Meu Livro Preferido é o Pequeno Príncipe
1 Capítulo 1
- Isso é injusto, ok? – ele falava olhando para os papéis a sua frente – Isso é injusto e eu não duvido que seja inconstitucional.
- O quê?
- Inconstitucional, Scott! Aquilo que vai contra a constituição. – Stiles explicou e deu um suspiro, chateado, virando-se para o pai – Certeza que não posso apelar para os direitos humanos aqui?
- Sinto muito, filho. – o xerife respondeu, uma expressão aborrecida – Mas você vai ter que dar o braço a torcer se quiser a carta de recomendação.
O rapaz deixou a testa cair sobre a mesa, esticando os braços para frente.
- Por que você e a mamãe não se mudaram pro Oregon? Pra Nova York? Ou pro Himalaia? O Himalaia ia ser bem legal, eu poderia raspar a cabeça e usar aqueles vestidos vermelhos que os monges usam e ninguém ia se importar com um estúpido concurso de beleza.
- Não é um estúpido concurso de beleza, Stiles. É um evento que faz parte da cultura e tradição de Beacon Hills. – Scott o corrigiu.
- Claro que você ia comprar essa besteira de tradição. Só porque você é um cara que mesmo tendo o queixo torto ainda conta com um sorriso de filhote abandonado e uma tatuagem no braço que lhe dá, como é mesmo o adjetivo que Morell usou? Ah é, lhe dá personalidade!
Stiles estava há dias remoendo a entrevista com a orientadora da Beacon Hills High School. Marin Morell ocupava o cargo há quinze anos e desde então era quem comandava o concurso que fez da pequena Beacon Hills a capital mundial da beleza masculina.
Pelo menos até Stiles entrar na escola.
Sua aparência nunca tinha sido um problema para ele, até que soube que participar do concurso promovido a cada quatro anos era fundamental caso ele quisesse concorrer a orador da turma e receber uma carta de recomendação para aplicação na faculdade.
Em momento nenhum ele teve a ilusão de ganhar aquele concurso. Aliás, ele achava impossível que qualquer pessoa pudesse bater o atual campeão: Derek Hale. O estudante de psicologia em Berkeley tinha levado dois títulos consecutivos. Aos 16 e aos 20 anos. Ele foi o mais novo estudante a ficar com a coroa, recebendo-a de seu tio, Peter Hale, que também havia vencido duas vezes. E agora, ele poderia ser o único cidadão de Beacon Hills a levar a coroa por três vezes, já que ainda não havia completado 25 anos, o que o tornava elegível segundo as normas do concurso.
Mas o que realmente começou a incomodar Stiles foi o assédio dos colegas. Nem mesmo Greenberg, com seus quilos a mais, óculos e algumas espinhas na cara era tão criticado quanto o filho do xerife.
Especialmente por Jackson. Aquele grande idiota fazia questão de dizer que Stiles ia ser alvo de chacota na cidade inteira quando chegasse a hora da prova em traje de banho. Mais tarde, quando dividiam o vestiário após a prática de lacrosse, Jackson mais uma vez iria perguntar se o talento oculto de Stiles era fazer cosplay de “ligue os pontos” com tantas pintas espalhadas pelo corpo.
Ele chegou a ser socado no armário da escola mais de uma vez, com a desculpa de que quem sabe um olho roxo poderia melhorar sua aparência.
O concurso era aberto para os rapazes com idade de 14 a 25 anos, mas todos os rapazes do Ensino Médio eram literalmente obrigados a competir, o que fez com que Stiles visitasse a orientadora para conseguir alguma brecha na lei que o livrasse de ser humilhado em rede nacional (porque é óbvio que o concurso era exibido pela TV).
- Stiles, infelizmente, não há nada que você possa fazer para ficar fora do concurso.
- Posso me transferir para outra cidade.
- As transferências em ano de concurso são proibidas. – ela o lembrou.
- Posso fazer uma cirurgia para mudança de sexo.
- As cirurgias em não-hermafroditas só são permitidas após os 21 anos e dois anos de terapia. Você ainda estaria obrigado a participar.
Ele coçou a cabeça, completamente frustrado.
- O que o incomoda tanto? – ela finalmente perguntou.
- Você quer a lista em ordem de importância ou alfabética? Olha só pra mim.
Eles passaram ainda meia hora discutindo o fato de Stiles não ter o padrão Beacon Hills de beleza. No fim, ele voltou para casa se sentindo a pior criatura da face da terra.
Agora estava em casa, ouvindo seu pai e seu melhor amigo tentarem massagear seu ego, minimizando os danos que o resto da escola causou em sua autoestima.
- Filho, se você pensar bem, são apenas oito dias de concurso. Logo passa, você pega seu diploma, vai para a faculdade e está livre disso para sempre.
