Meu Estranho Mafioso
21 Vinte.
— LU-CHAN? — Chamou-me novamente.
Ignorei-a. A voz simplesmente não saía.
— Luce? — Natsu ousou me chamar. — Está tudo bem?
Não respondi.
Senti uma mão tocar meu ombro e logo a voz de Levy ressoou perto de meu ouvido de modo baixo, causando-me um arrepio pela coluna.
— Lu-chan!
Pisquei os olhos fortemente. Ambos, Natsu e ela, observavam-me.
— O... Quê?
Natsu suspirou, como se aquilo fosse algo normal e passou a encarar Levy.
— Levy-chan... — Disse lentamente. E por fim a ficha caiu. A pensão, o incêndio, o estupro... tudo. — O que está fazendo aqui?!
Ela riu.
— Poxa... Só percebeu agora? Era para ser uma surpresa para você, mas... Também consegui uma bolsa de estudos na Fairy Tail!
— Eh? Sério?! Isso é incrível, Levy-chan!
— Eu sei. — Admitiu orgulhosa, fazendo pose.
— Por que não me avisou que viria? Teria ido buscá-la na estação! — Afirmei.
— Estragaria a surpresa. Porém sou eu que acabei surpreendida! — Virou-se para trás, observando o local. — O que aconteceu aqui? Ali não é a pensão onde você mora?
— Ah... — Abri a boca para responder-lhe, no entanto voltei a observar o local que agora estava extinto. Se não fosse Gray, agora eu estaria ali, trancada e pensando novamente na cena presenciada com Sting. Agora estaria no meio daquelas cinzas. Suspirei. — É. Era ali mesmo que estava morando.
Lançou-me um olhar incrédulo, tal a calma que estava contida em minha voz.
Dei um sorriso amarelo para ela mostrando que, no fim, a situação não me agradava nem um pouco. Observei Natsu, que em algum momento passou a encarar os escombros. Encarar com certa raiva e ódio, até.
—... Natsu?
Rolou seus olhos ônix em minha direção e pude perceber um rancor profundo queimar no fundo deles. Uma antipatia que me deu medo.
— Sim? — Sua voz era aveludada, mostrando que queria esconder aquela expressão.
— Er... Essa é minha melhor amiga. — Apontei para a azulada. — Levy Mcgarden.
Ela aproximou e se curvou, os cabelos ondulado e curtos dando um pequeno salto quando voltou a levantar a cabeça.
— É um prazer conhecê-lo, hum...
— Esse é Natsu Dragneel, meu... Hum...
— Namorado. — Completou ele, sem nem pensar direito. Arregalei os olhos — assim como Levy — de surpresa, que ele claramente ignorou.
— N-n-n-n-n-namorado?! — Exclamou ela em um misto de surpresa e choque. Lançou-me um olhar incrédulo. — Lu-chan, não estou sabendo nada sobre isso!
— B-bem... — E agora? Como iria explicar para ela? — I-i-isso...
— Você arranjou um namorado aqui e não me contou nada! — Reclamou. — E isso é tão... Fora de você! Esqueceu-se da promessa que fez a ele?
Engoli em seco. Droga Levy-chan! Por que tinha que me lembrar disso agora?
“Lucy...”
Argh! Não posso pensar nele agora!
— Eu estava lá, vendo tudo! Como pôde Lu-chan?
— Er... Levy-chan, posso explicar!
— Explicar como? Prometeu que não se esqueceria da promessa! E que não ia esquecê-lo!
Levy-chan... A melhor amiga coveira que existe!
É incrível como sua memória pode guardar tudo o que digo...
— E... E... E...!
— Levy-chan, respire! — Ordenei, pois ela já estava ficando roxa.
Observei-a inspirar e expirar diversas vezes até conseguir acalmar-se.
— Está tudo bem? — Indagou o rosado.
— S-sim. — Afirmou, corando um pouco.
Levy-chan... Corando para o Natsu?
Corando?
Por que isso não está me cheirando bem?
— Então... — Chamei sua atenção. — A respeito disso... De nós dois... Eu posso explicar.
Avaliou-me.
— Hum... Está certo. Tenho certeza de que você tem um motivo para isso. Desculpe pela bronca, é só que... Ver isso... — Apontou para o local da antiga pensão. — Me deixou em choque.
— Tudo bem. — Sorri.
