Meu Estranho Mafioso
26 Vinte e três.
Notas iniciais
— HUM... — Murmurou Levy, na tarde daquele dia. Ela permaneceu desmaiada até às cinco horas da tarde e quando acordou tive que explicá-la toda a história do baile da fundação de Fairy Tail. Agora estávamos no enorme e branco closet de Aries, planejando algumas coisas como roupas e maquiagens que faríamos no dia.
— O que foi, Levy? — Indagou Aries assim que a azulada lançou outro longo suspiro sobre nós.
— N-não é nada! — Exclamou, abanando as mãos em um gesto para esquecermos.
— Levy. — Chamei. — O que há de errado?
— N-não há nada de errado! — Replicou.
Larguei a revista de penteados que antes gritava por minha atenção e disse:
— Levy McGarden, lhe conheço muito bem e sei que você não suspira assim sem estar preocupada com algo. — Ou alguém, completei mentalmente, lembrando-me de fatos passados.
— Tudo bem! Tudo bem! — Exclamou bruscamente, assustando tanto a mim quanto Aries. — É só que... um baile...
— Qual o problema em haver um baile? — Indagou Aries.
— Exatamente. Qual o problema? — Repeti. — Você adora festas.
— Eu não adoro! — Contradisse. — Eu as amo. Mas... Mal cheguei à Magnolia e já tem um baile! Quero dizer... Não conheço ninguém ainda! E não posso chamar Natsu, pois ele já vai ser seu par, Lu-chan! Não existe ninguém que eu possa chamar... — Concluiu com ar tristonho.
Cerrei os olhos em sua direção.
— Vamos lá, Levy-chan! Não desanime! Vai acabar aparecendo alguém. — Incentivei.
— Você acha mesmo?
— Tenho certeza!
— Então era isso. — Balbuciou Aries com ar relaxado. Seus olhos brilharam de repente. — Por que não chama o Gajeel?
— Quem? — Perguntou Levy. — O senhor brutamontes? — Riu debochadamente. — Não, obrigada.
— Levy-chan, que má! — Ri.
— Vamos lá, Levy! — Incentivou Aries. — Gajeel é o único que sempre fica sozinho nessas festas.
Agora que ela falou isso... ele não tinha nenhum par na festa de Natsu...
— Acho que é verdade. — Refleti.
— E além disso — continuou a rosada —, vocês ficariam extremamente fofos juntos.
O olhar de má vontade de Levy me fez gargalhar.
— Tudo bem. — Suspirou derrotada. — Vou tentar falar com ele. A propósito, Lu-chan, já decidiu que penteado fará?
Foi minha vez de suspirar.
— Não faço a mínima ideia... Talvez deva pedir para Lisanna me ajudar novamente.
— Lisanna?
— É mesmo! Você não a conhece! É uma boa pedida! Que tal amanhã irmos visitá-la? Ela tem muito talento em fazer penteados e é a irmã mais nova de Mirajane.
— Hã... Lucy, a respeito disso... — Começou Aries.
— O que foi?
— Eu, bem... queria que vocês fizessem o penteado com o meu cabeleireiro, Câncer-kun.
— Câncer?! — Assustei-me.
— “Kun”. — Complementou. — Ele é incrível!
— Mas a Lisanna...
O olhar de Aries tornou-se sério.
— Não quero parecer grossa e também rude, mas o nome dela já é, em si, algo proibido nesta casa.
Engoli em seco.
— Afinal, o que ela fez?
Sorriu misteriosamente.
— É algo que o Nii-sama terá que contá-la.
Armei um bico enorme, porém aceitei. Tinha várias coisas que queria saber, mas todas levavam a somente uma pessoa... Natsu. E como o mesmo me aconselhou a ter paciência...
— O Câncer-kun tem um nome meio... exótico, não? — Observou Levy-chan.
— R-realmente... — Concordou a rosada. — No entanto... — Suas bochechas coraram e seu olhar tornou-se doce. — Eu o conheci através da minha mãe.
Levy e eu a encaramos.
— Como era a sua mãe, Aries? — Indaguei.
Ela sorriu.
— Maluca... Totalmente pirada. — Seus olhos perderam-se em algum ponto, relembrando velhos momentos vividos com a srta. Dragneel.
— Eh? — Balbuciou Levy.
— Ou deveria dizer... excêntrica? — Proferiu para si mesma. — Ela era um pesadelo, garotas. Mas... um daqueles pesadelos bons. Desculpe! — Pediu ao pensar sua última frase dita. — Isso não faz nenhum sentido, não é?
— Acho que faz. — Disse sorrindo. — Sua mãe era diferente, mas... diferente de um modo bom, certo?
— Exatamente! — Concordou, aliviada por termos entendido.
