Meu Livro Preferido é o Pequeno Príncipe
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Stiles passou o fim de semana com as palavras da amiga na cabeça. Não ajudava muito que Derek agora vinha todos os dias por pelo menos meia hora para conversarem um pouco. Eles trocaram números de telefone e não eram raras as ocasiões que Derek lhe enviava alguma mensagem.
O humor refinado de Stiles arrancava risadas involuntárias do lobisomem e até mesmo sua família começou a reparar a mudança.
– Vai ver o filho do xerife hoje? – Talia Hale, mãe de Derek, perguntou após o almoço de domingo.
– Vou... – ele respondeu meio inseguro, com medo do que sua mãe diria a seguir.
Os Hale tinham uma espécie de política interna de não se envolverem com outras espécies. Embora o pai de Derek fosse humano, todos evitavam ao máximo se envolverem com alguém que não fosse um lobisomem. “Medidas de segurança, para eles e para nós” eram as palavras de Talia.
– Ele está bem?
– Sim. Amanhã já volta para a escola.
– Ótimo! – ela deu um tapinha em suas costas – Se vir o xerife, mande-lhe meus cumprimentos, certo?
Ela já saía da cozinha, quando Derek a chamou:
– Mãe, só isso?
– Só isso o quê?
– Não vai me dar nenhum sermão dos riscos que ele corre comigo por perto ou que eu corro por ele ser humano e o pai dele ter uma arma e ser treinado para conter qualquer tipo de criatura? Nada do tipo “tem certeza do que está fazendo, filho?” ou coisa parecida?
Talia encarou o filho com a expressão calma e voltou para a cozinha, sentando diante dele.
– Stiles não é Kate Argent, Derek.
O mais novo crispou os lábios ao ouvir o nome de sua parceira de dança. As duas vezes que Derek competiu no concurso de Mister Beacon Hills sua apresentação de dança foi feita com a ajuda de Kate, o que sua mãe desaprovava abertamente.
No primeiro ano eles dançaram um tango, o que Talia considerou sensual demais para um adolescente e no segundo ano a coisa toda piorou quando Kate trouxe um ritmo chamado bachata, que tinha uma conotação sexual mais forte ainda.
Sem contar o fato de que Kate era treinada desde criança para ser uma Carrasca: uma pessoa que trabalha para o governo ajudando nos interrogatórios que envolvessem criaturas sobrenaturais. Os métodos que eles utilizavam não eram nada ortodoxos e isso gerava desconfiança por parte de toda a comunidade sobrenatural.
– Não sei o que acontece entre vocês dois, o nível de amizade que tem com ele. Só gosto do xerife, acho que é um homem justo. Acredito que o filho dele também seja uma boa pessoa.
– Oh!
– Traga ele para jantar aqui qualquer dia. – ela sorri e Derek se sobressaltou.
– Ah... Não sei se ele iria aceitar. Quer dizer, não sei se somos amigos assim.
– Você passa mais tempo com ele do que com a gente. Não sabe se são amigos ainda? O que vai ser quando se tornarem amigos?
– Não é isso, mãe! É só que... – ele fez um gesto meio impaciente com uma das mãos – Me sinto a vontade perto dele.
– A vontade? Você não se sente a vontade perto da gente? – a mulher pressionou.
– Para de complicar, mãe! Você sabe que amo todos vocês. Mas parece que na casa dele eu consigo respirar melhor.
– Respirar melhor? Derek, isso é...
– Loucura, eu sei. Mas não dá pra explicar de outra forma. Parece que o cheiro lá... Não me sufoca, sabe? Deve ser por ter pouca gente, só ele e o pai. Não sei.
Talia suspirou, agora com um sorriso discreto. Linden, seu marido, entrava na cozinha naquele momento e ela correu os olhos de Derek para ele e novamente para o filho.
– Convide-o. E convide o xerife também. Tenho minhas dúvidas que eles não vão aceitar.
De fato, Stiles e seu pai apareceram para jantar na quarta-feira seguinte. Foi uma noite estranhamente agradável. Stiles e Peter se deram muito bem, trocando comentários sarcásticos enquanto discutiam sobre baseball. Logo Laura e Cora apareceram e o assunto mudou de esporte para cinema e não passou despercebido para toda família que Derek parecia menos azedo que de costume quando Stiles falava diretamente com ele.
– Obrigado pelo convite, Talia! – John agradeceu, quando ele e Stiles se despediam.
– Eu que agradeço a visita, John. Espero que voltem mais vezes. Só com Stiles aqui para Derek aceitar vir jantar no meio da semana. – ela brincou e ficou satisfeita ao perceber que tanto seu filho quanto o filho do xerife pareciam envergonhados com o comentário.
Depois do jantar, a aproximação da família Hale com os Stilinski aumentou consideravelmente. Cora, um ano mais nova que Stiles, agora o cumprimentava no corredor da escola e se sentava para almoçar com ele duas vezes na semana. Laura fez questão de ir com ele na maratona do Homem Aranha no cinema. Peter, depois de saber do interesse do menino por Antropologia Sobrenatural, começou a lhe enviar alguns e-books raros que tinha em seu computador.
Talia e John almoçavam juntos uma vez por semana, e o xerife ia com Linden jogar golf todas as quintas-feiras.
Enquanto isso Stiles e Derek continuavam os mesmos. Trocando mensagens, se encontrando algumas vezes para uma corrida no parque ou um sorvete no fim da tarde. O filho do xerife ajudava o lobisomem com as pesquisas para concluir alguns trabalhos da faculdade. Mas Derek sentia-se incomodado porque não via como retribuir essa ajuda até o dia em que chegou na casa do rapaz e o encontrou com o rosto machucado.
