraidamente em seu Iphone.
– Você está aqui apenas para tornar minha vida um inferno. – Derek respondeu – Eu estou aqui para visitar uma pessoa.
– A cada dia que passo tenho certeza que você foi adotado. – ela implicou – Nenhum Hale é tão azedo e mal humorado feito você.
– Não sou mal humorado, só tenho um humor sutil. – ele rebateu e virou-se para a recepção onde sorriu para a loira que estava observando a discussão dos dois irmãos com o maior interesse – Desculpe, preciso ver uma pessoa. Um rapaz que deu entrada ontem.
– Qual o nome do paciente, senhor?
– O nome do paciente?
– Sim, o nome do paciente que o senhor quer visitar?
– Ah... – Derek franziu a testa tentando lembrar o nome que a enfermeira falou – Stalin... Stoll... Stiles! É isso, Stiles...
– Oh, o filho do xerife. – a recepcionista informou – O senhor é parente?
– Não.
– Sinto dizer, mas apenas parentes podem visitar os pacientes.
– Mas eu só preciso saber notícias dele, eu o trouxe ontem e...
– Normas do hospital, senhor. – a recepcionista virou os olhos para o computador e Derek pareceu confuso e ofendido.
– Com licença! – Laura empurrou Derek para o lado e sorriu de um jeito quase predador para a mulher – Acredito que você não esteja compreendendo a situação aqui. Meu irmão aqui foi quem salvou o rapaz e ele só quer se certificar que o garoto está bem. Acredito que, neste caso, ele está mais do que autorizado para visita-lo. Mas se você preferir fazer isso do modo difícil, posso ligar agora para minha mãe, você sabe, a alfa Hale.
Derek simplesmente odiava usar a “carta alfa” daquele jeito. Ele sabia que citar sua mãe, a única lobisomem alfa na cidade, promotora de justiça, respeitável membro do conselho municipal, era sinônimo de portas abertas em qualquer lugar. Por isso mesmo ele se recusava a abusar desse tipo de poder. No entanto, naquele momento, ele seria capaz de beijar Laura por ter se lembrado disso, porque a recepcionista arregalou os olhos e imediatamente indicou o quarto em que o rapaz estava.
O lobisomem parou na porta do quarto e bateu de leve, ouvindo uma voz feminina mandar entrar. Stiles estava com a aparência melhor, tendo o rosto mais corado, debaixo de alguns cobertores, apesar do pulso imobilizado e da expressão confusa em seu rosto encarando o visitante.
– Ah... Oi! – Derek falou, parecendo meio tímido – Só passei pra... Bom... Saber se você não perdeu nenhum dedo. Por causa da hipotermia, quero dizer.
A moça que estava em pé ao lado da cama de Stiles ergueu uma sobrancelha e parecia divertida com o embaraço de Derek.
Stiles ergueu uma das mãos e balançou os dedos, dizendo:
– Não, todos os meus dedos continuam no mesmo lugar.
– Vou aproveitar que você tem visita e correr na cafeteria, ok? Vai sobreviver sem mim? – a moça perguntou e Derek notou o sorriso carinhoso que Stiles deu a ela.
– Nunca! Posso aguentar alguns minutos, mas você sabe que é impossível viver sem a sua presença.
Ela riu pra ele, deu um beijo em sua bochecha e jogou os cabelos ruivos para trás dos ombros antes de passar por Derek e Laura e sair do quarto.
Os três ficaram em silêncio, até que Laura andou para frente e sentou na cadeira perto da janela, sorrindo para o filho do xerife.
– Então, Stiles, sou Laura, irmã do Derek aqui. Soube que você levou um tombo considerável.
– Foi um tombo épico! – o rapaz gracejou – Acho que desci uns dez metros rolando até o riacho.
– Treze. – Derek corrigiu – São treze metros da trilha até ribeirão.
O rapaz ergueu as sobrancelhas, balançou a cabeça e comentou:
– Uau! Será que posso usar isso como talento especial no concurso? Habilidade de rolar morro abaixo feito uma jaca?
– Aposto que se o concurso tivesse mais habilidades como essa, seria muito mais divertido assistir. – Laura respondeu com uma risada – Acho que eu preferia mil vezes ver o Der rolando pela ribanceira do que usando uma camiseta molhada.
Derek rosnou para Laura que brilhou os olhos dourados de volta para ele e sorriu divertida por conseguir irritar o irmão.
– Você vai estar no concurso este ano? – Derek perguntou, parecendo interessado e ganhando uma levantada de sobrancelha de Laura.