— Hã... E por falar nisto... Onde vamos morar?
— Oi?
— Digo... Meu plano era vir para cá e dividir o apartamento com você. Ajudaria a pagar as contas, é claro. Mas agora não tem pensão. O que faremos?
Natsu abafou um riso.
É... Isso seria realmente difícil de explicar.
— Er... Que tal eu explicar no carro?
✩✩✩
Observei Levy remexer-se novamente no banco de trás do porsche. De novo.
— Hum... — Comecei. — E então, Levy-chan... Como estão todos?
Deu um pequeno pulo mostrando-se surpresa. O clima no carro realmente não estava bom... Natsu não dissera nada desde ter perguntado sobre o estado de Levy e eu ainda não sabia como explicar toda a situação para ela...
— Er... — Hesitante, resolveu responder-me. — Estão todos ótimos, Lu-chan.
— Estão mesmo? Como está meu pai? A pequena Wendy? Romeo? E... — Limpei a garganta. — E... ele?
Sorriu com minha animação.
— Estão todos ótimos, Lu-chan! Seu pai pediu para mandá-la dar notícias. Você sabe... Ele quer saber como estão indo suas notas e se já se acostumou com a movimentação de Fiore.
— Certo... Ligarei para ele depois. — Sorri. Se meu pai soubesse o que está havendo...
— Wendy ficou bem triste depois de sua partida... — Continuou. — Mandou dizer que sente saudades, principalmente de quando você contava para ela suas estórias.
Ri timidamente.
— Sério?
— Sim! Mesmo quando eu, a irmã dela, faço isso, ela não gosta mais. — Fez bico. — Acho que ela preferiria que você fosse a irmã dela.
— Isso não é verdade, Levy-chan!
— É sim. — Teimou.
— Não é. — Meneei a cabeça negativamente. — A Wendy te adora, Levy.
— Só que não.
—É sério. — Ri. — Quando estávamos juntas, ela me contava o quanto a admirava. Dizia que um dia quer se tornar igual você, sempre com um livro na mão.
Suas bochechas adquiriram um tom rubro.
— I-isso é verdade, Lu-chan?
— É. Ela só gostava das estórias que eu a contava.
Sorriu abertamente.
— Mas você é incrível, Lu-chan. Até eu fico encantada com elas.
— Certo. Obrigada por isso — corei levemente.
— O Romeo-kun continua naquela coisa do “chamou, não chamo”.
— Ainda? — Bufei. — Desse modo nunca conseguirá ir com a Wendy na formatura do fundamental.
— Realmente... — Concordou. — E a respeito do...
— Luce. — Interrompeu Natsu. — Sei que vocês querem matar as saudades uma da outra, mas pode se sentar direito? Está me atrapalhando.
— Oh... Okay. — Endireitei-me sobre o banco e visualizei o local além da janela. — Estamos chegando.
— Eh?! — Exclamou Levy. — Como você sabe? — Encostou a testa na janela ao lado. — Está tudo escuro lá fora! Você deve estar me zoando.
—Não estou. — Ri novamente. — Acontece que tem um bosque no caminho para a... “casa” de Natsu. Ou seria floresta?
— Não exagere, Luce. — Murmurou o rosado.
— Floresta?! Afinal... Onde você mora? — Aproximou-se do banco do motorista.
— Minha casa é bem afastada da cidade. — Lançou um sorriso em sua direção.
Espera... Esses dois não estão muito íntimos?
Q-quero dizer... Eles nem se conhecem! E a Levy-chan já está praticamente agarrada nele!
N-não que me incomode! De jeito nenhum!
No entanto, a Levy-chan não pode ficar se agarrando com alguém de uma cidade movimentada como Magnolia assim. O cara pode ser perigoso!
E Natsu é perigoso!
É o líder da máfia! Se ela soubesse quantos problemas já passei por causa dele...
Meu apartamento foi invadido... A pensão foi incendiada! Perdi-me em uma montanha... Fui alvo de um ser encapuzado... Transformei-me em um alvo de deboche de uma criança que tem sonhos incestuosos...
O pai dele é interessante, mas também é pervertido!
… Estuprada...
… E por causa disso me tranquei no quarto por três semanas seguidas! — Problema resolvido graças ao bom Gray (“-sama”; segundo Juvia).