— Ela e seu pai deviam ser pais totalmente loucos juntos. — Murmurou Levy.
— Sim, sim! Ela e — seu rosto ficou duro — meu pai...
Encarei-a.
— Aries... Você não gosta do seu pai, estou certa?
— Não é isso. — Disse em um suspiro. — É que simplesmente não posso perdoá-lo.
— Perdoá-lo? — Fizemos coro.
Sorriu novamente, desta vez um sorriso desapontado. Em seu olhar, o ódio começava a se tornar claro.
— Sim. — Respondeu, mais para si mesma do que para nós. — Nunca irei perdoá-lo...
Fechei a revista de penteados fazendo barulho, livrando-a assim de seus devaneios.
— Acho que o melhor a se fazer agora é dormir. — Proclamei. — Amanhã teremos uma festa para arrasar.
Levy sorriu aliviada.
— Você tem razão, Lu-chan! — Concordou. — Amanhã será um dia cheio.
Aries sorriu.
— É mesmo, não?
Assim nos despedimos e fomos cada uma para seu próprio quarto — menos Aries, que já estava no seu.
Andando no corredor silencioso e pouco iluminado, deixei-me vagarem meus pensamentos barulhentos. Aries, que nunca ia a nenhuma festa, festival ou evento — fora o aniversário de Natsu — iria à festa da Fairy Tail...
Ultear e Igneel também iam...
Isso é meio estranho...
Loki estava voltando também...
… O que mais me deixa curiosa nessa história, é o fato de Aries odiar Igneel, mesmo não querendo admiti-lo...
Atrás de mim passos ecoaram e antes de poder me virar já me via prensada contra a parede. O corpo esguio e musculoso estava completamente colado ao meu, de forma que poderia sentir meu corpo e o seu trocando calor. Minha respiração estava descompassada por causa da surpresa e o seu cabelo rosado fazia cócegas em meu rosto. Apertava meus pulsos na parede, forte o bastante para não conseguir soltar-me. Seu rosto estava cabisbaixo e trocávamos a mesma respiração.
Minhas bochechas arderam fortemente, pois ao ver o cabelo rosado me lembrei imediatamente de Natsu e do festival logo em seguida.
— Natsu... — Balbuciei entreabrindo os lábios um pouco, pronta para o beijo que jurava que viria logo em seguida.
Fui surpreendida por uma gargalhada estridente.
Olhei bem seu rosto e minhas bochechas coraram ainda mais.
— Lhe enganei! — Sorriu brincalhão para mim, soltando meus pulsos e deixando-me livre.
— I-Ig-Igneel-san?! — Exclamei chocada. — O-o-o-o quê..? P-p-por que você...? — Gaguejei.
Ele limpou as lágrimas de seus olhos enquanto a risada diminuía.
— Você é muito inocente, Lucy. — Observou. — Sabe... Sei que confia bastante em nós, tanto que até decidiu morar aqui, no entanto não se esqueça de que aqui moram mafiosos, pequena loira de belo corpo. — É possível corar ainda mais? — Sou um dos “machos” mais confiáveis desse lugar.
—Er... — Fiquei sem jeito.
— “Por que fez isso?”; é o que vai me perguntar, certo? — Acenei em concordância. — Ora essa, só queria te mostrar que esta mansão é lotada de lobos soltando hormônios. Procure não se perder em devaneios enquanto anda pelos corredores, ainda mais escuros como esse.
— Obrigada. — Agradeci pelo conselho.
Sorriu gentilmente enquanto afagava o topo de minha cabeça.
— Não há de quê. Seja mais cuidadosa, okay? Não queremos que aconteça outro caso como o que houve com Sting.
Encarei-o estupefata.
— Como sabe a respeito disso?
— Tenho minhas fontes... — Sorriu novamente. — Até parece que os boatos que o bobo do Natsu... Não, até parece que o bobo do Natsu me engana em algo. Não importa o que for, sempre descubro o que aquele pirralho planeja. Sempre. — Enfatizou, lançando um sorriso e olhar sacana em minha direção.
Demorei um segundo para perceber ao que ele se referia.
— S-sabe sobre isso também?! — Exclamei.
— Até parece que o Natsu conseguiria uma namorada do seu nível em tão pouco tempo. — Murmurou. — Ele pode até atrair bastante garotas com aqueles ferormônios, mas ainda não chega nem perto do meu nível, para atrair belas jovens como você. Ainda mais puras e decentes. Não é mesmo, garota do interior? — Apenas deixei meu maxilar cair. Ele riu. — Por favor, investigação básica conta muito nessas horas. Lucy Heartfilia, filha de Jude e Layla Heartfilia. Nasceu na cidade de Lupinus às sete da manhã, por isso sua mãe sempre lhe chamava de raio de Sol. — Riu novamente. — Isso é bem típico de Layla. Conheci sua mãe, sabia?