– Sei que é ridículo... – Stiles começou a responder – Na verdade, eu sou ridículo para estar nesse concurso. Mas algum imbecil achou que colocar o concurso como obrigatoriedade para os estudantes do Ensino Médio era uma boa ideia, então, sim, vou estar no concurso. Pelo menos você vai ter do que rir, Laura. Aposto que eu numa camiseta molhada, tropeçando na toalha vai garantir a diversão de muita gente.
Apesar do sorriso no rosto, era claro o desconforto do rapaz com o fato de participar do concurso. Sua angústia, acompanhada da sensação de frustração, era tão forte, que ambos os lobisomens poderiam sentir o cheiro de miséria que ele exalava.
– Só espero que as pessoas estejam distraídas demais com o six pack do seu irmão – Stiles continuou a falar para Laura e apontou para Derek – para reparar em mim de qualquer jeito.
– Do que está falando? – Laura balançou a cabeça, confusa – Derek não vai participar este ano.
Stiles arregalou os olhos e sentou-se na cama, encarando o lobisomem, esperando notar algum traço de piada de mau gosto.
– Não? Por quê? Você iria ganhar de qualquer jeito... Nunca teve um tri campeão neste concurso!
Mas antes que Derek pudesse abrir a boca, Laura respondeu por ele:
– Derek tem essa teoria besta que existem coisas mais importantes do que homens musculosos desfilando de toalha.
– Laura! – ele rosnou mais uma vez, revirando os olhos e se explicando para o rapaz – É só que cansei disso. Estou quase terminando a faculdade, já consegui ingressar no mestrado e quero trabalhar em algo que não leve em consideração a minha aparência. Eu tenho cérebro, afinal de contas!
– Você fala isso pra mim? – Stiles se exaltou por ter finalmente encontrado alguém que pensava como ele – Tudo o que eu tenho é um cérebro e ninguém dá a mínima importância pra isso.
Derek ia retrucar o argumento do rapaz, que parecia pensar que não tinha chances no concurso, mas a porta do quarto se abriu e a ruiva entrou novamente, indo se sentar ao lado de Stiles na cama.
– Não vai me apresentar a seus amigos? – ela perguntou com um sorriso afiado.
– Como se eu precisasse... – Stiles murmurou.
– Tem razão. Você é Derek Hale, o favorito este ano do concurso Mister Beacon Hills, bi campeão, sexto Hale a levar o troféu para casa. E você é Laura Hale, próxima alfa da linhagem, vencedora da Olimpíada de Física quando estava no primeiro ano, da de Química no segundo, oradora da turma e formada em Engenharia Mecânica pela Universidade de Nova York.
– Você decorou o anuário do colégio? – Laura arregalou os olhos.
– Não! Só sei tudo a seu respeito porque precisava saber quem eu iria desbancar ao vencer a Olimpíada de Física e de Matemática nos últimos três anos e ser aceita no MIT antes de concluir o Ensino Médio.
– Seu nome é...? – Laura perguntou, sentindo-se curiosa com a garota tão segura de si.
– Lydia Martin. – ela respondeu, levando a mão para um aperto formal.
– Você não é humana. – Derek comentou.
– Banshee. – ela respondeu, com um sorriso mais calmo.
– Uma pena que banshees são imunes à mordida. Você daria uma excelente alfa. – Laura comentou, medindo a garota da cabeça aos pés.
Stiles já ia falar alguma coisa, quando a porta do quarto se abriu e uma enfermeira entrou, informando que ele teria que tomar mais algumas medicações e descansar um pouco. Todos se despediram e Lydia prometeu encontra-lo em casa, no dia seguinte, para levar sua lição.
De fato, Lydia cumpriu com o que prometeu e manteve Stiles atualizado de todas as matérias da escola e de todas as fofocas também. O fato dele passar uma semana afastado das aulas só aumentou os rumores sobre seu apavoramento com o concurso.
– Ouvi hoje no banheiro feminino que você desmaiou e bateu a cabeça numa pedra quando viu Derek Hale treinando nu na floresta.
– Isso é uma grande mentira. Ok, Derek Hale nu poderia me fazer tropeçar, mas desmaiar nunca!
– Não ajudou o fato de que ele levou você para o hospital e ainda te carregando no colo.
– Como essas pessoas sabem que Derek me carregou no colo?
– A mãe da Rebecca, a garota responsável pelo jornal da escola, é enfermeira e estava de plantão quando você chegou.
Stiles já ia argumentar com Lydia quando a ruiva franziu as sobrancelhas e se levantou da cama e disse:
– Os rumores estão prestes a aumentar. Você tem visitas.
– O quê? Do que está... – ele foi interrompido pelo som da campainha tocando e Lydia lhe sorrindo de um jeito arrogante – Odeio vocês com genes sobrenaturais!