E-e... Também teve aquela vez no aniversário dele... E... Aquele b-beijo...
Minhas bochechas arderam fortemente.
Waaa! No que estou pensando?!
Só tenho que pensar em como vou explicar para a Levy-chan sobre tudo isso. E em como mantê-la longe do Natsu, pois é perigoso demais.
— Ei, er... Natsu-kun. — Chamou a azulada, aproximando-se mais um pouco do banco onde este se encontrava.
— Sim?
— Er... Como posso dizer isso? Seu perfume... É bom.
... Oi?
O carro desviou-se um pouco da trajetória que seguia.
— Oi? — Indagou.
— Desculpe! — Afastou-se vermelha como um pimentão. — É só que dá para sentir o cheiro daqui e...
Soltou um sorriso encantado (?), e respondeu:
— Obrigado.
Levy alegrou-se um pouco depois disso e começou a conversar mais.
— Tsc. Bando de barulhentos. — Balbuciou Gajeel, mostrando-se presente. Desde que entramos no carro não havia dito nenhuma palavra e ficou o caminho todo olhando através da janela. Não que fosse diferente do normal, mas ele nem zoara Natsu!
Encarei-o.
— O-o que foi? — Indagou perturbado pelo meu olhar.
— Por que está vindo conosco?
— Ha?
— Não entenda errado! Mas você mora em outro lugar, certo?
Suspirou pesarosamente.
— Na verdade... Não.
Lancei lhe um olhar confuso.
— Muitos só moram em outros lugares por causa de seus trabalhos, Luce. — Explicou Natsu.
— Até mesmo Gray? E não me chame de Luce! — Bronqueei.
— Até mesmo Gray. Ele, Juvia, Gajeel babaca...
— Quem é babaca, Dragneel?! — Rosnou Gajeel.
— Erza... — Ignorou-o. — Todos moram na mansão.
— Até a Erza?! Porém... Ela mora em outro lugar aqui mesmo em Magnolia... Por quê?
— É aquele lance de “rola ou não rola” com o Jellal ainda?
— Pode ser... Na verdade nem eu sei ao certo ainda porque ela saiu de lá. — O rosado concentrou-se na curva da fachada da mansão. — No fim acho que deve ter uma mão dela no meio.
— Dela? — Perguntamos Levy e eu.
— Entendo. — Bufou o outro. Ambos nos ignoraram... — Se ela está envolvida, já sabemos que deve estar aprontando.
O rosado soltou um riso debochado.
— Não duvido nada que seja algo que me trará problemas. — Lançou um olhar sugestivo em minha direção. Fechei a cara para ele. Parou o carro finalmente, soltando o cinto e abrindo a porta. — De qualquer forma, só saberemos o que é quando decidir revelá-lo.
— O que pode ser mais cedo ou mais tarde. — Concordou o brutamontes também saindo do carro.
Levy e eu nos encaramos.
— Eles nos ignoraram... — Fez bico.
— É. — Bufei.
Natsu voltou a abrir a porta e disse:
— Afinal... Vocês vêm?
— Claro... — Murmurei pondo-me para fora do automóvel.
— Waah! É gigante! — Exclamou Levy observando a mansão à sua frente.
— É ainda maior por dentro. — Observou o rosado, abrindo a porta e sorrindo em sua direção. — Entre, por favor.
Natsu Dragneel. Sendo. Educado?
— O-obrigada...
Adentrou o local, sendo seguida por ele.
— É melhor se cuidar, loirinha... — Balbuciou Gajeel, seguindo os dois e abafando o riso.
É. Levy e Natsu estão agindo muito próximos. Tenho mesmo que tomar cuidado...
… Com o quê?
Não é como se eu estivesse g-gostando do Natsu ou algo assim...
P-principalmente depois do beijo...
Mordi meu lábio inferior.
É. É totalmente impossível eu estar gostando do Natsu.
Não irei me iludir com aquele beijo.
Ele é o líder da máfia. Se me descuidar ele vai, com toda certeza, me derrubar.
Afinal, nem todos são iguais a ele...
“Lucy.”
Sim... Ninguém mais será igual a ele.
Balancei minha cabeça, desfazendo-me momentaneamente desses pensamentos.
Ainda tinha que pensar em como explicaria a minha atual situação.
Como explicar que... Sou a namorada do maior mafioso do país.
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