— S-sério? — Indaguei ainda mais surpresa.
— Sim! Estudamos juntos no ensino médio. Ela era honesta, gentil e sempre estava pronta para ajudar aos amigos, não importa que hora fosse. Parece... que ambos perdemos pessoas importantes em nossas vidas, não é? — Entristeceu-se, e não pude deixar de me ver comovida.
— Como a senhorita Dragneel mor... — Comecei, mas fui interrompida pelo mesmo, que virou-se rapidamente de braços abertos. Poderia jurar ver brilhinhos cintilando ao seu redor.
— Tudo bem! Por que não nos consolamos com um abraço? — Indagou animado. — Vamos lá! Pode me abraçar como se não houvesse amanhã! Atinja-me com toda a sua tristeza... e airbags. — Acrescentou em voz baixa, porém o ouvi.
— Tem certeza de que é uma pessoa confiável? — Indaguei desconfiada.
Ele riu novamente.
— Sabe Lucy, você me lembra minha esposa... — Comentou.
— Eh? Eu lembro a senhorita Dragneel?
— Sim! Vocês duas possuem algumas coisas em comum. Como... — Ponderou por alguns segundos. — O gênio, talvez? Bem... ambas já torceram o tornozelo.
Parei de caminhar ao lado dele.
— Por que está fazendo isso?
— Hum? — Desentendeu.
— Por que está dizendo que sabe de tudo o que aconteceu comigo desde que cheguei à Magnolia?
— Somente quero mostrar que confio em você. — Sorriu e voltei a corar. — Sabe... Muitas coisas aconteceram com Natsu. Muitas coisas um pouco dolorosas. Coisas que o fizeram perder aquela vivacidade que possuía. E acho que você pode fazê-lo voltar a ficar daquele jeito. — Virou-se e cortou a pouca distância entre nós, segurando uma mecha de meu cabelo e beijando-a. Chegou seus lábios perto de minha orelha e sussurrou: — Deixo o Natsu em suas mãos, Luce.
Um arrepio percorreu minha coluna e corei ainda mais.
Ele soltou um sorriso misterioso e retornou pelo caminho que fizemos, deixando um “boa noite, Luce” ecoar pelo corredor.
Luce.
Ele me chamou da mesma forma que Natsu.
Como raios ele sabia tanto?
Ao chegar em meu quarto, joguei-me na cama e escondi meu rosto atrás de uma almofada. Igneel sabia. Sabia que meu namoro com Natsu era falso, porém mesmo assim deixou isso passar.
O que estava planejando?
“Deixo o Natsu em suas mãos, Luce.”; continuava a ecoar em minha mente.
… O que será que ocorreu com Natsu para tirar a vivacidade dele?
Será que o que ocorreu com Lisanna tinha algo a ver?
Suspiro. É melhor dormir... O dia seguinte seria cheio...
✩✩✩
— Ai meu Deus! Lu-chan, você está incrível! — Elogiou Levy na tarde do dia seguinte, quando estávamos nos arrumando para o baile. Estávamos no quarto rosa e branco de Aries, colocando nossos vestidos enquanto a rosada fazia o cabelo com o “Câncer-kun”.
Câncer era um cara que aparentava ter por volta dos trinta anos, magro, de pele morena e cabelo castanho escuro. Seu cabelo estava preso por dreads junto com fitas laranjas que dava certo destaque. Usava uma camisa azul clara e uma calça marrom, e demostrava grande maestria com cabelos ao soltar os fios rosados de Aries e deixá-los leves e ondulados.
— Isso ainda me surpreende. — Murmurei para Aries.
— O quê? — Indagou a rosada.
— Você está saindo da mansão. — Observei. — Você não compareceu e nenhum evento que estive antes. Nem mesmo no aniversário do seu irmão. E olha que foi aqui!
Riu.
— Eu realmente não gosto muito de sair. Prefiro meus livros ao invés de pessoas.
— Isso soa meio triste... — Fizemos coro Levy e eu. — No entanto, entendemos como se sente.
Sorrimos.
— Porém, isso me deixa curiosa. — Murmurou Levy. — Por que vai a esse baile?
— Não posso fazer essa desfeita ao Makarov-jii.
… Quê?
— “Jii”?! — Exclamei chocada.
— Ora. — Surpreendeu-se. — Não havia contado para vocês? Makarov é nosso avô paterno.
… Isso explica porque Natsu e eu não levamos nenhuma advertência no dia que fizemos um escândalo na aula da professora Charles...
— Makarov... É o diretor da Fairy Tail, certo? — Perguntou Levy.
— Espere um pouco! — Exclamei. — Isso faz Laxus sobrinho do seu pai? Vocês são primos do Laxus?!