Stiles ouviu o pai abrir a porta e o som abafado de conversas. Logo passos indicavam que mais de uma pessoa subia as escadas. Duas batidas na porta e seu pai entrou:
– Stiles, Derek Hale está aqui para lhe ver. – o xerife parecia confuso, mas deu passagem para que o lobisomem entrasse no quarto.
O silêncio que se seguiu foi, no mínimo, constrangedor. Stiles encarava Derek tentando entender o que ele fazia ali, Lydia olhava de Derek para Stiles como se avaliasse a situação e o xerife olhava para o relógio, preocupado com a hora que deveria sair para seu turno.
– Ok! – Stiles foi quem falou – Pai, seu turno começa em 15 minutos e você tem que correr. Pode ir tranquilo porque Derek não está aqui para rasgar minha garganta com os dentes. Ele teve a chance de fazer isso no começo da semana e preferiu me levar para o hospital, então podemos coloca-lo na lista de lobisomens inofensivos. E se ele tentar alguma coisa, Lydia está aqui e ela é capaz de gritar até que os ouvidos dele comecem a sangrar. Acredite, Derek, eu já vi ela fazer isso com o namorado dela, Jackson, quando ele esqueceu do Dia dos Namorados. Não foi agradável.
– Tudo bem, filho. – o xerife respondeu com um suspiro aliviado enquanto Derek olhava receoso para a ruiva – Vou sair agora. Tem comida na geladeira e qualquer coisa, você liga direto para mim ou para Melissa. Certo?
– Certo.
– Tchau pessoal. Amo você, garoto!
Eles ouviram o pai de Stiles descer as escadas, sair de casa e ligar o carro. E foi a vez de Lydia tomar a palavra:
– Sua preocupação é comovente, Derek. Mas muito suspeita.
– Suspeita?
– Sim, suspeita. Stiles aparece no hospital, inconsciente, diz que caiu e rolou para sua propriedade. Agora quem me garante que você não o atacou?
– Lydia? – Stiles sentou-se na cama, assustado com as colocações da amiga – Eu lhe disse que caí. Tropecei num galho e perdi o equilíbrio.
– Querido, até onde sei, lobisomens podem remover e alterar memórias apenas usando suas garras. – a banshee argumentou.
– É preciso um alfa experiente para fazer isso. Eu sou apenas um beta e nem sou o segundo no comando. Quem vai herdar a autoridade alfa do meu pack é minha irmã, Laura. – Derek se defendeu – E a troco de quê eu faria isso com Stiles?
– Para eliminar um concorrente e garantir sua terceira vitória no concurso.
– Mas eu não vou participar dessa porcaria de concurso. Já falei isso para Stiles quando o vi no hospital.
– Não minta para mim, lobo! Eu vi seu nome nos papéis na sala de Moreell esta semana.
Stiles arregalou os olhos, chocado e ofendido com Derek por ter mentido para ele.
– Sim, meu nome estava lá.
– Você mentiu? – o filho do xerife perguntou em voz baixa.
Não sabia exatamente por que se sentia tão machucado com a mentira de Derek, ele nem conhecia o lobisomem, afinal. Mas ver Lydia jogando em sua cara que ele havia sido enganado por ele provocava-lhe uma espécie de dor física e sua expressão parecia refletir no lobisomem porque ele também franzia as sobrancelhas e balançava a cabeça, num gesto que parecia contrariado.
– Stiles, você precisa acreditar em mim.
– E por que ele acreditaria em você? – Lydia instigou – Eu vi os papéis com seu nome, eu sou amiga dele desde a infância e você é um concorrente e um completo desconhecido. Tudo o que sabemos sobre você são as medidas do seu bíceps e mais nada.
– Ele tem que acreditar em mim porque você realmente viu meu nome nos papéis, mas não leu direito. Eu mandei uma carta de recusa, abrindo mão oficialmente de participar do concurso, mas tive que aceitar participar da entrega do prêmio. Os papéis com a minha assinatura apenas confirmam essa participação.
Nem Stiles e nem Lydia pareciam dispostos a acreditar.
– Se duvida tanto assim, olhe o site do concurso. – seu tom de voz saiu agudo, quase uma súplica.
Lydia abriu o notebook de Stiles e logo acessou a página oficial do concurso que trazia todo o histórico da competição, o hall da fama e fotos dos momentos mais marcantes dos últimos cinco concursos. E a notícia destaque da página inicial endossava as palavras de Derek.
– Bem, parece que é verdade. – a ruiva fechou o notebook e cruzou os braços – Mas isso ainda não explica a preocupação.
– Eu vi Stiles machucado, delirando, com sinais claros de hipotermia quase morrendo dentro do meu carro. Preciso de mais algum motivo para me preocupar?