- Fácil pra você falar, pai. Você ganhou no ano que participou. Ganhou a coroa e a mamãe. – ele se levantou – Desculpe, acho que preciso dar um tempo disso tudo!
Stiles saiu pela porta da cozinha e Scott correu atrás dele.
- Precisa de companhia? Podemos sair pra algum lugar, conseguir alguma bebida alcóolica e...
- Valeu, cara. Mas agora acho que só preciso ficar sozinho, ok?
O outro rapaz fez um careta, mas deu de ombros e se afastou. Era isso que Stiles mais amava no amigo, a sua capacidade de não forçar a barra em nenhum assunto.
Caminhou sem rumo, pegando a direção do parque municipal. Pensava o quanto era injusto viver num lugar onde ser inteligente não bastava. Estar numa equipe esportiva também não bastava. Ser um dos poucos alunos da escola que fazia quase todas as disciplinas de nível avançado, então, era quase considerado ridículo. Tudo aquilo no que ele se considerava bom era visto com maus olhos.
Nem mesmo para ter a sorte de nascer numa família sobrenatural e poder intimidar seus colegas ele teve. Scott foi mordido por um lobisomem aos 11 anos para se curar de uma insuficiência respiratória grave e depois disso ganhou massa muscular, velocidade, sentidos aguçados e força. Jackson era um kanima, um lagarto com o poder de paralisar quem ele quisesse com uma gosma que ele produzia (é claro que Stiles apanhou uma vez quando perguntou se era assim que ele conseguia dormir com as garotas, passando sua gosma paralisante no pênis). Isaac também era um lobisomem, Boyd era um metamorfo, Aidan e Ethan tinham o dom de se fundirem num único ser anormalmente grande. E Danny tinha covinhas. Sério, as covinhas de Danny venciam qualquer super poder que os outros colegas possuíam.
E Stiles era humano. Frágil, magrelo, indefeso. E, pelo visto, desastrado. Capaz de tropeçar nos próprios pés como ele parecia estar fazendo agora.
- Merda! – ele gritou, sentindo-se cair pela ribanceira.
O rapaz ainda tentou parar a queda, mas tudo o que conseguiu foi torcer o pulso e gritar mais ainda a medida que rolava em direção ao ribeirão que cortava uma área da floresta. Stiles caiu dentro da água e custou a se levantar. Quando conseguiu, saiu do outro lado da margem, praguejando de frio e dor.
Tentou arrancar o casaco xadrez, mas mover a mão era um sacrifício imenso e ele passou a andar o mais rápido que podia para chegar a auto estrada e conseguir alguma ajuda. Mas mal andou dez minutos ouviu um rosnado atrás de si.
- Pare aí mesmo! – o dono do rosnado falou e Stiles sentiu-se momentaneamente aliviado por saber que não se tratava de um animal selvagem. Era apenas um meio-animal selvagem.
Ele se virou e seu queixo se abriu. Derek Hale, o bi campeão do concurso de beleza de Beacon Hills estava na sua frente, a cara fechada, mãos no bolso da jaqueta de couro e os olhos brilhando azulados.
- Esta é uma propriedade privada. Invadir as terras de outro lobo é motivo suficiente para que eu possa rasgar sua garganta com os dentes.
- Não sou lobo. – Stiles apressou a dizer – Posso cheirar como um, mas porque meu melhor amigo é um lobisomem, mas eu sou totalmente inofensivo.
Derek franziu ainda mais a testa. Stiles sabia que ele estava tentando ouvir a mentira em seu coração.
- Não tinha intenção de invadir lugar nenhum. Apenas caí da ribanceira.
- Você está tremendo. – Derek constatou.
- Sim. Caí dentro do ribeirão. – Stiles rolou os olhos como se aquilo fosse óbvio – Acredite, posso ser idiota para um monte de coisas, mas não para nadar no meio do outono. Ainda mais num rio que corta as terras de um lobisomem.
- Levante suas mãos.
- O quê? Pra quê?
- Levante suas mãos. Você as está segurando. Não gosto desse gesto. Parece que está escondendo alguma coisa.
Respirando fundo, Stiles ergueu o braço sadio, mas quando foi erguer o braço machucado, sua expressão foi acompanhada de um gemido de dor. Não imaginava a força que seu pulso precisava fazer para sustentar a mão para cima.
- Você está com dor? – Derek parecia confuso e agora se aproximava do rapaz.
- Um pouco.
- Um pouco? Seus lábios estão arroxeados e a área abaixo dos seus olhos tem manchas verdes.
- Ok, estou com dor. Torci o pulso quando fingi ser uma avalanche descendo a ribanceira. Mas também estou com frio então, se me deixar ir sem rasgar nada do meu corpo, posso chegar em casa, tomar um banho quente, dois analgésicos e dormir o fim de semana inteiro.