— Bem... — Balbuciou a rosada aplicando uma leve camada de batom cor de rosa nos lábios. — Algo assim, acho. Para falar a verdade, Makarov sempre foi apaixonado pela minha avó, Poluchka. Meu verdadeiro avô morreu quando Igneel possuía cinco anos de idade, não faço a mínima ideia do motivo, e alguns anos depois Makarov conseguiu se casar com ela. No entanto já havia tido seu filho, Ivan, pai de Laxus. Se não me engano, a vovó Dreyar morreu durante o parto de Ivan.
— Caramba! Por essa não esperava! — Exclamei.
— Eu que não esperava por esse vestido ficar tão perfeito em você! — Respondeu Aries, observando o traje que acabara de vestir. Era um vestido de baile azul marinho com flores da mesma cor e detalhes em prateado.
— Fala sério! — Ri. — Você e Levy que estão perfeitas!
Câncer havia feito um coque alto no cabelo azulado de Levy e a pequena usava um vestido preto bufante e curto lindo, que deixava suas pernas à mostra. Foi uma boa escolha, pois assim ela não pareceria menor.
Em contraste a ela, Aries trajava um vestido branco com flores, todos brancos.
— Sua vez, ebi. — Anunciou Câncer, puxando a cadeira para eu sentar. Ah! Esqueci de dizer! Ele misteriosamente termina todas as suas frases com “ebi”. Sinistro. Deslizou as mãos por meu cabelo e analisou-os (?) — Era difícil dizer, pois estava usando óculos escuros... dentro do quarto — em seguida pegou uma tesoura.
— O que vai fazer? — Indaguei alarmada.
— Você possui algumas pontas duplas, ebi. Vou cortá-las e aproveitar e fazer um corte mais moderno, ebi. — Explicou.
— Mas... — Comecei.
— Lucy. — Interrompeu-me Aries. — Ele é profissional, sabe o que faz.
— Mas... — Tentei novamente, porém desisti. — Está certo. Conto com você, Câncer-kun.
— Sim, sim, ebi. — Murmurou, tilintando as tesouras que pareciam muito afiadas.
Engoli em seco.
Enquanto ele fazia seu trabalho habilidosamente, a porta foi aberto pela bela e elegante Ultear, que deslizou com seu vestido azul, o cabelo negro solto balançando levemente.
— Ah! Encontrei! — Exclamou ao me focar em seus olhos bem maquiados. — Lucy, poderia entregar isto para Natsu? — Mostrou-me um broche com uma enorme pedra negra. — O alfaiate que preparou os trajes masculinos acabou enviando junto com as roupas de Igneel.
— Claro. — Peguei o objeto de suas mãos.
— Obrigada. — Agradeceu. — Aliás, vocês estão lindas. Elogiou observando nós três.
Sorrimos para ela.
— Ultear-san, que horas partiremos?
— Daqui a pouco. Dentro de... dez minutos, acho. — Olhou o relógio prata em seu pulso. — Portanto, se arrumem rápido!
E saiu tão rápido quanto chegou.
— Está terminado, ebi. — Concluiu Câncer, virando-me para o espelho.
Devo dizer... Ele realmente é incrível. Prendeu meu cabelo em um coque baixo do lado direito e deixou uma mecha livre e ondulada ao lado do coque, que combinou perfeitamente.
— Ficou lindo, Câncer-kun! — Elogiei. — Você é incrível! Obrigada!
— De nada, ebi.
— Lu-chan, é melhor ir logo. — Disse Levy. — Vamos sair daqui a pouco.
— É mesmo. — Concordei, saindo do aposento. — Vejo vocês na limusine.
Andei até o corredor do meu quarto e parei uma porta antes da minha. Deslizei a mão pela madeira lisa e suspirei, batendo logo em seguida.
— Entre. — Ouvi.
Com uma lufada de ar encorajadora adentrei o quarto de Natsu. Minha visão foi dominada por carvalho. Móveis feito de carvalho por aqui e ali, e no centro do cômodo estava um Natsu aparvalhado.
— Ah! É você, Luce! — Exclamou o rosado ao me ver. Ele lutava bravamente com a gravata de seu terno, que devo dizer... era lindo. — Já estamos saindo?
— Hã... É, estamos de partida. — Respondi, meio atordoada pela visão. Seu terno negro com flores costuradas com linha cinza destacava seus fios rosáceos. — A Ultear me pediu para lhe entregar isso.
Entreguei-lhe o broche.
— Obrigado! Estava passando um sufoco por não saber como prender essa coisa. — Agradeceu, apontando para a própria roupa.
— Hum... — Murmurei, olhando em volta.