O lobisomem sentiu o sangue ferver e seus olhos piscaram amarelos no instante em que sentiu o cheiro de sangue ainda nas roupas que Stiles usava.
– O que foi isso? – ele perguntou, segurando-se para não envolver Stiles em seus braços como se isso pudesse protegê-lo do mundo.
– Nada. Machuquei no treino de lacrosse. – Stiles respondeu, tirando a camisa suja e pegando uma limpa no armário.
– Você está mentindo. Mesmo se eu não pudesse ouvir seus batimentos cardíacos ia saber que você está mentindo, porque semana passada você me disse que foi suspenso do treino por um mês depois de discutir com o treinador.
Stiles vestiu a roupa limpa e pegou a bolsa de gelo novamente para colocar sobre o rosto inchado.
– Melhor deixar isso quieto. Achei um artigo ótimo para sua tese e...
– Stiles, não vou deixar isso quieto!
– Então melhor você ir embora. – ele abriu a porta do quarto para o lobisomem sair, mas Derek o ignorou e sentou em sua cama.
– Por que não quer me contar o que aconteceu?
– Porque não vai adiantar nada! Você ficar sabendo o que eu passo todos os dias por causa desse maldito concurso não vai aliviar a minha vida. – a frustração dele era tanta que ele começou a gritar sem nem perceber que tinha levantado a voz – Todos os dias, desde o começo do ano, eu aguento a escola inteira rindo da minha cara, me apontando, me insultando por não ter a beleza dos outros garotos ou o talento deles para qualquer coisa que não seja intelectual.
– Stiles, eu não...
– Cala a boca! Você quer saber o que foi isso? Então fica quieto que agora eu vou te contar. Isso aqui foi a tentativa do imbecil do Harvey em “me ajudar”. Segundo ele, talvez quebrar todos os ossos da minha cara poderia me fazer ficar mais apresentável. E ninguém o impediu. Scott ia tentar, mas eu o empurrei. Ia acabar sobrando pra ele se tentasse fazer alguma coisa. Já apanhei assim umas oito vezes até agora. Já fui alvo de guerra de comida no refeitório. Já fui impedido de entrar no ginásio para não estragar a filmagem do treinamento dos concorrentes que é televisionada todos os anos. E adivinhe, fui suspenso depois disso porque segundo o treinador, eu faltei ao treino.
– O que os professores falam sobre isso? E seu pai? – Derek estava desorientado ouvindo aqueles relatos.
– Os professores fazem vista grossa. Nossa escola recebe uma verba considerável por causa do concurso e ter um escândalo envolvendo bullying justo no ano da competição não é o tipo de mídia que eles querem. E meu pai já tem problemas demais para ter que lidar com esse tipo de merda.
– Nós podemos falar com a minha mãe. Ela pode mover uma ação contra...
– Não! Derek, por favor. Deixa isso quieto. É só um ano. Ou melhor, só mais alguns meses. Depois tudo vai se acalmar, vou sair da escola, ir para a faculdade em qualquer lugar do país que valorize meu cérebro e pronto.
– Você sabe que não está sendo inteligente. Isso que estão fazendo com você é crime.
– Isso que estão fazendo comigo fazem todos os anos com algum infeliz que não tem o padrão de beleza que se considera adequado. E não só aqui, em Beacon Hills. Em muitos outros lugares isso também acontece. Agora, ou mudamos de assunto ou vou insistir para você ir embora.
O lobisomem encarou Stiles por alguns segundos e se levantou da cama e andou até onde ele estava, parando na frente da porta aberta. Por um segundo o filho do xerife sentiu o coração apertar achando que Derek realmente iria embora. No fundo, tudo o que Stiles não queria era ficar sozinho naquele momento.
Mas Derek não saiu do quarto. Ele apenas ergueu a mão e tocou os ferimentos de Stiles com delicadeza, usando seus dons para tirar um pouco da dor que o rapaz sentia. Com a outra mão, fez Stiles soltar a maçaneta da porta e entrelaçou seus dedos nos dele.
– Ok, não falo mais nisso. Mas também não quero falar sobre minha tese hoje. Tudo bem se a gente assistir Star Wars?
Eles assistiram filme, pediram pizza, comeram sorvete e riram bastante. Quando o xerife chegou em casa, horas mais tarde, Stiles dormia recostado no ombro de Derek.
– O que aconteceu com ele? – o mais velho sussurrou.
– Algum problema com lacrosse. – Derek respondeu, desviando os olhos do xerife para que ele não notasse a mentira – Ele já tomou uns analgésicos. Acho que por isso dormiu no meio do filme.
– Ele dormiu assistindo Star Wars? O que você deu pra ele tomar? Morfina? – o xerife brincou – Obrigado por cuidar dele esse tempo.
– Não foi nada.
O lobisomem ajeitou Stiles no sofá, cobrindo-o com a manta que ficava sobre o encosto e se despediu de John, dizendo que ligaria no dia seguinte para saber de Stiles.
No caminho de casa ele pensou que Stiles podia não querer tomar nenhuma atitude. Compreendia seus argumentos para não envolver seu pai na coisa toda. Mas isso não significava que ele mesmo não podia tomar alguma atitude.
Tirou o celular do bolso e ligou para a irmã mais nova.
– É bom ser importante, Der. Eu já estava quase dormindo.
– Você conhece um jogador do time de lacrosse chamado Harvey? Sabe me dizer onde ele mora?
Derek foi dormir mais tranquilo, sabendo que Harvey teria que ir a pé para a escola no dia seguinte, embora achasse que devia ter estraçalhado o imbecil e não apenas os pneus do carro dele.
Fale com o autor