– Sim. – Lydia não se deu por vencida – Uma pessoa normal iria ligar, mandar flores, balões coloridos. Um cartão. Não vir pessoalmente para se checar de seu estado de saúde.
Derek abriu a boca, sem saber o que responder e olhou para Stiles como se pedisse ajuda.
– Também fiquei curioso agora. Ninguém, além de Lydia e Scott, já me visitou antes quando fiquei doente. E olha que eu já quebrei o braço duas vezes, tive cólicas renais e crises de pânico que algumas vezes me mandaram para o hospital. O que você está fazendo aqui? – Stiles pediu, não do jeito agressivo de Lydia, mas seguido de um gemido cansado ao recostar na cabeceira da cama.
O lobisomem tomou a liberdade de se aproximar e sentou-se aos pés de Stiles, cruzando os dedos das mãos e olhando ao redor, escolhendo as palavras. Por fim, encarou os próprios pés e respondeu:
– Não sei... Acho que queria conversar.
– Conversar? – Stiles indagou, de olhos fechados, sem perceber que agora Derek olhava diretamente para seu pescoço.
– Sim. Com alguém que enxerga o concurso assim como eu. Como uma coisa idiota e desnecessária.
Stiles sorriu.
– Você ganhou duas vezes. E só não vai ganhar a terceira porque desistiu de participar. Não acredito que pense que a competição é uma bobagem. – o rapaz argumentou.
– Acredite em mim quando eu afirmo que acho uma palhaçada. Exibir os corpos de adolescentes como se isso pudesse resolver o problema da falta de água e comida nas nações africanas ou controlar o efeito estuda e impedir as geleiras de derreter. Os organizadores nos fazem subir lá e desfilar acenando para a plateia. Daqui a pouco vão querer que os rapazes digam que seu livro preferido é O Pequeno Príncipe e que o sonho de cada um é a Paz Mundial.
A risada de Stiles foi alta.
– Sim, e vamos descobrir que um dos participantes é um agente especial infiltrado porque o vencedor do concurso de, sei lá, 12 anos atrás surtou e quer matar todos os concorrentes. – Stiles completou.
– O vencedor do concurso de 12 anos atrás foi meu tio Peter. – Derek comentou e vendo que Stiles ficou sem graça com o comentário feito antes, ele emendou – Não duvido que ele seria capaz de uma trama dessas.
Os dois então sorriram um para o outro e ouviram o suspiro entediado de Lydia:
– Esse flerte está realmente fofo, mas no momento temos que nos concentrar em nosso problema, Stiles.
– Problema?
– Sim, Stiles tem sido...
– Lydia, não! – o rapaz cortou a amiga antes que ela concluísse o raciocínio.
– Mas, Stiles...
– Eu disse não!
– O que foi? – Derek olhava de um para o outro – Posso ajudar de alguma forma?
– Derek, você é muito legal, agradeço a intenção, mas é um problema particular e vou dar um jeito de resolver isso sozinho.
Derek franziu as sobrancelhas, assumindo uma expressão mal humorada, e levantou da cama, ajeitando a jaqueta de couro que usava.
– Ok, então. Se prefere assim...
– Eu prefiro.
– Bom, acho que está na minha hora. Fico feliz em ver que está se recuperando. Quando volta para a escola?
– Na próxima segunda.
Ele balançou a cabeça e deu alguns passos em direção à porta, virando-se antes de sair:
– Posso passar novamente aqui? Pra...
– Conversar? – Lydia completou com um sorriso cínico.
– É... conversar. – ele deu de ombros.
Stiles apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça e Derek saiu, sem se despedir adequadamente.
Quando Lydia confirmou, olhando pela janela, que o lobisomem já havia se afastado da casa, tomou o lugar que ele ocupava aos pés da cama de Stiles e comentou:
– Acho que ele gosta de você! – Stiles apenas olhou para ela que indagou – O quê? Por que está me olhando desse jeito?
– Você enlouqueceu. Nunca, veja bem, nunca um cara como Derek Hale se interessaria por mim.
– Você se subestima demais.
– Lydia, nós moramos na capital nacional da beleza e até a última vez que me olhei no espelho ainda não me encaixava no padrão local. Até aquele rapaz da Indonésia que veio fazer intercâmbio este ano é mais bonito que eu. Será que a gente pode mudar de assunto e terminar a lição de física?
A banshee concordou e eles passaram as próximas duas horas revendo as matérias dadas na escola durante a semana. Depois que terminaram, Lydia reuniu seu material e deu um beijo na testa do amigo, dizendo antes de sair:
– Ainda acho que ele gosta de você.
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