Sua cama era com estampado feito de mogno e coberta por lençóis vinho. Na estante ao lado da porta haviam vários enfeites: um colar feito de flores (será que ele já foi ao Havaí?), uma coleção de folhas outonais, um colar com uma pedrinha marrom estranha, porém bonita; e uma foto emoldurada.
Na foto havia uma bela garota. Possuía longos e negros cabelos, que eram derrotados totalmente por seus olhos azuis. O cabelo era jogado para trás pelo vento, assim como o seu uniforme. As águas do lago (ou seria mar?), pareciam brilhar a sua volta.
— Hey, Natsu... — Chamei.
— Oi? — Percebeu-me.
— Quem é... — Comecei, mas fui bruscamente interrompida por Virgo, que apareceu no batente da porta para nos avisar que estávamos de saída.
— Então... Vamos indo, senhorita namorada do líder mafioso do país? — Indagou o rosado, oferecendo seu braço para mim e sorrindo ironicamente.
Dei-lhe um soco fraco.
— Vamos nessa, meu amor. — Entrelacei meu braço ao dele.
Caminhamos rapidamente até o lado de fora, onde a limusine nos aguardava.
Engasguei ao ver como todos estavam vestidos.
Gray e Juvia haviam nos agraciado com sua presença. O moreno trajava um terno negro com colete bordô vermelho escuro e a azulada trajava um longo e esvoaçante vestido roxo.
Gajeel, que penteara seu cabelo negro para trás e o prendera, estava tão elegante que nem parecia o “senhor brutamontes” ao qual Levy se referia. Dava para perceber que esta ficou surpresa, pelos olhares que lançava na direção dele.
Loki estava vestido em um terno casual negro, nada muito especial. De certo modo, até apagado, mas que ficava totalmente harmônico perto de Aries.
Igneel... estava mais incrível do que o normal. Isso era possível?
Caveirinhas na grava bufante (?), na aba de seu terno e... Ah! Era algo indescritível!
O rosado percebeu que o encarava e piscou o olho direito em minha direção. Aquele sorriso sacana voltara ao seus lábios, no entanto diferente de antes, mais... brincalhão. Desviei meus olhos para as pessoas em volta e notei algo.
— Onde está Meredy? — Perguntei ao rosado, recebendo um olhar surpreso de volta.
— O que está dizendo, Luce? Meredy não pode ir ao baile da Fairy Tail.
— Não?
— Isso mesmo, bruxa velha! — Concordou a pequena, magicamente aparecendo agarrada à cintura de Natsu. — Infelizmente não posso ir a esse baile! Hunf! — Torceu o nariz como se fosse culpa minha.
— Está tudo pronto, senhor Dragneel. Moshi moshi. — Avisou Sargittarius.
— Vamos lá! — Exclamou Meredy, pronta para pular dentro da limusine.
Foi interceptada por Virgo, que segurou-a pela gola da camisa que vestia.
— Você não, Ojou-sama. Sua ida é proibida. — Reprimiu.
— Tsc. Virgo chata! — Lamuriou, fazendo um bico enorme.
— Certo! — Animou Igneel. — Quero ir ao lado da Lu-pyon! — Avisou.
— Lu... — Murmurou Natsu.
—... Pyon? — Estranhou Gray.
Agora que observei por mais tempo... Gray parece estar brigado com Juvia. Os dois não se encaravam por um bom tempo, nem trocavam palavras. Sentei-me no meio dos dois rosados — Natsu e Igneel — e senti-me reprimida imediatamente.
Droga, Dragneels! Por que tão lindos? Para que soltar tantos ferormônios?
Senti um ventinho em minha orelha e um arrepio tomou-me.
Quando olhei para o lado, percebi que fora Igneel que soprara em meu ouvido, fazendo-me corar. Seu sorriso brincalhão parecia tornar-se sádico aos poucos — o que me assustava, e muito.
— O que estão fazendo? — Perguntou Natsu, ao ver nossa situação.
— N-nada. — Respondi assustada, automaticamente sentando-me mais perto dele.
Observei Ultear dar uma cotovelada na barriga de Igneel e balbuciar um “aquiete-se” nervoso. Ela apenas me deu um sorriso tristonho, como se alguém houvesse acabado com sua brincadeira e sossegou o facho.
O resto da viagem ocorreu com bastante calma. Comecei a me perguntar aonde íamos quando percebi que nos afastávamos cada vez mais cidade. Por fim, a limousine estacionou na frente de uma mansão de aparência antiga.
— Que lugar é esse? — Sussurrei para Natsu, assim que descemos do automóvel.
— É a mansão Dragneel. — Esclareceu.
— Eh? — estranhei.
— Le antique. — Balbuciou Igneel, que estava de braços dados com Ultear. Assobiou. — Ela continua do mesmo jeito desde a última vez que vim aqui...
— Como assim antiga mansão Dragneel? — Perguntei.