Stiles encarou o lobisomem que agora estava perto o suficiente para que ele pudesse ver todos os tons de verde que formavam a cor única de seus olhos.
- Você não tem medo de mim? – Derek perguntou sem se conter, sentindo um rubor subir por suas orelhas.
- É claro que tenho. Você é um lobisomem, eu estou em suas terras. – ele deu de ombros – Mas convivo com isso todos os dias. Estudo com dois lobisomens, um kanima, um cara que eu juro que se transforma em um urso e...
- Não por isso. Não por eu ser um lobisomem.
- Por que mais eu teria medo de você?
As rugas na testa de Derek se suavizaram e ele esticou a mão para o pulso machucado de Stiles, sugando a dor que o rapaz sentia.
- Wow! Obrigado! – Stiles respirou aliviado, sem conseguir conter o sorriso.
- Melhor você tirar essa jaqueta antes que tenha uma hipotermia. Ela está encharcada. – o lobisomem sugeriu e Stiles finalmente conseguiu se livrar da blusa que havia ficado pesada com a água do ribeirão – Vista isso aqui.
Derek entregou sua jaqueta de couro, mas Stiles se recusou.
- Estou bem. Você já fez demais em não me rasgar em dois e depois essa coisa com a dor no braço...
- Não curei seu braço, apenas tirei a dor por um momento. Você ainda precisa ir a um hospital dar uma olhada nisso. – uma corrente de vento passou entre eles e Stiles sentiu seu queixo começar a tremer enquanto Derek contornou o rapaz e colocou a jaqueta sobre seus ombros dizendo – Acho que você não está em condições de recusar ajuda. Vem, eu te deixo em casa.
Stiles seguiu Derek, milagrosamente em silêncio até uma casa grande no meio da reserva florestal. Era a área que ele sabia pertencer a família Hale. Após quinze minutos de caminhada, ele avistou uma grande casa de dois andares e muitas janelas. A varanda praticamente circulava todo o imóvel e Stiles contou pelo menos dois balanços na parte da frente.
- É aqui que você mora? – o filho do xerife perguntou.
- Não, meus pais vivem aqui com meu tio Peter e minha irmã mais nova. Eu divido um apartamento com Laura no centro da cidade.
- Laura é sua namorada? – Stiles queria morder a própria língua pela indiscrição.
- Laura é minha irmã. – Derek revirou os olhos, como se aquilo fosse óbvio.
- Oh, ok!
- Aqui, só me deixe pegar as chaves do carro.
Derek correu para dentro do imóvel e Stiles ficou ali, encostado a uma árvore. O lobisomem voltou rapidamente e olhou Stiles de um jeito estranho.
- O que foi?
- Você não parece melhor.
- Obrigado.
- É sério. Me deixe ver suas mãos.
Stiles ficou parado algum tempo e não reagiu ao pedido.
- Rapaz, mostre suas mãos, preciso ver seus dedos.
- Medos? – ele franziu a testa – Para que você quer saber os meus medos?
Derek puxou as mãos do rapaz e percebeu a coloração levemente arroxeada das pontas, as unhas ficando cianóticas.
- Você é Derek Hale. – Stiles murmurou, sentindo os olhos pesarem – Derek Hale está segurando minhas mãos. Por que você está segurando minhas mãos?
O lobisomem bufou, irritado, puxando Stiles sobre um dos ombros e o levando para o carro o mais rápido que conseguiu. Deitou-o no banco de trás, conforme se lembrava das aulas de primeiros socorros que teve quando viajou com Laura para esquiar e tomou a direção do veículo. Só então percebeu que não sabia o nome do rapaz.
Alguns minutos depois, eles chegavam ao hospital e Derek desceu do carro, carregando Stiles em seu colo, pedindo por auxílio.
- Ele está com hipotermia! – ele informou para a recepcionista do hospital e logo alguns enfermeiros apareceram.
- Stiles! – Melissa McCall, mãe de Scott, era uma das enfermeiras chamadas e ela correu para perto do menino, já deitado numa maca – O que aconteceu com ele?
- Não sei ao certo. Ele apareceu todo encharcado perto da casa dos meus pais, disse que caiu no ribeirão...
- Ok, ok! Nós vamos cuidar dele agora. — a enfermeira falou, seguindo a maca para o pronto-atendimento.
Derek ficou ali parado na recepção do hospital sem saber o que fazer em seguida. Só quando notou um dos funcionários do hospital a seu lado, meio sem graça de falar com ele é que percebeu que havia outras pessoas o encarando.
- Senhor, seu carro... Está na entrada das ambulâncias.
Ele apenas balançou a cabeça e saiu do hospital em seguida.
Notas finais
Me deixem saber o que estão achando disso, ok?
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