— Essa é a mansão que era usada pelo líder da máfia anterior. — Tremeu instantaneamente. — Ele era assustador! Minha esposa e eu nos mudamos assim que oficializamos o matrimônio para outra mansão. Ele aparentemente deixou-nos livre para usar essa mansão assim que viajou à Russia com sua esposa, mas preferimos ficar na nossa.
— Entendo...
Adentramos o lugar.
Era incrivelmente luxuoso por dentro. Muitas das coisas ali pareciam ser folheadas a ouro e brilhavam. Estátuas feitas de mármore, vasos que pareciam muito caros...
A música animada reboava pelas paredes, uma voz feminina retumbava junto ao toque ritmizado.
— Lucy! — Chamou-me uma voz que reconheci imediatamente como a de Erza.
Virei-me e fiquei embasbacada quando observei-a se aproximar, juntamente de Mira.
Erza estava esplêndida! Seu vestido negro totalmente divo entrava em contraste com o vestido de Mira, que possuía um tom de laranja belo.
Senti-me até menosprezada.
Mas o que é esse sentimento quando você é sufocada por duas pessoas vestidas divinamente que não vê a tempos?
Erza e Mira quase tiraram todo o meu ar!
— Há quanto tempo! — Exclamaram juntas, fazendo um coro.
— Como está? — Indagou a albina.
— Esta é a Levy? — Sobrepôs a ruiva, apontando para a azulada.
Pigarrei.
— Estou bem melhor, Mira. — Respondi. — E sim Erza, essa é Levy.
Levy reverenciou-se de forma tão tradicional que quase pôde-se ver narcisos branco à sua volta.
— É um prazer conhecê-las. — Disse.
— O prazer é todo nosso. — Mais impressionante que Levy, foi a reverência de Erza. Flores negras com detalhes vermelhos que puderam ser vistos.
Natsu deu-me um leve puxão.
— Vamos?
— Ah! Claro! — Despedi-me das meninas.
No salão, mesas cobertas com tecido vinho e dourado eram decoradas com flores brancas. As cadeiras pareciam muito confortáveis com seus estofados cheios e recobertos com couro e veludo. Em um palco grande com colunas gregas — todos feitos de mármore — havia uma banda e uma garota com longos, presos e cacheados cabelos loiros, emoldurados pelos olhos verdes. Reconheci-a imediatamente.
— Jenny Realight! — Exclamei surpresa.
— Ora! — Natsu pareceu surpreso. — Você a conhece?
— Como não conhecer? Ela é uma das cantoras de mais sucesso no país atualmente!
— Ho... Nada mal para uma caipira.
Belisquei-lhe.
— Você sabe que não gosto que me chame assim!
— Velhos hábitos são difíceis de largar. — Comentou, segurando o riso.
Um garçom passou ao nosso lado com taças de alguma bebida — talvez champanhe. Peguei uma e bati levemente na cabeça do rosado com ela.
— Ai! — Balbuciou em um sussurro nervoso. — Por que fez isso? Sua bruta!
— Velhos hábitos são difíceis de largar. — Repeti. — Senhor galo master-san.
Levantei o queixo em um gesto vitorioso ao receber seu olhar fulminante.
Lucy 1 x 0 Natsu.
Tomei um gole da bebida e confirmei ser champanhe — de maçã, sem álcool.
Quase o cuspi de volta ao ver três belos jovens aproximando-se de nós.
— Natsu, Natsu! — Chamei em tom de urgência, puxando a manga de seu terno. — Aqueles ali não são os Trimens?!
Cerrou os olhos em minha direção.
— Sim... Por quê? — Indagou desconfiado.
— P-por nada! — Senti minhas bochechas esquentarem. — O que eles fazem aqui? Não estudam no Blue Pegasus?
Blue Pegasus era outra escola de elite reconhecida de forma internacional, assim como a Fairy Tail. A diferença entre as duas escolas é que Blue Pegasus possuía o título de “fábrica de estrelas”, uma vez que a maioria de seus alunos eram ídolos, como por exemplo Jenny e os Trimens; ou então, no mínimo, treinavam para ser.
O rosado sorriu ironicamente.
— E estudam. — Respondeu. — Mas esse baile não é somente para os estudantes, Luce. Não lembra que meu pai veio junto?
— Ah! É verdade... — Balbuciei, observando o dito cujo rodeado de adultos. Ele mantinha as mãos para cima, perto do próprio peito no que parecia ser um ato de rendição. Conversava com uma mulher de longos cabelos ruivos, que reconheci como uma estrela de cinema, e um sorriso galanteador tomava seus lábios.
— Então ela realmente veio... — Murmurou Erza, postando-se ao meu lado com um Jellal incrivelmente mais bonito que o normal, pois trajava um smoking negro.
A ruiva suspirou, ato que fez o azulado ao seu lado apoiar uma mão em seu ombro, em um gesto compreensivo.
— Você não precisa ir lá. Não agora. — Observou, e a ruiva soltou um suspiro derrotado.
— É... — Deu um sorriso aliviado. — Ainda não é a hora.
Observei-os caminharem até uma mesa e Jellal tentar acalmar Erza. Estranhei a reação da ruiva.
— Por que está tão interessada neles? — Indagou Natsu, puxando minha atenção.
— Bem... — Corei levemente. — P-porque... Sou fã deles! Pronto, disse! Principalmente do Hibiki! Ele é meu segundo tipo ideal!
Apenas me encarou.
— É qual seria o primeiro? — Arqueou uma sobrancelha.
— Seria algo igual a... — Deixei-me ser levada por memórias por meio segundo. — Seria igual ele.
— Ele? — Estranhou. — Ele quem?
Empinei o nariz.
— Quem é ela? — Aproveitei-me.
— Não posso lhe dizer.
— Ótimo. — Senti minha boca ficar mais seca. Tinha muitos mistérios entre nós e ele parecia não estar com vontade de revelar nenhum. Então, se ia ser assim comigo, faria o mesmo com ele. — O mesmo acontece comigo.
Segurou meu pulso.
— Pare de fazer drama, Luce. — Pediu. — É só algo que você vai saber mais tarde.
— Então mais tarde lhe conto quem é o meu “ele”.
Sei que fui má. Mas estava começando a ficar cansada de me deixarem no escuro a respeito de tudo. Acho que teria que perguntar em alguém mais “confiável”, se quisesse saber pelo menos do mínimo.
E fui direto nesse alguém.
Antes mesmo de alcançá-lo com os olhos ele já vinha em minha direção, praticamente deixando todas ao seu redor atordoadas com sua aura de beleza e bom humor. Parou ao lado de uma mesa de comidas e acenou com a cabeça, me chamando até seu lado. O que fiz sem pestanejar.
— E então? Teve um briga com o bobo? — Indagou Igneel.
— Mais ou menos... — Concordei, vendo-o fazer o trajeto todo da mão até um montinho de doces, puxando um que parecia de seu agrado e levando-o até a boca.
Sorriu.
— Ora Luce, você não está sendo nem um pouco paciente. Eu lhe disse, não disse? Que muitas coisas dolorosas aconteceram com Natsu. — Soltou um risinho fraco. — Com todos nós, aliás.
Suspirei.
— Eu sei, Igneel-san... — Enfiou um cookie em minha boca, calando-me.
Levou o dedo indicador até os lábios, em um gesto de silêncio, apontando em seguida para o palco de mármore.
— Bem... — Murmurava Hibiki, com seus cabelos castanhos sendo jogados para trás pelo vento liberado acima dele. — Essa música que vamos abrir nosso show foi um pedido de um velho amigo, mas dedico para todos os apaixonados que aqui se encontram.
Deu um sorriso, logo em seguida começando a cantar compassadamente com a banda.
Give me love like her
'cause lately I've been waking up alone
Paint splattered teardrops on my shirt
Told you I'd let them go
Observei Natsu caminhar em minha direção e fiquei instantaneamente nervosa.
Fui super rude com ele!
O que faço?
And that I'll fight my corner
Maybe tonight I'll call ya
After my blood turns into alcohol
No, I just wanna hold ya
Uma mão grande e aparentemente calorosa entrou em minha frente.
— Shall we dance? — Indagou Igneel. Encarei-o. — O que foi? Se quiser dançar com Natsu, tudo bem...
Entrelacei minha mão a dele.
— Claro, por que não? — Sorri.
Observei Natsu parar sua trajetória até mim e sorrir ironicamente enquanto era guiada até o salão por seu pai.
Give a little time to me or burn this out
We'll play hide and seek to turn this around
All I want is the taste that your lips allow
My, my, my, my, oh give me love
Igneel depositou sua mão esquerda em minha cintura, enquanto com a direita entrelaçava seus dedos aos meus. Começamos com passos lentos, uma vez que já estávamos na segunda parte da música.
Give me love like never before
'cause lately I've been craving more
And it's been a while but I still feel the same
Maybe I should let you go
— Hum... — Comecei, após algum tempo. Era difícil olhá-lo por muito tempo sem corar.
— Tudo bem. Entendo como se sente. — Respondeu a minha pergunta e ao meu agradecimento não verbalizados.
— Co-como você...?
Sorriu levemente.
— Um pai deve saber das coisas. Até mesmo o seu.
— E... eu...
— Tudo bem, Luce. Somente certifique-se de avisá-lo quando estiver pronta, okay?
— Sim. — Sorri docemente. — Obrigada.
— De nada.
You know I'll fight my corner
And that tonight I'll call ya
After my blood is drowning in alcohol
No I just wanna hold ya
— Você é tão legal. — Elogiei, quando ele inclinou-me levemente.
— Obrigado. — Seu sorriso era tão brilhante que quase fiquei cega.
— Não entendo algo... — Murmurei.
— Hun?
— Por que a Aries não... Desculpe! Não é da minha conta!
— Ah. Isso. — Gargalhou. — Tudo bem. Aries era muito chegada em minha mulher, e quando ela morreu foi um choque. Ela acabou pegando raiva de mim por não ir atrás do assassino.
— E por que não o fez?
Um sorriso triste tomou-lhe.
— O que eu podia fazer? Mais rápido do que imaginei, perdi duas pessoas importantes e fiquei largado ao relevo com duas garotas e um menino muito chorão. Não podia largá-los assim, tão cedo. Ainda mais por conta de algo tão imbecil como vingança. — Ele praticamente vomitou a palavra. — Não era isso que eu queria. Foi por esse motivo que mudei toda a concepção a respeito da máfia Dragneel. Não quero isso para meus filhos, nem para ninguém.
— Igneel-san... — Balbuciei.
My, my, my, my, oh give me love.
A música acabou, porém continuamos girando por algum tempo. Natsu não estava em nenhum lugar ao alcance da minha vista.
— Sabe, Luce... — Murmurou Igneel, aproximando-se mais um pouco. — Quero lhe dizer algo importante.
— O-o-o-o quê? — Indaguei gaguejando.
Ele estava perto... perto demais!
Mais um pouco e ele acabaria me b... b... b-b-b-b-beijando!
— Vá até perto do palco de mármore e entre pela porta à esquerda. Continue reto no corredor, e tenho certeza de que verá algo interessante. — Sussurrou em meu ouvido, terminando com uma mordida em meu lóbulo.
Arrepiei-me.
— C-certo... — Concordei acenando a cabeça junto.
Andei até onde havia me dito e rapidamente identifiquei a porta. Dei uma olhada em volta, concluindo que ninguém estava me observando fora o rosado.
Adentrei por um corredor silencioso e ventilado. Haviam várias portas e vasos ao longo dele e no final uma pequena escada.
Suspirei no alto desta.
O que Igneel pensava que veria ali? Estava totalmente vazio e...
Com um grito abafado, escorreguei pela pequena escada rolando até perto de uma pequena porta que estava entreaberta.
— Ai... ai... — Sussurrei, esfregando meu braço que doía. O vestido atrapalhava a levantar-me.
— E então? — Ouvi a voz de Natsu do outro lado.
Arrastei-me até a fresta, olhando por ali.
Em uma sala encontrava-se Natsu, Loki, Gajeel, Gray e mais alguns caras que não conhecia, todos de costa para a porta.
— E então o quê? — Indagou Loki, que estava de frente para o rosado.
— Você voltou logo nessa época... Então deve saber o que ela está planejando. — Afirmou o rosado.
O moreno riu.
— Pode até ser... Porém sabe que, mesmo que seja o caso, não devo dizer nem a você.
— Seu... — Irritou-se.
Aproximei-me mais um pouco da porta e Gray pareceu notar minha presença ali, pois lançou um olhar desconfiado em direção à porta.
Encostei-me na parede fria.
— Hey Natsu, o que há com aquela garota? — Perguntou um homem de cabelo cor de areia.
— Que garota, Max? — O rosado estava claramente de mau humor.
— Aquela loira peituda que estava dançando com seu pai.
Loira peituda... eu? Enervei-me.
Um outro cara de cabelo negro assobiou.
— De onde desenterrou aquela gostosa? — Perguntou.
Que linguagem rude. Irritei-me mais ainda.
— Ah, Lucy? — Riu o rosado.
… Por que ele riu?
— Ei Natsu, posso dançar com ela? — Pediu um outro, de cabelo castanho longo que estava preso em um rabo de cavalo.
— Fique longe dela, Visitar. — Disse o rosado dando um sorriso repugnante. — Afinal, ela é...
— Natsu, é melhor não dizer isso. — Avisou Gray. — É melhor até não pensar nisso.
— Fique quieto Gray! — Ralhou Gajeel. — Isso vai ser interessante. Ge-hee.
— Ela é...? — Incentivou o tal Visitar.
O sorriso de Natsu tornou-se algo presunçoso.
— Afinal, Lucy é... meu brinquedinho pessoal.
Senti-me congelar.
“Afinal, Lucy é... meu brinquedinho pessoal.”
Tudo isso que aconteceu desde que cheguei à Magnolia... Tudo...
Esse tempo todo... não passei de um brinquedo para Natsu?
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